2016/09/30

«O SI Inovação Produtiva visa promover a inovação empresarial, através das tipologias Inovação Produtiva PME e Inovação Produtiva Não PME»



IAPMEI (Instituto de Apoio às Pequenas e Médias Empresas e à Inovação)




«O SI Inovação Produtiva visa promover a inovação empresarial, através das tipologias Inovação Produtiva PME e Inovação Produtiva Não PME.

»Na tipologia Inovação Produtiva PME, são suscetíveis de apoio projetos para:

»a) Produção de novos bens e serviços ou melhorias significativas da produção atual através da transferência e aplicação de conhecimento;

»b) Adoção de novos, ou significativamente melhorados, processos ou métodos de fabrico, de logística e distribuição, bem como métodos organizacionais.


»Na tipologia Inovação Produtiva Não PME, são suscetíveis de apoio projetos para:

»a) Produção de novos bens e serviços ou melhorias significativas da produção atual através da transferência e aplicação de conhecimento;

»b) Adoção de novos ou significativamente melhorados, processos ou métodos de fabrico.


»No caso de projetos de investimento localizados nas NUTS II Lisboa e Algarve, apenas são elegíveis atividades de inovação produtiva a favor de uma nova atividade, conforme n.º 51 do artigo 2.º do Regulamento (UE) n.º 651/2014, de 16 de junho.

»Devem ser consultados na legislação relevante os restantes requisitos que as Não PME têm que cumprir.

»Para ambas as tipologias:

»a) Consideram-se enquadráveis os investimentos de natureza inovadora que se traduzam na produção de bens e serviços transacionáveis e internacionalizáveis e com elevado nível de incorporação nacional, que correspondam a um investimento inicial, conforme definido no n.º 49 do artigo 2.º do Regulamento (UE) n.º 651/2014, de 16 de junho, relacionados com:

»i) A criação de um novo estabelecimento;

»ii) O aumento da capacidade de um estabelecimento já existente;

»iii) A diversificação da produção de um estabelecimento para produtos não produzidos anteriormente no estabelecimento;

»iv) A alteração fundamental do processo global de produção de um estabelecimento existente;

»b) Não são apoiados projetos de investimento de mera expansão ou de modernização.


»São beneficiárias desta medida as empresas de qualquer natureza e sob qualquer forma jurídica.»





Tipologias de inovação
Leituras temáticas

2016/09/29

«Programa Inovador Moçambicano»



Governo de Moçambique. Ministério da Ciência e Tecnologia, Ensino Superior e Técnico Profissional




«As mudanças tecnológicas e de inovação são, sem dúvida, os principais impulsionadores do crescimento económico e alívio à pobreza. Inovação é a conversão de ideias e conhecimento em produtos ou melhorados, processos ou serviços, os quais devem ser de uso comercial ou bem público. Inovação sozinha não pode criar e manter o bem-estar ou riqueza. Ela deve ser vista como um ingrediente que tem de ser combinado com outros para a criação do bem-estar. A força motriz atrás do processo são os inovadores que podem ser classificados em dois grupos: inovadores locais e os associados à indústria e a instituições académicas e de investigação. São os inovadores locais que são pouco conhecidos, mas cujas criações costumam ter relevância directa no ambiente onde estão localizados ou similares e são os menos capazes de transformar a inovação em produtos comerciais, processos e serviços por falta de meios.

»A pobreza de indivíduos ou comunidades, em termos de recursos e consumo, não se traduz, necessariamente, em pobreza de conhecimento e de inovação. Evidência é encontrada no facto de pessoas pobres ou com poucos recursos serem ricas no conhecimento local e terem capacidade inovadora, que tanto são explorados ou levados sem o devido tributo, prestação de contas ou reciprocidade. É este potencial para o uso do conhecimento local e inovação para o desenvolvimento e alívio à pobreza, que motiva a criação dum programa para a promoção do inovador moçambicano. Esta motivação é também sustentada por histórias de sucesso em Países como Índia, onde inovadores locais e outros cresceram, inicialmente, a partir do apoio de redes ou organizações com fins não lucrativos tais como “Honey Bee” (Abelha Doméstica) e “Rural Innovation” (Inovação Rural) para o estabelecimento de uma Fundação Nacional de Inovação pelo seu Governo.


»Objectivos

»O objectivo geral deste programa é identificar os inovadores moçambicanos a nível nacional com vista a avaliar, construir, consolidar e explorar a capacidade inovadora dos moçambicanos para o desenvolvimento sócio-económico do País e alívio à pobreza.

»Os objectivos específicos são:

»_ Descobrir os inovadores locais ou das comunidades, sua localização e os tipos de inovações desenvolvidos;

»_ Identificar e documentar inovações e conhecimento local, e os indivíduos envolvidos;

»_ Criar uma base de dados dos inovadores existentes e a sua distribuição pelo País e disseminar a informação documentada;

»_ Providenciar estruturas institucionais e organizacionais para transformação de inovações com potencial em produtos comerciais, processos e serviços, e para proteger os direitos de propriedade intelectual;

»_ Estabelecer mecanismos de apoio aos inovadores na criação de protótipos para a testagem do produto/inovação

»_ Promover a ligação entre sistemas informal (conhecimento local e sistemas de inovação) e formal (académico e de investigação para o desenvolvimento) de modo a que os inovadores se associem a questões científicas e outros intervenientes (indústria, sociedade civil, sectores públicos relevantes);

»_ Promover a incorporação do conhecimento local na educação e na investigação para o desenvolvimento;

»_ Conceder apoio institucional na criação do Núcleo Nacional dos Inovadores Moçambicanos;

»_ Estabelecer um regulamento para o exercício das actividades de inovação;

»_ Promover nos inovadores a valorização dos seus conhecimentos e a desenvolverem a auto_estima na prossecução das suas actividades; e

»_ Criar incentivos para atracção de novos inovadores.


»Inventariação, avaliação e disseminação do conhecimento local e inovações locais

»A primeira tarefa será a de identificar inovadores locais e suas inovações associadas. Estas precisarão ser avaliadas do ponto de vista de sua validade e potencial comercial ou de bem público. Com vista a facilitar o manuseamento e disseminação de informação, uma base de dados sobre os inovadores será criada pelo Governo. Prioridade será dada a áreas e sectores estratégicos de acordo com o definido na Estratégia de Ciência, Tecnologia e Inovação de Moçambique.

»A identificação de potenciais inovadores locais requererá a constituição de equipes envolvendo pessoas com conhecimento sobre iniciativas locais (ex. professores, alunos, pessoal de extensão das ONGs). Os coordenadores necessitarão de alguma orientação básica para permitir uma avaliação inicial aproximada, descrição da inovação e registo da informação biográfica do(s) inovador(es). O estabelecimento de redes irá facilitar não só a descoberta dos inovadores como também a constituição de equipes locais formadas por informantes e observadores que irão fazer o levantamento da Informação sobre os inovadores e inovações nas comunidades. A descrição providenciada pelas equipes locais será, posteriormente, encaminhada a pessoas especializadas para avaliação da validade das inovações e selecção inicial de inovações promissoras para avaliação física.


»Valorização dos inovadores locais e protecção dos direitos de propriedade intelectual

»A valorização de inovadores locais deverá envolver o reconhecimento e premiação de inovadores individuais ou em grupos. O programa usará os seguintes instrumentos para valorização após a sua avaliação sobre adequação e sustentabilidade:

»Materiais ou monetários: pagamento de taxas de registo de patente, prémios anuais por categoria de inovação, bolsas e empréstimos com baixas taxas de juros;

»Não monetários – conferindo títulos, medalhas, certificados de mérito, convites para conferências nas instituições de ensino superior e de investigação, facilitação de ligações/parcerias com indústria, etc.

»Conforme indicado na introdução, inovadores locais são os mais vulneráveis à apropriação das suas inovações sem compensação ou com compensação considerada injusta. O programa irá, portanto, criar condições para favorecer a protecção dos direitos de propriedade intelectual e a compensação justa quando os direitos são vendidos ou usados sob licença.

»Outro elemento que permitirá a apropriação da inovação local é a facilitação da criação duma estrutura organizacional local para inovadores para facilitar a troca de informação, melhoramento do poder de negociação, etc. Potenciais alternativas incluem a criação de redes ou associações de inovadores. Através desta estrutura será possível promover feiras de inovações que irão contribuir na mobilização de potenciais parceiros para apoiar as iniciativas dos inovadores. A estrutura irá facilitar a organização de cursos sobre gestão de negócios e empresas.


»Indicadores Para Monitoria e Avaliação do Programa

»O sucesso do programa será avaliado através dos seguintes indicadores:

»_ Número de inovações identificadas e registadas por área e sector estratégicos;

»_ Número de inovadores registados por idade, sexo, e por área e sector estratégicos;

»_ Número de redes de inovadores criadas e operacionais;

»_ Número de inovações transformadas em produtos e processos por área e sector estratégicos e por local de produção (rural ou urbana) a médio prazo; e

»_ Emprego gerado como resultado da implementação do programa por local ou área de residência (rural ou urbana) a médio prazo.»





Tipologias de inovação
Leituras temáticas

2016/09/28

«O desenvolvimento de inovação e seus tipos nas empresas em ambiente de incubação: o caso de Portugal» (II). «Conclusões»



José Pedro Carriço Cravo. Instituto Politécnico de Coimbra - Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Coimbra. Trabalho de Projeto. Veja-se o anterior postagem do mesmo projeto do autor: «O desenvolvimento de inovação e seus tipos nas empresas em ambiente de incubação: o caso de Portugal» (I). «Questionando a Inovação»




«CONCLUSÕES

»Schumpeter (1941 [Prefacio a Teoria del Desarrollo Economico. Fondo de Cultura Economica, Ciudad de Mexico]) deu luz ao conceito de inovação como hoje o conhecemos. E nunca como antes foi tao discutido, referido e abordado. Contudo, muito ainda há por conhecer sobre os contornos da inovação. A OCDE (2005) aponta o seu impacto como tema que deve ser investigado, mais concretamente, o seu impacto na geração de outputs, descortinando relações com outros fatores.

»Os autores referidos em capítulos anteriores são apenas alguns dos que desenvolveram trabalhos, sob diversas perspetivas da inovação, chegando a algumas conclusões interessantes. A inovação, além de alavancar a performance individual das empresas, potencia o crescimento e desenvolvimento dos sistemas económicos, atuando como o motor da destruição criativa que permitiu ao longo do último século uma generalizada melhoria da qualidade vida das populações, por via da produção em massa de bens que estavam apenas ao alcance de poucos, tornando-os também acessíveis nos mais diversos cantos do mundo.

»Este estudo procurou descortinar um pouco deste fenómeno na realidade portuguesa, questionando de que forma tem contribuído o desenvolvimento tecnológico e a inovação para a criação e sustentabilidade de empresas em ambiente de incubação em Portugal, pretendendo contribuir para uma melhor informação e promover uma futura discussão e análise empírica sobre o impacto da inovação em Portugal e ajudar a melhorar políticas, cujo objetivo visa alcançar os benefícios económicos e sociais da inovação.

