2016/02/29

Newsletter L&I, n.º 93 (2016-02-29)



n.º 93 (2016-02-29)


Administração Pública e inovação | Administración Pública e innovación |
Administration Publique et innovation | Public Administration and innovation

Um inovador | Un innovador | Un innovateur | An innovator

Uma inovação | Una innovación | Une innovation | An innovation

A execução da inovaçao | La ejecución de la innovación | L’exécution de l’innovation |
The innovation execution



Index


Liderar Inovando (BR)

«Pesquisa coloca Recife no ranking das cidades inteligentes» ( ► )
José Vítor Camilo: «Modelo para inspirar o ensino» ( ► )
Amelia Gonzalez: «‘Bem Viver’, o conceito que imagina outros mundos possíveis, já se espalha pelas nações» ( ► )
«Convênio da SDR e UFPI beneficiará projeto de aquicultura sustentável» ( ► )

Liderar Inovando (PT)

«EDP e Refer na plataforma de dados abertos de Lisboa» ( ► )
«Orçamento Participativo de Braga candidato a Prémio de Boas Práticas» ( ► )
«Casa Ermelinda inaugura Adega Leonor Freitas» ( ► )
«As votações para eleger as melhores ideias dos cidadãos para Lisboa» ( ► )

Liderar Innovando (ES)

«Amplio apoyo de la militancia del PNV a la hoja de ruta del plan de autogobierno» ( ► )
David Guerrero: «L’Hospitalet quiere imitar a Brooklyn y ser un imán para el sector cultural. La segunda ciudad de Catalunya revive industrias con iniciativas artísticas» ( ► )
«Primeros encuentros de ADEVAG (Asociación para el Desarrollo de las Vegas Altas del Guadiana) para diseñar su nueva estrategia» ( ► )
«Un nuevo horizonte de desarrollo turístico» ( ► )

Mener avec Innovation (FR)

«Lancement des Objectifs de Développement Durable (ODD) au Mali: Cap sur l’horizon 2030» ( ► )
Yann Petiteaux: «Ismaël Meïté, l'as de l'innovation participative» ( ► )
Frédéric Sauzet: «Vous y croyez à l'innovation participative?» ( ► )
«Paris renforce les moyens dédiés à la propreté» ( ► )

Leadership and Innovation (EN)

«Inspiring the politics of hope (UN Sustainable Development Goals)» ( ► )
Michelle Curran: «Connecting communities with science» ( ► )
Justine Humphry: «How do we stop people falling through the gaps in a digitally connected city?» ( ► )
«Boosting the Circular Economy: European project to promote separate paper collection launched» ( ► )

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2016/02/26

«As votações para eleger as melhores ideias dos cidadãos para Lisboa»



Marisa Soares. Público



«Câmara tem 2,5 milhões para atribuir a projectos que vão desde a criação de mais percursos para bicicletas à realização de um filme de humor sobre Lisboa. Orçamentos participativos continuam a ganhar terreno e estreiam-se em vários municípios.

»Mais parques para os cães brincarem, uma rede de sanitários públicos e de bebedouros, renovação dos jardins infantis e requalificação dos espaços verdes ou construção de mais percursos cicláveis. Depois de terem passado pelo crivo dos técnicos da Câmara de Lisboa, as 481 propostas submetidas ao Orçamento Participativo (OP) 2015/2016 foram transformadas em 189 projectos. A partir desta segunda-feira e até 15 de Novembro, os lisboetas podem decidir onde gastar 2,5 milhões de euros.

»Como é hábito desde a primeira edição do OP Lisboa, em 2008, a maior parte das propostas a concurso diz respeito ao espaço público e aos jardins. "O grande foco das pessoas sobre as suas ideias para a cidade tem sempre a ver com a qualidade de vida e o lazer", comenta a vereadora da Economia e Inovação, Graça Fonseca. Este ano estão a concurso 74 projectos nesta área, ou seja, cerca de 40% do total. Outras áreas mais concorridas são as das infraestruturas viárias e mobilidade (35), urbanismo (19) e educação e desporto (17). Há campos que ficaram desertos, como os da modernização administrativa, segurança e protecção civil, e protecção ambiental e energia.

