2016/09/23

«Empreendedorismo social e inovação: que relação? Raízes e ruturas dos discursos sobre a inovação»



Cristina Parente, Vanessa Marcos e Vera Diogo. Empreendedorismo Social em Portugal: as políticas, as organizações e as práticas de educação/formação, coord. e ed. Cristina Parente Edição, Universidade do Porto: Faculdade de Letras, 2014. Vejam-se as referências na publicação original do texto.





«Empreendedorismo social e inovação: que relação?

»A problemática do empreendedorismo social assume múltiplos sentidos, como esta obra nos tem revelado. Um deles, talvez o mais forte na atualidade, é aquele que é veiculado por uma das escolas de pensamento anglófonas, que associa a figura do empreendedor social ao promotor da inovação social. Seguindo as lógicas schumpeterianas acerca do empreendedor, os empreendedores sociais diferenciam-se por ter a capacidade de oferecer novos serviços e de melhor qualidade, ancorados numa missão social, resultado de uma combinação inovadora de novos formatos e dinâmicas organizacionais ou ainda do foco em novos mercados (Dart, 2004; Dees & Anderson, 2006; Defourny & Nyssens, 2010a). Associada a esta perspetiva, está a classificação dos empreendedores sociais enquanto inovadores sociais e agentes de mudança (Bornstein, 2007) que, a partir do recurso a processos novos e sustentáveis, engendram alterações profundas nos sistemas onde intervêm (Nicholls & Cho, 2006).

»De acordo com estas definições, aferimos que o empreendedorismo social carateriza-se, entre outras dimensões, por um processo de inovação social. O processo de inovação social, que é transversal a qualquer setor de atividade, constitui uma ferramenta de intervenção orientada para atingir resultados com impacto social e que promovam uma transformação sistémica, nomeadamente pela ressonância e replicação dos métodos e resultados (Alvord, Brown & Letts, 2003; Martin & Obsberg, 2007). Tendo como fim último a criação de valor social, este processo confere uma ampla liberdade ao tipo de recursos e métodos usados e aos formatos gestionários adotados, para garantir a sustentabilidade económica, como via de tornar exequível o potencial impacto social (Anderson & Dees, 2006; Peredo & MacLean, 2006; Dees, 2001; Defourny & Nyssens, 2010a).

»Estas definições de caráter generalista têm uma função de enquadramento e problematização teórica que exigem a sua interpretação como teorias de médio alcance quando as pretendemos operacionalizar, empiricamente, na análise do empreendedorismo social aplicado em contexto organizacional. Deste modo, não se trata de proceder a uma comparação de questões específicas, mas de contemplar a realidade na sua globalidade. É esse o nosso objetivo nesta parte da obra. Deste modo, propomos uma análise do empreendedorismo social nas OTS, como um processo caraterizado por modelos de intervenção e modelos de gestão. Ou seja, no nosso modelo analítico, estes representam os processos de inovação social e de inovação organizacional, respetivamente.

»A primeira vertente analítica visa compreender como as OTS intervêm face aos seus destinatários e os resultados atingidos, aferindo-se em que medida o trabalho desenvolvido pelas organizações em análise responde a necessidades sociais por estas identificadas, promove a territorialização da ação, a emancipação das populações com quem trabalham, e o seu envolvimento enquanto atores de um processo de intervenção que, no seu todo, se pretende empoderador. Definimos a inovação social enquanto processo e enquanto produto/resultado, inspirados na proposta de Nilsson (2003).

»A inovação social como processo remete para um modelo de intervenção que adere ao princípio do trabalhar com as pessoas1 e que implica uma preparação prévia e cuidada de todo o conjunto de atividades que implicarão a mobilização da capacidade de agência dos indivíduos, traduzida em termos da sua participação nas diferentes etapas da ação, ou seja, no diagnóstico, implementação, monitorização e avaliação (Westley, 2008; Moore & Westley, 2009).

»A proposta de Diogo (2010), sobre o princípio de trabalhar com, remete para um trabalho social inclusivo centrado na capacidade de agência dos sujeitos que, de acordo com a aplicação à realidade nacional das OTS de base, integra, frequentemente a montante, um princípio de trabalhar para no sentido mais assistencialista da intervenção. A inovação social como produto (Nilsson, 2003; Young, 2006) remete para o valor social criado.

