2016/07/29

Mafalda Simões Monteiro: «Escritórios do futuro: custos controlados, mais liberdade»



OJE. Fonte: IDC.



«São cada vez mais as empresas, de qualquer dimensão, a optar por colocar os seus colaboradores a trabalhar em espaços de trabalho não-tradicionais. A transformação digital permite trabalhar em qualquer lugar, a qualquer hora. Trabalhadores móveis e felizes. É o futuro.


»Escritórios Modernos

»A transformação digital está a contribuir para a mudança dos espaços de trabalho. O caminho já começou, mas ainda muito vai acontecer a breve trecho.

»A globalização, as alterações demográficas, as tendências societárias, os desenvolvimentos em matéria de políticas de redução de emissões de carbono e, naturalmente, as tecnologias são as cinco forças externas que vão mudar a forma de trabalhar até 2025, segundo a London Business School.

»Em matéria de tecnologias esta mudança está assente nos quatro pilares da chamada terceira plataforma: cloud, big data/analytics, negócio social e mobilidade, como descreve a IDC.

»A mudança é imparável. Basta ver o vídeo, que se tornou viral na Internet, “Evolution of the Desk”. Este vídeo foi realizado por dois empreendedores residentes no i-lab de Harvard, com o objetivo de promover a sua própria startup BestReviews.

»O vídeo mostra o que aconteceu às nossas secretárias em apenas três décadas: o computador tornou-se portátil e muita coisa desapareceu de cima da mesa. O fax, os cadernos, os calendários, os rádios, as fotos da família e dos animais de estimação, as revistas, os jornais e os livros, a agenda de contactos, a máquina fotográfica e até as chaves de casa foram gradualmente sendo substituídas por aplicações ou transformadas em algo totalmente diferente. Tudo está agora em dispositivos móveis (portáteis, smartphones, tablets, wearables).

»Os gabinetes deram lugar a open spaces, os open spaces estão a dar lugar a novas disposições dos postos de trabalho, a novas formas de trabalhar e reunir à distância e os espaços partilhados de coworking estão a conquistar o seu lugar.

»No entanto, “os escritórios como hoje os conhecemos vão continuar a existir. Contudo, os profissionais da economia moderna e as novas gerações valorizam cada vez a flexibilidade e a possibilidade de trabalhar a partir de vários locais, sejam eles escritórios tradicionais, espaços em coworking, a sua casa ou uma esplanada na praia”, defende Carlos Gonçalves, CEO dos Avila Business Centers.

»Entretanto as empresas devem delinear uma estratégia para se adaptarem os espaços de trabalho digital, envolvendo os departamentos de tecnologias de informação. Segundo Gabriel Coimbra, diretor-geral da IDC Portugal, as empresas devem discutir internamente as principais tendências do espaço de trabalho digital; compreender os objetivos da organização, incluindo a situação atual (perfis de utilizadores) e nível de maturidade do local. Devem despois avaliar as diferentes ofertas no mercado e delinear dois ou três cenários, incluindo os custos de propriedade (TCO), as vantagens e os riscos. Segue-se a fase de definição da estratégia e do roadmap, ajustados à maturidade, objetivos da organização e soluções atualmente disponíveis.


»Espaços partilhados

»Segundo o Global Coworking Survey, do Avila Business Centers, “entre 2014 e 2016 registou-se um aumento de espaços de coworking na ordem dos 36%, resultando num total de 7800 espaços a nível mundial. Estima-se que haja meio milhão de profissionais a trabalhar atualmente neste modelo, sendo que Portugal está na 8ª posição no ranking mundial em termos de espaços de coworking per capita, de acordo com o último censo de coworking realizado em 2013”, diz Carlos Gonçalves. E porque optam as empresas por estes espaços? Porque é possível, por exemplo, poupar na renda do imóvel, como afirmam mais de 50% dos inquiridos.

»Também em matéria de tecnologia, os preços têm vindo a tornar-se mais interessantes. A tecnologia “permite às empresas racionalizar custos. Julgamos que é uma tendência para continuar”, assinala o administrador da Nos Comnicações, João Ricardo Moreira.

»Existem ainda poupanças não monetizáveis como o aumento do bem-estar e felicidade dos profissionais, conclui Carlos Gonçalves.

»Hugo Filipe, Community manager do Rocket Hub, um dos mais recentes espaços de coworking de Lisboa, confirma que os espaço de cowork e comunidade de trabalho têm menos custos para as empresas. Os custos fixos são substituídos por custos mais baixos em localizações muitas vezes premium em grandes centros urbanos. A flexibilidade deste tipo de espaço permite por exemplo às equipas da empresa mudar de cidade ou de país, sem grandes custos, “dependendo da estratégia da empresa ou vontade de atuação em diferentes mercados”.

»“São cada vez mais as empresas e os empresários a procurar ambientes de cowork. São espaços onde é fácil partilhar informação, tirar partido do networking e crescer “de forma mais eficaz e eficiente” nos mercados em que atuam. Se até agora esta era uma realidade para muitas startups, no futuro “a tendência é para que estes sejam os novos escritórios das grandes empresas em Portugal e no mundo”, prognostica Hugo Filipe.

»O que se enquadra nos grandes eixos estratégicos das empresas. Na economia moderna, as palavras-chave para as empresas são “liberdade, flexibilidade e equilíbrio entre a vida pessoal e profissional”, assinala Carlos Gonçalves. “O escritório do futuro será cada vez mais a combinação de três modelos de trabalho: escritório tradicional, espaço partilhado de trabalho (coworking) e teletrabalho com o apoio do serviço de escritório virtual”.

»Para a NOS Comunicações os eixos estratégicos são semelhantes: Segundo João Ricardo Moreira são eles a “mobilidade, interatividade e flexibilidade”. A estes eixos soma-se o recurso cada vez maior a “plataformas digitais de última geração”.


No futuro, “os líderes das empresas terão de aprofundar as suas competências para novas formas de gestão, quer ao nível dos recursos humanos, quer ao nível tecnológico. Terão de redimensionar os espaços de trabalho para centros de cooperação, onde o trabalho em equipa será vital.

»Trabalho móvel

»Em Portugal, as previsões apontam para vendas, em 2020, de 3,8 milhões de smartphones, 1,3 milhões de tablets e 363 mil híbridos (tablets e portáteis), refere João Ricardo Moreira. “Estes números confirmam que vamos ser cada vez mais móveis com possibilidades de trabalhar em qualquer lugar. A uma maior mobilidade terá de corresponder uma interatividade cada vez maior e mais precisa, com novas possibilidades de tratar informação, documentos e imagens. A flexibilidade é a evolução natural de mais mobilidade e mais interatividade”, explica João Ricardo Moreira.

»Daqui para a frente o caminho é inimaginável, entrar-se-á no mundo da Internet das Coisas em que tudo estará interligado: os “wearables”, os automóveis, as televisões, o frigorífico e tantos outros objetos do dia-a-dia, mas também nas empresas, facilitando a rastreabilidade dos produtos alimentares ou o trabalho nas plantas das fábricas, como explica Gabriel Coimbra nas suas apresentações. Centenas de empresas já nasceram na terceira plataforma. A Uber, o Twitter, o WhatsApp, o Snapchat, o Pinterest, a Airbnb ou a Dropbox são apenas algumas entre elas.

»Atualmente, em muitas profissões é possível trabalhar com o recurso a pouco mais do que um computador portátil e um smartphone, onde quer que se esteja, a qualquer hora e em qualquer dia. Dentro de apenas quatro anos, a política “não-cloud” será tão rara como a política “não-Internet” é atualmente, assinala o Gartner. Entretanto, muitas empresas já estão a tirar partido da cloud e a optar até por “apenas cloud”, refere o Gartner. No futuro a utilização da cloud híbrida (um misto de cloud privada para os dados mais sensíveis e de cloud pública para os dados menos sensíveis) será o tipo de utilização predominante.


»Multigerações

»Em 2020, irão conviver nos espaços de trabalho quatro ou cinco gerações, refere Gabriel Coimbra. No conjunto, os millenials (nascidos entre 1985 e 1997) e os nativos digitais (nascidos após 1998) vão representar mais de metade da força de trabalho nas empresas. O que tem também impacto ao nível do consumo.

»Os trabalhadores, especialmente os mais novos, devem estar envolvidos (o famoso “engaged”), tendo a possibilidade de colaborar em tempo real. Deste modo a produtividade aumenta, desde que se acabem com os silos de informação. Os líderes terão de envolver também os cidadãos e utilizadores através da resposta em tempo real, criando experiências imersivas e serviços contextualizados.

»As tecnologias, assentes na cloud, trarão vantagens atualmente inimagináveis para os trabalhadores: capacidade de armazenamento, de acesso, de sincronização e de partilha, simplicidade, maior colaboração e produtividade, espaços de trabalho digitais e modernos. Mas colocam também enormes desafios em matéria de TI: controlo, riscos de segurança e de compliance e ainda a possibilidade de fragmentação do armazenamento e do conteúdo.


»Comunicações e segurança e mobilidade

»Há tecnologias que as empresas do futuro não podem descurar. O que não pode faltar nesses espaços? Dispositivos móveis, incluindo portátil, smartphone ou tablet, Internet e aplicações na nuvem são apontados pelos responsáveis dos espaços de co-work.