»Da análise estatística dos dados recolhidos de 243 empresas, ligadas a 25 incubadoras, foi possível caracterizar a amostra das empresas, quanto aos fatores definidos, bem como testar a associação de alguns desses fatores com o tipo de inovação gerado. Foram confirmadas 3 das 5 hipóteses levadas a estudo, nomeadamente a associação entre o tipo de inovação introduzido no momento de criação da empresa e nos últimos 6 meses e a associação entre o desenvolvimento de atividades de I&D e a origem da empresa com o tipo de inovação gerado.

»Em Portugal, a generalidade das empresas incubadas que inovam, fazem-no ao nível do produto. É sem margem para dúvida o tipo de inovação mais comum, sendo incomparável aos restantes. Este facto levanta a questão do porquê não se desenvolver outros tipos de inovação. Certo é que os benefícios que outros tipos poderão oferecer às empresas, não estão a ser recolhidos, colocando em causa o máximo aproveitamento deste fenómeno. Outra conclusão é de que a origem das empresas e o desenvolvimento de atividades de I&D, são dois fatores relevantes no que diz respeito ao tipo de inovação gerado. As empresas, quando criadas, tendem a gerar desde logo inovações de produto e as atividades de I&D que entretanto desenvolvem são direcionadas, quase exclusivamente, nesse sentido. Por isso é importante questionar o motivo pelo qual não são desenvolvidos outros tipos de inovação e como estes dois fatores, na sua especificidade, poderão ter impacto na geração de diferentes outputs.

»Os resultados obtidos permitem também concluir que nas mais comuns origens de empresas tende-se a gerar inovações de produto, não havendo uma determinada origem em que seja mais comum a geração de um tipo distinto de inovação. Um dos desenvolvimentos futuros poderá se centrar nestes fatores, analisando em concreto quais as fontes de conhecimento a que empresas com determinada origem têm acesso e de que forma é valorizada e tratada essa informação. Também identificar o tipo de atividades de I&D desenvolvidas, e a sua relação com os outputs gerados, poderão orientar as empresas para o desenvolvimento de atividades distintas e, por consequência, a geração de diferentes tipos de inovação. Contudo são também relevantes futuros desenvolvimentos sobre os benefícios dos restantes tipos de inovação.

»Enquanto existem já algumas evidências sobre os benefícios de inovações de produto e processo, ainda há muito para explorar sobre inovações organizacionais e de mercado. Este facto não contribui para o fomento deste tipo de inovações, pelo que estudos futuros sobre estes temas são necessários.

»Mesmo, ao tratarmos de empresas em ambiente de incubação, onde, pelo papel das incubadoras, se terá um maior acesso a conhecimento proveniente das universidades, existe um volume considerável de empresas que simplesmente não inova e que não desenvolvem algum tipo de atividade de I&D que contribuiria para contrariar esse facto. Menos de 1 em cada 3 empresas desenvolve atividades de I&D a tempo inteiro, fator que se torna ainda mais critico quando os resultados indicam uma correlação estreita entre o desenvolvimento de atividades de I&D e a geração de inovação. Contudo não é possível concluir que quem não desenvolve estas atividades também não gera inovação.

»Existem outros fatores, não abordados neste trabalho, que podem assumir um papel igualmente relevante no processo de inovação, sendo necessário apurar de que forma também influenciam este processo, dando lugar a desenvolvimentos futuros. Como referido anteriormente, nunca se discutiu tanto a inovação e, apesar de os seus benefícios serem um dado adquirido, existe um volume considerável de empresas, nos momentos definidos, que não geraram inovação, o que se revela uma evolução negativa desde 2009. É assim relevante questionar sobre o motivo que leva as empresas a não inovar, e mais concretamente, o porque de deixarem de inovar.

»Apesar de algumas limitações, é possível tirar algumas ilações relevantes e descobrir novos caminhos de investigação. Em suma, quanto às empresas, a opção pela inovação não é posta em prática verdadeiramente pelos empreendedores, e, tendo em conta a constante validação dos seus benefícios por diversos autores, torna ainda mais crítico este comportamento. A quem opta por inovar, é necessária uma alocação de recursos noutras áreas, além do desenvolvimento de novos produtos, de forma a promover a inovação de outros tipos, procurando informação em distintas fontes de conhecimento, para que possam tirar o máximo partido deste fenómeno.

»Por fim, são sugeridas futuras linhas de investigação, em temas já referidos, de forma a gerar mais conhecimento que promova e sensibilize empreendedores e organizações e políticas para um melhor comportamento que potencie a inovação em Portugal. Há mais por onde inovar, há mais por onde destruir criativamente e há mais por onde gerar desenvolvimento económico.


»LIMITAÇÕES DO ESTUDO

»Como qualquer estudo, este apresenta algumas limitações dignas de nota. Desde logo os resultados obtidos são objeto da metodologia aplicada, sendo que uma metodologia distinta poderá originar resultados igualmente distintos. A principal limitação deste trabalho prende-se com o instrumento de investigação adotado, o inquérito online, na medida em que instrumentos diferentes, como por exemplo a entrevista, poderão permitir uma análise mais profunda sobre algumas questões abordadas neste trabalho, com questões e opções de resposta mais extensos.

»Devido á natureza do instrumento utilizado, é também possível a existência de alguma falta de entendimento, por parte dos inquiridos, sobre o objetivo de algumas questões, desvirtuando assim a sua resposta, apesar de terem sido seguidas todas as recomendações, como descrito no ponto 3, do capítulo 3. Novamente nesta situação, um instrumento diferente, como a entrevista, teria permitido um maior controlo sobre este fator.

»Outra limitação do estudo prende-se com a representatividade da amostra recolhida, apesar de haver nenhuma amostra que seja verdadeiramente demonstrativa. Contudo, mesmo sendo esta uma questão legítima, o elevado volume de respostas obtidas, que permitiu recolher um volume de dados consideráveis, vem, em parte, colmatar esta questão.

»É necessário ter em conta que este trabalho, como qualquer outro de investigação, é datado, sendo que as conclusões têm que ser entendidas no contexto temporal em que se enquadra. Além do momento de resposta ao inquérito, o mesmo incide sobre momentos temporais definidos, pelo que as mesmas questões sobre momentos temporais diferentes podem dar lugar a resultados igualmente distintos.


»LINHAS DE INVESTIGAÇÃO FUTURA

»O trabalho desenvolvido permitiu retirar algumas ilações sobre o tema a estudo, mas levanta também algumas questões. Investigar o motivo que leva as empresas a inovar essencialmente ao nível do produto, e não outros tipos, permitirá o desenvolvimento de políticas que promovam essas formas de inovação, contribuindo para mais inovação.

»Os benefícios de inovações de produto e processo há muito que são exploradas e discutidas na literatura, contudo ainda há muito para explorar sobre inovações organizacionais e de mercado. Facto que não tem contribuído para o fomento destes tipos de inovações, pelo que investigações futuras sobre as mesmas são necessárias para tal. Neste âmbito, especificar as atividades de I&D desenvolvidas, e a sua relação com os outputs gerados, poderá conduzir ao desenvolvimento de atividades que gerem diferentes tipos de inovação.

»Outra linha de investigação futura prende-se com os resultados agora obtidos, quando comparados com os de 2009. Este facto gera a necessidade de investigar esta evolução negativa, nomeadamente os motivos que levaram as empresas a inovar menos, permitindo que instituições e organismos possam atuar em evitar tendências ainda menos positivas, ou mesmo invertê-las.

»A origem das empresas, ao ser um fator relevante na geração de inovação, torna relevante especificar as fontes de conhecimento às quais as empresas têm acesso e de que forma esse conhecimento é valorizado e tratado na geração de inovação. Neste ponto é relevante a relação entre incubadoras e universidades, o tipo de relação desenvolvimento e o fluxo de conhecimento entre ambas, considerando que entre incubadoras e universidades distintas existem relações distintas.

»Por último é necessário considerar que existem outros fatores não abordados neste trabalho. Fatores que podem assumir um papel igualmente relevante no processo de inovação, sendo necessário apurar de que forma também influenciam este processo, permitindo uma perspetiva mais global sobre este complexo e dinâmico processo.»





Tipologias de inovação
Leituras temáticas

2016/09/27

«Contribuições da inovação e do empreendedorismo para o desempenho das PME angolanas: evidência empírica da cidade de N'Dalatando - Kwanza Norte (Angola)»



Malundo Fausto Congo Catessamo. Instituto Superior de Contabilidade e Administração do Porto. Instituto Politécnico do Porto. Dissertação. Vejam-se as referências na publicação original do texto.




«Discussão dos resultados

»Mais de metade das PME estudadas opera no centro da cidade. As atividades destas são predominantemente de outro comércio a retalho de produtos novos e de comércio a retalho de produtos alimentares, bebidas e tabacos, em estabelecimentos especializados, respetivamente, cuja média de idade no mercado é de 6 anos e maioritariamente de empreendedor em nome individual. Com um setor muito jovem e com grandes probabilidades de crescimento, este regista um número muito reduzido de empresas dedicadas ao setor extrativo ou transformador bem como de empresas de base tecnológica. As PME inquiridas operam sobretudo no mercado angolano e maioritariamente na cidade de N’Dalatando, sendo que o seu volume de negócios é proveniente, em alta escala, desses mercados. Constatamos um baixo nível de internacionalização no setor, o que poderá limitar o crescimento sustentável das mesmas, dado o fraco poder de compra das populações que preferem, em parte, o mercado informal. Pode-se certificar a importância das pequenas e médias empresas na economia da cidade ao criarem mais de 600 postos de trabalho. Ao contrário disso, é motivo de preocupação a formação dos colaboradores dado que grande parte destes possui apenas o nível de escolaridade básico, embora se tenha verificado com sucesso a preocupação sobre o conhecimento do intraempreendedorismo e a sua promoção nos mesmos (mas, não com frequência).

»Os resultados sobre o conhecimento do intraempreendedorismo tiveram influência positiva para a introdução de inovação pelas PME inquiridas, por outro lado, o fato do setor ser maioritariamente dominado por empresas de comércio a retalho, associado ao número muito reduzido de empresas com áreas exclusivas para a inovação e ao nível de escolaridade dos colaboradores, resulta que, todas as empresas inquiridas reportaram apenas ter introduzido inovações incrementais sendo que a mais inovadora pertence ao setor de outro comércio a retalho de produtos novos em estabelecimentos especializado, em qualquer um dos tipos de inovação analisados.

»Todas as PME estudadas introduziram inovações de produtos ou de processos melhorados, o que demonstra algumas ações, embora se tenha cingido por vezes a um contexto interno. Quanto as inovações de produtos (bens/serviços), a maioria destas formam ligeiramente de serviços, sendo maior parte destas (bens e serviços) desenvolvidas em cooperação com outras instituições. Mais da metade dos bens e serviços melhorados foram novos para o mercado da empresa, verificando-se uma atenção especial aos mercados que diariamente procuram satisfazer alguma demanda. Foram apenas contatadas inovação do tipo incremental pelas razões antes referidas, o que traz à cima alguma preocupação para o nosso setor de atividade económica e para as pessoas de direito de modo a inverter o quadro.