»O conceito de valor social, de acordo com Young (2006), refere-se ao resultado de um conjunto de respostas e efeitos de atividades, produtos ou serviços que beneficiam e são valorizados por pessoas cujas necessidades não estão a ser supridas por outros atores, nomeadamente pelo Estado e pelo Mercado. O resultado tem valor social na medida em que “é benéfico porque é valorizado” (Young, 2006) por quem nele participa e contribuauti para o desenvolvimento sustentável do território. O valor social criado pode, ainda, ser avaliado consoante o grau e tipo de resultado obtido e, portanto, em termos do impacto (sistémico) da inovação social.

»A segunda remete para o modo como as OTS são geridas nas vertentes quer estratégicas quer operacionais, no que diz respeito à gestão económicofinanceira e dos recursos humanos (assalariados e voluntários), à organização do trabalho, bem como em termos de governança e prestação de contas, dimensões analíticas às quais dedicamos a parte II desta obra. Seguindo este raciocínio, os perfis de empreendedorismo social foram definidos a partir de um conjunto de pressupostos teóricos operacionalizáveis, que indicam traços de maior ou menor orientação das OTS para a adoção de modelos de intervenção e de gestão socialmente empreendedores2.

»Deste modo, a análise da tipologia de inovação (social e organizacional) assumida no estudo implicou acionar uma estratégia metodológica correspondentemente distinta. A inovação organizacional foi captada por via de um inquérito por questionário, através de indicadores mais ou menos tangíveis e objetiváveis e que, apesar das suas limitações na apropriação do real, permite uma aproximação aos perfis de empreendedorismo social, do ponto de vista gestionário. As limitações aqui sentidas foram colmatadas, igualmente, em sede de estudos de caso que, pela sua abordagem necessariamente mais próxima das OTS, nos permitiram completar, numa perspetiva compreensiva, a informação de caráter objetivo.

»Com efeito, nesta fase foram observadas práticas, cujos indicadores selecionados para o inquérito por questionário não obtiveram robustez suficiente para serem tratados de acordo com técnicas quantitativas. É o caso da dimensão analítica relativa à governança e prestação de contas, que não foi integrada na definição dos perfis de empreendedorismo social de cariz gestionário, porém foi trabalhada e considerada a partir da informação recolhida nos estudos de caso.

»Foi também possível observar, a partir das nossas visitas às OTS, dimensões de inovação organizacional que excluímos do inquérito por questionário pela sua impossibilidade observacional num instrumento de medida quantitativo. Referimo-nos às dimensões simbólicas e subjetivas da cultura organizacional, dos modelos comunicacionais, das relações interpessoais, dos mecanismos de coordenação e das práticas de liderança. Aqui optamos por uma grelha analítica aberta, deixando que as informações emergissem do terreno, sem filtros teórico-analíticos.

»A inovação social foi captada apenas pela abordagem intensiva, assente num paradigma interpretativo e aberto em termos de código de leitura do real. Atendendo à subjetividade inerente aos modelos de intervenção, procedemos à aplicação do método de estudos de caso, que permitiu a realização de conversas espontâneas orientadas e entrevistas abertas, em contexto de abertura à empiria.

»A este propósito, as histórias construídas foram validadas pelas sete OTS estudadas em profundidade e permitiram-nos, deste modo, legitimar a análise interpretativa efetuada sobre os seus modelos gestionários e de intervenção e, por correspondência, a sua maior ou menor proximidade à inovação organizacional e social, conforme definido teoricamente no modelo interpretativo de empreendedorismo social proposto.



»Raízes e ruturas dos discursos sobre a inovação

»A expressão “inovação social” é, desde logo na sua origem, composta por um substantivo (i.e. “inovação”) e por um adjetivo que o qualifica (i.e. “social”). Esta fórmula não é estranha à história do conceito de inovação que tem sido acompanhada no mundo ocidental por qualificativos particulares: inovação política, inovação tecnológica, inovação organizacional e, mais recentemente, inovação social. Interessa pois, antes de expormos a proposta de abordagem que adotámos neste estudo, refletir sobre a dimensão socio-histórica da construção do conceito de “inovação” e das suas diversas variantes, de modo a rompermos com pressupostos ideológicos inerentes à sua utilização, muitas vezes abusiva na atualidade.

