2016/12/16

Miguel Frasquilho: «Estratégias de cooperação e coopetição. São umas estratégia que exigem uma alteração comportamental das empresas»


Miguel Frasquilho é Presidente da AICEP Portugal Global. Leiria Económica @leiriaeconomica. Entrevista originalmente publicada na revista 250 Maiores Empresas do Distrito de Leiria, publicada a 17 de Novembro, pelo Jornal de Leiria. REDACÇÃO | Célia Marques.



«Estratégias de cooperação e coopetição criam mais-valias na internacionalização das PME, como mostram casos de sucesso como a Pêra Rocha, Frubaça ou Derovo, destaca o presidente da AICEP Portugal Global.


»A AICEP promove hoje [à data de publicação da revista], em Leiria, uma conferência subordinada ao tema: “Cooperação e Coopetição – Chave para a Competitividade nos Mercados Externos”. Porquê realizar uma conferência sobre este tema?

»A cooperação e coopetição como chave para a competitividade nos mercados externos foi ao longo de 2016 o tema central do Roadshow Portugal Global da AICEP, tendo sido trabalhado em diferentes perspectivas e abordando vários mercados consoante a especificidade de cada região. Existem estudos que indicam que a cooperação e a coopetição criam mais-valias na internacionalização das PME e é consensual que a cooperação e a coopetição têm de ser incentivadas, apresentando modelos de sucesso e metodologias para a sua implementação, baseados na complementaridade e na ajuda mútua, tendo como referência o conceito “rede de empresas”. É uma estratégia que exige uma alteração comportamental por parte das empresas, possível a partir da sensibilização, da capacitação e do conhecimento. Além disso, é de referir que a cooperação e a coopetição aumentam o potencial de exportação, tornando a internacionalização acessível a empresas de menor dimensão e menores recursos.


»Quais as vantagens da cooperação e coopetição, numa economia com as características da nossa, constituída maioritariamente por microempresas e PME?

»Tal como referi, a cooperação e coopetição é ainda mais relevante para as empresas de pequena dimensão, pois permite-lhes ganharem dimensão e capacidade de internacionalização, abrindo segmentos de mercado e mercados que duma forma individual não teriam escala ou recursos para abarcar.


»É uma estratégia de organização obrigatória para vencer nos mercados externos? Temos tido bons resultados com esta estratégia? Pode dar alguns exemplos?

»Um claro exemplo de sucesso desta estratégia é já por todos bem conhecido: o da internacionalização da Pêra Rocha para a Alemanha. A cooperação dos diversos concorrentes no mercado, ou seja, a estratégia de coopetição, permitiu a criação de uma oferta forte e de dimensão suficiente para abastecer o mercado alemão, o que se veio a revelar um enorme sucesso. Mas diria que temos muitos casos de referência, que se concretizaram com muito sucesso, sendo no entanto uma evolução relativamente recente. Poderemos referir casos em todos os sectores de actividade desde o agro-alimentar, TIC, indústria transformadora –DEROVO, Artesanal Pescas, Terra Brava, Doro Boys, Agrocluster do Ribatejo, Cooperfrutas, Frubaça, Home Living Ceramics, Incentea – e também ao nível da investigação de ponta ou partilha de recursos, como os casos do CEIIA, Laboratório Ibérico de Nanotecnologia, CEFAMOL, entre outros.


»Este tipo de organização aporta também alguns riscos. Quais são e como é que as empresas se podem salvaguardar dos mesmos?

»Curiosamente, este é um dos temas que iremos abordar durante o seminário em Leiria, onde alguns especialistas vão sintetizar como podemos minimizar os riscos da colaboração empresarial, que é algo que se tem desenvolvido muito nos últimos anos. De uma forma sucinta, diria que é fundamental fixar critérios para seleccionar e avaliar os parceiros de negócio, identificar objectivos comuns à parceria e cumprir as boas práticas já claramente sistematizadas e identificadas para o tipo de negócio e mercado.


»A coopetição e cooperação já fazem parte do vocabulário das empresas portuguesas? Qual o seu estado de maturidade a este nível?

»Cada vez mais faz parte do vocabulário empresarial, e o número crescente de exemplos permite-nos perceber que esta é já uma abordagem estratégica contemplada pelas empresas e organizações. Casos como o da Pêra Rocha podem e devem ser replicados e multiplicados, até porque são vários os produtos portugueses onde a oferta e capacidade de concorrência apenas atinge dimensão se considerarmos os vários players do mercado actuando em cooperação.


Existem estudos que indicam que a cooperação e a coopetição criam mais-valias na internacionalização das PME e é consensual que a cooperação e a coopetição têm de ser incentivadas, apresentando modelos de sucesso e metodologias para a sua implementação, baseados na complementaridade e na ajuda mútua, tendo como referência o conceito “rede de empresas”. É uma estratégia que exige uma alteração comportamental por parte das empresas, possível a partir da sensibilização, da capacitação e do conhecimento.

