2016/05/31

«Os Açores precisam de mais»



Zuraida Soares. Esquerda Net



«Se 40 anos de Autonomia merecem, sem dúvida, ser festejados, devem ser também motivo de reflexão para preparar o futuro.Na passada segunda-feira, comemorou-se a nossa Autonomia e os seus 40 anos de vida.

»Independentemente dos diferentes ângulos de análise e dos problemas existentes (que são muitos e graves), penso que todos/as estamos de acordo numa coisa: sem Autonomia estaríamos muito piores!

»Esta fórmula de governo próprio, tendo já provado os seus méritos, impõe mais responsabilidade ao poder político regional, obrigando-o a uma real proximidade das pessoas e dos seus problemas, no sentido de encontrar uma mais rápida resolução dos mesmos.

»Se 40 anos de Autonomia merecem, sem dúvida, ser festejados, devem ser também motivo de reflexão para preparar o futuro.

»A envolvente externa - no país, na Europa e no mundo - passa por momentos muito complicados, onde predomina a vontade dos grandes trusts, aliados ao capital financeiro, devorando (na defesa dos seus interesses) a vida das pessoas, do ambiente e do próprio planeta.

»Hoje, exigem-se políticas e dirigentes políticos que façam frente a este terror, com coragem e ousadia e, também nos Açores, estas qualidades são necessárias e urgentes.

»Renovar os objectivos e ampliar as possibilidades de acção e de intervenção da Autonomia são desígnios referidos pelo Presidente do Governo Regional, no discurso do Dia da Autonomia. Não poderia estar mais de acordo com as suas palavras. Contudo, a acção concreta do Governo Regional e do Partido que o suporta, nada mostra nesse sentido.

»Num momento em que interesses poderosos viram os olhos para as potenciais riquezas do mar dos Açores, é obrigatório pensar como poderemos defender o que é nosso, reivindicando o alargamento dos poderes autonómicos, como instrumento de luta. Este assunto, em minha opinião, deveria ser o centro do debate sobre a ampliação da Autonomia.

»Mas para o Senhor Presidente e para o Partido Socialista, o centro é o insistente tema do Representante da República. Sempre defendi que esta figura Constitucional deveria ser removida, desde que (e só, desde que) se encontrasse uma alternativa mais democrática. Ora, o PS (que faz deste assunto o principal factor de aprofundamento autonómico), saiu do seu recente Congresso sem respostas capazes de resolver a questão.

Sempre defendi que esta figura Constitucional [o Representante da República] deveria ser removida, desde que (e só, desde que) se encontrasse uma alternativa mais democrática.

»Os Açores não precisam de jogos florais para entreter. Precisam de propostas para o seu futuro. Propostas assentes em ideias fortes e contextualizadas, na nossa realidade. Lamentavelmente, é isso que não vemos na elite dirigente.

»A Região não ultrapassará a encruzilhada que tem pela frente sem ideias fortes e políticos que as defendam, num debate maximamente alargado, diversificado e plural. Se sobre o aprofundamento da Autonomia andamos a fugir do essencial, já sobre o sério problema da nossa posição geoestratégica, o Governo Regional anda a reboque dos acontecimentos.

»Até hoje, temos seguido os humores de políticos – ora norte, ora luso-americanos -, para quem a Base das Lajes, tanto vai ser um centro de inteligência militar, como um centro de investigação científica, como outra coisa qualquer, dependendo da vontade do Pentágono e nunca da nossa! Para quando uma visão estratégica clara e assente nos interesses dos Açores?

»E para quando uma ideia séria sobre o Centro Internacional de Ciências do Mar, no Faial, em vez da cacofonia vigente?

»Os Açores já têm muito vento, não precisam de mais ventania… Precisam de ideias claras e nossas!


»Sobre o/a autor(a) Zuraida Soares

»Dirigente do Bloco de Esquerda. Deputada à Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, desde Outubro de 2008.»





Administração Pública e inovação

2016/05/30

Newsletter L&I, n.º 106 (2016-05-30)



n.º 106 (2016-05-30)

TAGS: # visão de futuro # visión de futuro # vision du futur # future vision


Administração Pública e inovação | Administración Pública e innovación |
Administration Publique et innovation | Public Administration and innovation

Um inovador | Un innovador | Un innovateur | An innovator

Uma inovação | Una innovación | Une innovation | An innovation

A execução da inovaçao | La ejecución de la innovación | L’exécution de l’innovation |
The innovation execution



Index


Liderar Inovando (BR)

«Programa Zona Franca do Futuro Lançado na Segunda Convenção e Exposição Internacional Anual da Organização de Zonas Francas Mundiais» ( ► )
«Evrnu™ e Levi Strauss & Co. criam o primeiro tecido jeans produzido com resíduo pós-consumo de vestuário de algodão» ( ► )
Elaine Pinheiro: «Da inclusão ao empoderamento digital: pelo uso consciente da tecnologia para impacto social» ( ► )
«CES Asia 2016: Duas visões diferentes de futuro» ( ► )

Liderar Inovando (PT)

«Arte urbana em malas? Por Angola é possível» ( ► )
Mário Lopes: «Portugal terá competitividade condicionada pelos transportes e mobilidade» ( ► )
«Porque Lisboa não é Berlim, há um movimento para definir Lisboa» ( ► )
«Schindler parceira do Projeto Solar Impulse» ( ► )

Liderar Innovando (ES)

«Crearemos un gobierno innovador con visión de futuro: Chacho Barraza» ( ► )
Ferrán Adriá: «Tengo miles de defectos, pero tengo una virtud, que es ver el futuro» ( ► )
Pau García-Milà: «La innovación es un proceso normal que se debe pasar para salir de la zona de confort» ( ► )
Eythor Bender: «Hay que acabar con los Gobiernos que luchan contra
el progreso» ( ► )

Mener avec Innovation (FR)

«Côte d'Ivoire: en route vers la IIIe République» ( ► )
«France, Suisse et Allemagne: à chacun sa vision de l'industrie du futur» ( ► )
Fougier Eddy: «L'alimentation du futur entre décroissance et technologies propres» ( ► )
«Kuang-Chi lance un fonds international pour l’innovation basé en Israël» ( ► )

Leadership and Innovation (EN)

Bard Papegaaij: «Successfully leading change in government» ( ► )
Mushtak Parker: «EPF's syariah scheme a game-changer» ( ► )
«Industry bodies welcome new IPR policy» ( ► )
«Igniting Young Minds to Become Change Makers» ( ► )

Licencia Creative Commons Licencia Creative Commons
Atribución-NoComercial 4.0 Internacional








2016/05/27

«Schindler parceira do Projeto Solar Impulse»



OJE. O Jornal Económico



«A Schindler é um dos quatro principais parceiros que se associaram para desenvolver o Solar Impulse, um avião 100 vezes mais leve e tem como missão fazer uma viagem à volta do mundo, sem combustível.

»A Schindler é um dos quatro principais parceiros que se associaram para desenvolver o Solar Impulse, um avião revolucionário que usa apenas a energia solar como combustível.

»Com a envergadura de um Airbus A340, o Solar Impulse é 100 vezes mais leve e tem como missão fazer uma viagem à volta do mundo, sem combustível.

A motivação por trás da missão do Solar Impulse é demonstrar que a inovação e um espírito pioneiro podem mudar o mundo.

»A motivação por trás da missão do Solar Impulse é demonstrar que a inovação e um espírito pioneiro podem mudar o mundo. É por isso que a Schindler é um parceiro principal no projeto Solar Impulse, “já que partilhamos este espírito de visão e inovação para o futuro”, refere a empresa.

»Como fabricante líder mundial de elevadores e escadas rolantes, a Schindler “está na linha da frente na forma como as pessoas vêm a mobilidade nas cidades do futuro” refere Thomas Oetterli, CEO da Schindler.

»Bertrand Piccard e André Borschberg, pilotos do Solar Impulse, iniciaram esta viagem épica à volta do mundo em 2015. Após a primeira travessia oceânica e um voo recorde do Japão ao Havai, a segunda metade do voo teve de ser adiada até abril de 2016.»





A execução da inovaçao

2016/05/26

«Porque Lisboa não é Berlim, há um movimento para definir Lisboa»



Mário Rui André. Shifter



«Com o crescente sucesso de start-ups portuguesas em mercados externos crescem também os rótulos e as comparações entre a cidade de Lisboa e outras capitais de inovação. De Berlim a Silicon Valley. Se com uma das cidades partilha os valores europeus e o espírito de rejuvenescimento da cidade aproveitando para dar nova vida a infraestruturas já existentes, com outra partilha a visão e a ambição, o pensar global. Mas, afinal, o que é Lisboa? – é a pergunta central do projecto Define Lisboa.