»Mas a NOS vai mais longe. João Ricardo Moreira considera que, “sabendo que as questões de segurança e de armazenamento da informação serão cada vez mais críticas para os negócios das empresas, não poderão faltar sofisticados sistemas de segurança quer para impedir ataques informáticos, quer para evitar a perda de dados. Também não poderão faltar sistemas que facilitem a internet of things e um tratamento adequado do big data. As telecomunicações terão de ser cada vez mais integradoras de sistemas e facilitadoras de negócios”.

»Soluções de escritórios virtuais, para aceder ao escritório em qualquer lugar e em qualquer momento, serão também opções, como avança Carlos Gonçalves.


»Colaboradores querem flexibilidade e liberdade

»Quando as gerações mudam, as mentalidades se ajustam e os espaços de trabalho evoluem, é importante que todos se adaptem. No futuro, “os líderes das empresas terão de aprofundar as suas competências para novas formas de gestão, quer ao nível dos recursos humanos, quer ao nível tecnológico. Terão de redimensionar os espaços de trabalho para centros de cooperação, onde o trabalho em equipa será vital. Terão também de contar com colaboradores cada vez mais competentes a nível tecnológico, sintonizados com a desmaterialização de processos. A acreditamos que a circulação de papel vai mesmo chegar ao fim”, frisa João Ricardo Moreira.

»Já Carlos Gonçalves considera que os líderes já estão a identificar vantagens nos novos modelos de organização de trabalho, nomeadamente ao nível da produtividade das equipas. É o caso do Facebook e da Accenture que “reduziram drasticamente custos com arrendamento de escritório quando decidiram adotar modelos de flexibilidade laboral. As pessoas podem trabalhar parte do tempo a partir destes espaços, não perdem tempo em deslocações e estão mais próximas das famílias”, explica Carlos Gonçalves.

»Os colaboradores, em particular os mais novos, os millenial, valorização, para além da remuneração, o espaço de trabalho e a flexibilidade associada aos horários e ao local onde podem desenvolver as suas tarefas. Tanto Carlos Gonçalves como João Ricardo Moreira apontam a “liberdade” como algo que os mais jovens valorizam. O que é complementado com a necessidade de espaços de trabalho “altamente atrativos” e “menos tradicionais”, onde possam desenvolver as suas atividades de forma “mais informal e criativa”, como explica o responsável da Rocket Hub.

»Mais que o local onde o trabalho é desenvolvido, para os jovens, o importante são os resultados apresentado. Mas as preocupações dos novos colaboradores vão mais longe: querem reduzir a pegada ecológica, querem compreender a responsabilidade ética da empresa onde trabalham e ter espaço para a criatividade.


»A evolução da tecnología

»A evolução que temos assistido na utilização de dispositivos é bastante representativa do que se está a passar nos locais de trabalho. Segundo dados disponibilizados por Gabriel Coimbra, diretor-geral da IDC, entre 1995 e 2001 o crescimento do mercado foi acentuado. Numa primeira fase os PC de secretária dominavam, começando a ganhar terreno no início da década de 2000. O mercado crescia, sem que os portáteis e os PC se canibalizassem.

»A partir de meados da década de 2000, em particular a partir de 2004 com o Blackberry e a Nokia e a partir de 2007, com o advento do iPhone, da Apple, a mobilidade foi conquistando adeptos. Em 2006 os portáteis ultrapassaram as vendas de PC e pouco depois também os smartphones ganharam a sua quota. Em 2006, pela primeira vez venderam-se, a nível mundial, mais portáteis que PC e no ano seguinte já se vendiam mais smartphones que PC. Entretanto os portáteis continuaram a ganhar mercado. A reinvenção dos tablets, em 2012, mais uma vez pela mão da Apple, criou uma nova tendência de mobilidade.

»Os PC continuaram a perder expressão, os portáteis foram também penalizados e as vendas de smartphones e tablets não param de crescer até à atualidade. Começam também a surgir soluções híbridas que reúnem num único equipamento dois ou mais tipos de dispositivos, como é o caso dos phablet, ou dos híbridos tablet/portátil.


»Componentes do espaço de trabalho digital

»– E-mail;

»– Internet messaging;

»– Conferências;

»– Partilha de informação e colaboração;

»– Sincroniazação de ficheiros;

»– Ferramentas de produtividade (ex. Microsoft Office);

»– Acesso ao ERP;

»– Acesso a outras aplicações de negócio;

»– Dispositivos;

»– Segurança.»





A execução da inovaçao

2016/07/28

Teresa M. Costa: «Braga: Noite Branca 2016 dá espaço à criatividade gastronómica»





«O município de Braga decidiu dar, este ano, outro sabor à Noite Branca, que acontece no primeiro fim-de-semana de Setembro, criando um espaço de 'Street Food', com oferta alimentar alternativa. O concurso público para exploração da área alimentar de 'Street Food' foi aprovado ontem em sede de reunião do executivo municipal.

»Com esta iniciativa, o município quer dar espaço à criatividade gastronómica, interagindo com os conceitos artísticos e criativos da Noite Branca e dando resposta à exigência dos visitantes em termos de inovação aos mais diversos níveis, num evento que promete 48 horas de música, arte e cultura.

»A Noite Branca de Braga, edição de 2016, distingue-se dos demais pelo seu forte cariz cultural e criativo, aliando aos concertos e animação de rua um programa de performances, instalações e exposições e a abertura ao público dos espaços culturais e turísticos da cidade em horário alargado e com entrada gratuita.

»Com a extensão da duração do evento e o aumento da oferta de actividades, a organização estima que o público da última edição tenha atingido as 300 mil pessoas.

»Este ano, os participantes podem desfrutar de comida alternativa.

»O concurso ontem aprovado destina-se a operadores económicos que exerçam actividade de restauração em meios móveis e que estejam legalmente habilitados para o efeito.

O município de Braga decidiu dar, este ano, outro sabor à Noite Branca, que acontece no primeiro fim-de-semana de Setembro, criando um espaço de 'Street Food', com oferta alimentar alternativa.

»Os estabelecimentos devem estar abertos ao público e a funcionar em pleno no dia 2 de Setembro, das 19.00 às 02.00 horas; no dia 3, das 12.00 às 02.00 horas e no dia 4, das 12.00 às 18.00 horas.

»Todos os interessados poderão consultar o regulamento do concurso, no Balcão Único da Câmara Municipal entre as 09.00 e as 17.30 horas, ou através do si-te institucional: www.cm-braga.pt.

»A selecção dos participantes compete ao júri composto por elementos da organização do evento, de acordo com os critérios de apreciação estipulados no regulamento.

»Todos os candidatos serão notificados dos resultados do processo de selecção para o e-mail indicado no formulário de candidatura até 5 de Agosto de 2016.

»A candidatura deve ser remetida por correio, registada e com aviso de recepção, até 27 de Julho de 2016 inclusive, para a morada: Município de Braga - Noite Branca 2016 - Convento do Pópulo - Praça Conde de Agrolongo 4704-514 Braga. A documentação completa pode ser encontrada no seguinte link:
https://www.cm-braga.pt/pt/0201/home/noticias/item/item-1-4133»





Uma inovação

2016/07/27

Marlene Carriço: «Quando a criatividade fala mais alto, o curso que ‘sa f***»



OBSERVADOR. Fotos: André Marques.



«Uns mudam de curso a meio. Outros acabam-no mas nunca o usam. As histórias da cientista que virou cabeleireira, a licenciada em economia que se dedicou à joalharia e o advogado que nunca exerceu.

»Não é preciso ser um telespetador assíduo da TVI, nem sequer ver muita televisão, para saber quem é Cristina Ferreira. Essa mesmo, a apresentadora. Mas o que, provavelmente, não sabe é que Cristina Ferreira é licenciada em História e até chegou a dar aulas a alunos do ensino secundário. Menos surpreendente, seguramente, será ler que o treinador da Seleção Nacional é formado em Engenharia Eletrónica e Telecomunicações. Afinal de contas, o título tem acompanhado sempre o mister: engenheiro Fernando Santos. Mas fazia ideia que o vocalista dos Blind Zero, e comentador desportivo, Miguel Guedes é formado em Direito? Também duvido. Como vê não faltam exemplos de pessoas que se formam numa área e dedicam a sua carreira a outras artes.



»O advogado Pedro Pinho trocou as leis pela criatividade

»É o caso de Pedro Pinho, 33 anos. Nunca soube exatamente o que queria ser quando fosse grande. Mas como gostava muito de escrever e levado por isso, com alguma convicção, mas sem paixão, licenciou-se em Direito, na Universidade Nova de Lisboa. “O curso de Direito era o que tinha mais saídas. Os meus pais diziam-me isso e eu próprio o testei. Talvez metade dos colegas que estudaram comigo na faculdade saltaram fora. Nunca me apaixonei pelo curso, porque era chato, mas também não tinha ideia de fazer outra coisa.” Ainda assim, no último ano inscreveu-se num minor e fez praticamente o primeiro ano do curso de gestão, que adorou.

»Até fazer a agregação à Ordem dos Advogados foram quase quatro anos e depois disso esteve mais dois anos a exercer, sempre no departamento jurídico da CIMPOR. “Aguentei porque tinha metas. A última meta era entrar para a Ordem. Quando a atingi dei por mim com cédula, um bom ordenado, um trabalho estável, mas sentia que não queria aquilo. O meu lado mais criativo começou a vir ao de cima.”

