2016/09/27

«Contribuições da inovação e do empreendedorismo para o desempenho das PME angolanas: evidência empírica da cidade de N'Dalatando - Kwanza Norte (Angola)»



Malundo Fausto Congo Catessamo. Instituto Superior de Contabilidade e Administração do Porto. Instituto Politécnico do Porto. Dissertação. Vejam-se as referências na publicação original do texto.




«Discussão dos resultados

»Mais de metade das PME estudadas opera no centro da cidade. As atividades destas são predominantemente de outro comércio a retalho de produtos novos e de comércio a retalho de produtos alimentares, bebidas e tabacos, em estabelecimentos especializados, respetivamente, cuja média de idade no mercado é de 6 anos e maioritariamente de empreendedor em nome individual. Com um setor muito jovem e com grandes probabilidades de crescimento, este regista um número muito reduzido de empresas dedicadas ao setor extrativo ou transformador bem como de empresas de base tecnológica. As PME inquiridas operam sobretudo no mercado angolano e maioritariamente na cidade de N’Dalatando, sendo que o seu volume de negócios é proveniente, em alta escala, desses mercados. Constatamos um baixo nível de internacionalização no setor, o que poderá limitar o crescimento sustentável das mesmas, dado o fraco poder de compra das populações que preferem, em parte, o mercado informal. Pode-se certificar a importância das pequenas e médias empresas na economia da cidade ao criarem mais de 600 postos de trabalho. Ao contrário disso, é motivo de preocupação a formação dos colaboradores dado que grande parte destes possui apenas o nível de escolaridade básico, embora se tenha verificado com sucesso a preocupação sobre o conhecimento do intraempreendedorismo e a sua promoção nos mesmos (mas, não com frequência).

»Os resultados sobre o conhecimento do intraempreendedorismo tiveram influência positiva para a introdução de inovação pelas PME inquiridas, por outro lado, o fato do setor ser maioritariamente dominado por empresas de comércio a retalho, associado ao número muito reduzido de empresas com áreas exclusivas para a inovação e ao nível de escolaridade dos colaboradores, resulta que, todas as empresas inquiridas reportaram apenas ter introduzido inovações incrementais sendo que a mais inovadora pertence ao setor de outro comércio a retalho de produtos novos em estabelecimentos especializado, em qualquer um dos tipos de inovação analisados.

»Todas as PME estudadas introduziram inovações de produtos ou de processos melhorados, o que demonstra algumas ações, embora se tenha cingido por vezes a um contexto interno. Quanto as inovações de produtos (bens/serviços), a maioria destas formam ligeiramente de serviços, sendo maior parte destas (bens e serviços) desenvolvidas em cooperação com outras instituições. Mais da metade dos bens e serviços melhorados foram novos para o mercado da empresa, verificando-se uma atenção especial aos mercados que diariamente procuram satisfazer alguma demanda. Foram apenas contatadas inovação do tipo incremental pelas razões antes referidas, o que traz à cima alguma preocupação para o nosso setor de atividade económica e para as pessoas de direito de modo a inverter o quadro.

»No que refere a inovação de processo, esta por sua vez, requer maior abertura à cooperação externa para aquisição, sobretudo, de know-how, equipamentos, maquinaria, software, necessários ao melhoramento da performance das PME. Salienta-se que mais da metade dos inquiridos confirmou a introdução de pelo menos um tipo desta inovação. Neste contexto, a aposta foi, maioritariamente, para a inovação de métodos de logística, entrega ou distribuição dos fatores produtivos ou produtos finais (bens/serviços). Por um lado, a aposta maior na organização interna indica a preocupação com o bem-estar do cliente através da introdução de métodos de logística e entrega ou distribuição melhorados, por outro lado, denuncia um setor transformador ou tecnológico ainda tímido no mercado da cidade, o que a sua presença notória alavancaria a economia aumentando a competitividade com a introdução de inovações com outros impactos.