»Um projecto da Câmara Municipal de Lisboa, em parceria com a consultora de design estratégico With Company, com um propósito muito simples: o de compreender e definir o ecossistema empreendedor de Lisboa e a sua relação com a cidade. Porque se há três anos eram apenas 6, hoje Lisboa acolhe 15 incubadoras de startups – e mais de 40 espaços de coworking – numa pequena revolução que continua a passar despercebida. “Ninguém sabe quem é, onde está nem por onde anda mas andamos todos atrás dele. Entre as mais variadas definições, já ouvimos dizer que é um ecossistema, uma cena, uma coisa, um movimento”, escreve o Define Lisboa no seu blogue. Lisboa é única, é diferente e precisa de ser definida. Porque Lisboa não é nova Berlim nem a próxima Silicon Valley. É outra coisa, mas não uma coisa qualquer.

»O definelisboa.pt é a base de operações. O site funciona como uma ferramenta de recolha de opiniões e perspectivas, numa lógica de co-criação, e pretende em conjunto com o seu público explorar os caminhos que podem levar à verdadeira marca de Lisboa, capaz de representar o presente da cidade e dar o mote para o futuro.

»De tempos em tempos, a homepage do Define Lisboa lança desafios a quem por lá passa, com frases criativas que incitam a participação popular. “E se o ecossistema empreendedor de Lisboa fosse um desenho?”, é o desafio do momento. que pode ser respondido num whiteboard com pincel e caneta digital. “Essa é boa, deixem-me desenhar!” e quando estiver pronto, é só submeter.

»Pelo definelisboa.pt já passaram outros desafios. “Lisboa é a nova Berlim” foi a primeira frase quando a ideia ainda era um mistério, mas já à data as hipóteses de resposta revelavam o sentido do projecto. “E eu sou o Pai Natal” ou “Ya. Proust”. O Define Lisboa também já perguntou se a cidade portuguesa é uma aldeia, se é uma economia de sardinhas ou uma meca dos criativos – sempre com muito bom humor à mistura. Numa onda mais arrojada, pediu para completar a frase “Lisboa é…”, lançou o pânico a dizer que o Web Summit tinha sido cancelado e tentou imaginar como seria Lisboa se esta fosse uma app.

Ninguém consegue simultaneamente ter as horas de sol que temos, a boa disposição que temos, as infraestruturas que nós temos, os jovens qualificados que nós temos, a vontade de estarmos abertos à inovação e ao experimentalismo e, acrescentar a isso, ser competitivos no custo de vida e instalação.

»O site está sempre atento à actualidade de Lisboa. Mal surgiu a notícia de que o Spotify estaria de saída da Suécia, o definelisboa.pt escreveu “Lisboa é a nova casa do Spotify” e esperou pelas respostas: “Amor e cabana já” e “E a minha casa é o Palácio de Belém…” eram os botões disponíveis. “A ideia de fazer um mega spam ao Spotify e ver os movimentos que traria começou a ganhar alguma escala. Assim que divulgámos a nova frase no Twitter e página do Facebook do Define Lisboa, foi a sério! Milhares de visualizações, muitos retweets e partilhas. O buzz chegou!”, lê-se no blogue do Define Lisboa.

»O Define Lisboa vive para além do seu site. Até ao momento, já fez cerca de 50 entrevistas a investidores, fazedores, incubadoras, universidades e coworks. Visitou diferentes espaços do ecossistema e esteve presente em diferentes eventos como o BREAK, um ponto de encontro de empreendedores que acontece na última quinta-feira de cada mês no Hotel Florida. Os dados recolhidos vão sendo analisados pela equipa da With Company, responsável pelo projecto, e o objectivo é de apurar a verdadeira identidade deste movimento social da cidade de Lisboa.

»“Ninguém consegue simultaneamente ter as horas de sol que temos, a boa disposição que temos, as infraestruturas que nós temos, os jovens qualificados que nós temos, a vontade de estarmos abertos à inovação e ao experimentalismo e, acrescentar a isso, ser competitivos no custo de vida e instalação. Fazer parte do ecossistema de Lisboa é fazer parte da criatividade, do talento, da inovação deste século. Já temos hoje todas as condições para alguém que quer fixar-se em Lisboa tenha sucesso. E temos todas as condições para fazer as pessoas felizes”, explicou Duarte Cordeiro, vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa, num pitch que fez sobre o ecossistema empreendedor de Lisboa, a convite do Define Lisboa.

»O Define Lisboa é um projecto é para todo o ecossistema, para quem faz parte dele, para meros curiosos e entusiastas, para “empreendedores de bancada”, lisboetas natos ou inatos. Tem a duração de 3 meses e culminará na criação de uma marca unificadora e integradora de todo o ecossistema, bem como numa espécie de toolkit da cidade. O Define Lisboa pode ser encontrado no Facebook, no Twitter, e no Snapchat. O e-mail you@definelisboa.pt está também sempre disponível.»





Uma inovação

2016/05/25

Mário Lopes: «Portugal terá competitividade condicionada pelos transportes e mobilidade»



Sónia Bexiga. OJE. O Jornal Económico



«Mário Lopes, presidente da ADFERSIT - Associação Portuguesa para o Desenvolvimento dos Sistemas Integrados de Transportes, reflete sobre os principais desafios para o setor e ajuda-nos a perspetivar a década que se segue.


»Em sua opinião, atualmente, em Portugal, quais são os grandes desafios que se colocam aos setores do transporte e logística?

»Ao nível do transporte de mercadorias, passam por contrariar a tendência para o aumento dos custos do transporte terrestre para a Europa, devido ao facto de este se fazer em cerca de 80% do valor por rodovia e de estar a perder competitividade devido aos constrangimentos ambientais e energéticos. Logo, é necessária uma melhoria da competitividade da ferrovia que terá de ser interoperável (bitola europeia e sistema de sinalização e controle de velocidade ERTMS) e baseada em linhas de grande capacidade nos principais itinerários. Passa também por reduzir custos de transporte para os mercados mais afastados da Europa, que agora se fazem em grande parte enviando as nossas mercadorias para os hubs portuários do Norte da Europa, onde embarcam em porta-contentores que passam em frente aos nossos portos mas não os escalam por falta condições físicas (águas profundas) e de mercadoria para carregar e descarregar. Para este efeito, é preciso atrair esses navios ao único porto português de águas profundas, Sines, tentando despertar o interesse das grandes cadeias logísticas internacionais. Para tal, devem ser eliminados todos os entraves artificiais à expansão dos terminais de contentores de Sines até aos limites da sua capacidade, como fez o GTIEVA ao bloquear a construção do segundo terminal, o terminal Vasco da Gama, e melhorar as ligações ferroviárias de Sines a Espanha, de forma a permitir alargar o seu hinterland.

»No transporte de passageiros de longo curso, interessa garantir a capacidade aeroportuária de Lisboa para manter e expandir o hub de Lisboa (para o que o interesse da TAP nesse hub é vital), que é o que garante a maioria das ligações diretas aos destinos não europeus; e dar condições às low-cost para que o transporte para a Europa seja o mais competitivo possível.

»Ao nível da ferrovia, interessa salvaguardar a manutenção da rede existente, de forma a garantir a sua segurança e competitividade, para não afastar as pessoas. Interessa também, embora não seja uma prioridade de curto prazo, salvaguardar o futuro das ligações ferroviárias internacionais para passageiros para que, no futuro, Portugal não perca competitividade em relação a Espanha no que toca à atração de turistas, investidores e talentos. Esta questão deve ser acautelada desde já, pois as linhas internacionais devem ser preparadas para tráfego misto, ou seja, passageiros e mercadorias, dado que construir e manter linhas separadas para os dois tipos de tráfego faria incorrer em custos muitíssimo superiores. No transporte urbano e suburbano, importa alterar o paradigma atual baseado no transporte individual, cujo crescimento nos moldes atuais é insustentável por razões ambientais e energéticas, por uma política de incentivo ao transporte público e melhoria da eficiência de todos os tipos de veículos.


»Como tem encarado o tecido empresarial estes desafios? De que forma tem procurado responder-lhes?

»O setor empresarial tem tido comportamentos diferentes em cada um dos modos, e é igualmente importante o comportamento dos gestores de fluxos, os operadores logísticos, que concorrem em mercado aberto. O setor marítimo-portuário, dado o peso público quer nos ativos quer na regulamentação, é um setor que tem crescido tracionado pelas exportações mas com dinâmica moderada e evolução estratégica preocupante, dados os constrangimentos específicos a que está sujeito.

»No setor ferroviário, para além da mudança operada com a privatização da CP Carga, cujos resultados não foi possível ainda ver, dada a particularidade de ter sido comprada por um gigante marítimo que tem interesse em usar a ferrovia em Portugal de forma instrumental, nada se alterou significativamente no passado recente. No que diz respeito ao alargamento do hinterland dos portos e ao funcionamento em rede para aumentar a eficácia global, o interesse do operador privado que comprou a CP Carga é a expansão para Espanha, o que genericamente coincide com o interesse da economia portuguesa. Quanto a servir, no futuro, o tecido industrial português como um todo para as importações e exportações terrestres para o centro da Europa, já há mais incertezas, pois este operador pode não ter interesse por este mercado.

