2016/09/14

«Principais conclusões sobre os determinantes da determinantes da inovação nas empresas de serviços em Portugal: uma Análise Microeconómica»



Lilian Cristina Bezerra dos Santos. Determinantes da Inovação em Portugal: Uma Análise Microeconómica com Particular Enfoque no Setor dos Serviços. Universidade do Porto. Dissertação. Vejam-se as referências na publicação original do texto, páginas 70 a 77.




«Discussão dos resultados e principais conclusões

»O escopo da presente dissertação é o de analisar os determinantes da inovação em Portugal, em especial os determinantes da inovação nas empresas de serviços (em comparação com outros sectores de atividades, designadamente a indústria transformadora e também as utilities e construção), com o intuito de contribuir para o avanço dos estudos nesta área de investigação, em consonância com a chamada abordagem ‘Síntese’. Com vista a atingir este objetivo, foram estimados uma míriade de modelos econométricos cujos resultados validaram grande parte das nossas hipóteses de trabalho.

»Assim, relativamente ao impacto do capital humano sobre a propensão a inovar das empresas portuguesas, foi possível confirmar que este configura-se como um importante determinante da inovação apesar de a variável apresentar um comportamento não linear, variando conforme o nível de educação e o setor de atividade. Esta observação foi possível pois optamos pelo desmembramento da análise ao nível da educação formal dos colaboradores das empresas entre licenciatura, mestrado e doutoramento. Dada esta característica distintiva da nossa análise, não é possível uma comparação direta com os resultados encontrados na literatura (explicitados na Secção 1.6), uma vez que nestes o capital humano aparece agregado. Não obstante, verificamos que, de modo geral, a evidência por nós recolhida não vai de encontro com o que os trabalhos existentes têm veiculado.

»De facto, nos resultados de Pires et al. (2008), que trabalham igualmente com os dados (embora mais antigos) do CIS para Portugal, o nível de escolaridade surge positiva e significativamente relacionado com a inovação no processo. O mesmo ocorre com os dados apresentados por Schimidt e Rammer (2006), onde a inovação no processo e no produto apresentavam uma relação positiva e significativa com o nível de escolaridade dos colaboradores, mas nenhuma relação foi estabelecida relativamente às inovações organizacional e no marketing. No presente estudo, o capital humano aparece como positivamente associado à inovação mas apenas até ao nível do 2º ciclo (mestrado) – empresas com maior peso de doutorados são, para a nossa amostra, em geral, menos inovadoras. Adicionalmente, e em contraste com Schimidt e Rammer (2006), o impacto do capital humano (ao nível da licenciatura) na inovação organizacional e de marketing emerge claramente positivo.

»No caso dos serviços, em específico dos KIBS, os nossos resultados parecem, mais uma vez, divergirem dos estudos existentes, nomeadamente o de He e Wong (2009), para os quais o nível de educação formal dos recursos humanos aparece positivamente relacionado com a propensão a inovar destas empresas.

»No nosso caso verificamos que, para Portugal, a licenciatura é o nível de escolaridade que mais contribui para o desempenho inovador das empresas e para a maioria dos 12 tipos de inovação estudados. Ao nível dos setores, apenas as empresas da indústria transformadora que apresentam uma proporção de colaboradores com escolaridade mais elevada do que a licenciatura (nomeadamente, ao nível do mestrado) têm uma propensão maior de serem inovadoras do que as suas congéneres, indiciando para este setor a necessidade de especialização dos recursos humanos. No caso dos serviços em geral, e dos KIBS em específico, a propensão a inovar destas empresas é significativamente reduzida quando a empresa detém uma elevada proporção de pessoas ao serviço com nível de habilitações literárias de doutoramento, o que parece surpreender quando estamos a referir a serviços intensivos em conhecimento. Parece igualmente ir contra o ‘senso comum’ de que, em geral, uma empresa tenderia a ser tanto mais inovadora, quanto maior fosse o nível de escolaridade médio dos seus colaboradores, ou seja, quanto maior fosse o seu capital humano.

»Passando à análise dos resultados referentes ao impacto das atividades geradoras de conhecimento, as três variáveis estão em geral positiva e significativamente associadas ao desempenho inovador, quer na globalidade, quer por setores, ou ainda transversalmente pelos 12 tipos de inovação, qualquer que seja a taxonomia utilizada ou a região de localização das empresas. Assim, a este nível, e contrariamente aos resultados apresentados por Pires et al. (2008), não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas entre os serviços e a indústria transformadora, bem como entre os tipos de inovação no produto e no processo. Em termos globais, somente os resultados apresentados pela aquisição de máquinas, equipamentos e software estão em linha com os resultados da literatura, sendo positivo e significativo para a inovação no produto e no processo (Pires et al., 2008), para a inovação organizacional (Schimidt e Rammer, 2006) e para a inovação no marketing (Moreira et al., 2012), confirmando o importante papel representado pela tecnologia no processo de inovação.

