2016/09/22

Américo Henrique Rodrigues Ramos dos Santos: «Trabalho, formação e inovação»



Sociedade, Tecnologia e Inovação Empresarial. Colóquio promovido pelo Presidente da República. 7 e 8 de Fevereiro de 2000. Fundação Calouste Gulbenkian. Imprensa Nacional-Casa da Moeda





«A sessão 4, Trabalho, Formação e Inovação, teve intervenções da Prof.ª Doutora Maria João Rodrigues, Sr. Henrique Neto e Prof. Doutor António Brandão Moniz. Moderou a sessão o Prof. Doutor Américo Ramos dos Santos. O debate das ideias expostas pelos oradores convidados foi particularmente intenso. Eis uma síntese das intervenções e do debate havidos.



»1. Foram identificados vários novos e estratégicos desafios na articulação entre o trabalho, a formação e a inovação. O primeiro desafio é o da velocidade da mudança. Os processos de mudança, em particular os que estão articulados com a produção, transmissão e difusão da informação, verificam-se a uma velocidade sem precedentes. Esta velocidade implica uma forte capacidade de reacção rápida, muitas vezes antecipada, ao imprevisto ou à surpresa.

»A necessidade de criar esta capacidade colocou questões decisivas ao nível da orientação da produção do conhecimento, da organização dos processos produtivos, da formação dos saberes e das competências e da estruturação das organizações. No que respeita à inovação, a velocidade da mudança tem consequências potencialmente perigosas. A importância crescente da lógica de mercado, a que já se chama o “império da economia da procura”, poderá conduzir a uma orientação imediatista da produção do conhecimento.

»Esta situação está presente nas pequenas melhorias incrementais, nas reformatações de modelos ou nos novos produtos. O mesmo é dizer que a “velocidade” pode ser “mal assumida”, através do desvio de recursos públicos e privados, para a geração de conhecimento não radical. É o novo conhecimento radical, essencial, que, em regra, dá origem a novos sectores económicos, base do crescimento sustentável. É o que está a acontecer presentemente com as formas de produção, transmissão e difusão da informação, que estão a criar novos sectores económicos, quer directa quer indirectamente.

»O carácter transversal da informação e das tecnologias da informação permitirá igualmente a transformação de sectores antigos, maduros. É a esta dupla mudança, novos sectores vs transformação de antigos sectores que, por vezes, se designa de “Nova Economia”, o que é manifestamente um exagero e, provavelmente, uma ilusão. Uma “Nova Economia” vai necessitar de muito mais conhecimento e da sua transformação em inovação. Infelizmente ainda estamos longe de uma tal situação. Não será isso o reflexo de uma menor importância da investigação fundamental na estratégia das empresas e das instituições, a nível mundial?



»2. O segundo desafio é a necessidade urgente de novas competências.

»O saber é um compósito que integra a potência conhecimento, informação, capacidade e competência. Poder-se-á afirmar ser mais correcto falar em novos saberes que envolvem novos conhecimentos e novas competências e pressupõem novas capacidades e acesso à informação.

»Esta visão interligada é tão mais importante quanto o conhecimento transformado em informação — conhecimento codificado — assume um papel crescentemente importante, mas não decisivo (o conhecimento tácito, aquele que está impregnado no indivíduo, continua a ser determinante). Se nos concentrarmos na componente “competências” do saber, verifica-se uma necessidade crescente de: compreensão de problemas, formulação e implementação de soluções; capacidade de abstracção; responsabilidade baseada na iniciativa; capacidade de antecipação face ao imprevisível e à surpresa; adaptabilidade à mudança; capacidade de aprender ao longo da vida; capacidade de comunicação e de trabalho em equipa, codificação e descodificação da informação. Como organizar a construção destas competências?



»3. O terceiro desafio deriva do papel estratégico da inovação.

»Como já referido, a velocidade da mudança tem imposto modificações sensíveis nos objectivos e processos de produção da inovação. A interpretação mais tradicional das relações entre a expansão da economia e a inovação destaca o papel da ciência e da progressão do conhecimento e de um agente captor e difusor do conhecimento transformável em tecnologia e economicamente viável: o empresário. Schumpeter via as coisas assim, seja inicialmente como pequeno empresário seja posteriormente ao nível da grande empresa. Uma interpretação posterior coloca o mercado como a fonte determinante do processo de inovação.

»Algumas interpretações da designada “Economia da Procura” encontram aqui um bom fundamento. O empresário passa a privilegiar a informação oriunda do mercado e com ela conduz as suas relações com o sistema científico-tecnológico.