»Uma análise etimológica da palavra remete para o latim innovare (in de “em” e novus de “novo” ou “recente”), que significa “tornar novo”. Refere-se, essencialmente, a uma capacidade de recriação inerente aos sistemas evolutivos, quer sejam ecossistemas biológicos ou sistemas sociais. No entanto, uma incursão pela história do conceito permite-nos, de alguma forma, desconstruir o caráter ideológico de uma palavra que, nas suas diferentes dimensões, parece assumir e reassumir, a cada momento, o poder transformador das evoluções paradigmáticas. É uma palavra que, ao ser reificada nos discursos, parece adquirir uma força autónoma pela sua simples enunciação.

»A inovação tornou-se um conceito incontornável de desenvolvimento do sistema económico capitalista. Schumpeter (1934) destaca o seu papel central no processo de destruição criativa, através do qual novos métodos e produtos são criados e introduzidos e outros se tornam ultrapassados, sob a égide da figura do empreendedor industrial.

»Porém, até aos finais de 1970, imperava, quer em termos de discurso científico, quer do senso comum, o uso do conceito de mudança. O conceito de inovação sucede-lhe e, muitas vezes, substitui-o, por parecer mais adequado para dar conta das alterações que marcaram a passagem para o atual paradigma técnico-económico, balizado pela expansão das aplicações e a massificação das tecnologias da informação e da comunicação, com as suas consequências em termos da escala da globalização e da intensificação da flexibilidade. Associa-se a uma nova configuração económica, em que os países industriais avançados se projetam num cenário potencial da economia baseada no conhecimento, cujo suporte principal radica no “progresso científico e tecnológico interligado à mais avançada criatividade empresarial” (Guimarães, 1998, p. 91).

»O termo inovação popularizou-se nos anos 80 do século XX, nos países ocidentais. Começou a ser utilizado no domínio das políticas económicas de desenvolvimento, particularmente no âmbito das políticas industriais e tecnológicas (idem), com objetivos instrumentais. Isto é, genericamente, enquanto solução operacional para um dado problema, caráter aplicado que mantém na atualidade.

»Apesar das transformações associadas ao conceito de inovação, hoje utiliza-se a expressão “inovação (...) para designar aquilo que há uma década atrás se chamava de «mudança», tendo sempre, mais ou menos subjacente, o sentido de um benefício social e societal de carácter quase sempre urgente” (Oliveira, 2003, p. 2 apud Parente, 2005). Ou seja, ainda que com conteúdos substantivos e processuais diferentes, os conceitos de mudança e de inovação dão conta dos fatores que, em conjunturas históricas distintas, garantem a capacidade das economias e das sociedades fazerem face aos constrangimentos ambientais externos e internos. A problemática da mudança social e os seus efeitos foram sempre os motores de reflexão das ciências sociais, mantendo-se esta particularidade na atualidade.

»Do mesmo modo, têm sido desenvolvidos, ao longo da história, conceitos que cobrem parte do mesmo fenómeno que hoje se entende por inovação social: invenção social (Weber, 1968 [1922]; Ogburn 1992; Coleman 1970), difusão social através de imitação de novas práticas (Tarde 1999 [1893]) ou mudanças nas práticas sociais. Weber defende que a mudança só faz sentido num contexto de inovação ou renovação (1968 [1922], p. 26) da ordem social, mudança esta que é impulsionada pelos atores sociais mediante a introdução de novas práticas, novos modos de organização ou produtos inovadores (Jessop, Moulaert, Hulgård, & Hamdouch, 2013). Também Durkheim (1989), ao admitir a importância da regulação social nos processos de adaptação da divisão do trabalho que acompanhavam as mudanças tecnológicas, denota preocupação com a dimensão social da inovação.

»Portanto, se a questão dos impactos sociais da inovação não é de todo recente, adquiriu maior relevo na última metade do século XX. Com efeito, a fundação, em 1980, da organização norte-americana Ashoka, por Bill Drayton, marcou a introdução do conceito de inovação no contexto da intervenção social, tendo sido adotada a estratégia de distinguir e apoiar os innovators for the public, isto é, os empreendedores que revolucionavam os “padrões de produção” da área social, no sentido schumpeteriano, pugnando pela mudança social sistémica, isto é, de grande alcance.

»Em resumo, era tido como evidência que os “inovadores públicos” tinham comportamentos semelhantes aos dos empreendedores comerciais, mas em produtos e serviços das áreas da educação ou da saúde. Outras estruturas norte-americanas, como a Echoing Green (1987) e a Skoll Foundation (1999), e europeias, como a Schwab Foundation (1998), mantiveram esta tradição de reconhecer os indivíduos excecionais, responsáveis por novas e melhores formas de responder a problemas ou necessidades sociais, para além de financiarem as suas atividades e desenvolverem as redes de suporte.