»“Aguentei porque tinha metas. A última meta era entrar para a Ordem. Quando a atingi dei por mim com cédula, um bom ordenado, um trabalho estável, mas sentia que não queria aquilo. O meu lado mais criativo começou a vir ao de cima.”

»Decidiu então inscrever-se num curso de publicidade de um ano e despediu-se da CIMPOR, onde nunca chegou a cimentar a sua posição. Dias depois começaria a trabalhar na Leo Burnett, uma agência de publicidade onde esteve três anos. Da Leo Burnett saltou para O Escritório. Há três anos nesta agência, Pedro trabalha sobretudo a conta do Sport Lisboa e Benfica, mas também da Super Bock e Licor Beirão.

»“Este ano ganhámos dois leões com o trabalho da Emirates e, ainda mais recentemente, deu-me um enorme gozo porque saiu a lista das campanhas do Euro mais vistas e comentadas e no meio de coisas da Nike saiu um filme para a Licor Beirão feito por nós.”

»“Ganhar prémios em publicidade é quase necessário. É um sinal de reconhecimento. Se não ganhasse já estava desesperado”, explica Pedro Pinho que foi convidado para participar, no final deste ano, em Barcelona, num júri internacional de um dos maiores festivais de publicidade da Europa.

»Pedro Pinho, que admite ser competitivo, afirma que se sente melhor nesta área do que no mundo da advocacia, mesmo que só tenha voltado a ganhar o que ganhava na CIMPOR anos mais tarde e mesmo que este trabalho lhe exija disponibilidade total. “Não me arrependo nada, adoro o que faço.” Mas tem noção que não será o seu emprego para sempre. “Um dia gostava mesmo de ter uma marca própria, um negócio meu. E nessa altura espero que aquele ano que fiz de gestão me seja útil.”



»Rita Costa, que nunca chegou a ser economista, está a aprender joalharia

»Quem também perspetiva um dia ter a sua própria empresa é Rita Costa. Esta setubalense, de 33 anos, decidiu largar tudo, ao fim de 10 anos a trabalhar em agências de publicidade, e dedicou-se à joalharia. Mas vamos ao início.

»Não é só o Marco Paulo que tem dois amores. Rita Costa chegou ao final do 9.º ano com o coração dividido. “Era louca por matemática, mas também gostava muito de artes. E os testes psicotécnicos que fiz na escola não ajudaram” pois apontaram para a mesma encruzilhada. Foram as conversas que teve com os pais que levaram Rita a decidir-se pelo “caminho mais seguro”: Economia. Os desenhos e a costura ficaram para os tempos livres, em casa.

»Já na faculdade, “ao final do segundo ano do curso de Economia entrei em pânico porque me apercebi que não era aquilo que eu queria e comecei a desinteressar-me. Faltava sempre que podia e só me esforçava na altura dos exames. Estava perdida e nem conseguia pensar em alternativa.”

»“Os meus pais ainda hoje me perguntam porque é que eu não vou trabalhar para um banco, com tantas regalias, um bom horário e bom salário. Mas eu não consigo. Há muita limitação da nossa expressão individual. São as roupas, o cabelo, as tatuagens, as jóias. Eu não me quero sentir limitada.”

»A alternativa apareceu no quinto e último ano da licenciatura. Com o canudo na mão rumou a um estágio de seis meses na agência de publicidade BBDO. Acabou por lá ficar um ano a trabalhar no departamento de contacto ao cliente. De lá saltou para uma empresa de marketing digital, onde esteve oito anos a trabalhar a gestão de cliente e de projeto, a gestão e criação de campanhas e criação dos briefings.

»Não se via a fazer economia, mas também neste trabalho começou a sentir que “o dia-a-dia era sempre igual e sentia que não estava a aprender nada de novo, por isso decidi tentar a minha sorte numa multinacional. Foi dar ao mesmo”, conta Rita, lembrando que “sentia cada vez mais falta das artes. O tempo para os hobbies tinha desaparecido”.

»Estava na hora de parar e mudar. Recuperar a paixão que tinha ficado em segundo plano e dar-lhe uma oportunidade. Em janeiro deste ano despediu-se e dedicou-se inteiramente ao curso de joalharia. São três anos, mas pode fazer menos. “Eu na verdade queria juntar joalharia com costura. Neste momento ainda estou a aprender as técnicas base e a perceber qual o conceito com o qual mais me identifico.” E o curso de Economia até lhe pode vir a dar jeito se um dia vier a criar uma empresa.

»“Os meus pais ainda hoje me perguntam porque é que eu não vou trabalhar para um banco, com tantas regalias, um bom horário e bom salário. Mas eu não consigo. Há muita limitação da nossa expressão individual. São as roupas, o cabelo, as tatuagens, as joias. Eu não me quero sentir limitada.”



»Chegou a inscrever-se num doutoramento em física. Agora é cabeleireira

»Joana Pereira também se fartou dos condicionamentos à sua forma ser e de estar. Mas no caso dela não foi só isso que a fez desistir do sonho que a acompanhava desde os 13 anos — ser cientista.

»Aos 17 anos, Joana não teve qualquer dúvida na escolha do curso que queria tirar, de preferência longe de Lisboa. Foi estudar Meteorologia, Oceanografia e Geofísica em Aveiro, e sem receios em relação à empregabilidade. Como “a licenciatura de Bolonha não servia para nada” seguiu para mestrado, mais voltado para a física e chegou a estar a trabalhar na área com uma bolsa. Terminou essa formação, já em Lisboa, com 17 valores. Durante a tese de mestrado estagiou no Instituto Hidrográfico da Marinha Portuguesa e teve de trabalhar noutros dois sítios para conseguir suportar as despesas. Chegou ao fim do estágio e dispensaram-na.

»“Custou-me muito porque tinha estado a estudar tanto para nada”, recorda Joana que, em 2004, acabaria por se inscrever num doutoramento em Vigo. Insistiu na área que teimava em não lhe dar emprego porque “achava que não tinha jeito para mais nada. Desde os 14 que queria ser cientista”. Porém, os atrasos no arranque do doutoramento e a falta de resposta por parte do orientador boicotaram a intenção de Joana que, nessa altura, já lutava contra uma anorexia nervosa. “Cada vez estava mais doente e decidi mudar a minha vida. Estava no fundo do poço”.

»Ainda pensou ser cozinheira mas como era vegan, não suportou a ideia de ter de cozinhar animais, conta entre risos. “Por isso pedi a uma tia, que está no Brasil e é toda exotérica, para me ajudar. Ela lançou o tarot e disse-me que me via a ser feliz como cabeleireira. Não pensei duas vezes”, relata Joana, pedind para não a acharmos maluca.

»“Eu não quero viver de bolsas. Além disso, eu precisava de me aceitar como sou. E ali tinha muitas regras, até no vestir, mesmo sendo um trabalho de laboratório. Então tive de pensar em alguma coisa que me interessasse e em que pudesse ser eu própria.”

»Decidiu tirar um curso de um ano, mas começou logo a trabalhar em cabelereiros. Neste momento já é técnica de cor, num cabeleireiro em Lisboa.

»“Já não tenho pena, nem me sinto frustrada, de não ser cientista. Quando comecei a tirar o curso o país estava diferente e eu achava que ia conseguir. Mas foi o curso que me destruiu. Eu não quero viver de bolsas. Além disso, eu precisava de me aceitar como sou. E ali tinha muitas regras, até no vestir, mesmo sendo um trabalho de laboratório. Então tive de pensar em alguma coisa que me interessasse e em que pudesse ser eu própria.”



O mercado também começa a apostar nisso. Várias consultoras de topo começam a recrutar candidatos com licenciaturas fora das áreas clássicas por consideraram importante terem outras formas de olhar para a realidade.

»Diogo só se via em Direito, mas descobriu que gostava era de vender

»Diogo Pinto, agora com 29 anos, achava que estava a fazer a escolha certa quando, aos 18 anos, optou pelo curso de direito. Sentia interesse e achava que lhe “encaixava-me na perfeição”, tendo em conta a sua personalidade, garante ao Observador, completando que sempre foi “certinho, regrado e conciliador” e que tentava sempre “analisar tudo à luz do que era justo e não justo, certo ou errado”.

»Mas bastou entrar para a faculdade para perceber que talvez não fosse bem assim. Chumbou o primeiro ano. “Foi dramático. Percebo agora que era um pouco imaturo e não sabia que competências tinha de ter”. Afinal, um advogado não é (só) “certinho, regrado e conciliador”. Tem também de ser “confiante, assertivo, e falar bem em público”. Diogo não o era. E se queria ser advogado teria de desenvolver essas competências, que a faculdade não lhe ia dar.

»Ao segundo ano do curso decidiu que ia começar a trabalhar a tempo parcial e assim foi. De dia aprendia direito, ao final do dia vendia comida para cão. “Como deve calcular não era de todo o meu estilo, mas saltei barreiras e foi o início daquilo que sou hoje.”

»Chegado ao quarto ano de Direito, Diogo sentia que tinha jeito era para vender e foi a Londres fazer um curso de verão de “persuasão e negociação”. “Foi uma decisão muito fácil para mim, mas horrível para os meus pais. Chamaram-me tonto por nem sequer me ter inscrito na Ordem. Eu ainda fui a algumas entrevistas em sociedades de advogados mas confirmei que não era aquilo que queria”.