»No domínio dos transportes aéreos, foram feitas alterações significativas nos Açores com a introdução massiva das low cost e a privatização da TAP, que constitui um evento singular pela dimensão e importância no modelo logístico e de mobilidade aérea nacional. A privatização da TAP, conjugada com outros fatores como a privatização da ANA, a falta de dimensão do nosso mercado interno e o progressivo aumento da importância do transporte aéreo para a competitividade do país, deixou-nos condicionados pelo baixo tráfego endógeno e pela estratégia de rede das low cost e de estratégias que iremos perceber melhor dos interesses chineses numa companhia brasileira. Vamos ver se o resultado conduz ao reforço e competitividade do hub de Lisboa e das ligações do Porto aos principais destinos europeus, ou o seu contrário.

»No domínio do transporte rodoviário e da logística, mantém-se uma atividade intensa de modernização pela maior competitividade, dado serem os únicos que operam em mercado aberto. Destes em particular, destaca-se a importância crescente dos operadores na logística urbana num claro desafio pela competitividade das cidades onde já hoje está maioritariamente concentrada a criação de riqueza do país.


Além de querermos contribuir para manter Portugal na vanguarda no plano técnico tirando partido das capacidades existentes, queremos também cativar o interesse das camadas de técnicos das gerações mais novas, que têm interesse pelas novas tecnologias e todo o dinamismo técnico e empresarial que lhes está asociado.

»Tendo em conta o papel preponderante que o setor dos transportes assume na economia nacional, que expectativas tem face à política e planos de investimento do Governo para esta área?

»No que diz respeito à ferrovia, as perspetivas não são otimistas, porque consideramos que os investimentos previstos, nomeadamente o Plano de Investimentos em Infraestruturas Ferrovia 2020, muito escasso face ao que são as necessidades para fazer frente aos desafios referidos atrás.

»Ao nível portuário também há preocupações face à não remoção das restrições artificiais à expansão dos terminais de contentores de Sines, em particular a construção do segundo terminal, o terminal Vasco da Gama, e ao facto de, no projetado terminal do Barreiro, se colocar a hipótese de as dragagens ficarem a cargo da Administração portuária. Tendo em conta que se pretende construir um porto com fundos de 16m num local com 2m de profundidade da água, isto pode resultar numa renda brutal a pagar pelos contribuintes, porque os privados não o farão certamente.

»Ao nível aeroportuário, preocupa-nos alguma falta de informação sobre a capacidade da escolha do Governo pela solução “Portela+1” para assegurar a capacidade aeroportuária de Lisboa sem, com isso, criar restrições à expansão e competitividade do hub de Lisboa.


»A inovação nos transportes e mobilidade é a linha orientadora do 12.º Congresso da ADFERSIT, agendado para os próximos dias 3 e 4 de maio, em Lisboa. O que levou à escolha desta temática?

»A inovação é um dos fatores de competitividade em todas as atividades económicas e os transportes não são uma excepção. O foco do interesse da ADFERSIT é a competitividade da economia e o papel indispensável que o setor dos transportes deve ter ao serviço da melhoria dessa competitividade. No âmbito do Congresso, decidimos focar as atenções mais fortemente nesse importante fator da competitividade dos serviços que o setor dos transportes deve prestar à economia, que é a inovação e os avanços tecnológicos. Com isto, além de querermos contribuir para manter Portugal na vanguarda no plano técnico tirando partido das capacidades existentes, queremos também cativar o interesse das camadas de técnicos das gerações mais novas, que têm interesse pelas novas tecnologias e todo o dinamismo técnico e empresarial que lhes está associado.


»Um dos objetivos deste congresso é contribuir para a reflexão de uma visão estratégica para o horizonte 2020-2030. Que metas considera prioritárias e devem ser alcançadas até 2030? Que evolução espera deste setor em 10 anos?

»Dependendo muito da estabilidade e construtividade da política nacional, europeia e internacional, Portugal terá a sua competitividade muito condicionada pela política de transportes e mobilidade. Muito mais do que pelo custo da mão de obra e talvez até mesmo mais do que pelas qualificações.

»A transformação da economia, que se pretende rápida na exportação e produção de bens transacionáveis, terá uma tendência devido ao tempo de ciclo e à atração e mobilização de capitais para investimento, a concentrar-se em produções pequenas de elevado valor que exigem tempos de ciclo de disponibilização muito curtos, pouco ou nenhum stock e lead time curto e de elevada fiabilidade. A conectividade medida pelo número de ligações entre terminais nas ligações aos mercados de interesse a custo competitivo e a sua frequência determinarão a necessidade de maior transparência e competitividade, principalmente no transporte marítimo onde se gerarão novos serviços e a melhoria dos existentes, e o desenvolvimento de novas e maiores infraestruturas. O transporte aéreo, pela sua importância atual e crescimento futuro, pelos constrangimentos da baixa escala da geração de carga endógena, só poderão contribuir para a competitividade sem reprimir a procura potencial, para o que pode ser necessária a construção do NAL. Mas este não deve ser construído a qualquer custo, devendo ter sempre como critério de decisão no seu planeamento a competitividade dos serviços a prestar, e não a construção de obras de regime para eleitor ver.

»No transporte ferroviário, pela sua importância na ligação dos portos aos mercados e da necessidade da economia de vias competitivas para as ligações aos mercados do centro da Europa, poder-se-á ver um grande crescimento estrutural se, em simultâneo, se conseguir construir vias interoperáveis que evitem que a nossa ferrovia continue a ser um apêndice do sistema ferroviário europeu; e se aumente e diversifique a oferta introduzindo processos de concorrência mais efetivos e de dimensão ibérica e europeia. Na logística urbana, quer a tendência da omnicanalidade, quer do turismo e da atração e fixação de talento, tendencialmente evoluirá para sistemas integrados de gestão dinâmica da mobilidade e gestão de fluxos de produtos nas cidades.»





Um inovador

2016/05/24

«Arte urbana em malas? Por Angola é possível»



Nídia Azevedo. JPN - Jornalismo Porto Net



«Seis malas de viagem foram ilustradas por artistas de arte urbana portugueses, com o objetivo de serem leiloadas e o dinheiro reverter a favor da requalificação da escola da Palankinha, em Angola.

»A Escola da Palankinha é a escola primária nº 5052 do Bairro de Capalanca no Município de Viana, província de Luanda, em Angola. É também um projeto dinamizado pela Agência Piaget para o Desenvolvimento (APDES), uma ONGD portuguesa, e que vai agora iniciar a 2ª fase de requalificação.

»Este projeto surge a partir dum pedido da comunidade, para que se melhorasse as condições de educação para as crianças daquela zona. “Esta era uma escola que já existia, que albergava muitos meninos, sem condições, não tinha água canalizada, não havia um muro a delimitar a escola, as pessoas entravam e saíam a qualquer altura”, explica ao JPN Nicole Ferreira, gestora da campanha da Escola da Palankinha.

»A APDES começou por requalificar, arquitetonicamente, a escola cujo nome foi dado “pelos meninos que, carinhosamente, apadrinharam de escola da Palankinha”. Nessa primeira fase, a Agência aumentou as salas para que houvesse melhores condições para as crianças, dado que “havia meninos que não tinham uma carteira e uma cadeira, e que assistiam às aulas no chão”. Para além disso, também se fez uma biblioteca que não está só acessível aos alunos, mas também à comunidade envolvente da escola.

»O foco da requalificação foi “começar por criar as condições de forma a que os meninos pudessem estudar de uma forma agradável, com as condições mínimas”, indica Nicole Ferreira.

»Paralelamente a esta requalificação, a ONGD investiu também, de acordo com a gestora da campanha, numa “formação aos professores para a implementação de um modelo educativo inovador, que se baseia nos princípios de cidadania ativa, na participação da comunidade envolvente à escola, na promoção dos direitos humanos, etc”. O projeto quer também investir na comunidade e, por isso, “vai tendo uma série de ações satélite em que a escola promove várias iniciativas que beneficie a comunidade que está à volta da mesma”, conclui Nicole.

»O desejo de continuar a investir na Palankinha permaneceu, e a ONGD não quis deixar de o fazer. “Como nós temos alguns constrangimentos de financiamento recorremos, quer à responsabilidade social das empresas, quer a certas formas criativas de angariar fundos”, conta a gestora da campanha.

“Como nós temos alguns constrangimentos de financiamento recorremos, quer à responsabilidade social das empresas, quer a certas formas criativas de angariar fundos”, conta a gestora da campanha.

»Por isso mesmo, e com o objetivo de angariar fundos para uma segunda fase de requalificação, a APDES recorreu à Samsonite que, gentilmente, cedeu seis malas de viagem à ONGD.

