2016/09/02

«Uma tipologia de análise da inovação no Sector dos Moldes em Portugal»



Filipa Dionísio Vieira y Fernando Romero. Comportamento organizacional e gestão, 2005, vol. 11, n.º 1



«Modelo de observação do Sector dos Moldes

»Apesar de pertencerem ao mesmo sector da indústria nacional – Sector dos Moldes, as empresas estudadas apresentam características diferentes, o que permite agrupá-las segundo a sua posição na cadeia de valor do sector. Algumas das empresas são tipicamente empresas produtoras de moldes, em que a sua capacidade de projecto e engenharia é muito limitada, bem como a sua capacidade comercial. Uma segunda categoria de empresa tem a componente de engenharia e projecto bastante desenvolvida, conjuntamente com a parte produtiva, sendo capazes de fornecer soluções inovadoras aos seus clientes, conseguindo entrar nos mercados mais exigentes.

»Existem ainda outras que não têm componente produtiva, a qual é subcontratada a outras empresas exclusivamente produtoras, que não possuem nem capacidade comercial, nem uma elevada capacidade de projecto e engenharia.

»O Quadro 1 é uma primeira síntese dos resultados que foram obtidos a partir do estudo realizado e mostra como as características das empresas estudadas, que dependem da sua posição na cadeia de valor do sector em questão, se reflectem em termos das ligações existentes entre as mesmas e os parceiros com que mais frequentemente vão (ou não) mantendo ligações e também permite tirar ilações sobre a preponderância do tipo de inovação que é desenvolvido por estas empresas.



»O texto que se segue explora com mais algum detalhe o modelo sugerido. Sendo assim as empresas comportam-se, em termos inovativos, de maneiras distintas, estando fortemente dependente do parceiro com quem mantêm ligações, de forma informal. As empresas que são produtoras por excelência têm uma elevada preponderância para desenvolverem inovações de processo, que advém da sua forte dependência dos clientes em termos de concepção do produto. Neste tipo de firmas, as competências internas necessárias para a geração de ideias para inovação de produto são escassas. O produto é, em geral, desenvolvido externamente pelo cliente.

»As exigências do cliente obrigam, por seu turno, ao desenvolvimento do processo. Os clientes são os grandes impulsionadores para a aquisição de novos equipamentos que permitem, através de novas e melhoradas técnicas de produção, a satisfação dos requisitos exigidos por estes clientes.

»Visitas a empresas concorrentes estrangeiras, que possuem know-how superior, e períodos de formação de alguns recursos humanos nas mesmas, sob a iniciativa dos clientes, são frequentes e permite que algumas destas empresas essencialmente produtores se vão actualizando, em termos tecnológicos. Para este tipo de empresas o relacionamento com centros de investigação, quer com instituições académicas, quer com instituições do sector público, são ténues ou mesmo inexistentes, principalmente quando se trata de universidades. Estas empresas são típicas empresas subcontratadas, que vão evoluindo tecnologicamente em função das exigências dos seus clientes.

»As empresas que têm a componente de engenharia e projecto bastante desenvolvida, conjuntamente com a parte produtiva, sendo capazes de fornecer soluções inovadoras aos seus clientes, têm um comportamento bem distinto, isto é, a sua dependência dos clientes é muito reduzida, pois o seu know-how é suficientemente elevado para fornecer as soluções que os clientes procuram.

»Estas empresas já mantêm relações relativamente consistentes com instituições de educação e investigação. Recorrem normalmente às universidades, laboratórios de investigação e centros tecnológicos, funcionando estes como parceiros privilegiados na resolução dos seus problemas. Como consequência deste comportamento são empresas em que a realização de inovações de produto se torna mais importante, sem detrimento das inovações de processo, pois o know-how entretanto adquirido permite-lhes inovar já em termos de produto, adoptando uma estratégia de diversificação mais acentuada.

»O terceiro grupo de empresas, que funcionam como brokers, tem um comportamento misto relativamente aos dois anteriores. São empresas que não possuem capacidade produtiva própria, subcontratando toda a sua produção a empresas exclusivamente produtoras (a primeira categoria). Possuem uma capacidade variável de projecto e engenharia (depende da empresa) e muito conhecimento sobre o mercado, com uma performance comercial elevada. Face a isto, as suas características encontram-se entre as duas situações extremas, mas com comportamentos mais idênticos às empresas que compõem o primeiro grupo, no sentido de que a maioria não desenvolve internamente o produto, servindo apenas de intermediários entre a empresa de concepção e a empresa de produção.

»Existe, no entanto, uma considerável variabilidade dentro desta categoria, podendo haver empresas que detêm fortes competências internas em termos de projecto e engenharia, o que as aproxima mais do segundo grupo. Este tipo de empresas é fulcral para a sobrevivência de muitas empresas do Sector dos Moldes. Asseguram duas funções que se revelam essenciais para muitas empresas. A primeira é uma função comercial, de ligação ao mercado externo, que é inexistente em muitas empresas do sector (tipicamente do primeiro grupo). Através desta função, asseguram o escoamento e a exportação de uma parte substancial da produção de muitas empresas. Uma segunda função prende-se com a gestão de carteiras de encomendas e a potenciação de economias de escala, através da coordenação da actividade produtiva de um conjunto de empresas. Esta vertente advém da incapacidade de resposta a grandes encomendas da maior parte das empresas, e da necessidade de distribuir a produção da encomenda por várias empresas, de maneira a cumprir o prazo de entrega.

»Apesar das empresas terem comportamentos heterogéneos, que são determinados pela sua especialização, todas elas se relacionam com empresas concorrentes e estabelecem com elas fortes ligações informais, desde visitas às instalações até ao relacionamento informal entre quadros, o que é uma característica particular deste sector. Mas é importante salientar que esta troca de conhecimento não é feita entre todas as empresas concorrentes, mas apenas com aquelas que assegurem reciprocidade, e em que se estabelece uma transacção de informação e conhecimento que beneficiará ambas as partes envolvidas.

»De uma maneira geral pode-se afirmar que a maioria das empresas recorre mais às fontes de informação externas do que às internas para obtenção de informação no seu processo de aprendizagem, com excepção daquelas que são fortemente inovadoras, que são mais selectivas e exigentes nas suas necessidades externas de conhecimento, como foi visto anteriormente. Relativamente às fontes externas, estas configuram-se principalmente nos clientes, concorrentes e fornecedores de equipamentos, e com menor importância surgem os fornecedores de materiais e de componentes e consultores.

»Também recorrem à informação disponível de forma generalizada, principalmente com idas a feiras, exposições, mostras de produtos, conferências e encontros.



»Conclusões

»Pode-se assim concluir, que a grande vantagem competitiva deste sector da indústria nacional se deve à sua forte capacidade de se relacionar com outros parceiros, independentemente da sua posição na cadeia de valor. Mas estas ligações não ocorrem com a mesma frequência, nem com todos os parceiros, isto é, nem todas as empresas se relacionam com instituições académicas (universidades e institutos superiores) e/ou instituições do sector público (laboratórios, centros tecnológicos e de formação), bem como com outras empresas, nomeadamente clientes. As ligações com outras empresas, quer sejam clientes, fornecedores ou até mesmo concorrentes são extremamente fortes.

»Contudo, as ligações entre estas empresas e instituições académicas e/ou instituições do sector público, normalmente são fracas e por vezes inexistentes. As empresas que têm mais ligações com este tipo de instituições são as mais inovadoras e as que apresentam maior autonomia relativamente aos seus clientes.

»O modelo apresentado é importante para uma análise global do sector, bem como um elemento de apoio em termos de políticas e tomadas de decisão.»





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