»No que refere a inovação de processo, esta por sua vez, requer maior abertura à cooperação externa para aquisição, sobretudo, de know-how, equipamentos, maquinaria, software, necessários ao melhoramento da performance das PME. Salienta-se que mais da metade dos inquiridos confirmou a introdução de pelo menos um tipo desta inovação. Neste contexto, a aposta foi, maioritariamente, para a inovação de métodos de logística, entrega ou distribuição dos fatores produtivos ou produtos finais (bens/serviços). Por um lado, a aposta maior na organização interna indica a preocupação com o bem-estar do cliente através da introdução de métodos de logística e entrega ou distribuição melhorados, por outro lado, denuncia um setor transformador ou tecnológico ainda tímido no mercado da cidade, o que a sua presença notória alavancaria a economia aumentando a competitividade com a introdução de inovações com outros impactos.

»O contributo da inovação é notório uma vez que a maioria dos inquiridos reportou estar satisfeito com a sua introdução, na medida em que é atribuído nível médio de segurança e de crescimento do negócio, respetivamente. A confirmar este fato, é o investimento feito a nível interno pelas empresas através de aquisição de tecnologia e a oposta na formação, pois que, como visto esta ultima é ainda uma área que constitui um dos pontos fracos das mesmas.

»É também importante referir à inovação organizacional e de marketing. Quanto a inovação organizacional, a semelhança da inovação de produto e processo, todos os inquiridos introduziram inovação organizacional, sendo o comércio a retalho de produtos alimentares, bebidas e tabaco, o setor que mais introdução fez a julgar pela sua participação na composição da amostra. As inovações organizacionais foram maioritariamente desenvolvidas internamente, tendo sido a cooperação com outras instituições abrandadas. Para este tipo de inovação, verificou-se que os setores da hotelaria e construção foram os que menos progressos registaram. Neste sentido, prova-se mais uma vez que a atividade inovadora e empreendedora na cidade de N`Dalatando está maioritariamente voltada para os setores do comércio a retalho que conduzem, sobretudo, à inovações incrementais como se verifica no quotidiano da mesma. Observa-se que a maioria das empresas inquiridas possui serviços de internet, o que confirma o investimento no ramo.

»Refira-se que à inovação de marketing foi prestada atenção tendo a maioria das empresas inquiridas introduzido, promovido e publicitado os seus bens e serviços utilizando principalmente os meios de comunicação menos convencionais e a radio local. A maioria das PME reconheceu o papel do marketing no crescimento do negócio (importância média), paradoxalmente estas empresas reportaram não explorar com sucesso os meios de comunicação convencionais à sua disposição. Os setores do comércio a retalho foram os que mais inovações introduziram pelas mesmas razões acima referidas, estas foram sobretudo em melhoria nas condições de atendimento aos clientes e novas técnicas ou novos meios de comunicação para promoção de bens ou serviços.

»A introdução dos diferentes tipos de inovações, em geral, foi motivada sobretudo pelo aumento dos lucros e a sobrevivência do negócio (com importância alta ou média, respetivamente), verificando-se a preocupação com o crescimento das receitas e consequente sobrevivência do negócio para que gerações vindouras possam igualmente servir-se do mesmo empreendimento apesar de nenhuma destas ter reportado a receção de qualquer financiamento por fundos públicos nas suas atividades de inovação, considerando incentivos fiscais, subsídios, empréstimos bonificados ou garantias bancárias. Esta situação inibe a atividade de inovação e empreendedorismo, sendo que o reconhecimento e apoio aos empreendedores, seriam inevitáveis para o crescimento económico do país pois, “as estrelas deste século serão os criadores de novos negócios, não os executivos” (Leite, 2012, p. 124).

»No que refere as fontes de informação e tecnologias de comunicação, as empresas inquiridas na sua maioria privilegiam as fontes internas (importância média ou alta para 48,3% e 37,9% das inquiridas, respetivamente) embora se tenha notado foco no cliente e no fornecedor ao contrário das outras fontes como universidades, laboratórios, institutos, associações profissionais ou empresariais, conferências, feiras e exposições, revistas científicas e livros técnicos ou profissionais que não mereceram atenção especial por parte das PME estudas, com exceção dos meios eletrónicos de comunicação (importância alta para 44,8% das inquiridas).


»Considerações finais

»A inovação e o empreendedorismo são inseparáveis. Por sua via, os indivíduos qualificam-se com vista a proporcionar o aumento da sua renda para diminuição da pobreza sobretudo nos países menos avançados, como é caso de Angola. Neste contexto, o presente estudo tem como objetivo fundamental analisar as contribuições da inovação e do empreendedorismo no desempenho das PME na Cidade de N’Dalatando. Neste capítulo apresentamos as principais conclusões, bem como as limitações encontradas ao longo do estudo. Serão também sugeridas algumas linhas para futuras investigações, com base nas reflexões apresentadas.

»A inovação e o empreendedorismo são atualmente fenómenos emergentes que devido a crise económica mundial está no centro das atenções dos gestores, políticos e da sociedade em geral, devido ao acréscimo do desemprego ser um dos grandes desafios da sociedade, dos governos e dos dirigentes do mundo moderno. O seu fomento tem provocado o surgimento de milhares de micro, pequenas e médias empresas, que pela sua representatividade são o motor da economia real. Por isso, a criação de oportunidades empreendedoras aliada à uma estrutura orgânica flexível e democrática é de capital importância para geração de diferentes tipos de inovações de modo a garantir a sobrevivência do negócio pois, qualquer organização já existente, quer seja uma empresa, uma igreja, um sindicato ou um hospital, entra em colapso se não inovar. Não inovar é a única grande razão do declínio das organizações existentes (Drucker, 2008).

»O nosso estudo mostrou que a inovação e o empreendedorismo são considerados elementos fundamentais para a sobrevivência e sucesso das PME e que pelo seu caracter dinâmico permite a redução dos custos de produção, a criação de novos mercados, o aumento da competitividade, o estímulo de melhores desempenho ao gerar lucros, a criação de emprego e ao aumento do crescimento e das transações no mercado bem como colocar bens e serviços novos ou recriados à disposição dos clientes. Neste âmbito, a identificação e consequente remoção dos fatores inibidores da inovação é fundamental para sua prática sistemática e metódica, sendo que estes fatores são internos e externos às PME. Assim sendo, identificamos no presente estudo alguns destes fatores: insatisfação dos colaboradores, o medo de investir para melhorar a actividade inovadora e empreendedora e a falta de formação e de capacitação para o líder e/ou os colaborares.

»A economia angolana é fortemente dependente dos setores petrolífero e diamantífero, sendo que estes poucos postos de trabalho criam para os seus cidadãos. Impulsionado pela crise económica, o Governo tem adotado políticas favoráveis ao fomento da atividade inovadora e empreendedora através da criação de instituições vocacionadas para o efeito como, o Fundo Ativo de Capital de Risco Angolano (FACRA), o Guiché Único do Empreendedor (GUE), o Balcão Único do Empreendedor (BUE), os Centros Locais de Empreendedorismo e Serviços de Emprego (CLESE), o Programa de Desenvolvimento das Micro, Pequenas e Médias Empresas (PDMPME), entre outros. Apesar destes esforços, as PME em Angola enfrentam ainda muitas barreiras, designadamente a falta de infraestruturas, excesso de burocracia, poucas garantias de crédito e taxa de sucesso de iniciativa empreendedora muito baixa ao final do primeiro ano. Estas conclusões, apontam para a necessidade de inverter o quadro, nomeadamente redução das taxas de juros a um dígito, aumento do prazo de reembolso do crédito, levantamento das barreiras à entrada de novos concorrentes para estimular a competitividade e a inovação, facilitar o acesso ao crédito bancário e apostar cada cada vez mais na formação académica e complementar dos intervenientes.

»A análise descritiva dos dados, revela que as PME estão maioritariamente concentradas no mercado interno, com baixo nível de internacionalização, estando o maior número dedicado a outro comércio a retalho de produtos novos e comércio a retalho de produtos alimentares, bebidas e tabacos em estabelecimentos especializados, respetivamente. Constatamos um setor ainda jovem detido sobretudo por empreendedores em nome individual cujo grau académico da maioria de seus colaboradores é ainda básico mas, com algum conhecimento sobre o intraempreendedorismo, sendo raras as empresas com áreas exclusivas à atividade de inovação.

»As PME revelam algum dinamismo na introdução de bens e serviços novos, sobretudo, para o mercado da empresa, desenvolvidos maioritariamente pela empresa em cooperação com outras instituições. Grande parte das inovações de produtos, refere a serviços melhorados. Por outro lado, a inovação de processo foi em grande escala sobre métodos de logística, entrega ou distribuição dos fatores produtivos ou produtos finais (bens/serviços), desenvolvidos em cooperação com outras instituições.

»A inovação organizacional e de marketing mereceram igualmente atenção do estudo, sendo que a maioria das PME reportou a sua introdução, à semelhança dos tipos antes referidos. Para estes dois tipos de inovações, os setores do comércio a retalho de produtos alimentares, bebidas e tabaco e outro comércio a retalho de produtos novos em estabelecimento especializado, respetivamente, foram os mais produtivos a julgar pela sua participação na composição da amostra. Verificou-se ainda a posse de serviços de internet cujo proveito não é, contudo, satisfatório a julgar pela fraca promoção do negócio por essa via.

»Constatamos ainda que as empresas na cidade de N’Dalatando promovem os seus produtos principalmente por outros meios de comunicação menos convencionais e pela rádio local. As inovações de marketing decorreram sobretudo por via da melhoria das condições de atendimento aos clientes e de novas técnicas ou novos meios de comunicação para promoção de bens ou serviço.

»O estudo revelou ainda que as razões que motivaram primordialmente as PME a inovar são o aumento dos lucros e a sobrevivência do negócio, verificando-se a preocupação com o crescimento das receitas e, consequente, sobrevivência do negócio. Para esta ação são privilegiadas as fontes de informação internas embora se tenha observado atenção aos clientes e fornecedores. Por outro lado, todas as empresas inquiridas reportaram não ter recebido qualquer financiamento por fundos públicos nas suas atividades de inovação, denunciando uma insuficiente utilização das medidas e dos programas de apoio e incentivo governamentais. Obviamente, isso limita o crescimento do negócio e os seus resultados. Por isso, o aperfeiçoamento do sistema financeiro angolano aliado à melhoria no funcionamento das instituições criadas para o efeito seria cobiçável para que a inovação e o empreendedorismo contribuam efetivamente para o crescimento económico do país.

»Outra nota importante a reter é o fato de o empreendedorismo na cidade de N’Dalatando ser extremamente baseado em atividades tradicionais. É de recordar que o empreendedorismo de negócios divide-se em duas atividades: as atividades tradicionais-imprescindíveis para o emprego, para as exportações, para criação de riqueza e para o desenvolvimento regional e nacional, mas sem aposta particular em I&D, sem recursos humanos com uma qualificação acima da média, e não lançam produtos ou processo de rotura ao contrário das atividades de base tecnológica (Dantas, 2013), como demonstrou o nosso estudo.