»Tal como no ano passado, os 2,5 milhões de euros (metade da verba atribuída na primeira edição) serão divididos em 1,5 milhões de euros para o grupo de projectos de valor igual ou inferior a 150.000 euros e 1 milhão de euros para os projectos que custem entre 150.000 euros e 500.000 euros.

»A lista definitiva só ficou fechada no final da semana passada, depois de um período de reclamações, instituído em 2010. Depois de fechada a apresentação de propostas, os técnicos municipais analisam e, caso as ideias sejam elegíveis, transformam-nas em projectos. Mas há sempre quem "cerca de 20 a 30" reclamações, diz Graça Fonseca, admitindo que por vezes os proponentes têm razão. Este ano, por exemplo, houve duas propostas rejeitadas que foram recuperadas após a contestação dos autores.

»A vereadora eleita pelo PS observa que é visivel uma maior organização por parte dos munícipes e mais empenho nas "campanhas" pelo voto nas suas propostas. Além disso, os pedidos dos cidadãos foram-se alterando ao longo dos últimos anos, à medida que a cidade foi também evoluindo. Por exemplo, depois de muitos anos a proporem a criação de mais ciclovias, os lisboetas querem agora "intervenções complementares para quem anda de bicicleta", nomeadamente infra-estruturas de apoio, como sanitários para os utentes das ciclovias ou abrigos para as bicicletas.

O OP também tem uma função pedagógica. Estes atrasos permitem-nos explicar às pessoas o que se passa deste lado, e que muitas vezes a câmara está limitada na forma como dá resposta aos problemas.

»Segundo Graça Fonseca, tem também crescido o número de sugestões nas áreas do empreendedorismo, inovação e emprego. Sobretudo desde 2010, quando um dos projectos vencedores do OP foi a criação da StartUp Lisboa, uma incubadora de empresas especializada em acolher projectos nos sectores do comércio e do turismo. Outro exemplo que marcou uma nova fase do OP de Lisboa foi o projecto do Centro de Inovação da Mouraria, que venceu o OP 2012/2013 e foi inaugurado em Maio passado, sendo a primeira incubadora a apoiar ideias de negócio das indústrias culturais e criativas.

»Consciente de que o empenho dos cidadãos só se mantém caso estes vejam os seus projectos executados, a vereadora afirma que todos os projectos vencedores das primeiras quatro edições do OP estão já concluídos - à excepção da construção de uma casa destinada a mães no pós-parto. Dois dos projectos vencedores da edição de 2009/2010 - o da requalificação do canil/gatil de Monsanto e o da requalificação do antigo Cinema Europa, em Campo de Ourique - foram os que demoraram mais a sair do papel.

»"O OP também tem uma função pedagógica. Estes atrasos permitem-nos explicar às pessoas o que se passa deste lado, e que muitas vezes a câmara está limitada na forma como dá resposta aos problemas", afirma Graça Fonseca. Por exemplo, durante a construção do canil/gatil, que começou em 2011 e só terminou no ano passado, "três empreiteiros foram à falência", e a autarquia foi obrigada a lançar novos concursos públicos internacionais, que "demoram meses".

»Sobre as últimas três edições, a taxa de execução ronda os 50%, segundo a vereadora. Alguns projectos vencedores em 2014 já avançaram, como a reabilitação da igreja de São Cristóvao, na Mouraria, e a criação da Academia do Código, uma iniciativa visa formar jovens licenciados e desempregados na área da programação.