»“Foi uma decisão muito fácil para mim, mas horrível para os meus pais. Chamaram-me tonto por nem sequer me ter inscrito na Ordem. Eu ainda fui a algumas entrevistas em sociedades de advogados mas só confirmei que não era aquilo que queria”.

»Concorreu a um anúncio da Mars que viu na Faculdade de Economia da Nova, mesmo ao lado da sua. “Estavam à procura de um vendedor, mas em letras pequeninas diziam que davam preferência a licenciados em economia ou gestão. Ainda assim decidi enviar currículo.” E foi o escolhido para vender chocolates de porta a porta no sul de Portugal. Os primeiros seis meses foram tão “horríveis” que chegou a pôr em causa a decisão. Via os colegas de turma a subirem na carreira, enquanto ele levava nãos porta sim, porta não.

»Tudo mudou quando desenvolveu uma espécie de jogo de motivação de equipas e com isso pôs os outros vendedores a venderem por ele em troca de um incentivo. “Queriam estar sempre em primeiro lugar. Isso dava-lhes visibilidade dentro da empresa e junto dos distribuidores”, explica. Do sul, passou para todo o país e chegou até a ir a Washington expor o projeto. “Permitiu-me crescer dentro da Mars. Mudei de função para coordenador de área.” Depois disso, esteve lá mais dois anos como responsável pelos materiais nos pontos de venda.

»Até que há três anos e meio recebeu o convite da Red Bull, onde se mantém até hoje. “Sou responsável por aumentar a penetração da categoria de energéticas em Portugal.”

»Diogo não tem dúvidas que o curso de Direito se tornou uma mais-valia e que foi muito por causa desse currículo que recebeu o convite. “Tem sido uma mais-valia para mim. É como se me destacasse no meio de um oceano azul. Sou o tipo que analisa as coisas do ponto de vista qualitativo, quando os meus colegas fazem uma análise quantitativa.” Mas também sabe que foi o trabalho a vender comida para cão e o curso de verão que fez em Londres que lhe permitiram entrar para a Mars.

»“Os trabalhos e atividades que fui tendo ao longo do curso permitiram-me perceber que muitas vezes nos fechamos nas nossas áreas onde estamos confortáveis e que deixamos escapar um conjunto de coisas de que podemos gostar e que estão à nossa volta.”

»Embora se sinta realizado e feliz, Diogo gosta de arriscar e já se vislumbra a mudar novamente. “As nossas paixões vão mudando e o nosso mundo também.”



»Deixar de lado o fator personalidade obriga muitas vezes a fazer marcha-atrás

»E terá sido uma coincidência o Observador ter encontrado apenas exemplos de pessoas que mudaram para áreas mais criativas? “Talvez não. Sabe que as pessoas mais criativas são as que se saturam mais rapidamente”, explica Vasco Soares, psicólogo clínico na empresa Insight.

»“Normalmente quem muda de área são pessoas que estão a fazer trabalhos mais pragmáticos e intelectuais e que sentem uma vontade de inovação e combate à rotina.”

»O ponto, afirma, é que “muitas vezes os jovens fazem escolhas baseadas em critérios que não são completos porque não tomam em consideração a sua personalidade”. “É fácil verem-se em profissões em que ganhem bem, o problema é que só olham para as coisas boas e não têm noção de como vai ser o dia-a-dia. Depois chega o choque com a realidade, ou ainda durante o curso, ou só quando começam a exercer”, completa o psicólogo, que aconselha os jovens que, a partir desta quinta-feira, se vão candidatar ao ensino superior, precisamente a levarem em conta os gostos e aptidões, mas também a personalidade.

»Para ajudar à escolha, os jovens podem encontrar informações sobre os cursos nos sites das próprias faculdades ou no site da Direção Geral do Ensino Superior e para se informarem sobre as profissões podem consultar, por exemplo, o documento com a Classificação Portuguesa das Profissões.



»“Se for um gestor de topo, a licenciatura que tem torna-se praticamente irrelevante”

»Casos como os de Pedro, Rita, Joana e Diogo não são assim tão raros. Nuno Troni, diretor para a área de Professionals da empresa de recursos humanos Randstad, afirma ao Observador que “excetuando áreas muito técnicas em que as habilitações académicas são essenciais para o desempenho da função (como medicina ou investigação), muitas pessoas tiram um curso e trabalham em áreas distintas”.

»E o mercado também começa a apostar nisso. “Várias consultoras de topo começam a recrutar candidatos com licenciaturas fora das áreas clássicas por consideraram importante terem outras formas de olhar para a realidade.”

»“Várias consultoras de topo começam a recrutar candidatos com licenciaturas fora das áreas clássicas por consideraram importante terem outras formas de olhar para a realidade.” (Nuno Troni, diretor para a área de Professionals da Randstad).

»Quanto à importância e à mais-valia de ter uma formação diferente daquela que à partida é exigida num processo de candidatura para um determinado posto de trabalho, Nuno Troni não tem dúvidas que “um recém-licenciado com um bom curso de gestão é muito mais apelativo para a generalidade das empresas do que um recém-licenciado com um bom curso de comunicação”, mas também refere que “se for um gestor de topo a licenciatura que tem torna-se praticamente irrelevante, sendo que o importante é a experiência da pessoa em causa, assim como pós graduações ou MBA que tenha feito”.

»E dá exemplos: “o diretor geral da Panrico em Portugal, João Morão, tem um percurso impressionante em empresas de grande consumo e é licenciado em História” e “o CEO da Randstad em Portugal, José Miguel Leonardo, é engenheiro civil de formação”. De resto, “vários engenheiros ocupam lugares de topo em administrações de empresas de PSI 20. O que determina o sucesso profissional é uma conjugação de vários fatores: formação, oportunidade e perfil”.»





Um inovador

2016/07/26

Sara Almeida: «O artesão e o artesanato hoje em Cabo Verde. “Pensamos que não precisamos de escola para formar o artesão. Isto é gravíssimo”, diz Leão Lopes»



Sara Almeida. Expresso das Ilhas



«Em Cabo Verde começam a surgir projectos interessantes no domínio do Artesanato, nomeadamente através da sua aliança com o design. Mas o artesanato é um sector económico que parece um pouco perdido, contaminado por conceitos de outras actividades e visto com pouca seriedade quanto à formação. É, aliás, a este um dos maiores handicaps que se apresenta no sector. O professor artesão Gustavo Duarte, director do espaço CRIE na Praia, Leão Lopes, professor universitário e reitor da Escola Internacional de Arte do Mindelo, falam sobre algumas iniciativas em curso e analisam a actual situação do Artesanato em Cabo Verde.

»É um candeeiro. De linhas simples, contemporâneo, em que à base “clean” se junta um quebra-luz em forma de cilindro perfeito. Simples, mas muito rico. Graças à textura das duas matérias-primas que compõem as suas partes e aos saberes aqui aliados. Ao design contemporâneo juntou-se o saber de quem conhece estes materiais e os molda a seu bel-prazer. A ideia feita matéria pelas mãos de quem domina a técnica. Designers e artesãos. Cerâmica tradicional – o barro na base – e trabalho com palha – as palhinhas que fazem o quebra-luz.

»O que vemos é uma maquete, para testar o produto. A segunda, pois a primeira foi chumbada, devido à forma como o quebra-luz encaixava na base. Tinha uns furos na cerâmica que “magoavam a peça”. O encaixe passou a ser feito de outra forma, no suporte da lâmpada.

»A maquete é mostrada pelo artesão Gustavo Duarte, responsável, nesta peça, pela concretização do quebra-luz imaginado pelo designer. A cerâmica foi encomendada a outro artesão, oleiro. Trabalho conjunto, integrado. O resultado é uma peça que em breve poderá pertencer ao Catálogo do CRIE (Criando, Inovando e Empregando), um projecto que visa fomentar o artesanato criativo.


»Artesanato e design

»O CRIE - Criando, Inovando e Empregando: Cultura, artesanato e turismo, novas dinâmicas na economia criativa é um projecto do Atelier Mar (de São Vicente), financiado pela União Europeia com a parceria da UCCLA, Câmara Municipal da Praia e Câmara Municipal de São Vicente.

»Visa principalmente, conforme sublinhou Maria Estrela, representante do Atelier Mar (ONG fundada em 1979 por Leão Lopes), na apresentação do mesmo, em Fevereiro de 2014, desenvolver uma estratégia integrada de colaboração entre vários actores não estatais, que resulte em propostas inovadoras de produção de bens e serviços de artesanato contemporâneo, design e cultura. Abrange Praia (Santiago), São Vicente e Santo Antão.

»Na Praia, a oficina de produção e exposição CRIE, funciona no Parque 5 de Julho, num espaço cedido pela CMP e foi inaugurada a 18 de Dezembro de 2015. O seu director é o professor artesão Gustavo Duarte que define CRIE como um projecto assente na preocupação de “termos artesanato de qualidade, de termos coisas novas, de termos pessoas a saberem criar. É por isso que aqui trabalhamos com a parceria de designers e arquitectos. Eles criam o objecto, nós, artesãos, executamos”. E essa aliança “está a enriquecer e vai enriquecer cada vez mais” o artesanato cabo-verdiano, defende.