»O contributo da inovação é notório uma vez que a maioria dos inquiridos reportou estar satisfeito com a sua introdução, na medida em que é atribuído nível médio de segurança e de crescimento do negócio, respetivamente. A confirmar este fato, é o investimento feito a nível interno pelas empresas através de aquisição de tecnologia e a oposta na formação, pois que, como visto esta ultima é ainda uma área que constitui um dos pontos fracos das mesmas.

»É também importante referir à inovação organizacional e de marketing. Quanto a inovação organizacional, a semelhança da inovação de produto e processo, todos os inquiridos introduziram inovação organizacional, sendo o comércio a retalho de produtos alimentares, bebidas e tabaco, o setor que mais introdução fez a julgar pela sua participação na composição da amostra. As inovações organizacionais foram maioritariamente desenvolvidas internamente, tendo sido a cooperação com outras instituições abrandadas. Para este tipo de inovação, verificou-se que os setores da hotelaria e construção foram os que menos progressos registaram. Neste sentido, prova-se mais uma vez que a atividade inovadora e empreendedora na cidade de N`Dalatando está maioritariamente voltada para os setores do comércio a retalho que conduzem, sobretudo, à inovações incrementais como se verifica no quotidiano da mesma. Observa-se que a maioria das empresas inquiridas possui serviços de internet, o que confirma o investimento no ramo.

»Refira-se que à inovação de marketing foi prestada atenção tendo a maioria das empresas inquiridas introduzido, promovido e publicitado os seus bens e serviços utilizando principalmente os meios de comunicação menos convencionais e a radio local. A maioria das PME reconheceu o papel do marketing no crescimento do negócio (importância média), paradoxalmente estas empresas reportaram não explorar com sucesso os meios de comunicação convencionais à sua disposição. Os setores do comércio a retalho foram os que mais inovações introduziram pelas mesmas razões acima referidas, estas foram sobretudo em melhoria nas condições de atendimento aos clientes e novas técnicas ou novos meios de comunicação para promoção de bens ou serviços.

»A introdução dos diferentes tipos de inovações, em geral, foi motivada sobretudo pelo aumento dos lucros e a sobrevivência do negócio (com importância alta ou média, respetivamente), verificando-se a preocupação com o crescimento das receitas e consequente sobrevivência do negócio para que gerações vindouras possam igualmente servir-se do mesmo empreendimento apesar de nenhuma destas ter reportado a receção de qualquer financiamento por fundos públicos nas suas atividades de inovação, considerando incentivos fiscais, subsídios, empréstimos bonificados ou garantias bancárias. Esta situação inibe a atividade de inovação e empreendedorismo, sendo que o reconhecimento e apoio aos empreendedores, seriam inevitáveis para o crescimento económico do país pois, “as estrelas deste século serão os criadores de novos negócios, não os executivos” (Leite, 2012, p. 124).

»No que refere as fontes de informação e tecnologias de comunicação, as empresas inquiridas na sua maioria privilegiam as fontes internas (importância média ou alta para 48,3% e 37,9% das inquiridas, respetivamente) embora se tenha notado foco no cliente e no fornecedor ao contrário das outras fontes como universidades, laboratórios, institutos, associações profissionais ou empresariais, conferências, feiras e exposições, revistas científicas e livros técnicos ou profissionais que não mereceram atenção especial por parte das PME estudas, com exceção dos meios eletrónicos de comunicação (importância alta para 44,8% das inquiridas).


»Considerações finais

»A inovação e o empreendedorismo são inseparáveis. Por sua via, os indivíduos qualificam-se com vista a proporcionar o aumento da sua renda para diminuição da pobreza sobretudo nos países menos avançados, como é caso de Angola. Neste contexto, o presente estudo tem como objetivo fundamental analisar as contribuições da inovação e do empreendedorismo no desempenho das PME na Cidade de N’Dalatando. Neste capítulo apresentamos as principais conclusões, bem como as limitações encontradas ao longo do estudo. Serão também sugeridas algumas linhas para futuras investigações, com base nas reflexões apresentadas.