»As malas passaram depois pelas mãos de consagrados artistas de arte urbana portugueses que as ilustraram. Andy Calabozo, Chei Krew, Costah, Frederico Draw, gonçaloMAR e Laro Lagosta personalizaram as malas de viagem que estão agora em leilão para angariar fundos destinados à Escola da Palankinha.


»Uma visão para o futuro das crianças da Palankinha

»Frederico Draw partilha com o JPN que aceitou participar no projeto pelo cariz solidário do mesmo, e acredita que há, de facto, “projetos em que os artistas podem ajudar, de alguma forma, a sensibilizar ou a que coisas sejam feitas em prol de outros mais desfavorecidos ou carenciados”.

»Para Frederico “a parte da educação é fundamental para qualquer criança” e a partir do momento em que soube que era para investir numa escola, não hesitou.

»A ilustração do artista, segundo o próprio, foi baseada na figura humana, e na qual quis trabalhar com os mesmo materiais com que trabalha nas paredes: a lata do spray. Por isso mesmo “limitou-se a um elemento representativo” do seu trabalho, e desenhou um olho, ilustrando o olhar enquanto principal recurso de descoberta do mundo.

»Também através do olhar, o artista considera que para os alunos da Palankinha e “uma vez que se está a falar de educação”, a sua ilustração poderá representar uma visão para o futuro de cada criança, e que cada uma delas possa ver nesta iniciativa uma oportunidade.


»Uma esperança na mudança

»Também Costah admite que foi com “grande prazer” que aceitou o convite, pelo facto de algo que ele “adora fazer” ser de ajuda para outros.

»Segundo o artista, o seu desenho foi baseado, “essencialmente, em movimento, viagens, experiências”. Costah gosta de “pintar coisas fluídas” porque acredita que “a nossa vida está sempre em mudança e que nós temos de nos adaptar”. Por isso mesmo, o desenho de Costah, visível numa das malas, “representa a vida e o facto de as pessoas aceitarem novos projetos e novas situações”.

»Aos alunos da Palankinha, o artista deixa um incentivo: “Acreditarem sempre num futuro melhor porque as coisas estão sempre em mudança, há sempre oportunidades que surgem e vai sempre haver esperança”.

»Nicole Ferreira coloca a sua esperança nesta ação e deseja que esta possa dar “frutos suficientes para que este dinheiro seja aplicado na construção de casas de banho e num campo de jogos para os meninos conseguirem ter aulas de educação física, quer para continuar esta formação aos professores, para que haja cada vez mais professores a ter acesso a esta formação e a melhorar cada vez mais as suas competências”.

»O leilão está a funcionar no portal eSolidar, um portal destinado a organizações sem fins lucrativos. Quem quiser ser parte da angariação de fundos basta licitar uma das malas e ir acompanhando o leilão para saber se é, ou não, a pessoa a ficar com a mala em que investiu. A base de licitação varia entre 150 e 200 euros, consoante o tamanho da mala.»





Administração Pública e inovação

2016/05/23

Newsletter L&I, n.º 105 (2016-05-23)



n.º 105 (2016-05-23)

TAGS: # convivência # convivencia # convivialité # coexistence


Administração Pública e inovação | Administración Pública e innovación |
Administration Publique et innovation | Public Administration and innovation

Um inovador | Un innovador | Un innovateur | An innovator

Uma inovação | Una innovación | Une innovation | An innovation

A execução da inovaçao | La ejecución de la innovación | L’exécution de l’innovation |
The innovation execution



Index


Liderar Inovando (BR)

«Conheça a programação cultural dos Jogos Rio 2016. A cultura brasileira será a porta de entrada para a Olimpíada e Paralimpíada» ( ► )
«Ed Lee, de São Francisco: a diversidade é nossa força» ( ► )
Celaine Refosco: «Sonhos coletivos: empreendedorismo e ação» ( ► )
«Prefeito acompanha construção da Praça da Juventude» ( ► )

Liderar Inovando (PT)

«“Trabalhamos para um património riquíssimo comum: a Língua Portuguesa e a cultura da CPLP”» ( ► )
Mário Lúcio Sousa: «O nosso único passado é a nossa cultura, o nosso único futuro também» ( ► )
Christiana Martins e Joana Pereira Bastos: «A cor da pele conta para os resultados dos alunos» ( ► )
«Crianças têm de estar mais com os pais» ( ► )

Liderar Innovando (ES)

«El Ayuntamiento de Albacete ha participado en el Consejo de la Red por la Transparencia y la Participación Ciudadana» ( ► )
«'Future Nature', la naturaleza del futuro imaginada por
Bernardo Rivavelarde» ( ► )
«Con exposición colectiva El eco de la Tierra celebran segundo aniversario de galería Chopin» ( ► )
«ONG impulsa plataforma de convivencia civil para niños» ( ► )

Mener avec Innovation (FR)

Christophe Noisette, Pauline Verrière: «France – OGM, HCB et société civile : la coexistence est-elle possible ?» ( ► )
«Samsung Business cible les réseaux constructeurs» ( ► )
«“Chief Millennials Officer”, une nouvelle profession hôtelière ?» ( ► )
Lucile Berland: «Les nouveaux écolos ont tué l'écologie anxiogène» ( ► )

Leadership and Innovation (EN)

Renaud Thillaye: «Beyond Brexit: can the EU operate as a platform?» ( ► )
Waqas Younus: «Fairy tale of a city» ( ► )
Piero Formica: «The Innovative Coworking Spaces of 15th-Century Italy» ( ► )
Gary Rosenblatt: «Make-a-thons pair techies and people with disabilities to turn tikkun olam into action (Repairing The World In 72 Hours)» ( ► )

Licencia Creative Commons Licencia Creative Commons
Atribución-NoComercial 4.0 Internacional








2016/05/20

«Crianças têm de estar mais com os pais»



Vera Lúcia Arreigoso. Expresso



«Ordem dos Médicos vai lançar uma petição para reduzir o horário de trabalho de quem tem filhos até aos três anos.

»É uma medida de saúde pública que a Ordem dos Médicos (OM) justifica com a necessidade de prevenir o risco de doenças mentais no futuro próximo. Hoje, sábado, avança com uma petição para que os deputados discutam na Assembleia da República a redução do horário de trabalho em duas horas diárias para os pais ou as mães com filhos até três anos.

»A recolha de assinaturas pretende dar força à proposta que no ano passado os médicos tentaram incentivar, enviando uma missiva de sensibilização aos principais decisores do país. “Para lá da carta a acusar a receção da nossa proposta, até à presente data, surpreendentemente, não recebemos qualquer outra notícia de aceitação ou recusa. A situação que se mantém é injusta, consome tempo e recursos e prejudica as famílias”, afirmam na petição que agora vai ter início.

»Na fundamentação científica que apresentam, os especialistas em psiquiatria da Infância e da Adolescência da OM alertam que o “pleno exercício da função parental” é decisivo para “a vivência que a pessoa terá de si própria e do mundo e para a maneira como se colocará nas situações, agirá e reagirá”. Permitir que as crianças na primeira infância estejam diariamente na companhia da mãe ou do pai durante o tempo adequado “tem reflexos no desenvolvimento cerebral e na formação da identidade emocional e a presença de outros cuidadores, como os avós, não substitui os progenitores”, garante o pedopsiquiatra e responsável da OM Pedro Pires.

Permitir que as crianças na primeira infância estejam diariamente na companhia da mãe ou do pai durante o tempo adequado “tem reflexos no desenvolvimento cerebral e na formação da identidade emocional e a presença de outros cuidadores, como os avós, não substitui os progenitores.

»A diligência dos médicos veio agora juntar-se à iniciativa de um grupo de mães que há pouco mais de um mês se juntaram num movimento civil semelhante. “Criei a petição através do telemóvel enquanto esperava que a minha filha adormecesse e no dia seguinte já havia um ‘boom’. As crianças estão sedentas de atenção e poder reduzir um pouco o horário diário seria o verdadeiro equilíbrio entre a vida pessoal e profissional”, afirma a dinamizadora da iniciativa popular Aurora d’Orey.

»Além da possibilidade de permitir prevenir hoje para não ter de tratar amanhã, a redução da carga laboral em duas horas por dia, e sem penalização nas remunerações, é “uma medida concreta de apoio à natalidade, pois a não reversão da situação atual pode comprometer definitivamente o futuro demográfico e a sustentabilidade do país”, lê-se no texto que acompanha a petição. O médico Pedro Pires acredita que o regresso às 35 horas semanais já aprovado pelo Governo é o momento ideal para introduzir também esta mudança.


»Bloco de Esquerda avança na próxima semana

»Atualmente, o direito a menos horas de trabalho só está consagrado para mães que aleitam crianças até um ano e daí em diante para as mulheres que provem estar ainda a amamentar. O Parlamento prepara-se para discutir algumas alterações no campo da parentalidade, mas só envolvendo bebés até aos dois anos.