»Limitações e futuras linhas de investigação

»O contexto bastante circunscrito do estudo, por abranger apenas a cidade de N’Dalatando, a não indicação no inquérito dos mercados externos, os objetivos que os levou a estes mercados e a quantidade de recursos financeiros gastos para cada atividade de inovação, são limitações que urgem destacar. Os resultados obtidos no âmbito do presente estudo circunscrevem-se em exclusivo à respetiva área de referência analisada, não podendo, pois, serem extrapolados para a Província do Kwanza Norte.

»Destacamos, ainda, como limitações a excessiva orientação das atividades económicas estudadas para o comércio a retalho, bem como a constatação da inexistência de financiamento público sequer para atividade de inovação associada à introdução simplesmente de inovação incremental.

»Propomos para futuras linhas de investigação alargar a análise para toda a Província. Por outro lado, analisar o porquê da excessiva influência da atividade de comércio, assim como o porquê da falta de financiamento para atividades de inovação.

»Finalmente, propomos que no futuro seja construído um inquérito comunitário à inovação e empreendedorismo que possa ser aplicado à globalidade do universo das empresas angolanas.»





Tipologias de inovação
Leituras temáticas

2016/09/26

«Cientistas mais próximos do mundo dos negócios»



Catia Mateus. Expresso




«Em 2012 Portugal tinha o dobro dos doutorados que registava em 2003: 24.992 face a 11.197. O investimento emciência aumentou nas últimas décadas, a produção científica nacional também, tal como o número de investigadores e de patentes registadas no estrangeiro. Nunca como agora o número de investigadores portugueses em destaque em cenários internacionais foi tão grande. Nunca como hoje o mérito da investigação nacional conseguiu arrecadar tanto reconhecimento internacional, traduzido na captação de milhões de euros de investimento em projetos nacionais, através de bolsas de investigação.

»O sistema científico e tecnológico nacional gera hoje mais e melhores resultados, com repercussão global, mas, segundo Daniel Bessa, diretor-geral da COTEC, a valorização do conhecimento gerado na investigação e a aplicação ao mercado ainda é insuficiente em Portugal. Há, contudo, exceções à regra. São projetos nacionais de investigadores portugueses que, sozinhos ou em equipa, estão a concretizar e exportar ciência e inovação, levando-a até às empresas e dando-lhe a necessária concretização prática.

»Nos primeiros meses deste ano, dois investigadores a trabalhar em Portugal João Mano, da Universidade do Minho, e Zachary Mainen, da Fundação Champalimaud conquistaram bolsas avançadas (Advanced Grants) do Conselho Europeu de Investigação (ERC), no valor de 2,5 milhões de euros cada. Aos dois cientistas juntam-se outras 15 bolsas milionárias, atribuídas, em 2014, a projetos nacionais, e o reconhecimento internacional de cientistas portugueses como Olga Afonso, a investigadora do Instituto de Biologia Molecular e Celular do Porto, apontada pela American Society for Cell Biology como uma das 10 melhores doutorandas do mundo pelo trabalho que desenvolve na área da divisão celular.

»Apesar disso, o estudo A Empregabilidade dos Doutorados nas Empresas Portuguesas revela que só 3% dos doutorados e investigadores portugueses trabalham em contexto empresarial. A maioria desenvolve investigação associada a instituições de ensino superior, que ainda são responsáveis por executar 50% do investimento em investigação & desenvolvimento (I&D) da economia nacional, num contexto em que o Estado assegura 34% da inovação produzida e só 16% nascem por iniciativa de empresas, à luz do relatório europeu Innovation Union Scorebord 2015.

»Durante o último quadro comunitário, a despesa nacional em I&D foi de 2,7 mil milhões de euros. As empresas portuguesas investem menos em inovação e investigação do que as suas congéneres europeias ou norte-americanas, o que se traduz na integração de um número reduzido de investigadores nos seus quadros. Ana Barroca, Gonçalo Meireles e Catarina Neto, autores do estudo sobre empregabilidade dos doutorados em Portugal, apontam várias razões para este afastamento entre cientistas e o tecido empresarial, entre as quais “o distanciamento entre a academia e a indústria e um desfasamento entre o perfil dos doutorados e as competências procuradas pelas empresas”. Um cenário que a crise dos últimos anos pode ter ajudado a mudar.



»AUSTERIDADE POTENCIA LIGAÇÃO ÀS EMPRESAS

»Entre 2011 e 2013, o investimento nacional em I&D caiu de 1,46% para 1,36% do PIB, num movimento de redução que se iniciou em 2010 e que, a par com as recentes polémicas em torno do sistema de financiamento científico e da atribuição de bolsas de investigação por parte da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), alavancou um novo paradigma no sistema científico nacional, aproximando as instituições de investigação das empresas. Várias universidades apostaram na prestação de serviços às empresas, estabelecendo laços de cooperação em matéria de I&D e inovação, assim cimentando um novo modelo de relacionamento entre as organizações e o tecido científico nacional.

»Em sectores como a saúde e o farmacêutico, a indústria agroalimentar e as tecnologias, a relação universidade-empresa no campo da investigação é hoje mais próxima do que nunca. É cada vez maior o número de organizações de pequena ou grande dimensão focadas no designado smart growth (crescimento inteligente), ainda que o retorno do impacto desta aposta na inovação e na I&D nem sempre seja facilmente mensurável. Para Daniel Bessa, não é fácil responder à questão óbvia: as empresas portuguesas têm já, efetivamente, uma estratégia de inovação bem pensada e estruturada? Reconhece que “a inovação é hoje vista pelas empresas como um recurso decisivo para a competição no mercado global” e que “não há alternativa” senão inovar.

»Mas quanto a estratégia de inovação propriamente dita, “umas empresas terão, outras não”, realça, ao mesmo tempo que enfatiza que naciência, como noutras áreas, “o nosso maior problema como povo não reside na falta de estratégia, mas em dificuldades de implementação e de execução”.

»Banca, comunicações e telecomunicações serão, na sua opinião, os sectores de maior intensidade de investimento em I&D a nível nacional. Contudo, “há empresas com elevado investimento em I&D em praticamente todos os sectores de atividade e não necessariamente apenas nas maiores empresas”. Na verdade, segundo o diretor-geral da COTEC, “em percentagem de volume de negócios, ou dos resultados líquidos, julgo ser em algumas PME que as despesas de I&D atingem a maior expressão, mais (muito mais) do que na generalidade das grandes empresas”. Serão também estas as que têm aproveitado a proximidade com a academia e os cientistas nacionais para reforçar a sua estratégia de inovação.

»E em Portugal somam-se bons exemplos de cooperação, sejam eles de projetos de investigação que nasceram nas universidades e se tornaram empresas, investigações desenvolvidas no seio da academia em parceria com a indústria para resolver problemas concretos e identificados no mercado ou desafios lançados pelas empresas diretamente aos investigadores.



»TRANSFORMAR CIÊNCIA EM PRODUTO

»Provavelmente não saberá, mas nas salas de cirurgia de hospitais do Cambodja, Hong Kong, Moçambique, Dinamarca e em dezenas de outros destinos mundiais são aplicadas próteses de osso artificial fabricadas em Portugal, na Medbone, criada pela investigadora Cláudia Ranito depois de vários anos de investigação e desenvolvimento e de recorrer a um banco espanhol que lhe financiou 600 mil euros para transformar ciência em indústria a partir de Portugal. Ou que a Amorim Cork Composites coordena um projeto, que está em desenvolvimento no Instituto de Biologia Experimental e Tecnológica (iBET), agregando investigadores de áreas tão diversas como química analítica, bioquímica, biotecnologia e engenharia química, com o objetivo de utilizar subprodutos da indústria da cortiça com propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e antimicrobianas na cosmética.

»Também a empresa familiar de peixe ultracongelado Soguima está a destacar-se a nível internacional com um projeto de I&D que desenvolveu a nível interno para o aproveitamento completo da matéria-prima e que permitiu aplicar o excedente da pele de peixe na indústria da moda. Há sapatos, malas e acessórios em pele de atum made in Portugal a conquistar o mundo.

»Como estes, muitos outros projetos materializam já uma ligação efetiva, que está a aumentar, entre as empresas portuguesas e os centros de investigação nacionais. O que para Daniel Bessa é hoje vital. "Num país da área do euro, como Portugal, é praticamente impossível a uma empresa tornar-se competitiva pelos custos. Resta-lhe inovação: inovar ou morrer."

»Na Corticeira Amorim essa é a regra. A empresa investe, em média, 7,5 milhões de euros anualmente em investigação. Há cinco anos que a área de I&D da empresa tem ganho uma maior fatia do orçamento inicial, “com o objetivo de melhorar a performance das aplicações mais tradicionais da empresa, recentemente formatada para novas aplicações, combinando diferentes materiais com a cortiça, ambicionando novos mercados e segmentos”, explica António Rios de Amorim, presidente da Corticeira Amorim. Ainda que reconheça que a quantificação do retorno do investimento não é fácil, realça que “cerca de 17 milhões de euros do volume de negócios da Corticeira Amorim foram suportados por novas aplicações de cortiça que não existiam em 2012”.

»A empresa, que sempre alimentou uma visão inovadora não só nos produtos mas também nos processos, tem vindo a reforçar sucessivamente a sua área de I&D, seja nas parcerias com universidades e institutos nacionais de investigação ou na criação de unidades internas de investigação, materializadas na Amorim Cork Research, a sua própria estrutura de investigação. “As cinco unidades de negócio da Corticeira Amorim criaram departamentos de I&D com pessoas muito qualificadas”, explica António Rios de Amorim, enfatizando que, além dos 25 elementos da equipa de I&D, entre os quais estão doutorados, são comuns as ligações a polos de excelência em investigação sempre que seja identificada alguma necessidades específica numa das áreas. “Temos parcerias com unidades do sistema científico português e também com universidades e institutos de investigação a nível internacional, desde a Austrália aos Estados Unidos, passando por França, Itália e Alemanha”, realça o presidente da Corticeira Amorim.

»A Nestlé segue uma estratégia semelhante. Deolinda Nunes, diretora de relações corporativas da empresa em Portugal, realça que em matéria de I&D a firma segue há muito as orientações da casa mãe e as melhores práticas internacionais. “As atividades de I&D são geridas a nível central. A Nestlé tem 28 centros de investigação espalhados pelo mundo e em 2014 foram investidos nesta área 1,6 mil milhões de francos suíços (cerca de 1,4 mil milhões de euros).” Em Portugal, “mais de 30% das receitas geradas em 2014 (que ascenderam a um total de 461,3 milhões de euros) foram obtidos graças às inovações ou renovações de produtos”.

»Neste domínio, a empresa tem projetos de cooperação em conjunto com várias universidades nacionais, cuja excelência a responsável destaca: “Temos hoje alguns centros de investigação de referência internacional, muitas empresas em áreas de ponta, algumas delas nascidas no seio da academia, muitas autónomas, e não faltam casos de reconhecimento externo da inovação portuguesa e de exportação desta mesma inovação.”