»A inovação e o empreendedorismo são atualmente fenómenos emergentes que devido a crise económica mundial está no centro das atenções dos gestores, políticos e da sociedade em geral, devido ao acréscimo do desemprego ser um dos grandes desafios da sociedade, dos governos e dos dirigentes do mundo moderno. O seu fomento tem provocado o surgimento de milhares de micro, pequenas e médias empresas, que pela sua representatividade são o motor da economia real. Por isso, a criação de oportunidades empreendedoras aliada à uma estrutura orgânica flexível e democrática é de capital importância para geração de diferentes tipos de inovações de modo a garantir a sobrevivência do negócio pois, qualquer organização já existente, quer seja uma empresa, uma igreja, um sindicato ou um hospital, entra em colapso se não inovar. Não inovar é a única grande razão do declínio das organizações existentes (Drucker, 2008).

»O nosso estudo mostrou que a inovação e o empreendedorismo são considerados elementos fundamentais para a sobrevivência e sucesso das PME e que pelo seu caracter dinâmico permite a redução dos custos de produção, a criação de novos mercados, o aumento da competitividade, o estímulo de melhores desempenho ao gerar lucros, a criação de emprego e ao aumento do crescimento e das transações no mercado bem como colocar bens e serviços novos ou recriados à disposição dos clientes. Neste âmbito, a identificação e consequente remoção dos fatores inibidores da inovação é fundamental para sua prática sistemática e metódica, sendo que estes fatores são internos e externos às PME. Assim sendo, identificamos no presente estudo alguns destes fatores: insatisfação dos colaboradores, o medo de investir para melhorar a actividade inovadora e empreendedora e a falta de formação e de capacitação para o líder e/ou os colaborares.

»A economia angolana é fortemente dependente dos setores petrolífero e diamantífero, sendo que estes poucos postos de trabalho criam para os seus cidadãos. Impulsionado pela crise económica, o Governo tem adotado políticas favoráveis ao fomento da atividade inovadora e empreendedora através da criação de instituições vocacionadas para o efeito como, o Fundo Ativo de Capital de Risco Angolano (FACRA), o Guiché Único do Empreendedor (GUE), o Balcão Único do Empreendedor (BUE), os Centros Locais de Empreendedorismo e Serviços de Emprego (CLESE), o Programa de Desenvolvimento das Micro, Pequenas e Médias Empresas (PDMPME), entre outros. Apesar destes esforços, as PME em Angola enfrentam ainda muitas barreiras, designadamente a falta de infraestruturas, excesso de burocracia, poucas garantias de crédito e taxa de sucesso de iniciativa empreendedora muito baixa ao final do primeiro ano. Estas conclusões, apontam para a necessidade de inverter o quadro, nomeadamente redução das taxas de juros a um dígito, aumento do prazo de reembolso do crédito, levantamento das barreiras à entrada de novos concorrentes para estimular a competitividade e a inovação, facilitar o acesso ao crédito bancário e apostar cada cada vez mais na formação académica e complementar dos intervenientes.

»A análise descritiva dos dados, revela que as PME estão maioritariamente concentradas no mercado interno, com baixo nível de internacionalização, estando o maior número dedicado a outro comércio a retalho de produtos novos e comércio a retalho de produtos alimentares, bebidas e tabacos em estabelecimentos especializados, respetivamente. Constatamos um setor ainda jovem detido sobretudo por empreendedores em nome individual cujo grau académico da maioria de seus colaboradores é ainda básico mas, com algum conhecimento sobre o intraempreendedorismo, sendo raras as empresas com áreas exclusivas à atividade de inovação.