»A relação entre design e artesanato tem vindo a ser uma aposta em todo o mundo, resultando em objectos inovadores, que vão ao encontro aos novos modos de vida e novas semânticas do público. Criam-se assim nichos profícuos no mercado, abrindo espaço para que saberes e técnicas ancestrais persistam no tempo e se assumam economicamente.

»Em Cabo Verde, contudo, apesar de iniciativas como o CRIE, esta relação está em fase “embrionária”. Até porque, como refere o designer e reitor da Mindelo _ Escola Internacional de Arte (M-EIA), Leão Lopes “só muito recentemente é que se começou a falar de design em Cabo Verde”.

»Além disso, a apreensão do que é o design ainda está muito centralizada na vertente gráfica desta disciplina, esquecendo-se essa “dimensão tão interessante e tão alargada do design, num país em desenvolvimento”, que é o design de produto/design industrial.

»“Mas pouco a pouco as coisas vão tomando rumo”, acredita Leão Lopes, citando algumas experiências, com a CRIE e o Centro cabo-verdiano de Artesanato e Design em São Vicente – “que também trabalha com artesãos (com produtores) as propostas de criação dos designers”.

»Além da falta de uma cultura de design de equipamento, há ainda um outro grande obstáculo a essa potencialmente profícua aliança entre design e artesanato. É que grande parte dos artesãos consideram que não precisam do trabalho do designer.

»Há uma certa confusão. Mas com o tempo, na óptica de Leão Lopes, perceberão que o “papel do designer é de um parceiro criativo, que não necessariamente vai interferir na produção. Vai até ao protótipo, até ao estudo de viabilidade, muitas vezes de mercado. E abre mercado, porque o seu papel essencial é criar, inovar”.

»Abre, pois, como refere, um espaço no mercado contemporâneo que esses produtores não têm.

»“Os artesãos profissionais, qualificados, já têm o seu mercado, mas se há inovação, se há criatividade, este mercado começa a alargar, começa a expandir. Aí, vai enriquecer toda a área económica do artesanato porque vai suscitar mais produtores, vai suscitar formação profissional, etc.”, explicita.


O CRIE - Criando, Inovando e Empregando: Cultura, artesanato e turismo, novas dinâmicas na economia criativa é um projecto do Atelier Mar (de São Vicente), financiado pela União Europeia com a parceria da UCCLA, Câmara Municipal da Praia e Câmara Municipal de São Vicente.

»O estado da ‘arte’

»Novos horizontes abrem-se então com a aliança entre diferentes actores do processo de criação e produção. Mas sobre que panorama actual estão essas potencialidades? Dito de outro modo, de uma forma geral: afinal, qual é a situação presente do artesanato cabo-verdiano?

»Gustavo Duarte, professor artesão, leva já 45 anos nesta área, 13 dos quais como director do Centro de Artesanato da Praia. Especializou-se em Angola, onde chegou como professor. Depois foi também director da Escola de Artes e Ofícios de São Tomé e Príncipe, durante 5 anos.

»Ao olhar, hoje, o panorama do artesanato em Cabo Verde diz, “com muita pena” que “temos um retrocesso”.

»“Não se compara com o que já tivemos. Tínhamos qualidade, agora temos quantidade, essencialmente. Há excepções, mas a nossa luta nesse momento é para que haja novamente essa qualidade desejada”, explica.

»E começa a haver, de facto, uma maior exigência em termos de qualidade. Mas há ainda um longo caminho a percorrer.

»Além disso, truncou-se a riqueza conceptual do artesanato. O artesanato passou a ser algo fora das necessidades do quotidiano, dos artefactos utilitários. Algo exótico. Restringiu-se um importante sector de produção a objectos de souvenir ou adorno, “muitas vezes sem qualidade, sem domínio tecnológico”.

» “Isto é estranho e é relativamente recente em Cabo Verde. O sector deixou de ser visto de uma forma abrangente, como sistema de produção artesanal que se contrapõe a uma produção em série, industrial, com uma lógica diferente, com recursos tecnológicos diferentes. Desaparecendo esse conceito alargado do artesanato, acabamos por empobrecer o nosso ponto de vista político, o nosso ponto de vista tecnológico, o nosso ponto de vista educativo da área”, considera Leão Lopes.

»Essa nova, pobre e redutora visão trouxe, pois, um “prejuízo enorme para o desenvolvimento do artesanato em Cabo Verde e explica o seu estado negligente, lamentável”. Leão Lopes recorda no entanto, que nem sempre foi assim: “herdamos um conceito de artesanato correcto, da nossa história colonial, tecnologias que se aplicam na produção do artesanato do produto”. Nas escolas técnicas, havia efectiva formação de peritos nessas tecnologias, artesãos.

»Com a independência houve uma valorização do sector. “Havia uma estrutura do governo que cuidava do artesanato. Criou-se o Centro Nacional de Artesanato e um Centro Regional de Artesanato que durou vários anos e que fez um belíssimo trabalho, tanto é que os artesãos seniores, mais qualificados, em actividade neste momento em Cabo Verde vêm ainda desses centros”, observa.

»Hoje, perdeu-se o know-how e a projecção em áreas diversas do artesanato, que seria necessário resgatar.

»O que se espera, então, “é que os outros espaços de afirmação do artesanato”, que vão além do souvenir, “sejam ocupados por outras instituições, por outras directivas políticas”. Ou seja, para que esta actividade constitua uma economia que crie emprego, rendimento e produção terá de se deixar de pensar nela como algo “exótico” e isso passa pela profissionalização e domínio tecnológico.


»Formação: Artesão

»“Pensamos que não precisamos de escola para formar o artesão. Isto é gravíssimo”, aponta Leão Lopes.

»Muitas formações que hoje pululam por todo Cabo Verde são muito breves, esporádicas. Leão Lopes define-as como “entretenimento e sustentação de um discurso político frágil”.

»São formações que tendo o seu espaço não criam artesãos, pois não dotam quem as frequenta com a qualidade técnica necessária ao metier e à competitividade no mercado. São, elas mesmas, resultado de uma inadequada política educativa para a área.

»“Um dos grandes dramas é que mesmo a classe política faz um discurso absolutamente pernicioso e terrível para o sector, como se o artesanato pudesse ser dominado, sem aprendizagem, sem tecnologia, sem conhecimento, sem escola”, insiste Leão Lopes.

»Uma semana, umas peçazitas. Certificado: artesão.

»Em termos formativos, o que aconteceu um pouco por todo o mundo, foi que a “escola” tradicional das comunidades (a passagem do know-how de geração em geração, de artesão para aprendiz) foi continuada por instituições que bebem nessa tradição. Isso cortou-se em Cabo Verde. Desapareceu e não foi reposto. “E a forma de repor seria com medidas políticas formais para isso mas à medida que o discurso do artesanato empobreceu, essa pobreza de políticas para o artesanato acabou por se instalar”, analisa Leão Lopes.

»O reitor da M_EIA vai mais além na sua crítica e diz: “O artesanato serve, hoje, em Cabo Verde, para enquadrar socialmente pessoas, serve para enquadrar jovens que estejam fora do sistema escolar, serve para respostas várias de ordem sociológica, mas não tem a componente essencial que é educação tecnológica, criativa, de formação profissional, … “.

»A realidade de países, nomeadamente africanos, como o Zimbabué, em que a formação é vista como fundamental para a evolução e futuro da economia do sector, e onde há licenciaturas e outros graus universitários, ainda parece distante, em Cabo Verde. Mesmo sabendo-se que o artesanato é um sector da economia importante em qualquer país.

»Também o professor artesão Gustavo Duarte lamenta a maneira como hoje são feitas as formações. Antes, há cerca de 20 anos atrás havia o quadro de artesão que estipulava as diferentes classes pelas quais um artesão iria passando consoante a sua aprendizagem, de aprendiz, passando por várias classes de artesão, a professor artesão, sendo que esta classe já exigia formação a um nível académico.

»“Hoje uma pessoa identifica-se como artesão e é chamado para dar formação”, deplora, esclarecendo que mesmo tendo um bom nível o formador tem de saber transmitir o seu know-how. “Porque saber fazer não significa saber ensinar”.


»Valorizar a profissão artesão

»Outra grande questão é que os artesãos se consideram… artistas. Confundem os dois conceitos, com prejuízo para a determinação do espaço económico e cultural de cada um dos sectores.

»Assim, é necessário estabelecer correctamente a definição: artesanato é “um metier directamente ligado à economia, que tem como base a tecnologia e a criatividade”.

»A raiz etimológica de ambos conceitos e o facto de estarem ligados à criatividade ajuda à confusão. Mas o resultado da produção artesanal é um objecto que possui uma direcção e uma função clara, mesmo que simbólica. A sua função objectiva e material nada tem a ver com a criação subjectiva que é a obra de arte. Por fim, há ainda a questão da repetição. A obra de arte é única, o produto artesanal tem a possibilidade de ser reproduzido ad infinitum.

»Confusão e talvez algum desconhecimento ou necessidade de afirmação. Um pouco de tudo talvez. O que é certo, pelo menos da experiência de Leão Lopes é que por norma são na realidade os artesãos mais qualificados que “se assumem de facto como artesão e percebem bem a diferença.”