»No ano passado, mais de 36 mil pessoas votaram nos 211 projetos a concurso, sendo que "mais do dobro" dos votos chegaram por SMS (para o número 4310 mais o número do projecto). Com este método, instituído em 2014, é possível votar duas vezes: uma num projecto que custe até 150.000 euros, outra num projecto de valor superior. A votação pode também ser feita online, no site Lisboa Participa. Graça Fonseca acredita que, mesmo depois de semanas de campanha eleitoral para as legislativas, os lisboetas terão ânimo para votar nos projectos que preferem ver concretizados.»





A execução da inovaçao

2016/02/25

«Casa Ermelinda inaugura Adega Leonor Freitas»



Mundo Português



«A vida de Leonor Freitas confunde-se, desde a primeira hora, com a terra e as propriedades da família. No ano de 1952, em plena noite de natal, nascia Leonor em Fernando Pó, que mais tarde cresceria em Setúbal onde fez o secundário e completou os estudos superiores no Instituto Superior de Serviço Social. Apesar de uma carreira bem sucedida na saúde sempre acompanhou as atividades da terra desenvolvidas pela família. No final da década de 90, impunha-se uma modificação estratégica na empresa e por isso Leonor Freitas lança-se no engarrafamento com marca própria e decide abraçar totalmente esta atividade em 2004 quando sai em definitivo do Ministério da Saúde. O objetivo era colocar no mercado excelentes vinhos com a melhor relação Qualidade-Preço. O trabalho dos últimos anos na criação do “mito Casa Ermelinda” tem sido a prova da excelência do trabalho desenvolvido.


»Leonor Freitas representa a quarta geração de mulheres à frente da empresa. Pode dizer-se que há verdadeiramente uma tradição feminina na Casa Ermelinda Freitas?

»A tradição existe, mas foi de uma forma natural devido à fatalidade de os homens da família terem morrido todos muito novos e as suas mulheres conseguiram ter a capacidade de dar continuidade a uma casa agrícola que hoje na quarta geração se transformou numa prestigiada casa vinícola.


»Há quantos hectares de vinha plantada e com quantas castas trabalham?

»Quando assumi a gestão da empresa, Leonor de Freitas tinha herdado 60 ha de vinhas de apenas duas castas, Castelão e Fernão Pires, situadas em Fernando Pó, zona privilegiada da região de Palmela. Com o seu espírito empreendedor e inovador, a atual proprietária introduziu uma diversidade de castas como a Trincadeira, Touriga Nacional, Aragonês, Syrah e Alicante Bouschet, entre outras.

»Passados 16 anos, a Casa Ermelinda Freitas detém já 440 ha de vinha, das quais 180 ha são de Castelão, e o restante de outras castas como Touriga Nacional, Trincadeira, Syrah, Aragonês, Alicante Bouschet, Touriga Franca, Merlot e Petit Verdot, Fernão Pires, Chardonnay, Arinto, Verdelho, Sauvignon Blanc e Moscatel de Setúbal, etc…. Contabilizando um total de 29 castas.


»Qual é o segredo para os inúmeros prémios já recebidos pelos vinhos da Casa Ermelinda Freitas?

»As três gerações que trabalharam a terra antes de mim, o apoio da minha atual família, a equipa que comigo trabalha, a região, pois estamos numa região de grande qualidade e o mais importante os consumidores que têm preferido os vinhos da Casa Ermelinda Freitas. Eu resumo que aquilo que se faz é com amor a pensar na qualidade e na melhor relação qualidade preço.


»Em Portugal há a tendência de associar os vinhos de ‘qualidade’ às regiões do Douro e de Alentejo, mas a Casa Ermelinda Freitas catapultou Palmela para esse ‘ranking’, digamos assim, de qualidade. Essa é uma região que poderá ainda surpreender mais?

»Sem dúvida que poderá surpreender muito mais. É uma região com um microclima, pois estamos perto do mar beneficiamos das brisas marítimas o que torna um clima mais ameno assim como beneficiamos de um lençol freático elevado que proporciona grande riqueza de água, originando vinhos muito equilibrados. Também somos uma região de planície que proporciona um trabalho fácil podendo assim fazermos vinhos competitivos. É uma região que neste momento está a afirmar-se e não tenho dúvidas que muito nos vai surpreender pela positiva.