»O Bloco de Esquerda (BE) vai apoiar outra petição já entregue para alargar a licença de maternidade paga a 100% dos quatro até aos seis meses de idade dos bebés e aproveitar a discussão para propor também a redução do horário em duas horas diárias para as mães ou os pais de crianças até aos dois anos. Ao Expresso, o porta-voz do partido, João Curvêlo, adiantou que a discussão está prevista para o final da próxima semana e que apoiarão o alargamento até aos três anos quando a petição da OM chegar aos deputados.

»À direita, o CDS planeia discutir as questões da natalidade no início do próximo mês. A presidente do partido, Assunção Cristas, apresentou esta semana um pacote com várias medidas, embora nenhuma no sentido defendido pelo BE ou pelos médicos.

»Constam do plano do CDS, por exemplo, propostas como a flexibilidade dos horários das creches e dos estabelecimentos do ensino pré-escolar, sobretudo quando têm contratos com o Estado, o alargamento de parte da licença parental aos avós ou a possibilidade de faltarem ao trabalho para assistência à família, no caso aos netos.»





A execução da inovaçao

2016/05/19

Christiana Martins e Joana Pereira Bastos: «A cor da pele conta para os resultados dos alunos»



Expresso



«Em entrevista ao Expresso, o investigador do ISCTE e coautor de um estudo sobre os estudantes afrodescendentes no sistema educativo português, Pedro Abrantes, assegura que as escolas discriminam os alunos em função da cor da pele - e diz que os professores têm de ser educados para não segregar. Os estudantes oriundos dos PALOP chegam a chumbar quase duas vezes mais do que os restantes e são mais encaminhados para o ensino profissional. Como se o sistema escolar e os cursos orientados para o prosseguimento de estudos lhes dissessem “o vosso lugar não é aqui”

»Os estudantes afrodescendentes reprovam mais do que os seus colegas de outras origens culturais. E porque reprovam mais, são mais encaminhados para os cursos profissionais. Dois investigadores do ISCTE decidiram estampar num estudo académico o que parece uma inevitabilidade. Para resolver o problema, querem alterações nos currículos, formar os professores para a diversidade e, sobretudo, reduzir as reprovações entre estes alunos.

»Pedro Abrantes é coautor, com Cristina Roldão, da investigação sobre os afrodescendentes no sistema educativo português. Doutorado em Sociologia pelo ISCTE-IUL, é membro, desde 2002, do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia, tendo participado em diversas pesquisas nacionais e internacionais nas áreas da educação, juventude e desigualdades sociais. Horas antes da apresentação pública do estudo, falou com o Expresso Diário, assumiu as fragilidades da investigação e apontou soluções para o problema.


»O que são alunos afrodescendentes? Que dados permitem falar em segregação racial se, em Portugal, não se pode classificar as pessoas pela sua etnia?

»Os dados que utilizamos no estudo foram disponibilizados pelo Ministério da Educação e dizem respeito à naturalidade e nacionalidade dos alunos e dos seus pais. É verdade que não temos dados específicos sobre a etnia dos alunos porque não podemos fazer segmentação nesta base. Estes dados não temos porque não podem ser recolhidos, o que nos coloca dificuldades em relação à comparação com outros países. Os dados que temos são administrativos, mas permitem fazer alguma identificação da origem e da cor da pele dos alunos.


»Mas deve deixar muitos de fora, sobretudo os estudantes cabo-verdianos, de segunda e terceira gerações, que têm nacionalidade portuguesa...

»Sim, é verdade. Se todos fossem tidos em conta, o problema seria ainda maior. O universo peca por ser inferior à realidade.


»Como investigador, defende a alteração da situação atual e a possibilidade de se indagar a etnia das pessoas?

»Como investigador, sim, defendo, embora tenha consciência de que esta alteração levanta questões políticas, que visam tentar evitar a segregação com base nesta identificação. Este é um debate que existe no ambiente da Academia.


»A vossa pesquisa não tem em conta o peso das condições sociais nos resultados dos estudantes afrodescendentes?

»Não é a cor de pele que explica o comportamento, nós sabemos. E a cor da pele não foi o único critério considerado na análise. Cruzamos a etnia dos estudantes com a situação social das famílias e a escolaridade dos pais. E, mesmo depois, ficou claro que a cor da pele conta para os resultados dos alunos.


»Como?

»Há um indicador importante que é o nível de reprovações. Os afrodescendentes reprovam mais do que a generalidade dos outros estudantes. E constatámos que os cursos profissionais são mais aconselhados pelos professores a estes alunos.


»Então, são os professores que dão notas mais baixas a estes alunos, fazendo com que reprovem mais e acabem a ser encaminhados para os cursos profissionais?

»Sim, este é um problema que não tem a desejável reflexão nas escolas portuguesas. Tudo começa no ensino básico, na constituição das turmas, quando as escolas selecionam os alunos que entram.


»Mas isso não é permitido.

»Mas acontece. E parece que o sistema escolar diz que os cursos científicos e de humanidades não são para os estudantes afrodescendentes. É como se dissessem “o vosso lugar não é aqui”.


Constatámos que os cursos profissionais são mais aconselhados pelos professores a estes alunos. E parece que o sistema escolar diz que os cursos científicos e de humanidades não são para os estudantes afrodescendentes. É como se dissessem “o vosso lugar não é aqui”.

»A língua não deveria ser tida em conta? Muitos alunos cabo-verdianos não têm o Português como língua materna, o que dificulta a adaptação e o sucesso escolar.

»Sim, a língua é um fator fundamental, mas não é o principal. Até porque as escolas do século XXI deveriam estar preparadas para receber os alunos de outras origens. A escola tem de aprender a lidar com estes alunos sem os segregar.


»E como avaliaram o impacto das classes sociais a que pertencem os alunos e as suas famílias e a escolaridade dos pais dos estudantes afrodescendentes?

»Este foi um dos dados mais surpreendentes da investigação. Constatar que as crianças afrodescendentes de situação económica mais favorecida também reprovam mais do que as demais. Foi o resultado que nos deixou mais preocupados. Revela a importância das origens culturais no sucesso escolar dos alunos. No últimos anos, foi privilegiado pelo sistema de ensino a aprovação nos exames de Português e de Matemática, o que coloca em causa a lógica multicultural da aprendizagem. Desde 2008 que os mediadores culturais deixaram de ser contratados e a integração das diferentes origens dos alunos deixou de ser prioritária.


»Qual a realidade dos alunos afrodescendentes de classes mais favorecidas em relação aos demais?

»Mesmo quando os pais têm o ensino superior ou rendimentos acima da média, as reprovações são superiores: 30,5% para 22%. 41% dos afrodescendentes tiveram alguma reprovação no secundário, face a 23% dos demais. É quase o dobro. No geral, a reprovação foi de 63% entre os afrodescendentes e 47% nos alunos com as outras origens.


»Tiveram em conta as expectativas dos alunos e das suas famílias? Estes estudantes não querem e precisam de começar a trabalhar mais cedo do que os demais?

»Este é um ponto que queremos aprofundar em estudos posteriores. O estudo apresentado esta quarta-feira foi fundamental para se fazer o levantamento com dados nacionais. Deu-nos a dimensão do problema, mas há muitas questões que terão de ser desenvolvidas. Sobretudo porque percebemos que há duas reações típicas dos estudantes afrodescendentes: há aqueles que se sentem segregados e se revoltam e, os que mais me preocupam, aqueles que acham que a escola e as universidades não são locais para eles. E que as únicas saídas são os cursos profissionais. O que me preocupa é que estão a chegar poucos afrodescendentes ao nosso sistema universitário.


»Abordaram a situação dos ciganos?

»Não, este é um caso ainda mais complexo, porque não há qualquer possibilidade de fazer um levantamento estatístico, porque eles são referidos apenas como portugueses. Sabemos que aqui o insucesso escolar é ainda maior. Nos ciganos já é considerado muito bom chegar ao nono ano, ou seja, abaixo do ensino obrigatório.


»Quais serão os vossos próximos passos?

»Queremos avançar com uma nova investigação nesta área, já em setembro, nas escolas onde há mais diversidade cultural. Perceber a relação destes alunos, dos seus pais e dos professores e da própria comunidade com o sistema de ensino.


»Chegam a propor soluções para o problema da segregação racial?

»Há várias soluções, mais ou menos extremas. É, sobretudo, importante dar mais formação aos professores, de forma a que lidem melhor com a diversidade, não como um problema, mas como algo que deve ser valorizado. Tem de se repensar a lógica dos currículos, de forma mais inclusiva, tendo em conta as diferentes origens dos alunos. E há que reduzir bastante os mecanismos de reprovação destes grupos. A principal forma de combater a segregação é reduzir o nível de reprovação. Temos indicações que o Ministério de Educação está a lançar uma estratégia neste sentido.