»E para que o artesanato seja valorizado há também que “sensibilizar os artesãos de que esta é uma profissão de honra, não podemos deixar que ninguém a inferiorize. Temos de nos valorizar para que as pessoas possam valorizar-nos”, aponta, por seu lado, Gustavo Duarte.

»Uma medida que, segundo diz, “afectou a dignidade da classe” é a forma como são atribuídos títulos artesão, através do Estatuto do artesão. “Qualquer pessoa que chega ao ministério [da Cultura] e diz ser artesão, recebe essa identificação. Não foram criados requisitos, o perfil para o ser”.

»Não há um percurso, uma carreira, a exigência de formação. E a falta de clarificação faz com que qualquer pessoa com gosto pelos “trabalhos manuais” seja artesão.


Outra grande questão é que os artesãos se consideram… artistas. Confundem os dois conceitos, com prejuízo para a determinação do espaço económico e cultural de cada um dos sectores. Assim, é necessário estabelecer correctamente a definição: artesanato é “um metier directamente ligado à economia, que tem como base a tecnologia e a criatividade”.

»Matérias-primas

»Ora, há então “artesãos” que se consideram designers, outros que se consideram artistas. No reino do qualquer um pode ser, há também quem, por hobby se dedicar a trabalhos manuais, já se assuma como artesão.

»Também aqui, Gustavo Duarte marca bem a diferença: artesanato e trabalhos manuais não são a mesma coisa. Conforme explica o artesão: se alguém for a um loja chinesa comprar umas bolinhas e fizer uma pulseira, isso não é ainda artesanato. É trabalho manual, pois artesanato trabalha com outro tipo de matéria-prima, endógena, distingue.

»A escolha da matéria é, na concepção deste professor, aspecto fundamental na definição do que é artesanato. “O conceito de artesanato é o aproveitamento dos recursos naturais nacionais, de preferência locais. O artesanato é quando a pessoa cria, inventa a matéria-prima, não é quando a vai comprar numa loja.”

»Há que aproveitar os recursos, evitar a importação. Até porque, no seu entender, existe matéria-prima em “abundância e qualidade em Cabo Verde. Nós é que temos de a descobrir”. “Eu defendo que artesanato é a valorização da matéria-prima que temos aqui, transformar a pobreza em riqueza, ou o lixo em luxo”, explicita.

»Faltam matérias-primas é para as “Belas Artes”, salvaguarda o artesão, “mas isso é outra coisa…”

»Quanto às ferramentas de trabalho do artesanato, aí Gustavo Duarte considera que deveria haver maior facilidade para a importação das mesmas que não existem no país – nomeadamente isenção alfandegária.

»O domínio da matéria implica técnica. Mesmo quando a concepção do artesanato não é tão radical em termos de origem do material. E voltamos, em círculos à necessidade da formação e políticas adequadas.

»Ainda falando em matérias-primas, Leão Lopes, por seu lado, recorre ao exemplo dos recursos geológicos de Cabo Verde para mostrar que há ainda um manancial de oportunidades abertas e a desenvolver, com base nos mesmos. Culpa novamente de políticas desadequadas no sector.

»“Depois de se chegar a um nível interessante de uso das nossas argilas, de tecnologias interessantes de uma área como a cerâmica, não houve acompanhamento político para aproveitar toda essa” riqueza.


»Turismo

»Entretanto, se por um lado, Cabo Verde parece ter-se esquecido de certas formas de artesanato mais utilitário, centrando-se demasiado no “exótico” e pequena peça ou souvenir, por outro, mesmo a este nível parece haver um certo adormecimento.

»O turismo, esse motor de desenvolvimento e riqueza tão aclamado no arquipélago, não tem sido devidamente aproveitado, havendo ainda fortes lacunas no que toca ao artesanato como produto de oferta no mercado turístico.

»Apesar do potencial do turismo, para Leão Lopes, não é no entanto correcto, centralizar o artesanato no turismo, ou tendo em visto apenas o turismo. Isto porque na sua análise, tal vai “reduzir o conceito de artesanato enquanto economia, enquanto tecnologia, enquanto mais-valia em termos de corporação de valores culturais, patrimoniais, etc.”, explicita, na linha do que já foi dito anteriormente.

»Agora, com também refere, o turismo, aqui como em muitos países, “absorve ou integra varias nuances da produção nacional. O artesanato é apenas um desses sectores de produção, que terá a ver com o turismo sim, enquanto uma indústria, que vai beber nessa mais-valia do leque da economia de um país.”

»E neste momento, o sector do artesanato não está, pois, a dar os frutos que poderia dar na economia e emprego. Na verdade, o espaço em aberto no mercado turístico (e não só) tem sido ocupado por artesãos da Costa Ocidental Africana que aliam o savoir faire a uma visão inteligente das oportunidades de mercado.

»E ainda bem que temos esse artesanato da Costa, porque “se não o deserto era ainda maior”, aponta o professor universitário.

»Também o comércio chinês, na sua imensa capacidade de detectar oportunidades, nichos em aberto, introduziu souvenirs, muitas vezes produzidos de uma forma que se confunde, intencionalmente, com verdadeiro artesanato. Seja como for, no turismo e fora dele, a verdade é que o artesanato pode absorver uma percentagem importante de desemprego em Cabo Verde.

»E com um artesanato de qualidade, a própria dinâmica comercial do mercado irá regular e apostar na distribuição.

»Mais uma vez salienta-se aqui, a necessidade de políticas adequadas para mobilizar todo um sector.


»Políticas acertadas precisam-se

»Ao longo das últimas décadas, como referido, Cabo Verde não primou pela adopção de políticas adequadas ao sector do artesanato. Mais, perniciosamente permitiu uma série de contaminações e deturpações sobre o que é este sector.

»Entre iniciativas, tomadas nos últimos anos, salienta-se o Fórum Nacional do Artesanato (FONARTES), que se tem vindo a realizar no Mindelo e onde durante alguns dias se discute e expõem diversos produtos artesanato nacional.

»Para Leão Lopes esta é uma iniciativa política que de alguma maneira tem trazido uma “certa animação do sector”. Mas o designer, que já foi ministro da Cultura, questiona até que ponto a FONARTES terá “resultados em termos de qualificação do sector, a nível de formação tecnológica e cultural”.

»Foi também criada a Rede Nacional de Distribuição de Artesanato (RENDA), uma plataforma para distribuição dos produtos artesanais e foi criado um selo “Created in Cap Verde”.

»Aliados a estas apostas, assistimos também, recorrentemente a projecto, formações e certificações - geralmente apoiados por parceiros internacionais. Nestes casos, o impacto real dessas “formações”, como referido, parece ser bastante limitado.

»Ou seja, há já, sem dúvida, algumas medidas em curso que mostram que Cabo Verde parece ter voltado a acordar para a preocupação com o artesanato. Isto, depois de anos de descaso nas políticas voltadas para o sector. Há a vontade de um novo fôlego. Mas, grande parte delas, são apenas medidas avulsas, redutoras do que é o próprio artesanato e, pode-se dizer, pouco eficientes.

»O que fazer? Leão Lopes insiste que o ponto de partida terá de ser precisamente a formação.

»Mas primeiro é preciso definir ao certo que artesanato se pretende dar ao país e que “estratégia se deve adoptar politicamente para defender o artesanato, enquanto sector económico importantíssimo”.

»Depois de se clarificar estas questões, deve-se “criar, estimular, e orientar de alguma forma para que surjam instituições de formação contemporânea. Já não há outra hipótese, já não há as escolas tradicionais, já não se aprende no seio comunitário, familiar, etc, mas existe um património para ser recuperado, hoje, através da investigação, da experimentação, pode ser redesenhado, repensado e que cobre sectores de produção deste país, dentro do artesanato”.


»Do anel à casa

»Há uma “estória” interessante que Leão Lopes recorda para ilustrar o que é Artesanato. “Uma vez, numa oficina que trabalhava essencialmente pedra, perguntou-se ao artesão altamente qualificado: ‘o que fazem aqui?’. E ele respondeu com naturalidade - uma resposta correctíssima, que ilustra aquilo que eu defendo – ‘Aqui fazemos desde o anel a uma casa’. É facto, não é metáfora, o artesão, ou este sector, deverá estar preparado para produzir desde o anel a uma casa de habitar”.»