»A inovação é uma das ‘palavras-chave’ da empresa - de que é exemplo o facto de terem lançado o primeiro champanhe ‘doc’ e ‘doc reserva’ da Península de Setúbal. O ‘segredo’ do negócio está também em não haver ‘medo’ de arriscar?

»O negócio é por ele próprio um risco, mas é na luta deste risco que se constrói, se inova e que se faz de cada dia uma luta diferente para termos resultados diferentes, mas positivos. Quem não inovar fica na estagnação, será esquecido e isso é o que não queremos para a Casa Ermelinda Freitas. Queremo-la sim, moderna respeitando a sua tradição.


»Por falar em inovação, há algum novo produto a lançar proximamente?

»Iremos ter produtos novos, mas para muito breve posso realçar o lançamento do Moscatel Roxo da Casa Ermelinda Freitas, que será mais um ícone da região, e mais um contributo para afirmar um produto único da região que é o Moscatel.


»A adega Leonor Freitas, inaugurada em dezembro último pelo presidente da República, é uma aposta a pensar na crescente internacionalização?

»É sobretudo uma Adega a pensar na modernização e competitividade de modo a podermos oferecer bons produtos em Portugal, e proporcionar um crescimento na internacionalização da Casa Ermelinda Freitas.


»A nova adega vem reforçar a capacidade de produção? Que aspectos a diferenciam da adega tradicional existente?

»Ela respeita os princípios da Adega Tradicional, mas com uma grande aposta na tecnologia moderna, de modo a estar ao nível do que existe de mais atual a nível internacional. A nossa aposta em todo o investimento é sempre a pensar na qualidade. Este espaço vem proporcionar quantidade, qualidade, espaço para poder receber melhor e mostrar o que se faz de melhor em Portugal e na Casa Ermelinda Freitas de uma forma de aproximação ao consumidor.


A nossa aposta em todo o investimento é sempre a pensar na qualidade. Este espaço vem proporcionar quantidade, qualidade, espaço para poder receber melhor e mostrar o que se faz de melhor em Portugal e na Casa Ermelinda Freitas de uma forma de aproximação ao consumidor.

»Com a presença do Chefe de Estado foi ainda aberto um museu. Como surgiu esse projeto e o que pretende?

»Este projeto surgiu do aproveitamento da primeira Adega da família, e pretendemos que seja um espaço dinâmico onde quem nos visita poderá constatar a evolução das várias gerações, e partilhar dos afetos da família.

»Assim será um espaço que vem complementar o atual, e estará aberto para poder ser visitado em conjunto ou separado com a nova Adega.


»Que projectos tem ainda por concretizar e que gostaria de ver realizados?

»Os projetos por concretizar são muitos não os irei especificar, eles iram aparecendo à medida que o tempo decorra e que sejamos capazes de os dinamizar e dar vida. Estamos satisfeitos com o que tem acontecido, mas não conformados, e nesta perspetiva queremos que a Casa Ermelinda Freitas seja uma referencia na região, e em Portugal ajudando a que o mundo rural seja cada vez mais participativo e reconhecido como um parceiro ativo dos outros setores da sociedade. Prometemos aos nossos consumidores pressentia-los com novos produtos sempre com a melhore relação qualidade preço e ir ao encontro do seu gosto.



»Quatro gerações a produzir vinhos de qualidade

»Situada em Fernando Pó, concelho de Palmela, a Casa Ermelinda Freitas foi fundada em 1920 por Leonilde da Assunção, sendo hoje uma das mais prestigiadas empresas vitivinícolas portuguesas.