»Assim, os nossos resultados sublinham o papel fulcral desempenhado pelas atividades geradoras de conhecimento para o processo inovador das empresas portuguesas. É importante destacar aqui o impacto positivo e significativo do I&D intramuros contínuo nas empresas de serviços, em especial nas empresas pertencentes aos KIBS (onde o impacto é ainda maior). Contrariamente ao defendido pela literatura de que o processo de inovação nestas empresas são não sistematizados, um processo ad hoc (Sundbo, 2000) e que ocorre como parte do trabalho diário (Crevani et al., 2011), os resultados demonstram que as empresas que neste setor investem efetiva e continuamente em atividades de Investigação e Desenvolvimento são mais inovadoras. Tal resultado é perfeitamente compatível com o facto destas atividades não estarem muitas vezes formalmente organizadas, isto é afetas a departamentos específicos, designadamente de I&D (Sundbo, 2000; OECD,2005b; Crevani et al.,2011).

»Desta forma, os resultados estão em linha com os apurados por Camacho e Rodriquez (2005) para as empresas de serviços espanholas. Em concreto, os autores constataram que os setores mais inovadores nos serviços caracterizam-se por apresentar no seu processo de inovação o investimento em atividades internas de Investigação e Desenvolvimento, dando como exemplo o setor do software (que é um serviço intensivo em conhecimento, ou seja, um KIBS).

»Analisando o caso específico da inovação do tipo ‘Serviço’, a significância estatística dos coeficientes estimados associados ao impacto da aquisição de máquinas, equipamentos e software no desempenho inovador das empresas, é expressiva e relevante pois confirma que, apesar de a inovação nos serviços ser possível sem inovação tecnológica, esta não deixa de ter um papel importante neste processo (den Hertog, 2000).

»No que toca às fontes de informação para a inovação, mais especificamente a importância das universidades neste domínio, verificamos que apenas 22.9% do total das empresas inquiridas indicaram utilizar as universidades e outras entidades do Sistema Científico e Tecnológico (SC&T) como fonte de informação e apenas 3.2% indicaram-na como fonte de informação de ‘elevada’ importância para as atividades de inovação da empresa. Desta forma, os nossos resultados indiciam uma fraca relação Universidades-Empresas, já documentada anteriormente para o caso português (Teixeira e Costa, 2006). Tais resultados estão ainda em linha com os apurados em países de desenvolvimento mais avançado, nomeadamente, Reino Unido (Laursen e Salter, 2004) e Noruega (Robinson e Stubberud, 2011), donde se poder conjeturar não refletirem uma “deficiência” específica da estrutura económica portuguesa.

»O impacto das universidades na propensão a inovar das empresas portuguesas é neglegenciável. Apenas os setores dos serviços em geral (e dos KIBS, mas de forma menos linear) apresentam uma relação estatisticamente relevante e positiva – em concreto, podemos concluir que as empresas deste setor que fazem uso das universidades e outras entidades do SC&T como fonte de informação para as suas atividades de inovação e consideram aquelas uma fonte com ‘elevada’ importância no seu processo inovador, tendem, em média e tudo o resto constante, a serem mais inovadoras que as suas congéneres. Da mesma forma, mas relativamente aos diferentes tipos de inovação, apenas na inovação na ‘Organização das relações externas’, é que emerge uma relação positiva e significativa entre as universidades enquanto fonte de informação e o desempenho inovador das empresas, confirmando a estreita relação entre este tipo de inovação e a questão das fontes de informações.

»A cooperação para a inovação com entidades estrangeiras emerge como positiva e fortemente relacionada com o desempenho inovador das empresas. Tais resultados corroboram os apresentados por Arvanitis e Bolli (2012) para o caso português. Também na análise setorial verificamos resultados semelhantes aos de Arvanitis e Bolli (2012) pois o impacto da cooperação internacional é igualmente significativa nos serviços e na indústria transformadora. Adicionalmente, a cooperação com entidadedes estrangeiras é também significativamente positiva na generalidade dos tipos de inovação estudados (com exceção da inovação ‘Atividades de apoio’). Assim, tendo em conta estes resultados, podemos afirmar que desenvolver atividades em cooperação com parceiros estrangeiros é fortemente determinante para o desempenho inovador das empresas localizadas em Portugal.

»Finalmente, em termos da inovação global, a dimensão das empresas surge como uma variável crítica nos serviços (mas não para os KIBS em específico), confirmando alguns resultados da literatura de que quanto maior a empresa, maior o seu desempenho inovador. As empresas da indústria transformadora que pertencem a grupos de empresas tendem em média a observar um desempenho inovador mais fraco do que a suas congéneres singulares. Adicionalmente, a multinacionalidade aumenta a propensão das empresas portuguesas a inovar, sobretudo a dos serviços intensivos em conhecimento.

»As empresas potencialmente mais inovadoras são, em geral, do setor (na taxonomia de Pavitt) ‘Intensivo informação’ ou, especificamente nos KIBS, setores de qualificações médias (taxonomia de Peneder). É interessante notar que no caso da inovação do tipo ‘Serviço’ as empresas potencialmente mais inovadoras são, em geral, do setor ‘Intensivo informação’, de setores de qualificações muito elevadas ou, pertencentes ao grupo dos ‘KIBS Fornecedor especializado’.