»Na região de Leiria, em particular, como caracteriza o estado de maturidade das empresas relativamente à cooperação e coopetição. Pode apontar alguns exemplos?

»A região de Leiria é uma região exemplar no que diz respeito ao tecido empresarial. Empresas com produtos de alto valor acrescentado, com um leque de mercados sofisticados, uma atenção grande aos novos mercados em ascensão e também às novas áreas de mercado. Também neste capítulo Leiria é exemplar e já apresenta alguns casos de sucesso, que convidámos para testemunharem nesta conferência. Para aumentar o número de casos, e porque acreditamos no potencial da região, convidámos como orador principal o especialista do Institute for Collaborative Working, estando certos que o grau de maturidade das empresas da região permitirá uma interacção muito profícua.


»A cooperação e coopetição podem dar-se entre empresas do mesmo sector, ou numa lógica de complementaridade. O que é mais comum?

»No caso da coopetição, que pressupõe que empresas da mesma área se associem num determinado momento, para a seguir competir, são claramente outros os critérios para se desenvolver este tipo de colaboração. No caso da cooperação é mais frequente surgir a complementaridade. No entanto, a base e os critérios para o desenvolvimento de parcerias não se esgotam aí. De referir alguns dos exemplos que identifiquei, em que as empresas de cooperam e são da mesma área de atividade.


»Quais os maiores obstáculos à adopção destas estratégias cooperativas e de coopetição entre empresas e como se podem minimizar ou ultrapassar?

»Os maiores obstáculos são questões associadas à cultura de negócios em Portugal e, uma vez esta questão ultrapassada, a má definição dos objectivos de cooperação. Estas questões podem ser minimizadas ou ultrapassadas sensibilizando, de forma sistemática, as empresas para estas questões e, consequentemente, disseminando informação que possa assegurar o cumprimento das boas práticas para a colaboração empresarial.


»A política económica tem um papel no sentido de procurar que as empresas colaborem mais entre si? Qual e de que forma tem sido exercido?

»O nosso objectivo com o Roadshow Portugal Global e a temática apresentada é precisamente estimular o crescente espírito de internacionalização d¬¬os empresários portugueses e apoiar as empresas nacionais no seu caminho para a consolidação nos mercados externos e, naturalmente, como não podia deixar de ser, reforçar as exportações e os processos de internacionalização das empresas das diferentes regiões por onde passámos – a edição deste ano começou em Setúbal, passou por Santarém, Guimarães, Viana do Castelo, Aveiro e termina agora em Leiria. Fazemos isso partilhando com todos a experiência dos que vivem diariamente as dificuldades de entrada nos mercados que abordámos – França, Holanda, Reino Unido, Espanha, Alemanha –, que sabem como as ultrapassar e a melhor forma de as abordar. Queremos, com isto, estimular mais empresários portugueses a internacionalizarem-se, a correrem riscos e a aspirar a vencer neste mundo global e altamente competitivo. Nesta edição de Leiria, como será a última, faremos uma edição especial onde abordaremos vários mercados: EUA, Irão, Colômbia e novamente o Reino Unido.


»Da realidade internacional, pode apontar um exemplo de um país onde esta estratégia de organização empresarial esteja mais vincada, dando exemplos das vantagens/resultados que daí advêm?

»Da realidade internacional, podemos dar bastantes exemplos, mas não na óptica de país. A coopetição, enquanto estratégia, pressupõe que empresas concorrentes colaborem com o objectivo de aumentar a quota de mercado a partir da partilha de conhecimento das organizações, o que viabiliza a co-inovação e o aumento do mercado. É uma estratégia que está mais relacionada com modelos de negócio e características de determinados sectores, baseando-se mais em organizações. Ao longo da última década setores como o da aviação, automóvel e TIC foram palco de casos de sucesso como é exemplo a Samsung e Sony, a Renault e Daimler’s, Ford e Toyota, Apple e Microsoft, Google e Mozilla.


»Considera que, futuramente, a tendência vai no sentido da necessidade de reforço deste tipo de estratégias de cooperação e coopetição?

»Sim. O mercado global assim o exige, em particular para empresas de pequena ou média dimensão. Hoje a maioria das empresas já nasce em ambiente colaborativo, veja-se o caso das start ups, que nascem em espaços colaborativos de trabalho, muitas vezes em estreita ligação com as universidades e que usam ferramentas colaborativas. De facto, o que percebemos é que a cooperação das empresas, complementares ou concorrentes, particularmente as PME, actuando coletivamente em redes, afigura-se cada vez mais como uma dimensão incontornável da resposta para os desafios da competição global. Isto porque pode claramente potenciar condições para uma mais eficaz e mais rápida entrada nos circuitos do comércio internacional e com uma capacidade de projecção sem paralelo quando comparada com a actuação individual.»





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