»Com um forte cunho familiar, a empresa vive, atualmente, um dos seus períodos de maior expansão bem evidenciado nos vários investimentos realizados nas vinhas, na adega e na equipa técnica, sempre com o grande objetivo de atingir o máximo de qualidade. Fruto de toda esta dinâmica, a Casa Ermelinda Freitas tem alcançado uma elevada notoriedade, nomeadamente através da conquista de numerosos prémios. 218 de Ouro, 273 de Prata e 161 de Bronze a nível nacional e internacional com as suas marcas mais relevantes: Terras do Pó, Dona Ermelinda e Quinta da Mimosa.



»2008 ano do melhor vinho tinto do mundo

»Em 2008, deu-se um dos pontos altos da vida da empresa: o vinho Casa Ermelinda Freitas Syrah 2005 foi distinguido com o troféu de melhor vinho tinto do Mundo, no prestigiado concurso “Vinalies Internationales” em Paris, França. Este prémio foi ganho em prova cega entre mais de três mil vinhos provenientes de 36 países de todo o mundo.

»Consolidar a reputação alcançada e aumentar a produção de vinhos de qualidade são os objetivos imediatos a concretizar através da aposta nas castas portuguesas mais diferenciadoras. Uma aposta que permita o crescimento das quotas de mercado a nível nacional e, principalmente, a nível internacional, com especial incidência em grandes mercados como os Estados Unidos da América e Inglaterra. Além disso, a Casa Ermelinda Freitas pretende continuar a ser uma referência da região de Palmela pela qualidade dos seus vinhos e pela valorização de toda a cultura da vinha e do vinho.



»A história da família empresa Casa Ermelinda Freitas

»A Casa Ermelinda Freitas é uma empresa familiar que se dedica à produção de vinho há quatro gerações, tendo sempre apostado na qualidade das vinhas e dos vinhos, mesmo quando estes, nos primeiros tempos, eram produzidos e vendidos a granel, sem marca própria.

»Iniciada por Leonilde da Assunção no início dos anos 20 do século passado, a atividade foi continuada por Germana de Freitas e, mais tarde, por Ermelinda de Freitas, com a colaboração da sua filha única, Leonor, que, embora com formação fora da área vitivinícola, assumiu a liderança da empresa, continuando assim a presença feminina nos negócios da família.

»Seria já com a atual gestão que se daria a decisiva mudança no negócio com a criação de marcas próprias. Assim, em 1997, iniciou-se um novo ciclo da vida da empresa com o lançamento do “Terras do Pó” tinto, primeiro vinho produzido e engarrafado da Casa Ermelinda Freitas.



»Aposta no enoturismo

»A empresa aposta também no desenvolvimento do enoturismo, transmitindo a quem visita a Casa Ermelinda Freitas, ensinamentos sobre o fantástico mundo dos vinhos que promovem o culto da vinha e do vinho, nomeadamente através de uma vinha pedagógica, onde as crianças, jovens e adultos podem observar e aprender sobre as diferentes castas cultivadas.

»Esta vertente do enoturismo é particularmente incentivada por Leonor Freitas que pretende fazer da Casa Ermelinda Freitas “um símbolo pedagógico da região, levando às escolas a cultura e a história da vinha e do vinho, que é uma arte secular”, e contribuindo assim para a promoção do turismo e economia do concelho de Palmela. Aqui fica pois o desafio para uma visita a um local fantástico onde muito se aprende sobre o vinho.»





Uma inovação

2016/02/24

«Orçamento Participativo de Braga candidato a Prémio de Boas Práticas»



Semanário V



«O Orçamento Participativo e o Orçamento Participativo Escolar do Município de Braga foram considerados como uma das cinco melhores práticas nacionais de participação. Agora, com o voto de cada Bracarense, podem receber o Prémio de Boas Práticas de Participação. A votação está a decorrer através da Internet e todos os cidadãos são convidados a votar.

»O Prémio de Boas Práticas de Participação, que se apresenta como um incentivo à implementação, disseminação e valorização de práticas inovadoras de democracia participativa, tem duas fases.

