2017/06/30

Margarida Pinto Correia: «Precisamos mesmo de interromper os ciclos de exclusão e não de tapar os buracos»



Delas @delaspt, Carla Bernardino. Fotos: Jorge Amaral/Global Imagens.



«40 mil alunos e professores, 18 mil voluntários fora da comunidade escolar, 433 projetos e 193 ideias de inovação social que foram apuradas no âmbito do projeto Escolas Solidárias, levado a cabo pela Fundação EDP.

»Ao Delas.pt, Margarida Pinto Correia, a responsável pela pasta da inovação social da instituição criada pela energética, fala do crescimento do projeto Escolas Solidárias, acredita que a iniciativa – que começou numa pequena estrutura regional portuense há oito anos – vai criar novas gerações mais conscientes da cidadania e lamenta que Lisboa e Alentejo sejam, proporcionalmente, menos participativas.

»A diretora de Inovação Social, de 51 anos, acredita que a ideia individual de “a minha boa ação”, “os meus pobrezinhos” está a cair em desuso e está a dar lugar a uma forma mais organizada de olhar o que está à volta e intervir. Tudo isto – bem como o balanço de todos os projetos em marcha – no dia em que mais de uma centena de escolas e alunos (do 5º ao 12º anos) vão ver reconhecidos o esforço empreendido ao longo do ano letivo e em paralelo às matérias escolares.

»Projetos desenvolvidos e implementados no âmbito de oito dos 17 objetivos de Desenvolvimento Sustentável, da Organização das Nações Unidas: Pobreza e Fome, Desemprego/Sustentabilidade Económica, Educação/Literacia, Saúde, População Sénior, conviver com a diferença, Sustentabilidade Ambiental e Parceria Global para o desenvolvimento humano. A celebração decorre esta sexta-feira, 2 de junho, às 14h00, no Teatro Camões, em Lisboa.


»Houve mais 25% das escolas a participar neste projeto Escolas Solidárias – o terceiro ano em que se desenvolve a nível nacional -, o que promoveu essa procura?

»O reconhecimento parte de mérito da procura das escolas, que já são solidariamente ativas, mas muitas vezes são deslaçadas, não estão integradas, estruturadas em torno da necessidade de medir o impacto. O projeto Escolas Solidárias dá-lhes a noção do que estão a fazer, com objetivos, métricas e calendarização muito estruturados e claros. O que trazemos às escolas é o nosso know how natural, o ADN da Fundação EDP que passa por gerir, capacitar e empoderar projetos sociais. O que temos pretensão de fazer é pegar nas ideias, melhorá-las, ajudá-las a serem implementadas e medi-las, ver que fórmulas funcionam, que ferramentas são mais eficazes, cumprindo o nosso objetivo último que é o de interromper ciclos de exclusão e de pobreza. Já fazemos isto em projetos com idade adulta para a sociedade civil e o que fizemos foi transpor a mesma iniciativa para uma cronométrica de ano letivo. Foram mais 25% de escolas, mais 300 equipas do que em 2016 (871), 60 mil pessoas envolvidas e 1600 parcerias criadas. Quer dizer que está a funcionar uma das sementes que mais prezamos, que é a de criar sinergias e otimizar recursos.


»Porquê começar nos mais novos?

»Já andamos a semear esta ideia na sociedade ativa adulta, mas se o fizermos numa idade escolar, quando aqueles jovens chegarem à fase ativa e independente já vão estar a aplicar estas métricas, criando uma cultura completamente diferente da que existe no que diz respeito à atividade cívica.


»Que é?

»Durante muitos anos, foi uma atividade muito umbilical, muito defensiva em torno do meu território, o meu projeto, os meus pobrezinhos, a minha boa ação, do que eu faço bem. Costumo dizer sempre que caridade é sinónimo de amor e que o assistencialismo não tem nada de errado ou de mau, é insuficiente. Precisamos mesmo de interromper os ciclos de exclusão e não apenas tapar os buracos. Precisamos de evitar a criação desses buracos.


»Qual a taxa de permanência das escolas de um ano para o outro?

»É muito grande, mas não é de 100%.


»Há desistências?

»Há, mas sobretudo de escolas que não completaram o projeto no ano letivo. As que concluem têm voltado sempre. Mas os professores, ao alunos mudam e, às vezes, as dinâmicas das próprias escolas não dão continuação. O que queremos é que isso não aconteça, queremos fomentar os ritmos, em que a escola possa também dar seguimento a essa métrica.


»Como se mede?

»Nos 10 anos da EDP solidária – fundo de apoio de investimento social – fizemos um estudo de sinais vitais do que tínhamos feito, apoiado e do que tínhamos provocado na sociedade. Andámos todos os anos a injetar dois milhões de euros porque fomos queridos ou transformámos alguma coisa? Quando nós saímos dos projetos, estes souberam continuar? O que o estudo nos disse foi que 70% dos sinais vitais estavam lá, o que é extraordinário. Esses projetos existem sem nós e para além de nós, criaram sustentabilidade.