»“TEMOS DE DIVERSIFICAR AS FONTES DE FINANCIAMENTO”

»A ligação estreita entre os centros de investigação e a indústria é para Elvira Fortunato, investigadora e coordenadora do Centro de Investigação de Materiais, da FCT-UNL, um caminho fundamental que tem de ser percorrido pela ciência em Portugal

»Elvira Fortunato foi a primeira investigadora portuguesa a conquistar, em 2008, uma bolsa internacional acima de 2,5 milhões de euros, atraindo a atenção para o que de melhor se faz na investigação em Portugal.


»Durante anos a investigação produzida nas universidades e nos centros de investigação nacionais era conotada como conhecimento científico produzido de “cientistas para cientistas”, pouco orientada para as empresas. Isso mudou?

»Esse princípio elitista, no mau sentido, tem tendência a desaparecer. A sua existência ou não depende das áreas e do gosto que os investigadores têm pelo que fazem. No meu caso, gosto de trabalhar com empresas, pois o tipo de investigação que faço está mais próximo de aplicações concretas, como é o caso da eletrónica transparente ou do papel eletrónico.


»O aspeto financeiro também será um aliciante...

»Sim, o facto de desenvolvermos projetos com empresas também nos garante algum retorno financeiro, em especial para a contratação de recursos humanos, ou mesmo através da propriedade intelectual, que são sempre mais-valias. Temos de diversificar, e muito, as nossas fontes de financiamento se queremos manter a pole position.


»O que é urgente mudar na investigação nacional e na sua forma de financiamento?

»O que é urgente é não mudar as regras sempre que alguém tussa! Isto é, o sistema tem de ter estabilidade e consistência, associada a transparência, e dar-se algum tempo para se fazer o balanço das ações. Aí, sim, corrigir e implementar o que deve ser. Não podemos estar todos os anos a mudar as regras de atribuição de bolsas ou as tipologias dos concursos, ou não termos uma agenda científica com uma programação, por exemplo, a quatro/cinco anos. É importante que o sistema científico apresente estabilidade, mesmo que com poucos recursos financeiros, pelo menos sabemos com o que contar.


»O que foi feito com as unidades de investigação em termos de financiamento está, em sua opinião, correto?

»Está, pois os centros possuem um financiamento plurianual a seis anos e dessa forma podemos ter uma estratégia científica. Mas não chega, pois além dos recursos mais diretos temos os recursos humanos e esses também necessitam de estabilidade. Preconizo que no futuro se promovam contratos plurianuais de legislatura com as universidades, envolvendo as componentes pedagógica e científica e que se faça um acompanhamento dos mesmos e um balanço bienal. Esses contratos deveriam ser consignados, independentemente de quem está no poder, de forma a dar continuidade à ciência, que deve ser global e de interesse estratégico para todos.


»Aproximar a investigação do tecido industrial é um caminho para a estabilidade. O que nos falta nessa área?

»Para aproximar consistentemente a investigação do tecido industrial, acabando com tabus que dão lugar, por vezes, a algum afastamento, é preciso promover redes inteligentes de aplicação do saber (RIAS), não temáticas, mas multidisciplinares, que se entrecruzem na realização de projetos conjuntos e sejam capazes de responder a necessidades a médio e curto prazo das empresas e, em conjunto, responder aos desafios do futuro (que mercado e produtos os utilizadores necessitarão no futuro).

»É importante que o Estado dinamize as RIAS para que existam anos sabáticos de académicos em empresas para quem queira tomar conhecimento da realidade industrial e saber como usar esse conhecimento na formação e transmitir o seu saber às empresas (que o utilizarão na resolução dos seus problemas). Igualmente relevante é criar posições de consultores técnicos sabáticos, de membros de empresas em universidades, de forma a que se inteirem da investigação que aí se faz, interatuem com elas e percebam de que forma as empresas a que pertencem podem beneficiar desta interação. No limite, serem eles próprios os geradores / inovadores de conceitos empresariais.»





Tipologias de inovação
Leituras temáticas

2016/09/23

«Empreendedorismo social e inovação: que relação? Raízes e ruturas dos discursos sobre a inovação»



Cristina Parente, Vanessa Marcos e Vera Diogo. Empreendedorismo Social em Portugal: as políticas, as organizações e as práticas de educação/formação, coord. e ed. Cristina Parente Edição, Universidade do Porto: Faculdade de Letras, 2014. Vejam-se as referências na publicação original do texto.





«Empreendedorismo social e inovação: que relação?

»A problemática do empreendedorismo social assume múltiplos sentidos, como esta obra nos tem revelado. Um deles, talvez o mais forte na atualidade, é aquele que é veiculado por uma das escolas de pensamento anglófonas, que associa a figura do empreendedor social ao promotor da inovação social. Seguindo as lógicas schumpeterianas acerca do empreendedor, os empreendedores sociais diferenciam-se por ter a capacidade de oferecer novos serviços e de melhor qualidade, ancorados numa missão social, resultado de uma combinação inovadora de novos formatos e dinâmicas organizacionais ou ainda do foco em novos mercados (Dart, 2004; Dees & Anderson, 2006; Defourny & Nyssens, 2010a). Associada a esta perspetiva, está a classificação dos empreendedores sociais enquanto inovadores sociais e agentes de mudança (Bornstein, 2007) que, a partir do recurso a processos novos e sustentáveis, engendram alterações profundas nos sistemas onde intervêm (Nicholls & Cho, 2006).

»De acordo com estas definições, aferimos que o empreendedorismo social carateriza-se, entre outras dimensões, por um processo de inovação social. O processo de inovação social, que é transversal a qualquer setor de atividade, constitui uma ferramenta de intervenção orientada para atingir resultados com impacto social e que promovam uma transformação sistémica, nomeadamente pela ressonância e replicação dos métodos e resultados (Alvord, Brown & Letts, 2003; Martin & Obsberg, 2007). Tendo como fim último a criação de valor social, este processo confere uma ampla liberdade ao tipo de recursos e métodos usados e aos formatos gestionários adotados, para garantir a sustentabilidade económica, como via de tornar exequível o potencial impacto social (Anderson & Dees, 2006; Peredo & MacLean, 2006; Dees, 2001; Defourny & Nyssens, 2010a).

»Estas definições de caráter generalista têm uma função de enquadramento e problematização teórica que exigem a sua interpretação como teorias de médio alcance quando as pretendemos operacionalizar, empiricamente, na análise do empreendedorismo social aplicado em contexto organizacional. Deste modo, não se trata de proceder a uma comparação de questões específicas, mas de contemplar a realidade na sua globalidade. É esse o nosso objetivo nesta parte da obra. Deste modo, propomos uma análise do empreendedorismo social nas OTS, como um processo caraterizado por modelos de intervenção e modelos de gestão. Ou seja, no nosso modelo analítico, estes representam os processos de inovação social e de inovação organizacional, respetivamente.

»A primeira vertente analítica visa compreender como as OTS intervêm face aos seus destinatários e os resultados atingidos, aferindo-se em que medida o trabalho desenvolvido pelas organizações em análise responde a necessidades sociais por estas identificadas, promove a territorialização da ação, a emancipação das populações com quem trabalham, e o seu envolvimento enquanto atores de um processo de intervenção que, no seu todo, se pretende empoderador. Definimos a inovação social enquanto processo e enquanto produto/resultado, inspirados na proposta de Nilsson (2003).

»A inovação social como processo remete para um modelo de intervenção que adere ao princípio do trabalhar com as pessoas1 e que implica uma preparação prévia e cuidada de todo o conjunto de atividades que implicarão a mobilização da capacidade de agência dos indivíduos, traduzida em termos da sua participação nas diferentes etapas da ação, ou seja, no diagnóstico, implementação, monitorização e avaliação (Westley, 2008; Moore & Westley, 2009).

»A proposta de Diogo (2010), sobre o princípio de trabalhar com, remete para um trabalho social inclusivo centrado na capacidade de agência dos sujeitos que, de acordo com a aplicação à realidade nacional das OTS de base, integra, frequentemente a montante, um princípio de trabalhar para no sentido mais assistencialista da intervenção. A inovação social como produto (Nilsson, 2003; Young, 2006) remete para o valor social criado.

»O conceito de valor social, de acordo com Young (2006), refere-se ao resultado de um conjunto de respostas e efeitos de atividades, produtos ou serviços que beneficiam e são valorizados por pessoas cujas necessidades não estão a ser supridas por outros atores, nomeadamente pelo Estado e pelo Mercado. O resultado tem valor social na medida em que “é benéfico porque é valorizado” (Young, 2006) por quem nele participa e contribuauti para o desenvolvimento sustentável do território. O valor social criado pode, ainda, ser avaliado consoante o grau e tipo de resultado obtido e, portanto, em termos do impacto (sistémico) da inovação social.

»A segunda remete para o modo como as OTS são geridas nas vertentes quer estratégicas quer operacionais, no que diz respeito à gestão económicofinanceira e dos recursos humanos (assalariados e voluntários), à organização do trabalho, bem como em termos de governança e prestação de contas, dimensões analíticas às quais dedicamos a parte II desta obra. Seguindo este raciocínio, os perfis de empreendedorismo social foram definidos a partir de um conjunto de pressupostos teóricos operacionalizáveis, que indicam traços de maior ou menor orientação das OTS para a adoção de modelos de intervenção e de gestão socialmente empreendedores2.

»Deste modo, a análise da tipologia de inovação (social e organizacional) assumida no estudo implicou acionar uma estratégia metodológica correspondentemente distinta. A inovação organizacional foi captada por via de um inquérito por questionário, através de indicadores mais ou menos tangíveis e objetiváveis e que, apesar das suas limitações na apropriação do real, permite uma aproximação aos perfis de empreendedorismo social, do ponto de vista gestionário. As limitações aqui sentidas foram colmatadas, igualmente, em sede de estudos de caso que, pela sua abordagem necessariamente mais próxima das OTS, nos permitiram completar, numa perspetiva compreensiva, a informação de caráter objetivo.

»Com efeito, nesta fase foram observadas práticas, cujos indicadores selecionados para o inquérito por questionário não obtiveram robustez suficiente para serem tratados de acordo com técnicas quantitativas. É o caso da dimensão analítica relativa à governança e prestação de contas, que não foi integrada na definição dos perfis de empreendedorismo social de cariz gestionário, porém foi trabalhada e considerada a partir da informação recolhida nos estudos de caso.

»Foi também possível observar, a partir das nossas visitas às OTS, dimensões de inovação organizacional que excluímos do inquérito por questionário pela sua impossibilidade observacional num instrumento de medida quantitativo. Referimo-nos às dimensões simbólicas e subjetivas da cultura organizacional, dos modelos comunicacionais, das relações interpessoais, dos mecanismos de coordenação e das práticas de liderança. Aqui optamos por uma grelha analítica aberta, deixando que as informações emergissem do terreno, sem filtros teórico-analíticos.

»A inovação social foi captada apenas pela abordagem intensiva, assente num paradigma interpretativo e aberto em termos de código de leitura do real. Atendendo à subjetividade inerente aos modelos de intervenção, procedemos à aplicação do método de estudos de caso, que permitiu a realização de conversas espontâneas orientadas e entrevistas abertas, em contexto de abertura à empiria.