»Não obstante na amostra analisada não parecer emergir quaisquer padrões regionais de inovação, nas inovações de produto (bens) e processo (métodos de fabrico/produção), as empresas localizadas nas regiões Norte e Centro revelam um desempenho inovador mais forte do que as empresas localizadas na região de Lisboa. É nesta última região que surgem as as empresas mais inovadoras ao nível da política de preços, o que poderá refletir a maior concentração nesta região das sedes das empresas (onde geralmente se decidem políticas como esta).

»Em geral, os resultados nos permitem retirar importantes ilações – ver Quadro 5 para uma síntese:



»Existência de um possível descompasso entre o sistema de ensino superior nacional e o parque empresarial português, visíveis ao nível dos resultados referentes ao impacto do capital humano e das fontes de informação para inovação. Seria importante averiguar em futuras investigações as suas possíveis razões. No entanto, podemos conjecturar, a título de exemplo, uma possível inadequação da oferta de cursos por parte das universidades portuguesas (principalmente nos níveis mais elevados - doutoramento) e a procura/necessidade das empresas, uma vez que a contratação de recursos humanos mais qualificados não se reflete num melhor desempenho inovador das empresas, nem mesmo nas intensivas em conhecimento (salvo exceção da indústria transformadora para o mestrado). Este descompasso da oferta/procura pode ser também reflexo da fraca relação que se verifica entre as universidades e as outras entidades do SC&T e as empresas.

»Desta forma, acreditamos que tais resultados poderão estar a manifestar uma debilidade nas relações entre os atores organizacionais do Sistema Nacional de Inovação Português, mais especificamente entre as empresas e o sistema de ensino e de investigação, corroborando a argumentação de Fontes e Coombs (2001), para os quais Portugal caracteriza-se por ser um país de ‘desenvolvimento intermedio’ por apresentar problemas/deficiências ao nível da comunicação entre os elementos público e privado no seu sistema nacional de inovação.

»Assim, parece-nos necessário um esforço no sentido do estreitamento das relações entre empresas e universidades de forma a, por um lado, aumentar a participação das universidades no dia-a-dia, nos aspectos mais práticos da inovação, vivenciados pelas empresas e muitas vezes pouco explorados pelos investigadores; e, por outro, propiciar às empresas os apoios mais técnicos que permitam motivar e otimizar os investimentos em inovação. Ou seja, é preciso investir na melhoria e na intensidade deste relacionamento capaz de criar um jogo de soma positiva, através da colaboração e do aproveitamento de sinergias, no qual o maior ganhador será o desenvolvimento económico nacional.

»Em sentido contrário, ainda que as empresas portuguesas mais inovadoras estejam pouco “receptivas” às universidades, apresentam-se “abertas” à cooperação internacional fazendo deste tipo de inovação um determinante muito importante do processo inovador. A razão desta importância poderá estar relacionada com as características da economia portuguesa, pequena e aberta ao exterior, inserida num mercado comum, o que motivaria e facilitaria as empresas a procurar parcerias além fronteiras.

»Outro aspecto a considerar prende-se com a relação que é possível estabelecer entre os resultados obtidos para o capital humano e para as atividades de aquisição de conhecimento. Assim, ainda que tenhamos obtido resultados não lineares para as variáveis do capital humano, havendo inclusive impactos significativamente negativos na propensão a inovar das empresas de alguns setores, não significa que estas não estejam preocupadas como o nível de conhecimento detido internamente, o que vem a comprovar os resultados das atividades de aquisição de conhecimento que se revelou um determinante transversal, sendo expressivos os resultados da variável da formação para inovação que é sempre positiva e fortemente significativa em qualquer dos modelos estimados, quaisquer sejam os setores, taxonomias ou região considerados.

»No caso mais específico da investigação sobre a inovação nos serviços, tais resultados demonstram que é possível e produtivo uma análise aos seus determinantes conjuntamente com outros setores da atividade economómica e que, relativamente à indústria transformadora (que é usualmente o setor de referência) estes não diferem grandemente. À parte da já referida não linearidade do capital humano e da importância das universidades e de outras entidades do SC&T como importante fonte de informação para a inovação ser significativa e positiva apenas para as empresas mais inovadoras dos serviços, estas e a indústria transformadora apresentam fortes semelhanças nos determinantes ao nível das atividades de aquisição de conhecimento (mesmo em atividades como I&D intramuros contínuo e aquisição de máquinas, equipamentos e software) e de cooperação para a inovação com entidades estrangeiras, qualquer que seja a taxonomia aplicada ou a região de localização das empresas.

»Por fim, vale lembrar que estes resultados espelham uma espécie de “retrato” no tempo uma vez que refletem os dados recolhidos às empresas portuguesas no período de 2006- 2008, pelo que seria de grande contributo o desenvolvimento de futuras investigações com o objetivo de comparar estes resultados com os de inquéritos mais recentes (que atualmente seria o CIS-2010) e então verificar se se pode concluir pela emergência de um padrão ‘português’ de inovação diferido no tempo.»





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