»E como vai ser nas escolas?

»Ao fim de três anos iremos estar de voltar às escolas do ano anterior a tentar colher as pontas. Ou seja, queremos saber se os alunos que se envolveram melhoraram ou não o aproveitamento, se no ano seguinte continuaram a fazer atividade cívica? Se após a saída da escola, sabemos dos alunos e estão a fazer alguma coisa? E a escola mantém-se ativa após a saída do aluno ou do professor? Ao fim de três anos ainda não consigo ter essas respostas, mas queremos ter uma noção do que está a mudar, tal como temos para os outros projetos. Temos uma plataforma de gestão de parceiros na inovação social, com mais de 300 inscritos, e para todos temos uma noção da sua continuidade depois de nós.


»Quem mais toma a iniciativa em participar nas escolas solidárias? Escolas, professores, alunos?

»Os três. Mais depressa os professores ou os alunos e menos as escolas. Mas há casos de ser um diretor que sabe disto e e empurra toda a gente. Em setembro/outubro fazemos roadshows. Este ano letivo (2016/17), foram 15 as cidades e aproveitei todas as as oportunidades para ir a várias escolas. Falo para ginásios, auditórios, salas de aulas cheias de alunos e professores e a minha sementeira é esta.


»As escolas que os seus filhos frequentam estão envolvidas neste projeto?

»Não, para grande pena minha. Por uma razão que me ultrapassa, mas de forma menos responsabilizante, infelizmente. Lisboa é quem menos adere às escolas solidárias.


Mas na inovação social temos o projeto de arte pública que transforma a economia local através da arte, em que levamos artistas consagrados a desafiar novos artistas para transformar as zonas em abandono. Temos as orquestras Energia, inspiradas na orquestra geração da Venezuela, que convocam alunos em abandono escolar, recuperando-os pela pertença a uma família que é uma orquestra.

»Porquê? Lisboa não é solidária?

»Lisboa e o Alentejo.


»Quais as razões de cada uma delas?

»O Alentejo é nitidamente pela desertificação, isolamento e pelo difícil que é tudo. E as escolas e os professores são muitas vezes extraordinários, porque é tão difícil ter os alunos ali, concentrados, atentos e com rendimento que eles acabam por fazer apenas os projetos que precisam de fazer.


»E quais as razões que afastam Lisboa destes projetos?

»É um achómetro, mas com base em muitas respostas recebidas. Lisboa adere menos. Temos muitas escolas em Lisboa, mas proporcionalmente não é uma adesão em massa. Temos uma área metropolitana muito grande, muito difícil, com uma variedade social muito grande e com enorme dificuldade de gestão de horário. A maior parte dos pais e professores estão divorciados, estão sempre a correr. Chegam a casa às sete da noite e ainda têm trabalhos para fazer, têm de estudar e têm de se levantar às seis da manhã. Isto não lhes dá tempo para, animicamente, estarem a fazer qualquer coisa. Nas escolas, os alunos estão a ritmo enlouquecedor, com trânsito e transportes enlouquecedores. A escola publica do meu filho não conseguiu, a privada disse já estar noutros projetos.


»Por isso mesmo lhe pergunto pelo umbiguismo: cada um a sua ação?

»É preciso distinguir escolas de associações. Há duas razões para as escolas de Lisboa não aderirem e que caminham lado a lado. A que falei e o facto de estarmos com este projeto só há dois anos, é muito cedo e, como em tudo nas grandes cidades, a mudança é mais difícil de entranhar, mesmo com o secretário de Estado da Educação [João Costa] a dar o seu apoio, mesmo existindo a partir deste ano uma coisa importante que passa pelo facto de ação cívica ser curricular, que não era. Agora quando passo de ano, a minha atividade cívica estará descrita ao lado das notas


»Há variações na adesão de projetos oriundas de escolas em zonas de maior segregação ou exclusão e de outras com alunos oriundos de famílias com mais recursos financeiros?

»As duas coisas. Não tenho o gráfico de níveis financeiros e sociais vis-a-vis a quantidade de escolas. Sou membro ativo do júri e vejo os projetos todos – e ver não é nada fácil (risos) – e aprecio as provas exaustivas, a documentação, o que pensaram e sentiram os alunos e professores. Cada escola é um mundo. Há colégios privados a fazer projetos extraordinários e há escolas do fim do mundo, ao fundo, à esquerda a fazer também projetos extraordinários. Assim como há agrupamentos inteiros a fazer um projeto para um único aluno – com distrofia muscular, um problema que vai piorar e o agrupamento inteiro está dinamizado para ações de voluntariado de assistência à família, obtenção de fundas para obras na escola e na casa, apoio ao estudo -, há escolas a fazer projetos para fora do país. Uma delas, pequenina, em que o professor, com contacto em Timor, organiza uma biblioteca e vai com os alunos ao país para as instalar.