»A este propósito, as histórias construídas foram validadas pelas sete OTS estudadas em profundidade e permitiram-nos, deste modo, legitimar a análise interpretativa efetuada sobre os seus modelos gestionários e de intervenção e, por correspondência, a sua maior ou menor proximidade à inovação organizacional e social, conforme definido teoricamente no modelo interpretativo de empreendedorismo social proposto.



»Raízes e ruturas dos discursos sobre a inovação

»A expressão “inovação social” é, desde logo na sua origem, composta por um substantivo (i.e. “inovação”) e por um adjetivo que o qualifica (i.e. “social”). Esta fórmula não é estranha à história do conceito de inovação que tem sido acompanhada no mundo ocidental por qualificativos particulares: inovação política, inovação tecnológica, inovação organizacional e, mais recentemente, inovação social. Interessa pois, antes de expormos a proposta de abordagem que adotámos neste estudo, refletir sobre a dimensão socio-histórica da construção do conceito de “inovação” e das suas diversas variantes, de modo a rompermos com pressupostos ideológicos inerentes à sua utilização, muitas vezes abusiva na atualidade.

»Uma análise etimológica da palavra remete para o latim innovare (in de “em” e novus de “novo” ou “recente”), que significa “tornar novo”. Refere-se, essencialmente, a uma capacidade de recriação inerente aos sistemas evolutivos, quer sejam ecossistemas biológicos ou sistemas sociais. No entanto, uma incursão pela história do conceito permite-nos, de alguma forma, desconstruir o caráter ideológico de uma palavra que, nas suas diferentes dimensões, parece assumir e reassumir, a cada momento, o poder transformador das evoluções paradigmáticas. É uma palavra que, ao ser reificada nos discursos, parece adquirir uma força autónoma pela sua simples enunciação.

»A inovação tornou-se um conceito incontornável de desenvolvimento do sistema económico capitalista. Schumpeter (1934) destaca o seu papel central no processo de destruição criativa, através do qual novos métodos e produtos são criados e introduzidos e outros se tornam ultrapassados, sob a égide da figura do empreendedor industrial.

»Porém, até aos finais de 1970, imperava, quer em termos de discurso científico, quer do senso comum, o uso do conceito de mudança. O conceito de inovação sucede-lhe e, muitas vezes, substitui-o, por parecer mais adequado para dar conta das alterações que marcaram a passagem para o atual paradigma técnico-económico, balizado pela expansão das aplicações e a massificação das tecnologias da informação e da comunicação, com as suas consequências em termos da escala da globalização e da intensificação da flexibilidade. Associa-se a uma nova configuração económica, em que os países industriais avançados se projetam num cenário potencial da economia baseada no conhecimento, cujo suporte principal radica no “progresso científico e tecnológico interligado à mais avançada criatividade empresarial” (Guimarães, 1998, p. 91).

»O termo inovação popularizou-se nos anos 80 do século XX, nos países ocidentais. Começou a ser utilizado no domínio das políticas económicas de desenvolvimento, particularmente no âmbito das políticas industriais e tecnológicas (idem), com objetivos instrumentais. Isto é, genericamente, enquanto solução operacional para um dado problema, caráter aplicado que mantém na atualidade.

»Apesar das transformações associadas ao conceito de inovação, hoje utiliza-se a expressão “inovação (...) para designar aquilo que há uma década atrás se chamava de «mudança», tendo sempre, mais ou menos subjacente, o sentido de um benefício social e societal de carácter quase sempre urgente” (Oliveira, 2003, p. 2 apud Parente, 2005). Ou seja, ainda que com conteúdos substantivos e processuais diferentes, os conceitos de mudança e de inovação dão conta dos fatores que, em conjunturas históricas distintas, garantem a capacidade das economias e das sociedades fazerem face aos constrangimentos ambientais externos e internos. A problemática da mudança social e os seus efeitos foram sempre os motores de reflexão das ciências sociais, mantendo-se esta particularidade na atualidade.

»Do mesmo modo, têm sido desenvolvidos, ao longo da história, conceitos que cobrem parte do mesmo fenómeno que hoje se entende por inovação social: invenção social (Weber, 1968 [1922]; Ogburn 1992; Coleman 1970), difusão social através de imitação de novas práticas (Tarde 1999 [1893]) ou mudanças nas práticas sociais. Weber defende que a mudança só faz sentido num contexto de inovação ou renovação (1968 [1922], p. 26) da ordem social, mudança esta que é impulsionada pelos atores sociais mediante a introdução de novas práticas, novos modos de organização ou produtos inovadores (Jessop, Moulaert, Hulgård, & Hamdouch, 2013). Também Durkheim (1989), ao admitir a importância da regulação social nos processos de adaptação da divisão do trabalho que acompanhavam as mudanças tecnológicas, denota preocupação com a dimensão social da inovação.

»Portanto, se a questão dos impactos sociais da inovação não é de todo recente, adquiriu maior relevo na última metade do século XX. Com efeito, a fundação, em 1980, da organização norte-americana Ashoka, por Bill Drayton, marcou a introdução do conceito de inovação no contexto da intervenção social, tendo sido adotada a estratégia de distinguir e apoiar os innovators for the public, isto é, os empreendedores que revolucionavam os “padrões de produção” da área social, no sentido schumpeteriano, pugnando pela mudança social sistémica, isto é, de grande alcance.

»Em resumo, era tido como evidência que os “inovadores públicos” tinham comportamentos semelhantes aos dos empreendedores comerciais, mas em produtos e serviços das áreas da educação ou da saúde. Outras estruturas norte-americanas, como a Echoing Green (1987) e a Skoll Foundation (1999), e europeias, como a Schwab Foundation (1998), mantiveram esta tradição de reconhecer os indivíduos excecionais, responsáveis por novas e melhores formas de responder a problemas ou necessidades sociais, para além de financiarem as suas atividades e desenvolverem as redes de suporte.

»Na Europa dos finais dos anos 80-90 do século XX, a inovação social surge como o conjunto de estratégias de resposta aos impactos da reestruturação económica, marcada pela introdução de inovações tecnológicas que dão origem ao desemprego massivo (Comissão Europeia, 2011).

»Volvida a primeira década dos anos 2000, no contexto ocidental de modernidade tardia marcado por alterações paradigmáticas, pela multiplicidade e diversidade de desafios globais e locais económicos, sociais e ambientais, o conceito de inovação social é reavivado (Comissão Europeia, 2011) e ganha uma nova centralidade nos discursos mediáticos, científicos e políticos. Parafraseando Vasconcelos (apud Meneses, 2009), se os anos 80 e 90 se focaram nas dimensões tecnológica e económica da inovação, o século XXI é cenário da inovação social.

»Com efeito, a profusão de discursos apologéticos da inovação como vantagem competitiva e/ou como motor do desenvolvimento societal intrinsecamente positivo, aliada à carga denotativa e conotativa acumulada ao longo do seu percurso sóciohistórico, resulta num processo de mainstreaming do conceito, que pode representar, quer uma inflação concetual difícil de gerir (desde logo em termos comunicacionais), quer uma utilização abusiva e pouco rigorosa dos seus postulados. É nesse sentido que a Comissão Europeia (2011) alerta para uma tendência errónea de mera rotulagem de toda e qualquer ação com impacto social, enquanto inovação social.

»De modo a desconstruir algumas visões que impedem a expressão do potencial heurístico que inequivocamente o conceito tem e que dele não abdicamos, pretendemos esclarecer, a partir de três critérios, o conceito de inovação social, postulando que a inovação i) surge contextualizada num espaço e num tempo; ii) tem campos de aplicação ou domínios de intervenção diferentes (técnico, político, organizacional e social, propriamente dito), os quais não são mutuamente exclusivos; e toda ela iii) tem efeitos (resultados e impactos) sociais.

»O primeiro requisito remete para o facto de, em todas os lugares e épocas, existirem inovações que mantêm o seu caráter de originalidade até ao momento da sua difusão alargada, altura em que são apropriadas socialmente por vários setores de atividade e territórios e por diferentes domínios de intervenção. Na terminologia clássica da inovação tecnológica, teríamos dois grandes tipos de inovação na proposta de Freeman e Perez (1988): uma de cariz incremental e outra com cariz radical3.

»Mais recentemente, Christensen (1997) introduz o conceito de inovação disruptiva que tem sido muito adotada pela literatura da inovação social (e.g. Mulgan, 2010). Christensen e Bower (1995) distinguem entre duas vertentes da inovação, uma de cariz sustentável e outra assente numa dinâmica disruptiva. Cruzando as perspetivas da dupla de autores, Christensen e Bower (1995) por um lado, e Freeman e Perez (1988) por outro, parece que a maioria das inovações em produtos e serviços são sustentáveis, no sentido de incrementais (e.g. garantem uma melhoria da qualidade, sem implicar grandes riscos, mas contribuindo para uma maior satisfação).

» A inovação disruptiva é já uma inovação radical, pois apresenta soluções mais eficientes do que as existentes, e em rutura com as mesmas. Mais recentemente, Christensen, Baumann, Ruggles e Sadtler (2006) definem o conceito de inovação catalítica, assente no modelo original de inovação disruptiva, mas que tem como grande meta a mudança social sistémica por meio da escala e da replicabilidade da solução, oferecendo produtos e serviços que, sendo geralmente mais simples e mais baratos do que as alternativas existentes, têm resultados positivos. Independentemente das tipologias de caraterísticas, o caráter transitório e imaterial da inovação expressa-se de forma inequívoca na definição que Kotler propõe, isto é, a inovação “como qualquer bem, serviço ou ideia que é percebido (…) como sendo novo. A ideia pode ter uma longa história, mas é uma inovação para a pessoa que a vê como nova” (Kotler, 1999, p. 305) e, alargando o seu âmbito, para a empresa que não a implementava, para a comunidade que a desconhecia ou para o país que a ignorava. É aqui que reside o seu potencial de replicabilidade, indicador tão disseminado de inovação social (que será retomado adiante), mas que tem a particularidade de ser comum a qualquer tipo de inovação.

»O segundo requisito remete para a área de aplicação ou domínio de intervenção e sua abrangência transversal. Alguns exemplos mostram como é difícil associar um único qualificativo ao vocábulo de inovação, dada a sua hibridez. Retenhamos a nossa atenção no trabalho em parceria entre diferentes setores de atividade ou entre organizações, caraterístico de um novo modelo de relacionamento com os stakeholders, inspirado na sociedade em rede que é designado de inovação social.

»Porém, o trabalho em parceria não representa mais do que uma nova forma de arranjo organizacional, baseado num modelo de estrutura matricial e por projeto, que permite tirar partido das complementaridades em atuação sinergéticas, capazes de satisfazerem melhor as necessidades sociais, o que nos remete, sobretudo, para uma inovação organizacional. E algumas práticas de responsabilidade social, como sejam o voluntariado empresarial, podem ser consideradas uma inovação social para as empresas que as promovem, no entanto, poderemos considerá-las como tal no âmbito dos modelos de intervenção utilizados para com os destinatários? Umas eventualmente sim, outras provavelmente não!