»Mas como querem que se reduzam as reprovações? Com medidas de discriminação positiva?

»Tem de ser discutido. É preciso pensar as reprovações como uma última via. É preciso desmontar os sistema e a lógica das reprovações. Essa situação não é uma inevitabilidade. Está previsto na Constituição que todos os alunos devem ter sucesso escolar.


»A grande conclusão do estudo não devia ser a de que os alunos pobres são segregados?

»Este estudo não rejeita a importância das condições socioeconómicas. É o fator principal, mas a inovação vem de se perceber que a origem nacional e a diferença cultural têm no caso dos afrodescendentes um peso significativo. Porque há alunos estrangeiros de origem europeia com bons resultados. E o sistema educativo tem de ser mais inclusivo com estas minorias. As reprovações nos últimos anos voltaram a crescer e os grupos de risco são os mais afetados, como os afrodescendentes.»





Uma inovação

2016/05/18

Mário Lúcio Sousa: «O nosso único passado é a nossa cultura, o nosso único futuro também»



Jorge Montezinho. Expresso das Ilhas



«Numa das semanas, culturalmente, mais forte da capital: Atlantic Music Expo e Kriol Jazz, o Expresso das Ilhas aproveitou para falar com o Ministro da tutela para fazer o balanço de um mandato. Mas com Mário Lúcio Sousa é raro que as conversas sigam um guião pré-determinado. Por isso, falou-se do que foi alcançado e falou-se também de sonhos, de ideais, de espiritualidade e dessa marca identitária que é a cultura cabo-verdiana.


»A cultura é hoje um discurso de Estado, como desejava quando tomou posse da pasta?

»Sim, já é. O senhor Presidente da República tem a cultura no seu discurso, em permanência, para além do lado poético, também do lado institucional, e esteve presente em todos os momentos em que o convidámos. O Parlamento agendou um debate sobre a cultura. E foi um grande debate, sempre com elevação, mas também era a primeira vez que o Parlamento agendava a cultura e as economias criativas, em toda a sua dimensão, para um debate nacional. O senhor Primeiro-Ministro usa a cultura em permanência. Não só criou o ministério da Cultura como elevou a fasquia. E conseguimos que a cultura fizesse parte do documento estratégico de crescimento e redução da pobreza, que é o documento que o governo de Cabo Verde apresenta aos doadores, ao grupo de apoio orçamental, é com base nesse documento que as Nações Unidas, a União Europeia, o Banco Mundial, financiam projectos e a cultura consta como um dos pilares do desenvolvimento do país. E sentimos em todas as câmaras municipais o valor que se deu à cultura. Estive agora em contactos com vários vereadores, muitos deles são candidatos a presidente de câmara, quer dizer que a cultura deixou de ser aquele pelouro sazonal para ser o coração, praticamente, do município. E, último exemplo, veja-se o que o Estado fez com o Atlantic Music Expo: ao baixar uma resolução e ao colocar o evento no Orçamento. Julgo que o Estado cabo-verdiano assume a cultura como uma parte fundamental da sua estabilidade e do seu crescimento.


»Uma das pastas que continua no novo governo é exactamente a da cultura.

»Fiquei muito feliz. Há tendência de continuidade e de absorção de tudo o que se fez. Porque tudo isto é um enorme percurso.


»Acha que a sociedade civil hoje já assumiu a cultura como algo integrante do seu dia-a-dia. O ‘saber fazer’ de que tanto falou?

»Temos os dados estatísticos e também temos aquilo a que chamamos o apalpar. Viajei por todos os municípios do país, por várias vezes, e sempre que fui, encontrei-me tanto com as câmaras como com os agentes culturais e vimos como foi o crescimento. Vimos quais eram os pedidos de apoio, as queixas, as lamentações, em várias áreas, e hoje vemos qual é a postura. Eu diria que mais do que o empreendedorismo é a assunção que ele não é um peso morto, não é um dependente das estruturas ou dos apoios públicos, tem a sua própria capacidade só precisa que o Estado organize as condições para ele exercer. Julgo que é comum, pelo que tenho lido e ouvido, que a sociedade no seu todo também assumiu a cultura. Não estamos a falar da gestão cultural ou da política pública para a cultura, mas a noção que afinal é um dos maiores valores que temos. Basta ver como o sector do Carnaval cresceu em todas as ilhas, municípios que não tinham Carnaval passaram a ter, como o artesanato cresceu. A sociedade sabe, sente e estimula quem faz, por isso acredito que sim, há essa sensibilidade.


»Quando falava no “saber fazer”, usava a expressão num sentido mais amplo, que tudo era cultura, desde a forma como se cozinha até à maneira como se pesca. Há hoje essa noção dessa marca identitária própria do país?

»Em Cabo Verde sim, mais do que em outras partes do mundo. E acho que tem a ver com a nossa fragilidade maior que é termos vindo do encontro de várias culturas, somos um país recente e uma nação recente, e isto leva-nos a que o nosso único passado é a nossa cultura, o nosso único futuro também. E nesta mediação o nosso quotidiano é baseado nisso. Se nos tirarem a parte que nós identificamos como cultura no seu sentido lato a nação cabo-verdiana desaparece, porque não temos por onde juntar os elementos que nos permitam dizer: no século IV tínhamos isto, ou, venho de uma linhagem tal, ou, a minha etnia é esta e a minha tribo é aquela, não há nenhuma forma. Quando o cabo-verdiano tem noção disso, entra em toda a sua postura. Eu vejo a capacidade da tolerância, eu vi, e valorizo muito, esta transição democrática, de uma exemplaridade mundial, também vejo como é que o cabo-verdiano troca opiniões, quando quer, com elevadíssima qualidade. Sabemos bem conviver uns com os outros, as pessoas vêm cá e apoderam-se do país, que é um sonho meu muito particular: que a humanidade seja a casa do mundo, que as pessoas sejam de onde se sentem bem. Em Cabo Verde está em nós essa capacidade de sentir que a cultura dita tudo o que fazemos.


»Quando assumiu a tutela falou em três objectivos que considerava fundamentais. Analisando-os hoje, e começando pelo primeiro: a valorização da arte e dos artistas. Considera que foi cumprido?

»Para além do aspecto institucional, há o aspecto prático. No aspecto institucional, e ainda ontem [domingo] estive a fazer um relatório, aprovámos trinta e oito diplomas. Dá uma média de mais de sete diplomas por ano. Aprovámos, por exemplo, o estatuto do artesão. Conseguimos criar uma taxa para financiar a cultura. Está no conselho de ministros, para agendamento do próximo governo, o estatuto do artista, a lei de licenciamento de espectáculos e o estatuto do agente cultural. Para além disso, ao criar o Banco da Cultura quisemos criar um intermediário entre o artista e os operadores comerciais, fizemos com que houvesse crédito para a cultura, que não havia, e poupámos o artista a ter de ir ele mesmo, porque o nosso Banco da Cultura faz essa intermediação. Organizámos o fórum nacional do artesanato, que criou uma comunidade dos artesãos em Cabo Verde, com rede de distribuição. A música é sempre mais visível e criámos os canais para que os músicos possam criar e exportar. Também está no conselho de ministros para agendamento a lei do cinema e do audiovisual. Houve todo esse trabalho e também sentimos que a nossa auto-estima cresceu, até no discordar. Por vezes essas exigências, essas pressões, esses desacordos são fruto da qualificação da condição do artista.


»Um segundo objectivo tinha a ver, precisamente, com o financiamento da cultura.

»Nós trabalhamos numa visão de longo prazo. E quando pensamos no financiamento da cultura, primeiro criámos um fundo autónomo, depois criámos o sistema do Banco da Cultura, para avalizar os empréstimos aos artistas. Como é que se capitaliza o banco? Tivemos de ir buscar fundos e provar que essa inovação era válida para que o governo financiasse o banco em 50 mil contos, em tranches. Mas, a longo prazo estava a criar uma instituição para vir gerir a taxa da cultura, é a saída que estou a deixar: o fundo sustentável. Porque o Banco da Cultura vai avalizando, há incumprimentos, vamos pagando, vamos investindo e essa capitalização vai-se esvaindo. Por isso criámos a instituição, formámos as pessoas, firmámos acordos com os bancos comerciais, crescemos em termos de organização, apresentamos relatórios ao Tribunal de Contas e ao Ministério das Finanças para ver se os procedimentos são correctos e agora conseguimos aprovar a lei da cópia privada, a que chamo taxa da cultura. Daqui a menos de um mês começa a sua aplicação e é um fundo que vem para o Banco da Cultura. O que a cultura vai receber com essa taxa é maior do que o meu orçamento anual, agora sim o Banco vai ter mais capitalização, pode lançar mais projectos, etc.