Administração Pública e inovação

2016/07/25

Newsletter L&I, n.º 114 (2016-07-25)


n.º 114 (2016-07-25)

TAGS: # inovação social # innovación social # innovation sociale # social innovation


Administração Pública e inovação | Administración Pública e innovación |
Administration Publique et innovation | Public Administration and innovation

Um inovador | Un innovador | Un innovateur | An innovator

Uma inovação | Una innovación | Une innovation | An innovation

A execução da inovaçao | La ejecución de la innovación | L’exécution de l’innovation |
The innovation execution



Index


Liderar Inovando (BR)

«Brazil Lab define os projetos que serão acelerados durante o programa de inovação» ( ► )
Renato Cunha: «Conheça a Malha, o maior espaço de moda colaborativa do Brasil» ( ► )
Leo Branco: «Crise vira motor para expansão de startups no Brasil» ( ► )
Débora da Silva Cândido: «Coopera: Professores participam de palestra com Max Haetinger» ( ► )

Liderar Inovando (PT)

São José Almeida: «Governo procura co-financiadores de projectos de Inovação Social» ( ► )
José Ribeiro: «Uma União Africana actuante» ( ► )
César Cruz: «Inovação pouco Social» ( ► )
«Municípios apresentam projetos para combater problemas como desemprego e despovoamento» ( ► )

Liderar Innovando (ES)

«Conozca a los innovadores sociales que buscan construir paz» ( ► )
Valle Sánchez: «Un colegio innovador en Torrijos» ( ► )
«Las empresas se suman a la innovación social con el cliente» ( ► )
Agustí Sala (@agustisala): «¿Quién gana más con la economía colaborativa?» ( ► )

Mener avec Innovation (FR)

«Appel à Projet National – Incubateurs d’innovation sociale» ( ► )
Fabrice Rusig: «Pour oublier la crise, réinventons la monnaie» ( ► )
Hubert Guillaud: «Quels enjeux pour les innovations démocratiques?» ( ► )
Corinne Manoury: «FairEvoluer, pour des marathons de l’innovation emploi et handicap» ( ► )

Leadership and Innovation (EN)

Howard Lake: «Social innovation fund open for applications» ( ► )
«MOU creates social innovation, ideation lab for China» ( ► )
Smeldy Ramirez and Svante Persson: «Drones: From Tools of War to Tools for Social Innovation» ( ► )
Anne Rodier: «France's ADN makes mark on social innovation» ( ► )

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Atribución-NoComercial 4.0 Internacional








2016/07/22

«Municípios apresentam projetos para combater problemas como desemprego e despovoamento»



Açoriano Oriental



«O desemprego, o despovoamento e a exclusão da terceira idade são alguns dos problemas que a Iniciativa para a Economia Cívica (IEC), câmaras municipais e outras entidades locais propuseram combater através de projetos de inovação social.

»No total, sete municípios — Lousã, Gouveia, Vila Velha de Ródão, Idanha-a-Nova, Fundão, Penela e Miranda do Corvo —, juntamente com mais de 160 entidades públicas, privadas e da área da Economia Social, apresentaram em Lisboa “projetos-bandeira” que pretendem lançar soluções inovadoras para problemas e desafios sociais.

»A presidir à cerimónia esteve a ministra da Presidência e da Modernização Administrativa, para quem estes projetos “são o exemplo daquilo que se pode fazer de maneira diferente, não desprezando as soluções tradicionais, mas potenciando outros caminhos que poderão ser sustentáveis e poderão trazer novas respostas para problemas que vão desde o envelhecimento da população ao desemprego jovem, ao insucesso escolar, à reinserção social, à reconstrução do espírito de comunidade”.

»Maria Manuel Marques frisou, contudo, que estas iniciativas “não são vistas por este Governo como uma oportunidade para se desresponsabilizar da resolução dos problemas que afetam a sociedade”.

»“Não é esse o seu objetivo, não será essa a nossa linha de atuação. Temos uma tradição de muitos séculos de descentralização de respostas aos problemas da sociedade e queremos reforçá-la. Contamos com o saber de entidades como as misericórdias, as fundações, as instituições particulares de solidariedade social, as coletividades e com as autarquias”, afirmou.

»A governante aproveitou a ocasião para anunciar que as primeiras candidaturas para o programa Portugal Inovação Social abrem até ao dia 15 de julho e apelou aos parceiros sociais para aproveitarem os fundos comunitários de 150 milhões de euros disponíveis.

»Entre os projetos hoje apresentados, está o de “Saúde Inteligente e Preventiva”, da Câmara de Penela, que pretende modificar comportamentos e melhorar a qualidade de vida da população.

»“Passará fundamentalmente por um processo de inovação social: modificação de hábitos de vida, mais focados na alimentação saudável, no cuidado físico e, na parte mais tecnológica, desenvolver um conjunto de plataformas, serviços e produtos que ajudem à monitorização e acompanhamento para que essas pessoas possam melhorar os seus indicadores de saúde”, explicou à Lusa o presidente, Luís Matias.

»Em Miranda do Corvo, o projeto “Família Pública” quer promover os deveres da fraternidade, que “são fundamentais” e se foram perdendo, disse o presidente da Fundação Assistência, Desenvolvimento e Formação Profissional, Jaime Ramos.

O projeto “Família Pública” quer promover os deveres da fraternidade, que são fundamentais.

»“Nos últimos anos habituámo-nos muito a criar uma população muito exigente em termos de direitos, mas quase nunca assumimos os deveres da fraternidade, que são fundamentais. Preocuparmo-nos com os outros, com os vizinhos, em fazer uma comunidade melhor. Queremos esta caminhada para envolver mais as pessoas com os outros”, afirmou.

»Além destes, serão desenvolvidos os projetos “Território Inclusivo” (Lousã), “TIC e Inovação Social" (Fundão), “Valorização do Capital Intergeracional" (Gouveia), “Plataforma Digital de Promoção e Comercialização da Economia Local" (Vila Velha de Ródão) e “Idanha Social Lab Valley” (Idanha-a-Nova).

»A IEC é uma plataforma que pretende promover uma nova economia de base local e de interesse geral, desenvolvendo projetos escolhidos pelas comunidades locais e que contribuam para resolver problemas, gerar riqueza e emprego nas mais diferentes áreas de ação de uma sociedade, entre as quais saúde, educação e desenvolvimento económico.»





A execução da inovaçao

2016/07/21

César Cruz: «Inovação pouco Social»



Capeia Arraiana



«Circunscrever os termos inovação e social numa mesma ideia pode ser um fator de enorme perigo ideológico. Faria uma proposta, em vez de inovação social, porque não uma sociedade inovadora que abolisse a desigualdade social surgida pela fragilização do nosso Estado Social?

»Inovação é a palavra da moda, num tempo que pula e avança. Quem não inova e quem não abraça as inovações rapidamente se deixa ultrapassar. A pós-modernidade trouxe esse desígnio social e pessoal. A carga meritória passa a estar assente no próprio indivíduo. Não pensemos que isto é um simples conceito inocente ou meramente um aglomerado de palavras. Ora vejamos. Quando tudo é relativizado ao indivíduo centramos nele a responsabilidade da sua própria condição. E isto deu jeito a quem? Interessou a governos neoliberais de Thatcher, no Reino Unido, de Reagan, nos Estados Unidos. E estes tiveram seguidores fiéis e aperfeiçoadores das suas políticas. Estas políticas incidem na liberalização económica através da privatização, a austeridade fiscal, o livre comércio, a desregulamentação do mercado e do corte de despesas do Estado em áreas fundamentais como o social.

»As teorias dos economistas Hayek e Friedman fizeram escola. Aos poucos os governos democráticos conservadores fizeram impor a sua ideologia dominante e instituições supranacionais são-lhes submissas, nomeadamente o FMI, o Banco Mundial e outras mais. O privado assume funções que deveriam ser do Estado e de outras instâncias locais.

»A austeridade imposta e seguida subservientemente pela dupla Passos e Portas conduziu à afirmação das desigualdades sociais no nosso país. Mais do que nunca a ideologia neoliberal ganha peso. Declara-se constantemente que o pobre ou o desempregado não sabem aproveitar as condições que lhes são dadas. A asseveração da culpa individual atribui responsabilidade apenas ao indivíduo, enquanto que os agentes políticos saem desculpabilizados. Inventamos projetos de inovação em tudo. Até no social.

A austeridade imposta e seguida subservientemente pela dupla Passos e Portas conduziu à afirmação das desigualdades sociais no nosso país. Mais do que nunca a ideologia neoliberal ganha peso. Declara-se constantemente que o pobre ou o desempregado não sabem aproveitar as condições que lhes são dadas.

»Vemos políticas ativas de emprego, presenciamos incentivos à inovação para projetos sociais e dizemos que só não avança quem não quer fazer nada. Bem… e a responsabilidade do nosso Estado Social? Estamos no limbo da ideologia e da sobrevalorização do individualismo. A assinatura vem das instâncias superiores e nós por cá acolhemos a ideia como a mais bela obra criada pelo Homem. E a desigualdade social vai aumentando. E aumentará mais. Até que a fragmentação social, a riqueza infundada de poucos, a informação classificada que não sai dos gabinetes, ou sai canalizada para alguns amigos, provoquem o desconforto suficiente na sociedade para que de uma vez por todas se alinhe o centro novamente no bem da pessoa e no bem comum.

»Procurar soluções para os problemas apenas numa dinâmica de investimento social, com contrapartidas financeiras, não pode ser entendido como uma prática de um estado Social. Esperar um retorno financeiro por se investir socialmente pode ser legítimo mas não pode e nem deve ser essa a finalidade da operacionalização das políticas socias. Quando se investe no social há o risco de se perder. Mas o maior lucro é o valor ganho pela promoção do que vive abaixo da condição de vida. Mesmo perdendo ganha-se sempre em termos sociais. É claro que se assim for o privado vai-se embora, porque não aufere. Triste é ver que quem tem funções sociais também se arrisque a sair porque não ganha… Deixando de haver investidores financeiros terão de permanecer os que sempre têm investido, não olhando para os lucros mas atendendo apenas para a promoção da pessoa humana…»





Uma inovação

2016/07/20

José Ribeiro: «Uma União Africana actuante»


Desculpas! O autor do artigo é o diretor do Jornal de Angola, não Jose Ribeiro e Castro, deputado do CDS. Muito obrigada!


Jornal de Angola



«A importância de a União Africana assumir um papel mais activo nas questões respeitantes ao nosso continente é uma necessidade imperiosa.