»A primeira ditou o apuramento das cinco melhores práticas de participação. A segunda, agora a decorrer, irá escolher, através de uma votação aberta a todos, que termina no dia 18 de Março, a melhor prática de democracia participativa em Portugal.

»A avaliação inicial das boas práticas portuguesas de participação foi feita por um júri independente, constituído pelo Observatório Internacional da Democracia Participativa, com uma importância simbólica por ter sido representado pela Prefeitura de Porto Alegre, no Brasil, onde surgiu o primeiro orçamento participativo; a Agência para a Modernização Administrativa; a Associação In Loco e o Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.

O Prémio de Boas Práticas de Participação se apresenta como um incentivo à implementação, disseminação e valorização de práticas inovadoras de democracia participativa.

»O Orçamento Participativo de Águeda; o Orçamento Participativo e o Orçamento Participativo Escolar Braga; o Orçamento Participativo Cascais; Oliveira do Hospital, a Friendly Municipality; e a Semana de Prestação de Contas de Valongo são as cinco práticas distinguidas pelo júri.

»Na avaliação, o júri teve em conta um conjunto diversificado de critérios: carácter inovador; co-responsabilidade dos diferentes intervenientes no processo, técnicos, políticos e cidadãos; impactos produzidos com a prática a nível externo; envolvimento dos cidadãos na monitorização e avaliação da prática; dimensão educativa e formativa da prática; mecanismos de informação e comunicação com os cidadãos; capacidade de transferibilidade da prática para outros contextos.

»Os resultados finais serão divulgados na Conferência Internacional Portugal Participa que decorrerá nos dias 12 e 13 de Abril, em Lisboa. Serão entregues dois prémios, a classificação de melhor prática de democracia participativa em Portugal para o primeiro classificado e o segundo classificado receberá uma menção honrosa.

»Este é um prémio de carácter anual que pretende valorizar e reconhecer os instrumentos que apelem ao envolvimento dos cidadãos em toda a esfera da vida pública, seja na elaboração, gestão, implementação e avaliação das políticas públicas.»





Um inovador

2016/02/23

«EDP e Refer na plataforma de dados abertos de Lisboa»



E. Fernandes. Computerworld



«Juntamente com o INE, a Epal, a Lusoponte e EMEL, entre outras, assinaram protocolos com a edilidade lisboeta para fornecimento de dados.

»A apresentação da plataforma Lisboa Aberta, nome do portal de dados abertos da cidade, incluiu a assinatura de protocolos entre a Câmara Municipal de Lisboa e as diferentes entidades e empresas que participam no programa. ANA, Refer, INE, EMEL, EPAL, Lusoponte, Porto de Lisboa, Fertagus, Mobi.e, Lisboa E-Nova, Turismo de Lisboa, Turismo de Portugal, CP, são algumas de um conjunto de mais de 15, comprometidas em fornecer dados.

»Para o vereador Jorge Máximo, responsável pelos sistemas de informação e relação com o munícipe, a ideia de reunir e abrir o portal a diferentes agentes tem por objectivo lutar contra a dispersão de dados, através de uma gestão eficaz que crie uma “pipeline” com informação útil para a cidadania, e para startups e empreendedores capazes de desenvolver o tecido produtivo e económico através da utilização das TIC.

»A iniciativa e ideia original da criação do portal partiu da Câmara em parceria com a PT e a Cisco. Outra das entidades citadas foi a Universidade Nova, responsável pelo acompanhamento técnico dos dados fornecidos pelo município, entidades e empresas.


»“Sensorização” como alicerce importante

»Durante a apresentação, várias foram as referências ao novo paradigma da partilha de dados em aberto como “tendência crescente e incontornável das cidades inteligentes”, ancoradas na transparência e fiabilidade, e como alavanca para a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos e renovação do tecido empresarial. Outra das ideias mais repetidas foi a de colocar as TIC ao serviço da inovação, sustentabilidade e alocação eficiente de recursos dos municípios.