»A criação de um produto pro tech dry para minorar os efeitos de desconforto da incontinência é uma inovação técnica no produto ou uma inovação social? E um telemóvel com ecrã de visualização e teclado de algarismo adequados aos mais idosos? São com certeza inovações técnicas, que têm resultados positivos para os utilizadores. Serão por isso inovação social? O microcrédito poderá ser apelidado de uma inovação social em termos de combate à pobreza num país em desenvolvimento, como o Bangladesh, onde surgiu com o Grameen Bank. Porém, provavelmente é mais correto considerá-lo uma inovação política na UE, que criou programas específicos de microcrédito para promover o autoemprego, em contexto de recessão económica.

»De acordo com o terceiro aspeto, salientamos que toda a inovação é necessariamente social, independentemente das restantes dimensões envolvidas.

»Visto que toda a ação humana resulta de processos de construção social e tem resultados e impactos que afetam as comunidades e as pessoas nas suas vivências quotidianas, com maior ou menor amplitude. Neste sentido, toda a inovação, independentemente do campo de aplicação, é inerentemente social na sua germinação e no seu potencial impacto, podendo estes consideraremse significativos ou não, intencionais ou não, valorizados ora positivamente, ora negativamente. Deste modo, promove-se uma visão holística e integrada da inovação, que a compreende como um fenómeno evolutivo que integra procesos e resultados que influem nos três pilares do desenvolvimento sustentável – social, económico e ambiental.

»Feitas as salvaguardas, a nossa proposta vai ao encontro daquilo que, de acordo com a abordagem feita no âmbito do TIPSIE4, são um conjunto de traços comuns e consensuais nas problematizações do conceito de inovação social que pretendemos analisar, na sua especificidade de aplicação às OTS. Trata-se de: “um subtipo de inovação; é nova para quem a aplica; produz resultados específicos que constituem uma melhoria mensurável das práticas já existentes; pode ocorrer em qualquer setor e intersetorialmente; tem várias fases; é específica a um contexto; não é neutra do ponto de vista dos valores; possui uma dimensão de produto ou conteúdo e outra dimensão de processo; altera as relações sociais no que se refere à governança; promove a resiliência social e melhora as capacidades sociopolíticas dos beneficiários e o acesso aos recursos [dimensão de empoderamento]” (Caulier-Grice, Davies, Patrick & Norman, 2012, p.16).

»Assumindo os traços caraterizadores propostos e as ressalvas que os três critérios expostos anunciam, entre outros que aqui não foram problematizados, consideramos que a abrangência do conceito de inovação social não abona em favor da necessária delimitação operacional teórica e metodológica. Deste modo, propomos um entendimento do conceito de inovação social limitado aos modelos de intervenção em OTS, ainda que aceitando – em benefício da clarificação do conceito e da sua operacionalização rigorosa – a crítica de que, reservar a designação social aos casos de inovação ocorridos na esfera da intervenção, sem considerações quanto à imbricação com o complexo de agência, pode ser tanto ou mais redutor como considerar que uma inovação potenciada por uma invenção tecnológica se limita a processos técnicos e a resultados instrumentais. Não negamos a pluralidade de efeitos nem de causas, mas delimitámos o conceito a partir da sua orientação de base para a intervenção social e estudámos com rigor a inovação social em OTS como caraterizadora, ou não, de um modelo de intervenção. Deste modo, propomos diferenciá-la da inovação organizacional, esta entendida como modelo de gestão, que adiante retomaremos com a sistematização do nosso modelo de análise.»





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2016/09/22

Américo Henrique Rodrigues Ramos dos Santos: «Trabalho, formação e inovação»



Sociedade, Tecnologia e Inovação Empresarial. Colóquio promovido pelo Presidente da República. 7 e 8 de Fevereiro de 2000. Fundação Calouste Gulbenkian. Imprensa Nacional-Casa da Moeda





«A sessão 4, Trabalho, Formação e Inovação, teve intervenções da Prof.ª Doutora Maria João Rodrigues, Sr. Henrique Neto e Prof. Doutor António Brandão Moniz. Moderou a sessão o Prof. Doutor Américo Ramos dos Santos. O debate das ideias expostas pelos oradores convidados foi particularmente intenso. Eis uma síntese das intervenções e do debate havidos.



»1. Foram identificados vários novos e estratégicos desafios na articulação entre o trabalho, a formação e a inovação. O primeiro desafio é o da velocidade da mudança. Os processos de mudança, em particular os que estão articulados com a produção, transmissão e difusão da informação, verificam-se a uma velocidade sem precedentes. Esta velocidade implica uma forte capacidade de reacção rápida, muitas vezes antecipada, ao imprevisto ou à surpresa.

»A necessidade de criar esta capacidade colocou questões decisivas ao nível da orientação da produção do conhecimento, da organização dos processos produtivos, da formação dos saberes e das competências e da estruturação das organizações. No que respeita à inovação, a velocidade da mudança tem consequências potencialmente perigosas. A importância crescente da lógica de mercado, a que já se chama o “império da economia da procura”, poderá conduzir a uma orientação imediatista da produção do conhecimento.

»Esta situação está presente nas pequenas melhorias incrementais, nas reformatações de modelos ou nos novos produtos. O mesmo é dizer que a “velocidade” pode ser “mal assumida”, através do desvio de recursos públicos e privados, para a geração de conhecimento não radical. É o novo conhecimento radical, essencial, que, em regra, dá origem a novos sectores económicos, base do crescimento sustentável. É o que está a acontecer presentemente com as formas de produção, transmissão e difusão da informação, que estão a criar novos sectores económicos, quer directa quer indirectamente.

»O carácter transversal da informação e das tecnologias da informação permitirá igualmente a transformação de sectores antigos, maduros. É a esta dupla mudança, novos sectores vs transformação de antigos sectores que, por vezes, se designa de “Nova Economia”, o que é manifestamente um exagero e, provavelmente, uma ilusão. Uma “Nova Economia” vai necessitar de muito mais conhecimento e da sua transformação em inovação. Infelizmente ainda estamos longe de uma tal situação. Não será isso o reflexo de uma menor importância da investigação fundamental na estratégia das empresas e das instituições, a nível mundial?



»2. O segundo desafio é a necessidade urgente de novas competências.

»O saber é um compósito que integra a potência conhecimento, informação, capacidade e competência. Poder-se-á afirmar ser mais correcto falar em novos saberes que envolvem novos conhecimentos e novas competências e pressupõem novas capacidades e acesso à informação.

»Esta visão interligada é tão mais importante quanto o conhecimento transformado em informação — conhecimento codificado — assume um papel crescentemente importante, mas não decisivo (o conhecimento tácito, aquele que está impregnado no indivíduo, continua a ser determinante). Se nos concentrarmos na componente “competências” do saber, verifica-se uma necessidade crescente de: compreensão de problemas, formulação e implementação de soluções; capacidade de abstracção; responsabilidade baseada na iniciativa; capacidade de antecipação face ao imprevisível e à surpresa; adaptabilidade à mudança; capacidade de aprender ao longo da vida; capacidade de comunicação e de trabalho em equipa, codificação e descodificação da informação. Como organizar a construção destas competências?



»3. O terceiro desafio deriva do papel estratégico da inovação.

»Como já referido, a velocidade da mudança tem imposto modificações sensíveis nos objectivos e processos de produção da inovação. A interpretação mais tradicional das relações entre a expansão da economia e a inovação destaca o papel da ciência e da progressão do conhecimento e de um agente captor e difusor do conhecimento transformável em tecnologia e economicamente viável: o empresário. Schumpeter via as coisas assim, seja inicialmente como pequeno empresário seja posteriormente ao nível da grande empresa. Uma interpretação posterior coloca o mercado como a fonte determinante do processo de inovação.

»Algumas interpretações da designada “Economia da Procura” encontram aqui um bom fundamento. O empresário passa a privilegiar a informação oriunda do mercado e com ela conduz as suas relações com o sistema científico-tecnológico.

»Mas a velocidade, a rapidez da mudança não é muito compatível com esta interpretação segmentada. A inovação é, nas suas diferentes dimensões, considerada um factor estratégico de competitividade. A velocidade e a competitividade impõem uma aproximação integrada à inovação, quer nas suas dimensões (tecnológica, social, organizacional…) quer nas relações a estabelecer com os diversos actores e instituições.

»Esta aproximação assume com frequência a noção de sistema de inovação. Noutras circunstâncias fala-se em rede de inovação. Ou seja, a inovação é cada vez mais um resultado de parcerias. Para um país com as características, a dimensão de Portugal e a sua inserção económica, como construir estas parcerias?



»4. Para responder a estes desafios, os intervenientes e o debate apresentaram interessantes e inovadores contributos, dos quais destacamos os seguintes: v

»ii ) A resposta à velocidade e ao atraso estrutural, num país como Portugal, implica a articulação e concentração simultânea de factores de aceleração. Esta articulação deverá ter como núcleo central os factores competitivos dinâmicos, em que Portugal deverá apostar. A ligação entre aceleração e competitividade deverá constituir o fundamento da política de intervenção do Estado. v

»ii ) As unidades de aprendizagem são múltiplas e diversificadas, em que o indivíduo é apenas a peça nuclear. Numa sociedade de aprendizagem, todos aprendem: as escolas, os centros de formação, as empresas, os governos, a administração pública…

»iii ) A resposta aos novos desafios implica deslocar o centro de gravidade da sociedade, do Estado para a sociedade civil, em que o Estado assume um papel facilitador/regulador/articulador e os indivíduos, as empresas, as organizações ou as redes o papel dinamizador da mudança. i

»iv ) A necessidade de passar da convergência dos diagnósticos à convergência das soluções, impõe uma nova perspectiva na criação de redes, em particular nas redes que visam fomentar, produzir ou difundir inovação (redes de inovação). Esta nova perspectiva deve passar a ser centrada em projectos concretos a desenvolver, e não em meras intenções, dando lugar a verdadeiras parcerias, numa lógica de aposta comum e de risco.

»O sucesso destas parcerias poderá vir a estar fortemente ligado à capacidade de articular e mobilizar empresas, centros tecnológicos, laboratórios ou institutos públicos e universidades, nacionais e estrangeiras, numa lógica de sustentabilidade a longo prazo. ii

»v ) O sucesso destas parcerias, ao nível da indústria portuguesa, poderá ter por base a exploração de oportunidades que possam derivar de uma orientação para produtos finais competitivos. Esta orientação poderá ser realizada pela intensificação do investimento directo estrangeiro que traga mercados de produtos compatíveis com as qualificações nacionais e que envolvam empresas portuguesas fornecedoras de consultadoria, engenharia, I&D, ferramentas, componentes, sistemas de embalagem ou montagem. Mas aquela orientação deverá também ser desenvolvida através de produtos inovadores, não existentes no mercado internacional, o que pressupõe competitividade e soluções sustentáveis, na base de parcerias internacionais avançadas e exigentes.