»Na Europa dos finais dos anos 80-90 do século XX, a inovação social surge como o conjunto de estratégias de resposta aos impactos da reestruturação económica, marcada pela introdução de inovações tecnológicas que dão origem ao desemprego massivo (Comissão Europeia, 2011).

»Volvida a primeira década dos anos 2000, no contexto ocidental de modernidade tardia marcado por alterações paradigmáticas, pela multiplicidade e diversidade de desafios globais e locais económicos, sociais e ambientais, o conceito de inovação social é reavivado (Comissão Europeia, 2011) e ganha uma nova centralidade nos discursos mediáticos, científicos e políticos. Parafraseando Vasconcelos (apud Meneses, 2009), se os anos 80 e 90 se focaram nas dimensões tecnológica e económica da inovação, o século XXI é cenário da inovação social.

»Com efeito, a profusão de discursos apologéticos da inovação como vantagem competitiva e/ou como motor do desenvolvimento societal intrinsecamente positivo, aliada à carga denotativa e conotativa acumulada ao longo do seu percurso sóciohistórico, resulta num processo de mainstreaming do conceito, que pode representar, quer uma inflação concetual difícil de gerir (desde logo em termos comunicacionais), quer uma utilização abusiva e pouco rigorosa dos seus postulados. É nesse sentido que a Comissão Europeia (2011) alerta para uma tendência errónea de mera rotulagem de toda e qualquer ação com impacto social, enquanto inovação social.

»De modo a desconstruir algumas visões que impedem a expressão do potencial heurístico que inequivocamente o conceito tem e que dele não abdicamos, pretendemos esclarecer, a partir de três critérios, o conceito de inovação social, postulando que a inovação i) surge contextualizada num espaço e num tempo; ii) tem campos de aplicação ou domínios de intervenção diferentes (técnico, político, organizacional e social, propriamente dito), os quais não são mutuamente exclusivos; e toda ela iii) tem efeitos (resultados e impactos) sociais.

»O primeiro requisito remete para o facto de, em todas os lugares e épocas, existirem inovações que mantêm o seu caráter de originalidade até ao momento da sua difusão alargada, altura em que são apropriadas socialmente por vários setores de atividade e territórios e por diferentes domínios de intervenção. Na terminologia clássica da inovação tecnológica, teríamos dois grandes tipos de inovação na proposta de Freeman e Perez (1988): uma de cariz incremental e outra com cariz radical3.

»Mais recentemente, Christensen (1997) introduz o conceito de inovação disruptiva que tem sido muito adotada pela literatura da inovação social (e.g. Mulgan, 2010). Christensen e Bower (1995) distinguem entre duas vertentes da inovação, uma de cariz sustentável e outra assente numa dinâmica disruptiva. Cruzando as perspetivas da dupla de autores, Christensen e Bower (1995) por um lado, e Freeman e Perez (1988) por outro, parece que a maioria das inovações em produtos e serviços são sustentáveis, no sentido de incrementais (e.g. garantem uma melhoria da qualidade, sem implicar grandes riscos, mas contribuindo para uma maior satisfação).

» A inovação disruptiva é já uma inovação radical, pois apresenta soluções mais eficientes do que as existentes, e em rutura com as mesmas. Mais recentemente, Christensen, Baumann, Ruggles e Sadtler (2006) definem o conceito de inovação catalítica, assente no modelo original de inovação disruptiva, mas que tem como grande meta a mudança social sistémica por meio da escala e da replicabilidade da solução, oferecendo produtos e serviços que, sendo geralmente mais simples e mais baratos do que as alternativas existentes, têm resultados positivos. Independentemente das tipologias de caraterísticas, o caráter transitório e imaterial da inovação expressa-se de forma inequívoca na definição que Kotler propõe, isto é, a inovação “como qualquer bem, serviço ou ideia que é percebido (…) como sendo novo. A ideia pode ter uma longa história, mas é uma inovação para a pessoa que a vê como nova” (Kotler, 1999, p. 305) e, alargando o seu âmbito, para a empresa que não a implementava, para a comunidade que a desconhecia ou para o país que a ignorava. É aqui que reside o seu potencial de replicabilidade, indicador tão disseminado de inovação social (que será retomado adiante), mas que tem a particularidade de ser comum a qualquer tipo de inovação.