E quando pensamos no financiamento da cultura, primeiro criámos um fundo autónomo, depois criámos o sistema do Banco da Cultura, para avalizar os empréstimos aos artistas. Como é que se capitaliza o banco? Tivemos de ir buscar fundos e provar que essa inovação era válida para que o governo financiasse o banco em 50 mil contos, em tranches. Mas, a longo prazo estava a criar uma instituição para vir gerir a taxa da cultura, é a saída que estou a deixar: o fundo sustentável.

»E o terceiro objectivo que traçou foi a mudança das mentalidades. Conseguiu-se?

»Sim. Quando entrei aqui ficava até à noite a despachar pedidos de apoio. E com um trabalho sistemático, em todos os municípios, fomos substituindo a palavra apoio por parcerias e incentivos. Outra mudança de mentalidade: dantes, os fundos do Estado eram para ser distribuídos e nós dissemos que eram para ser aplicados. Outra mudança de mentalidade não passou só pela cabeça do artista, mas também pela cabeça do próprio Estado, quando dissemos que não eramos parasitas, mas sim produtores de cultura, de economia e agentes do desenvolvimento. O Estado hoje também tem essa noção, portanto, a mudança de mentalidade foi dos dois lados. E o ganho está no respeito que o Estado hoje tem pelos artistas e no respeito que os artistas têm para consigo próprio.


»Estamos à porta de uma das realizações deste ministério – o Atlantic Music Expo [a entrevista foi feita na segunda-feira]. Acha que o melhor elogio, como já ouvi, é dizer que a Praia já não se lembra de quando não havia AME?

»(risos) Corroboro. Hoje, como habitante desta cidade, de facto, já não me lembro de não haver AME e Kriol Jazz. A cidade apoderou-se, o país também e o mundo está a apoderar-se do AME.


»É uma das realizações que deixa para o futuro?

»Sim, como as outras. Sempre disse, desde o início, que não vim cá colher frutos, vim cá lançar sementes. E o trabalho foi feito nessa direcção: lançar sementes novas, mas resistentes. Se chover, darão grandes frutos. Se não chover, esperarão pela chuva. Lançamos instituições como a galeria nacional, o teatro nacional, o ballet nacional, a orquestra nacional, e agora o circo nacional e o conservatório. Não são apenas entidades estatais, são entidades públicas que trabalham em rede com todos os agentes culturais de cada uma dessas áreas. Portanto, temos o orçamento, temos os técnicos, temos as sinergias, e isto funciona sozinho. Qual é o papel do Estado? Cuidar permanentemente do aperfeiçoamento e da consolidação. Fechar um ciclo não significa concluir uma obra, mas sim terminar uma tarefa.


»Falou da orquestra, do ballet. Um dia disse numa entrevista ao Expresso das Ilhas que na cultura é preciso crer para ver. Esta é a prova?

»A utopia é a realidade dos ousados. A megalomania é a parte material do tamanho da alma de cada um. Como tudo gera consciência, o sonho é do tamanho do querer. O importante é partilhar, não sermos fechados. Pareciam impossíveis, ou difíceis, por causa das referências que tínhamos. Se fossemos copiar o que os outros fizeram, nunca conseguiríamos criar essas instituições. Quando criámos a orquestra houve muito cepticismo. Como íamos criar uma orquestra, diziam, se não tínhamos uma escola de música? Nós respondíamos que esperar por ter músicos para ter uma orquestra é uma opção, mas recordávamos que em 1975 não tínhamos médicos e fomos busca-los a Portugal, a Cuba, até ao Egipto, para nos virem ajudar. Com a música é igual, eles vêm, partilham connosco, cria-se o gosto pela música, educa-se o público, para que depois eles queiram vir para o conservatório. Se não, abríamos o conservatório e ninguém vinha. A nossa força foi que criámos soluções endógenas. A orquestra nacional tem músicos nas ilhas. O ballet também. E na diáspora. Eles juntam-se e representam a nação.


»Acha que foi essa solução diferente, digamos assim, que levou às dúvidas iniciais?

»Tudo o que é novo causa estranheza. Disseram-nos que o nosso ballet não era ballet, mas há o ballet da China, que não faz o pas de deux [trecho do ballet dançado por um bailarino e uma bailarina], há o ballet do Senegal, do Congo, da Mongólia. No dicionário, ballet significa um conjunto de pessoas que dançam juntas. Agora, não se pode confundir o ballet com a dança clássica, ou com a dança contemporânea – isso são géneros. O nosso princípio sempre foi que não haveria bailarinos-funcionários, há um corpo residente de trabalho, os outros estão nas ilhas e são chamados. Com a orquestra a mesma coisa, não tem músicos residentes com uma folha de vencimentos todos os meses. Adaptaram-se à nossa realidade. É evidente que é próprio do ser humano desconfiar daquilo que é mais criativo. Quando o Bolero de Ravel estreou o compositor recebeu ovos. Quem faz tem de crer para ver, para que os outros que têm de ver para crer possam ter a prova.


»Ontem [domingo] foi lançado mais um projecto – o Conservatório Nacional das Artes. O que espera que o ensino artístico possa trazer a Cabo Verde?

»Na minha leitura da sociedade cabo-verdiana, acho que grande parte da violência se deve à falta de espaço para a libertação de energia criativa. Por outro lado, os sinais da degradação espiritual a que vimos assistindo significam a falta de um espaço público de formação das qualidades da alma. Como a generosidade, a disciplina, a ética, a paciência, o esforço, a concentração. E tudo isso é muito etéreo porque pertence ao domínio da não matéria. E é isto que dita o nosso comportamento. O conservatório está, não só para criar profissionais da arte, mas também para formar um homem novo no final do percurso. Porque a música, as artes, têm essa grande capacidade de mexer com o melhor do nosso eu. Se não houver isso, abunda na sociedade, na vida real, um circuito de fenómenos que mexem com o pior. O conservatório vai ter essa vocação, com as orquestras infantis e juvenis espalhadas por todo o território, com as galerias, com o circo. Isso vai melhorar a qualidade do ser humano cabo-verdiano nos próximos tempos.


»“Corrijam e façam florescer o que estamos a plantar”. São palavras suas. Gostava que fosse esta a mensagem do seu mandato?

»Sim. Quando entrei aqui disse que não vinha à procura de glória, mas sim prestar um serviço. Não se pode esperar pela perfeição para começar uma obra. Nós que lidamos com a criação sabemos que é à medida que vamos escrevendo, pintando, ou compondo, que vamos corrigindo de forma automática. Como aceitei que tudo o que o homem faz deve estar sob sufrágio dos outros. É uma boa opção porque a melhor opinião é duas opiniões e só ficamos felizes se o que nós sonhámos for regado por outros e vierem ainda outros a colher os frutos. A nossa contribuição é um grão de areia na enorme contribuição que os cabo-verdianos dão todos os dias para este país. Mas, sentimo-nos felizes quando sabemos que fizemos parte da construção. Desejo muito sucesso – e faz uma bela sequência – ao meu sucessor. Porque muito trabalho nos espera.»





Um inovador

2016/05/17

«“Trabalhamos para um património riquíssimo comum: a Língua Portuguesa e a cultura da CPLP”»



Mundo Português



«Marisa Mendonça defende que a grande riqueza da Língua Portuguesa está tanto na sua ‘unificação’, como na sua pluralidade. Se por um lado é importante que mantenha níveis de unicidade elevados, “pois estamos a falar de uma mesma língua”, por outro lado, os vários “sabores e cores” desta língua ancestral têm “uma riqueza impressionante”, explicou. Para a Diretora Executiva do IILP, a Língua Portuguesa é “um património riquíssimo” que tem uma dimensão “verdadeiramente pluricêntrica”, como revelou nesta entrevista.


»É Diretora Executiva do Instituto Internacional da Língua Portuguesa desde 2014. O que a levou a aceitar este ‘desafio’?

»As motivações para aceitar o “desafio” de dirigir o IILP foram diversas. Posso eleger, de entre várias: i. ter tido, até ao momento em que me propuseram tal desafio, uma carreira profissional, de mais de 30 anos, ligada à docência da Língua Portuguesa (LP) e à gestão de unidades académicas, em Moçambique, que me proporcionaram experiências de gestão e, não só, riquíssimas e que foram, para mim, uma “grande escola”; ii. ter sido uma solicitação do meu país, ao qual desde os 18 anos, quando me tornei professora de LP, tenho respondido sem reservas, envolvendo-me em ações e em projetos nos quais acredito e que sempre se prenderam com o ensino da LP, da formação de professores e outros relacionados; iii. já estar ligada ao IILP, como membro da Comissão Nacional do meu país e reconhecer muita importância e potencialidades, tanto nos principais projetos em desenvolvimento no/pelo Instituto, quanto ter percebido as possibilidades que o IILP, como órgão estratégico da CPLP, tem em ser/ tornar-se cada vez mais numa verdadeira referência incontornável como identificador de temas, na planificação de ações e na articulação de atores diversos para a execução dessas mesmas ações, voltadas para a promoção e difusão da LP.