»Que outros projetos lhe despertaram a atenção?

»Este ano, uma escola que sabia que havia uma enorme necessidade de vacinação em Moçambique e, por isso, angariaram capacidade financeira e apoios para terem vacinação e transportes para os técnicos necessários para cumprirem a ação. Mas também há projetos de transformação do espaço escolar ou de terceira idade. Ou um projeto que tivemos no grande porto passava pela inclusão de invisuais para a arte. Ou seja, os alunos de uma escola técnica estão a fazer réplicas de quadros clássicos em relevo tátil para descrever o que é, por exemplo, a Mona Lisa [Leonardo da Vinci], os Girassóis [Vincent Van Gogh] ou o Guernica [Pablo Picasso]. Os invisuais vão ver estes quadros na ponta dos seus dedos, e foram os alunos que bolaram isso. Pode ser limpeza de rio, combate à violência no namoro.


»Mais quais os temas mais comuns?

»O combate à pobreza é a temática mais participada, mas também há muitos projetos ambientais. Há bancos alimentares intra-escolares, mantas para distribuir pelos sem-abrigo. Roupa e cabazes alimentares existem muito. A obesidade tem muitos projetos sociais a combatê-lo, se calhar podemos diminuir, já o envelhecimento não. Estamos a viver mais, mas não nos preparámos em paralelo para esse aumento de anos de vida com qualidade e acompanhamento. Na população sénior há mais projetos, a igualdade de género está a crescer mais devagarinho.


»Isto pode mudar se a educação para a cidadania passar mesmo a disciplina?

»Pode e deve, se a disciplina avançar. Estes projetos ajudam imenso. No caso do envelhecimento, uma coisa é um lar de terceira idade receber uma visita mensal das crianças. Outra, distinta, é ter um neto adotivo que me ensina a navegar, a criar facebook a encontrar os meus amigos de outrora por via disso. No ano passado, por exemplo, numa escola em Ourém, houve um projeto muito engraçado em que os alunos estavam a empreender um processo de literacia dessas pessoas mais velhas, que nunca souberam escrever. No entanto, por terem de fazer a inserção de passwords e de moradas começaram a saber inscrever-se num teclado. Criaram relações de afeto que eles, jovens, nem esperavam criar.


»Essa escola, por exemplo, voltou a participar este ano?

»Voltou. Com alunos do ano passo e outros, novos, do quinto ao 12º anos. Estes projetos acabam por ser uma transformação nesta criança, que saiu da zona de conforto para fazer algo por quem não conhece. É preciso acabar com a mentira de que ‘há um problema, mas sozinho não faço nada’!. Não pode ser. Se eu estiver sozinho e não fizer nada, não acontece nada. Isso cria um impacto enorme. Esse é um dos temas que eu converso com eles.


»Num universo de 1900 escolas, conta com quatro centenas…

»O meu universo são essas 1900 escolas. No ano letivo passado não cheguei às ilhas, este ano sim. Se o meu projeto é digital, não há razão para não chegar ao Burundi (risos). Há equipas classificadas em todos os distritos e isso é muito bom, é dinamizador das outras escolas. Estou nas 433 e quero chegar às 1900, e tenho o secretário de Estado e a direção-geral a dizerem ‘bora lá’.


»Há apoios financeiros desses quadrantes?

»Não há apoios financeiros nem fundos comunitários, mas há apoio institucional.

»Este é o projeto no qual a Margarida está mais envolvida, mas que outros vão prender a sua atenção a breve trecho?

»Temos vários projetos em simultâneo ao nível da Fundação EDP é o EDP Solidária – um fundo para a educação social, saúde e educação e que investe no pais 2 milhões e 100 mil euros por ano, dependendo diretamente do diretor-geral, Miguel Coutinho. Mas na inovação social temos o projeto de arte pública que transforma a economia local através da arte, em que levamos artistas consagrados a desafiar novos artistas para transformar as zonas em abandono. Temos as orquestras Energia, inspiradas na orquestra geração da Venezuela, que convocam alunos em abandono escolar, recuperando-os pela pertença a uma família que é uma orquestra.


»Em que fase está o projeto de arte pública?

»Tem já 78 pontos intervencionados, nas quatro zonas em que estivemos presentes: Algarve, Campo Maior, Trás-os-Montes e Ribatejo. Queremos mapear Portugal com uma rota de arte pública como rota dos vinhos, do queijo, dos castelos. Dinamizaremos a economia local se pusermos determinada terra no mapa. A EDP tem, obviamente, a maior tela artística ao ar livre do pais, com os postos de transformação e estamos a crescer para Braga e Vila Nova da Barquinha. Esse crescimento é faseado porque tem custos, mas não tem fim a vista. As escolas solidárias não tem fim à vista, mas tem objetivo de manter e conquistar os quase 3/4 que faltam.»





Inovação e recursos

Sem comentários:

Enviar um comentário