»O segundo requisito remete para a área de aplicação ou domínio de intervenção e sua abrangência transversal. Alguns exemplos mostram como é difícil associar um único qualificativo ao vocábulo de inovação, dada a sua hibridez. Retenhamos a nossa atenção no trabalho em parceria entre diferentes setores de atividade ou entre organizações, caraterístico de um novo modelo de relacionamento com os stakeholders, inspirado na sociedade em rede que é designado de inovação social.

»Porém, o trabalho em parceria não representa mais do que uma nova forma de arranjo organizacional, baseado num modelo de estrutura matricial e por projeto, que permite tirar partido das complementaridades em atuação sinergéticas, capazes de satisfazerem melhor as necessidades sociais, o que nos remete, sobretudo, para uma inovação organizacional. E algumas práticas de responsabilidade social, como sejam o voluntariado empresarial, podem ser consideradas uma inovação social para as empresas que as promovem, no entanto, poderemos considerá-las como tal no âmbito dos modelos de intervenção utilizados para com os destinatários? Umas eventualmente sim, outras provavelmente não!

»A criação de um produto pro tech dry para minorar os efeitos de desconforto da incontinência é uma inovação técnica no produto ou uma inovação social? E um telemóvel com ecrã de visualização e teclado de algarismo adequados aos mais idosos? São com certeza inovações técnicas, que têm resultados positivos para os utilizadores. Serão por isso inovação social? O microcrédito poderá ser apelidado de uma inovação social em termos de combate à pobreza num país em desenvolvimento, como o Bangladesh, onde surgiu com o Grameen Bank. Porém, provavelmente é mais correto considerá-lo uma inovação política na UE, que criou programas específicos de microcrédito para promover o autoemprego, em contexto de recessão económica.

»De acordo com o terceiro aspeto, salientamos que toda a inovação é necessariamente social, independentemente das restantes dimensões envolvidas.

»Visto que toda a ação humana resulta de processos de construção social e tem resultados e impactos que afetam as comunidades e as pessoas nas suas vivências quotidianas, com maior ou menor amplitude. Neste sentido, toda a inovação, independentemente do campo de aplicação, é inerentemente social na sua germinação e no seu potencial impacto, podendo estes consideraremse significativos ou não, intencionais ou não, valorizados ora positivamente, ora negativamente. Deste modo, promove-se uma visão holística e integrada da inovação, que a compreende como um fenómeno evolutivo que integra procesos e resultados que influem nos três pilares do desenvolvimento sustentável – social, económico e ambiental.

»Feitas as salvaguardas, a nossa proposta vai ao encontro daquilo que, de acordo com a abordagem feita no âmbito do TIPSIE4, são um conjunto de traços comuns e consensuais nas problematizações do conceito de inovação social que pretendemos analisar, na sua especificidade de aplicação às OTS. Trata-se de: “um subtipo de inovação; é nova para quem a aplica; produz resultados específicos que constituem uma melhoria mensurável das práticas já existentes; pode ocorrer em qualquer setor e intersetorialmente; tem várias fases; é específica a um contexto; não é neutra do ponto de vista dos valores; possui uma dimensão de produto ou conteúdo e outra dimensão de processo; altera as relações sociais no que se refere à governança; promove a resiliência social e melhora as capacidades sociopolíticas dos beneficiários e o acesso aos recursos [dimensão de empoderamento]” (Caulier-Grice, Davies, Patrick & Norman, 2012, p.16).

»Assumindo os traços caraterizadores propostos e as ressalvas que os três critérios expostos anunciam, entre outros que aqui não foram problematizados, consideramos que a abrangência do conceito de inovação social não abona em favor da necessária delimitação operacional teórica e metodológica. Deste modo, propomos um entendimento do conceito de inovação social limitado aos modelos de intervenção em OTS, ainda que aceitando – em benefício da clarificação do conceito e da sua operacionalização rigorosa – a crítica de que, reservar a designação social aos casos de inovação ocorridos na esfera da intervenção, sem considerações quanto à imbricação com o complexo de agência, pode ser tanto ou mais redutor como considerar que uma inovação potenciada por uma invenção tecnológica se limita a processos técnicos e a resultados instrumentais. Não negamos a pluralidade de efeitos nem de causas, mas delimitámos o conceito a partir da sua orientação de base para a intervenção social e estudámos com rigor a inovação social em OTS como caraterizadora, ou não, de um modelo de intervenção. Deste modo, propomos diferenciá-la da inovação organizacional, esta entendida como modelo de gestão, que adiante retomaremos com a sistematização do nosso modelo de análise.»





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