»Mas o que se sente é que a nossa organização continental anda desatenta ao que lhe passa à volta, e é muita coisa. A situação internacional é hoje atravessada por problemas extremamente complexos e com contornos que parecem escapar ao controlo até dos líderes dos países mais poderosos do planeta.

»O exemplo do “brexit” não podia ser melhor para ilustrar a irresponsabilidade de uns poucos países no mundo que arrasta consequências graves para muitos cidadãos de outros países.A necessidade de se reafirmarem as plataformas de reflexão, de diálogo construtivo e de busca de soluções comuns é, assim, fundamental. Os líderes dos Estados africanos precisam de fazer vincar a sua sabedoria e força, de modo a serem salvaguardados os interesses dos povos deste grande continente que tem todas as condições para registar um forte crescimento nas próximas décadas, mas cujas perspectivas de evolução não estão cabalmente estudadas pelos organismos africanos, antes deixadas ao critério de entidades extra-africanas que manipulam dados e indicadores a seu bel-prazer.

»As mudanças rápidas que se operam no mundo exigem a maior atenção e o pronto acompanhamento pelas instituições africanas, de modo a evitar que as crises se agravem e degenerem em conflitos prolongados e insanáveis ou que as nações percam a passada histórica e sejam irremediavelmente atropeladas na caminhada imparável para o desenvolvimento e a modernidade. O caos por que passaram alguns países africanos nos tempos mais recentes, de que a Líbia é apenas o exemplo, veio revelar como alguns dos grandes acontecimentos fogem ao controlo das instituições representativas de África.

As mudanças rápidas que se operam no mundo exigem a maior atenção e o pronto acompanhamento pelas instituições africanas, de modo a evitar que as crises se agravem e degenerem em conflitos prolongados e insanáveis ou que as nações percam a passada histórica e sejam irremediavelmente atropeladas na caminhada imparável para o desenvolvimento e a modernidade.

»Mas os incidentes repetem-se. E, para o provar, aí está o clima de tensão que regressou nos últimos dois dias ao Sudão do Sul, que comemorou o quinto aniversário da sua independência com confrontos na capital do país, Juba, entre o Exército Nacional e os ex-rebeldes que provocaram a morte de 150 soldados. Na véspera do aniversário, os confrontos começaram de um simples desentendimento entre os seguranças do Presidente Salva Kiir e os do Vice-Presidente Riek Machar, trazendo de volta os receios sobre um fracasso do processo de paz após o regresso de Riek Machar a Juba, que celebrou o fim da guerra civil de mais de dois anos.

»A União Africana deve exercer não apenas a sua função de prevenir e solucionar conflitos, mas também de tomar parte nos processos ligados aos desafios da modernidade e do desenvolvimento que são colocados aos países africanos. Não haverá, provavelmente, uma organização regional como a União Africana que tenha aprovado tantos documentos e tomado tantas decisões que acabaram por resultar em letra morta.

»O trabalho que é publicado no Suplemento Fim-de-Semana desta edição sobre a falta de capacidade e de soluções de África no seu conjunto para a complicada equação técnica de transitar do sistema de televisão analógico para o modelo de Televisão Digital Terrestre (TDT), que estaria votado ao fracasso, não fosse a ajuda da China, é bem o exemplo das novas grilhetas a que o continente está amarrado.

»A comparação com a China, que em 60 anos passou de um país de características medievais e com grandes problemas de fome e pobreza entre a população para um continente possuidor de uma economia que dá cartas na cena internacional e rivaliza com os Estados Unidos o lugar de primeira economia mundial, é um bom exemplo para África. Estive pela primeira vez em Pequim no ano de 1995, altura em que a capital chinesa parecia um estaleiro de obras e, ao voltar 21 anos depois, confesso que não reconheci a mesma cidade.

»A Pequim de hoje em nada fica a dever às mais modernas metrópoles ocidentais, está mais arejada, as jovens chinesas mais alegres, perdeu muito daquele sentimento claustrofóbico que se sentia nas cidades do antigo bloco dos países do Leste europeu e é um destino apetecível dos turistas de todo o mundo. No entanto, ninguém que não seja um qualquer desequilibrado poderá vir dizer que a tradição e os valores culturais do povo chinês foram esmagados pela modernidade. Em mais nenhum país estão tão presentes como hoje e adquiriram mesmo, com a inovação social, uma superior qualidade.

»Tudo afinal tem a ver com a visão de futuro e um trabalho abnegado. O continente africano tem todo o potencial para fazer esse mesmo percurso para a modernidade sem descurar a sua idiossincrasia. Mas para isso precisa de instituições fortes dirigidas por líderes aplicados. Sem estarem todos a remar na mesma direcção, não há maneira de chegar a bom porto.»





Um inovador

2016/07/19

São José Almeida: «Governo procura co-financiadores de projectos de Inovação Social»



Público



«Ideia “não passa por substituir o Estado, nem privatizar as funções sociais do Estado”, ressalva ministra Maria Manuel Leitão Marques.

»A criação de parcerias do Estado com investidores privados para redinamizar e encontrar soluções diferentes que façam frente a problemas sociais é o objectivo de projectos já lançados pelo Governo, mais concretamente pela ministra da Presidência e da Modernização Administrativa, Maria Manuel Leitão Marques.

»O objectivo é trazer para Portugal, e “experimentar se também resulta no nosso país”, uma solução de financiamento de projectos sociais feito em parceria entre o Estado e os privados, explicou ao PÚBLICO Maria Manuel Leitão Marques. Este caminho, garante a ministra, “não passa por substituir o Estado nem privatizar as funções sociais do Estado”.

»“Inovação Social” é a expressão que serve de chapéu-de-chuva para a busca de soluções concretas de problemas da sociedade como o desemprego, a exclusão social, a pobreza, a reincidência criminal e o insucesso escolar. E é para o apoio a este tipo de intervenção que o Governo criou a Estrutura de Missão Portugal Inovação (EMPIS) que irá gerir 150 milhões de euros de fundos estruturais no âmbito do Portugal 2020, ou seja, nos próximos quatro anos.

»Cabe a Maria Manuel Leitão Marques tutelar este projecto "Portugal Inovação Social com fundos estruturais”. E a ministra admite que o sucesso deste tipo de parcerias se venha a verificar em “duas áreas que vão exigir este tipo de aposta”. Uma é a do “envelhecimento da população”. Aqui a questão coloca-se, não só “para fazer face a problemas de doenças próprias do envelhecimento, como a demência”, mas também no que diz respeito “ao acompanhamento de pessoas idosas”, questão em que a intenção é “encontrar respostas novas de acompanhamento que sejam colaborativas”.

»Outra área onde Maria Manuel Leitão Marques considera que este tipo de programa pode ter futuro e fazer a diferença é em relação “às alterações no mercado de trabalho” que resultam da globalização. “Vamos viver com desemprego estrutural provocado pelo impacto tecnológico”, afirma a ministra, prevendo que “vai haver necessidade de valorizar outro tipo de respostas e de reformulação de competências”.


O sucesso deste tipo de parcerias se venha a verificar em duas áreas, uma é a do envelhecimento da população, e outra área é em relação às alterações no mercado de trabalho, o desemprego estrutural provocado pelo impacto tecnológico.

»Investimento com retorno

»A ideia é que “os investidores se empenhem nos projectos para não perderem o investimento”, explica a ministra, acrescentando que, “em termos de sustentabilidade, os investidores têm vantagem”, já que, se receberem o investimento, podem investir de novo”. E pode mesmo dar lugar a mais-valias.

»Maria Manuel Leitão Marques frisa que este tipo de financiamento “complementa, e não substitui o mecenato”. E sublinha que “mecenato é um donativo que é dado porque se gosta de um projecto e se tem um benefício fiscal”, enquanto “aqui é diferente”. E pormenoriza: “Nos projectos de impacto social eu associo-me a uma entidade, com apoio e enquadramento. Por exemplo, associo-me a um projecto de ensinar e financio-o. E recebo no final o meu investimento de volta. Se for além do objectivo que tinha previsto, esse meu sucesso será remunerado.”

»Todos os projectos têm que ser validados pelas autoridades, “enquanto política pública”, mas têm como objectivo resolver problemas, por exemplo assegurar que haja “mais desempregados com emprego, porque aprendem programação, mais presos reinseridos socialmente, porque têm formação profissional”, ilustra a ministra.

»Parte dos mecanismos de financiamento são para projectos novos. Outra parte “é de apoio a iniciativas já no terreno que precisam de ser capacitadas”, explica a ministra, aprofundando: “São projectos que precisam de se expandir e que não têm meios, entram no que se chama o vale da morte”.

»Estas parcerias para a Inovação Social são financiadas de quatro modos, sempre a partir dos fundos estruturais geridos pela EMPIS. O primeiro chama-se Capacitação para o investimento Social, vai gerir fundos de 15 milhões de euros e os primeiros concursos serão lançados em Setembro. O objectivo é apoiar entidades da Economia Social.

»O segundo instrumento de financiamento da Inovação Social são as Parcerias para o Impacto que vão canalizar outros 15 milhões de euros e que terão os primeiros concursos lançados este mês. Destinam-se a projectos de filantropia financiados 50% pelo Estado e 50% por privados.»





Administração Pública e inovação