»Mas a velocidade, a rapidez da mudança não é muito compatível com esta interpretação segmentada. A inovação é, nas suas diferentes dimensões, considerada um factor estratégico de competitividade. A velocidade e a competitividade impõem uma aproximação integrada à inovação, quer nas suas dimensões (tecnológica, social, organizacional…) quer nas relações a estabelecer com os diversos actores e instituições.

»Esta aproximação assume com frequência a noção de sistema de inovação. Noutras circunstâncias fala-se em rede de inovação. Ou seja, a inovação é cada vez mais um resultado de parcerias. Para um país com as características, a dimensão de Portugal e a sua inserção económica, como construir estas parcerias?



»4. Para responder a estes desafios, os intervenientes e o debate apresentaram interessantes e inovadores contributos, dos quais destacamos os seguintes: v

»ii ) A resposta à velocidade e ao atraso estrutural, num país como Portugal, implica a articulação e concentração simultânea de factores de aceleração. Esta articulação deverá ter como núcleo central os factores competitivos dinâmicos, em que Portugal deverá apostar. A ligação entre aceleração e competitividade deverá constituir o fundamento da política de intervenção do Estado. v

»ii ) As unidades de aprendizagem são múltiplas e diversificadas, em que o indivíduo é apenas a peça nuclear. Numa sociedade de aprendizagem, todos aprendem: as escolas, os centros de formação, as empresas, os governos, a administração pública…

»iii ) A resposta aos novos desafios implica deslocar o centro de gravidade da sociedade, do Estado para a sociedade civil, em que o Estado assume um papel facilitador/regulador/articulador e os indivíduos, as empresas, as organizações ou as redes o papel dinamizador da mudança. i

»iv ) A necessidade de passar da convergência dos diagnósticos à convergência das soluções, impõe uma nova perspectiva na criação de redes, em particular nas redes que visam fomentar, produzir ou difundir inovação (redes de inovação). Esta nova perspectiva deve passar a ser centrada em projectos concretos a desenvolver, e não em meras intenções, dando lugar a verdadeiras parcerias, numa lógica de aposta comum e de risco.

»O sucesso destas parcerias poderá vir a estar fortemente ligado à capacidade de articular e mobilizar empresas, centros tecnológicos, laboratórios ou institutos públicos e universidades, nacionais e estrangeiras, numa lógica de sustentabilidade a longo prazo. ii

»v ) O sucesso destas parcerias, ao nível da indústria portuguesa, poderá ter por base a exploração de oportunidades que possam derivar de uma orientação para produtos finais competitivos. Esta orientação poderá ser realizada pela intensificação do investimento directo estrangeiro que traga mercados de produtos compatíveis com as qualificações nacionais e que envolvam empresas portuguesas fornecedoras de consultadoria, engenharia, I&D, ferramentas, componentes, sistemas de embalagem ou montagem. Mas aquela orientação deverá também ser desenvolvida através de produtos inovadores, não existentes no mercado internacional, o que pressupõe competitividade e soluções sustentáveis, na base de parcerias internacionais avançadas e exigentes.

»vi ) A necessidade de responder com rapidez à necessidade de novas competências impõe sistemas articulados, mas flexíveis, de educação-formação. Nas sociedades de aprendizagem não são apenas os indivíduos que aprendem e fazem aprender. As organizações, as empresas também o fazem. Há, porém, uma alteração de rumo que importará considerar: a empresa como pólo essencial da formação das competências.

»A empresa que aprende e forma (empresa-formadora) deverá ser o eixo nuclear do sistema de formação. Tal não deverá significar, porém, o reinado de uma visão utilitarista da educação e da formação. Colocar a empresa/organização no centro do sistema de formação será um importante factor de aceleração na produção de competências.

»Neste sentido a intervenção do Estado no sistema de formação deverá passar de uma lógica de intervenção directa e de subsídio para uma função de co-investidor. O mesmo se dirá das empresas/organizações que devem deixar uma postura subsídio-dependente para uma atitude activa de investidor na formação.

»vii ) Enquanto o sistema de formação poderá ser mais flexível na resposta às necessidades do mercado, ao sistema de ensino, em particular à Universidade, compete a grande responsabilidade de criar as bases para uma sociedade de informação e do conhecimento.

»A natureza crescentemente pluridisciplinar e matricial do conhecimento obriga a uma transformação profunda dos conteúdos do ensino e da forma de organização das Universidades, onde as formas interactivas e o ensino à distância tendem a dominar.»





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