»Que projetos o IILP já desenvolveu e está a desenvolver?

»Em primeiro lugar importa enaltecer o trabalho realizado pelo meu antecessor, Prof. Doutor Gilvan Muller de Oliveira. Sob sua direção, o Instituto iniciou projetos importantíssimos, que ainda hoje percorrem fases de desenvolvimento, quer seguindo as perspetivas inicialmente delineadas, quer caminhando por trilhos reajustados, em função de novas demandas e de novas necessidades e exigências. Os principais projetos que desenvolvemos são os que respondem às ações preconizadas pelos principais instrumentos-bússola para a nossa atividade: o Plano de Ação de Brasília (2010) e o Plano de Ação de Lisboa (2013), ambos resultados de Conferências Internacionais sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial.

»Dos projetos em curso, os de maior dimensão e, certamente, impacto, são: o Vocabulário Ortográfico Comum da língua Portuguesa (VOC), o Portal do Professor de Português Língua estrangeira (PPPLE) e a Revista Platô.

»O VOC é uma plataforma de acesso gratuito, que já disponibiliza neste momento os Vocabulários Nacionais do Brasil, Cabo Verde, Moçambique, Portugal e de Timor-Leste. No desenvolvimento deste projeto foi possível formar equipas nacionais especializadas para cada um dos Estados-Membros, principalmente para aqueles que nesta área não tinham recursos humanos para realizarem as ações locais. Neste projeto o IILP é assessorado tecnicamente pelo CELGA-ILTEC, um Centro de Investigação da Universidade de Coimbra. A plataforma encontra-se disponível através do endereço http://voc.iilp.cplp.org.

»O Portal do Professor de Português Língua Estrangeira está disponível através do endereço http://www.ppple.org. É igualmente de acesso gratuito e permitiu a constituição e formação de equipas nacionais. Os recursos didáticos são produzidos em cada Estado-Membro e, no seu conjunto, refletem as diferentes sensibilidades e experiências do ensino do PLE, nos vários contextos. Estão já disponíveis unidades didáticas de Angola, Brasil, Moçambique, Portugal e de Timor-Leste. Espera-se este ano incluírem-se recursos produzidos em Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. O Portal apresenta ainda outros materiais mais específicos, destinados a um público que aprenda o português como língua de herança; destinado a falantes de Espanhol e, também, a falantes de Mandarim. A assessoria técnica é feita pela Sociedade Internacional de Português Língua Estrangeira (SIPLE).

»A Revista Platô está disponibilizado através do endereço iilp.cplp.org e apresenta temáticas diversificadas.

»Importa referir o “TCTC: Terminologias Científicas e Técnicas Comuns da Língua Portuguesa” (TCTC), que aguarda por um financiamento para se poder iniciar. O IILP prepara-se para elaborar, ainda este ano, com o apoio de parceiros com experiência nesta área, o projeto “Plano de Leitura CPLP”, que se pretende que seja um projeto de complexidade significativa, tanto pelos objetivos que se estabeleceram, pelos resultados que se preveem, quanto pelas contribuições e envolvimento de áreas setoriais como a cultura, a educação e a ciência, inovação e ensino superior. Esperamos realizar, ainda este ano, as reuniões técnicas necessárias, que possibilitem a configuração deste projeto.


O VOC (Vocabulário Ortográfico Comum da língua Portuguesa) é uma plataforma de acesso gratuito, que já disponibiliza neste momento os Vocabulários Nacionais do Brasil, Cabo Verde, Moçambique, Portugal e de Timor-Leste. A plataforma encontra-se disponível através do endereço http://voc.iilp.cplp.org.

»Qual é a importância, na sua opinião, do Dia da Língua Portuguesa e da Cultura na CPLP?

»É importante a existência esse dia, no qual, de forma muito singular e focada se reflete sobre esse assunto, quer analisando/avaliando o percurso feito, quer perspetivando novas e importantes ações e delineando novos caminhos para novas necessidades e interesses. A comemoração desta data é já uma realidade na totalidade dos Estados-membros da CPLP. Mas não só. Noutros países e noutros quadrantes, essa comemoração já se realiza. Esse dia, 5 de maio, faz-nos pensar e sentir que trabalhamos para um património riquíssimo, comum: a LP e a cultura da CPLP.


»Qual é, para si, a mais-valia do Acordo Ortográfico?

»Relativamente ao Acordo ortográfico, penso que já tudo foi dito. Mas, para mim, a maior valia é a maior aproximação das ortografias de uma mesma língua, falada a “várias vozes”. Neste momento, é ainda difícil determinar o número de falantes que já adotaram o AO, pelo facto de que nalguns dos Estados-Membros da CPLP estarem ainda em vigor, oficialmente, as duas ortografias.


»O VOC é fundamental para a adoção do Acordo Ortográfico (AO) por todos os países membros da CPLP?

»A criação do VOC é um apoio fundamental à implementação do AO, mas não só. Na plataforma VOC ainda não estão inscritos todos os Vocabulários Nacionais. Temos já disponíveis os do Brasil, Cabo Verde, Moçambique, Portugal e de Timor-Leste. O Vocabulário Nacional de São Tomé e Príncipe já se encontra num estágio avançado, mas são ainda necessárias ações para a sua finalização e tudo dependerá do envolvimento das autoridades nacionais santomenses. Mesmo ao nível dos produtos nacionais, este trabalho impõe-se permanente, considerando-se as mudanças a que se assistem ao nível desta área da língua, de forma particular.


»O estudo ‘Potencial Económico da Língua Portuguesa’ revelou o espaço global que o Português ‘ocupa’ também a nível económico. O interesse pelo Português será maior quanto maior for a sua importância ‘económica’?

»O fator económico dá à LP um valor acrescido. Coloco-me várias vezes questões do tipo: Por que é que, atualmente, tantos países se aproximam da CPLP, pretendendo candidatar-se a Observador Associado? Penso que não seria justo pensar que a única motivação é a questão económica, mas, acredito que esta será, pelo menos, uma das mais determinantes. Devemos considerar, também, a localização estratégica dos Estados-Membros da CPLP, alguns deles com potencialidades reconhecidas a vários níveis. Se pensarmos no que significa e significará, daqui a dez anos ou mais, o potencial energético do conjunto dos países da CPLP, temos matéria suficiente para entendermos a dimensão e a potencialidade da LP e da Organização.


»Na sua opinião, o que será preciso para que o Português seja adotado como língua de trabalho em todas as organizações internacionais e até na Ciência?

»Para isso é necessário investirmos/ posicionarmo-nos de forma diferente, assumindo-nos, nós mesmo, cidadãos dos Estados-Membros da CPLP “embaixadores” para a promoção e internacionalização da LP. Se ao nível dos nossos países acreditarmos nas potencialidades da LP com os mais pequenos gestos, a promoção e o seu próprio desenvolvimento terão ritmos mais visíveis. Alguns aspetos que deveríamos corrigir seriam, por exemplo:

»- Adotar o uso da LP nas reuniões, nas Organizações Internacionais. E este sinal a ser dado pelos governantes dos nossos Estados-Membros teria um efeito considerável, do ponto de vista positivo;

»- “Preparar a LP” para se instalar, efetivamente, nas Organizações Internacionais. Por exemplo, investindo mais, por um lado, na formação de tradutores e intérpretes de e para o Português, criando-se bases terminológicas comuns;

»- Usar a LP nas Conferências académicas, organizadas nos Estados-Membros a LP como primeira língua de trabalho;

»Há um conjunto de “pequenos gestos” que podem marcar a diferença e promover a nossa língua com uma dimensão e força acrescidas.


»Para si, onde está a grande ‘riqueza’ da Língua Portuguesa: na sua unificação ou na sua pluralidade?

»A grande riqueza da LP está tanto na sua “unificação” (termo que pode suscitar interpretações ambíguas e até perigosas), mas também, na sua pluralidade. A LP é propriedade de tantos falantes, que ela é obrigatoriamente plural. É importante, por um lado, que tenha e mantenha níveis de unicidade elevados, pois estamos a falar de uma mesma língua; mas, é de uma riqueza impressionante ver a NOSSA língua com “sabores e cores” tão diferenciados, fruto dos vários percursos, dos seus atuais estágios de desenvolvimento; resultado da sua convivência com outras línguas e culturas tão diversificadas. Daí pensarmos que esta nossa língua tem uma dimensão verdadeiramente pluricêntrica.


»Que sonoridade tem para si, a Língua Portuguesa?

»Para mim, tem uma sonoridade imensamente rica e plural, marcada pelas nossas aproximações e pelas nossas diferenças, enquanto estados-Membros do grande universo que constitui a CPLP, mas também a sonoridade trazida por todos os outros seus falantes espalhados pelos quatro cantos e recantos do mundo.»





Administração Pública e inovação