»As PME revelam algum dinamismo na introdução de bens e serviços novos, sobretudo, para o mercado da empresa, desenvolvidos maioritariamente pela empresa em cooperação com outras instituições. Grande parte das inovações de produtos, refere a serviços melhorados. Por outro lado, a inovação de processo foi em grande escala sobre métodos de logística, entrega ou distribuição dos fatores produtivos ou produtos finais (bens/serviços), desenvolvidos em cooperação com outras instituições.

»A inovação organizacional e de marketing mereceram igualmente atenção do estudo, sendo que a maioria das PME reportou a sua introdução, à semelhança dos tipos antes referidos. Para estes dois tipos de inovações, os setores do comércio a retalho de produtos alimentares, bebidas e tabaco e outro comércio a retalho de produtos novos em estabelecimento especializado, respetivamente, foram os mais produtivos a julgar pela sua participação na composição da amostra. Verificou-se ainda a posse de serviços de internet cujo proveito não é, contudo, satisfatório a julgar pela fraca promoção do negócio por essa via.

»Constatamos ainda que as empresas na cidade de N’Dalatando promovem os seus produtos principalmente por outros meios de comunicação menos convencionais e pela rádio local. As inovações de marketing decorreram sobretudo por via da melhoria das condições de atendimento aos clientes e de novas técnicas ou novos meios de comunicação para promoção de bens ou serviço.

»O estudo revelou ainda que as razões que motivaram primordialmente as PME a inovar são o aumento dos lucros e a sobrevivência do negócio, verificando-se a preocupação com o crescimento das receitas e, consequente, sobrevivência do negócio. Para esta ação são privilegiadas as fontes de informação internas embora se tenha observado atenção aos clientes e fornecedores. Por outro lado, todas as empresas inquiridas reportaram não ter recebido qualquer financiamento por fundos públicos nas suas atividades de inovação, denunciando uma insuficiente utilização das medidas e dos programas de apoio e incentivo governamentais. Obviamente, isso limita o crescimento do negócio e os seus resultados. Por isso, o aperfeiçoamento do sistema financeiro angolano aliado à melhoria no funcionamento das instituições criadas para o efeito seria cobiçável para que a inovação e o empreendedorismo contribuam efetivamente para o crescimento económico do país.

»Outra nota importante a reter é o fato de o empreendedorismo na cidade de N’Dalatando ser extremamente baseado em atividades tradicionais. É de recordar que o empreendedorismo de negócios divide-se em duas atividades: as atividades tradicionais-imprescindíveis para o emprego, para as exportações, para criação de riqueza e para o desenvolvimento regional e nacional, mas sem aposta particular em I&D, sem recursos humanos com uma qualificação acima da média, e não lançam produtos ou processo de rotura ao contrário das atividades de base tecnológica (Dantas, 2013), como demonstrou o nosso estudo.


»Limitações e futuras linhas de investigação

»O contexto bastante circunscrito do estudo, por abranger apenas a cidade de N’Dalatando, a não indicação no inquérito dos mercados externos, os objetivos que os levou a estes mercados e a quantidade de recursos financeiros gastos para cada atividade de inovação, são limitações que urgem destacar. Os resultados obtidos no âmbito do presente estudo circunscrevem-se em exclusivo à respetiva área de referência analisada, não podendo, pois, serem extrapolados para a Província do Kwanza Norte.

»Destacamos, ainda, como limitações a excessiva orientação das atividades económicas estudadas para o comércio a retalho, bem como a constatação da inexistência de financiamento público sequer para atividade de inovação associada à introdução simplesmente de inovação incremental.

»Propomos para futuras linhas de investigação alargar a análise para toda a Província. Por outro lado, analisar o porquê da excessiva influência da atividade de comércio, assim como o porquê da falta de financiamento para atividades de inovação.

»Finalmente, propomos que no futuro seja construído um inquérito comunitário à inovação e empreendedorismo que possa ser aplicado à globalidade do universo das empresas angolanas.»





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