»vi ) A necessidade de responder com rapidez à necessidade de novas competências impõe sistemas articulados, mas flexíveis, de educação-formação. Nas sociedades de aprendizagem não são apenas os indivíduos que aprendem e fazem aprender. As organizações, as empresas também o fazem. Há, porém, uma alteração de rumo que importará considerar: a empresa como pólo essencial da formação das competências.

»A empresa que aprende e forma (empresa-formadora) deverá ser o eixo nuclear do sistema de formação. Tal não deverá significar, porém, o reinado de uma visão utilitarista da educação e da formação. Colocar a empresa/organização no centro do sistema de formação será um importante factor de aceleração na produção de competências.

»Neste sentido a intervenção do Estado no sistema de formação deverá passar de uma lógica de intervenção directa e de subsídio para uma função de co-investidor. O mesmo se dirá das empresas/organizações que devem deixar uma postura subsídio-dependente para uma atitude activa de investidor na formação.

»vii ) Enquanto o sistema de formação poderá ser mais flexível na resposta às necessidades do mercado, ao sistema de ensino, em particular à Universidade, compete a grande responsabilidade de criar as bases para uma sociedade de informação e do conhecimento.

»A natureza crescentemente pluridisciplinar e matricial do conhecimento obriga a uma transformação profunda dos conteúdos do ensino e da forma de organização das Universidades, onde as formas interactivas e o ensino à distância tendem a dominar.»





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2016/09/21

«Existem diferentes tipos de líderes inovadores, e essa diferença é enriquecedora». Isabel dos Santos (@isabelaangola) no Fórum #TEHA #ambrosetti Intelligence on the World, Europe, and Italy



«Isabel dos Santos: Inovar e saber suspender um negócio são fundamentais no sucesso». Expresso (@expresso)





«A empresária angolana Isabel dos Santos considerou este domingo num evento em Itália que as boas ideias e a capacidade de inovar são fundamentais para o sucesso de qualquer negócio, realçando que é igualmente importante saber quando suspender um projeto.

»“Uma ideia e a capacidade de inovar está no centro de qualquer negócio”, afirmou Isabel dos Santos durante a sua intervenção na reunião “Leader del Futuro”, na 42.ª edição do The European House – Ambrosetti Forum [Intelligence on the World, Europe, and Italy], um dos mais influentes 'think tanks' da Europa e que reuniu este fim-de-semana no Lago de Como, em Itália, empresários, economistas, políticos e cientistas de todo o mundo.

»Segundo a presidente do Conselho de Administração da Sonangol e da Unitel, “tanto é importante nutrir as ideias e inovações, para que se desenvolvam como negócios eficazes, como é necessário saber quando suspendê-las, seja porque seriam impossíveis ou então por serem demasiado rebuscadas - especialmente em mercados emergentes”, lê-se num comunicado divulgado através da assessoria de imprensa da filha do líder de Angola, José Eduardo dos Santos.

»Nesta conferência internacional sobre Liderança e Inovação, Isabel dos Santos, que foi uma das oradoras no painel sobre África, intitulado “Liderança e Negócios”, vincou que a disciplina e a liderança são essenciais para pôr em prática boas ideias.

»“Nunca devemos deixar que expetativas ou estereótipos dificultem o nosso caminho”, aconselhou a empresária.

»Para Isabel dos Santos, existem diferentes tipos de líderes inovadores, e essa diferença é enriquecedora, tendo destacado os exemplos de Steve Jobs, Mark Zuckerburg, Elon Musk e Richard Branson. “Os empreendedores devem inovar constantemente para corresponder às necessidades sempre em mudança dos consumidores, e lidar com a concorrência crescente e com os avanços tecnológicos, porque sem inovação a liderança fica estagnada”, assinalou. E destacou: “Ao trabalhar com mercados emergentes, é muito importante compreender o ambiente de negócio e as necessidades do mercado alvo”.

»A responsável apontou para um estudo desenvolvido pela consultora Deloitte, segundo o qual a classe média africana triplicou nos últimos 30 anos, numa trajetória que sugere que irá aumentar em 42% até 2060. Isabel dos Santos salientou também o conceito de “inovação revertida” ('reverse innovation') e da sua importância em mercados emergentes.

»“Baseia-se na necessidade de os mercados emergentes terem produtos mais simples e de baixo custo, levando então à criação de produtos feitos à medida para determinado mercado, os quais podem depois ser melhorados para os mercados desenvolvidos”, sublinhou.

»O Fórum The European House – Ambrosetti [Intelligence on the World, Europe, and Italy] decorreu de 2 a 4 de setembro, com a participação de mais de 200 gestores de topo a nível mundial. O objetivo desta iniciativa é dar a oportunidade a decisores do mundo dos negócios, governos, ciência e tecnologia para fazerem uma análise séria e de alto nível - com o apoio de estudos e estatísticas que são apresentados e debatidos ao longo do evento - de cenários geopolíticos, económicos, tecnológicos e sociais e as suas implicações para os negócios e as nações do mundo.

»Em edições recentes já participaram Kofi Annan, Joe Biden, Bill Gates, Henry Kissinger, Christine Lagarde, Shimon Peres, Wolfgang Schäuble ou Jean-Claude Trichet.»


Saiba mais:

Disruptive Innovation and New Business Models / Innovazione dirompente e nuovi modelli di business. Electronic Poll Results / Risultati del televoto




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2016/09/20

Cabo Verde: «Novo ano lectivo e ensino secundário: Taxa de reprovação ultrapassa os 23%»



Celso Lobo. ASemana Online




«Cabo Verde regista uma taxa de reprovação de mais de 23 por cento a nível do ensino secundário durante o ano lectivo findo. Na abertura do novo ano lectivo 2016 17, essa notícia preocupa os alunos, pais e encarregados de educação.

»Os números sobre a reprovação no ensino secundário fornecidos pela Direcção-Geral do Planeamento, Orçamento e Gestão (DGPOG) e pela Direcção Nacional da Educação (DNE) indicam que dos 51.810 alunos inscritos nesse subsistema de ensino, no ano lectivo 2015-2016, somente 48.201 estudantes conseguiram chegar ao fim do ano liceal.

»O insucesso escolar atinge 3.609 alunos, correspondente a uma taxa na ordem dos 7 por cento. Daquele universo, 23,4 por cento ficaram retidos, com maior incidência no ex-2º ciclo (10º e 11º anos), em que as reprovações chegaram a atingir os 24 por cento, precisam as mesmas fontes.

»Para esta preocupante taxa de reprovação terão contribuído, segundo o Ministério da Educação, vários factores. Dentre esses, destacam-se os de ordem social, cultural e económica, que condicionam o sucesso escolar dos alunos cabo-verdianos.

»Estudos realizados pelo ME, através da DGPOG-SEPC, revelam que as áreas curriculares que colocam maiores dificuldades aos alunos são as de Língua Portuguesa e Matemática. “Na maioria dos casos, a retenção ocorre quando o aluno reprova, simultaneamente, nestas duas disciplinas, o que demonstra a necessidade de se atribuir às mesmas, uma maior atenção, apostando em processos mais efectivos de dinamização das actividades lectivas, garantindo uma aprendizagem significativa e proporcionando mais interesse dos alunos pelos conteúdos dinamizados”, salienta o ME.


»Reflexão e novos métodos de ensino

»Segundo as nossas fontes, o ME tem vindo, através do reforço do ensino da Matemática e da Língua Portuguesa e da capacitação de professores, a incentivar a classe docente a definir processos, estratégias e práticas inovadoras de diferenciação pedagógica. Tudo com o fito de apoiar os alunos em risco de insucesso. O enfoque sobretudo nas duas disciplinas referidas é apontado como necessário a título preventivo, se se quiser diminuir o insucesso dos alunos nas escolas secundárias do país.

»Ouvidos por este jornal, alguns professores e técnicos em educação de várias escolas secundárias da Praia alegam que a problemática da retenção no sistema educativo cabo-verdiano assume contornos preocupantes. Isto quer pela expressão, quer pela ineficiência e ineficácia de medidas até agora implementadas para a melhoria do desempenho escolar dos alunos. Atendendo à importância que esta matéria assume no sistema educativo cabo-verdiano, a Direcção Nacional de Educação pretende desenvolver um processo de reflexão e análise sobre a retenção escolar, ainda este ano. A iniciativa tem por objectivo conhecer melhor os contornos desta problemática, bem como apresentar caminhos que possam conduzir à alteração da cultura de retenção vigente no sistema educativo nacional. Apesar dos dados referidos, a directora-geral do Planeamento, Orçamento e Gestão assegura que o Ministério da Educação tem desenvolvido conteúdos multimédia para auxiliar os professores no ensino da matemática. “É uma forma de garantir uma aprendizagem mais consolidada e efectiva nesta área disciplinar”, esclarece Ana Costa. Esta responsável garante que o ME está a fazer o mesmo para a língua portuguesa, que se acredita possa vir ajudar na superação de várias dificuldades identificadas.


»Mudanças e estratégias de ajudas

»“Outros desafios do ME, para este ano lectivo que ora começa, visam as orientações no sentido de se introduzir medidas que garantam mudanças nas práticas escolares, como sendo a capacitação dos recursos humanos e dos espaços escolares, permitindo, por um lado, que as crianças beneficiem de aulas de recuperação e de remediação para o reforço das suas aprendizagens e, por outro lado, se aumente o tempo de permanência das crianças nas escolas, como estratégias de combate ao insucesso e abandono escolar”, diz Ana Costa.

»Na perspectiva de pôr cobro a determinadas situações de insucesso escolar, o ME garante que pretende, através das Delegações Escolares e da sua articulação com os educadores e direcções das escolas, trabalhar numa lógica de proximidade, apoiar a implementação dos planos curriculares e garantir todo o apoio que se afigurar necessário para dinamizar as práticas pedagógicas inovadoras. Essas medidas, conforme fontes da DNE, enquadram-se num ano lectivo de preparação para criar e implementar uma nova dinâmica voltada para uma gestão escolar e supervisão pedagógica capazes de dar uma “nova vida” às escolas, perspectivando-se melhorias consideráveis a todos os níveis.

»Mas os desafios do sistema educativo não ficam por aí. O governo pretende ministrar formação específica e contínua aos professores. É que o ME entende que será necessário melhorar o processo de ensino-aprendizagem, através da formação contínua dos professores, reforçando as suas competências pedagógicas, designadamente com acções como o “Lab in a box” (ensino com base no laboratório e na multimédia) que garantam uma abordagem das ciências centradas em metodologias mais práticas.

»Entretanto, o ME alerta que que a análise dos percentuais de reprovação ao longo dos três últimos anos civis mostra que não há uma tendência definida em sua evolução. Para cada ano escolar, variam os percentuais de reprovação nos diferentes anos e ciclos, sendo ora ligeiramente mais altos, ora ligeiramente mais baixos, embora não se tenha testado a significância estatística dessas diferenças.

»Para que os alunos alcancem mais e melhores resultados, quer a nível do básico, quer a nível secundário, Ana Costa apela aos professores para desencadearem estratégias de apoio aos primeiros sinais de dificuldades, com particular incidência nos primeiros anos de escolaridade de cada ciclo, e conceberem programas intensivos e exigentes de apoio para cada tipo de dificuldade que surge.»





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