Várias foram as referências ao novo paradigma da partilha de dados em aberto como “tendência crescente e incontornável das cidades inteligentes”.

»Nesse âmbito, em resposta ao Computerworld, Fernando Medina, presidente da Câmara de Lisboa, referiu-se ao projecto de “sensorização” da cidade, incluindo da rede de iluminação pública ao sistema de transportes, como um dos aspectos de maior interesse para a obtenção de dados e desenvolvimento de aplicações inovadoras.

»E deu o exemplo de um sensor, apresentado na Websummit de Dublin, que detecta as condições do tempo e determina assim a ligação do sistema de rega, ou a libertação de adubos, para acrescentar que num município como Lisboa é algo que pode representar uma “poupança de milhares de euros, tendo em conta os espaços verdes e as áreas de jardim existentes ”.


»Riscos de segurança não preocupam

»Sobre a relação entre segurança e transparência o autarca sublinhou que os dados recolhidos e disponibilizados não constituem um factor de vulnerabilidade (por exemplo, em contexto de terrorismo) uma vez que é possível a sua obtenção sem recurso à plataforma. No portal, o “acesso é livre” de maneira a fomentar uma “democracia aberta e participativa”, sendo excluídos “dados confidenciais ou processos de particulares”.

»O portal Lisboa aberta é mais um passo na política de inovação que pretende criar condições necessárias para transformar Lisboa num hub apetecível para startups e empresas de orientação tecnológica.

»Citada várias vezes durante a conferência, a Websummit a acontecer em Novembro, no Parque das Nações, a ligação à conferência é outra das apostas bastante defendidas pela equipa camarária. Esta “deseja” que , nessa altura, o portal funcione em pleno rendimento, mas no entanto tem em conta o pouco tempo a decorrer até aquela data.»





Administração Pública e inovação

2016/02/22

Newsletter L&I, n.º 92 (2016-02-22)



n.º 92 (2016-02-22)


Administração Pública e inovação | Administración Pública e innovación |
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Um inovador | Un innovador | Un innovateur | An innovator

Uma inovação | Una innovación | Une innovation | An innovation

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The innovation execution



Index


Liderar Inovando (BR)

Carlos Cardoso: «Empreendedorismo, “um estado de espírito”!» ( ► )
Zacarias Gama: «Florestan Fernandes continua a ter razão» ( ► )
Wanda Camargo: «Arte na escola» ( ► )
«Cidade italiana criadora do ravioli divulga 'Raviggiolo Day'» ( ► )

Liderar Inovando (PT)

«Universidade do Minho passa a fundação pública com regime de
direito privado» ( ► )
«Sólido como uma pedra aos 90 anos, Zygmunt Bauman fala sobre migração e relacionamentos» ( ► )
Beatriz Dias Coelho: «500 anos depois, o sentido de Utopia não se perdeu» ( ► )
Francisco I: «Diálogo e transparência nos processos decisórios» ( ► )

Liderar Innovando (ES)

La Secretaría de Innovación, Ciencia y Desarrollo Tecnológico (SICDET) de Michoacán une al sector para el desarrollo del empleo, la economía inclusiva y la igualdad social ( ► )
«Los Roca emprenden la revolución humanista de la cocina» ( ► )
«Cómo transformar ideas en innovación y la innovación en modelos de negocio rentables» ( ► )
«El Hospital Clínico San Carlos de Madrid y el Instituto de Innovación y Desarrollo de la Responsabilidad Social Sociosanitaria (Inidress) exploran nuevas vías de colaboración» ( ► )

Mener avec Innovation (FR)

Jean-Yves Buron: «Réfugiés, pauvres d’ici: faut-il choisir?» ( ► )
Jean-François Prevéraud: «Les missions du design aujourd’hui» ( ► )
Olivier Klein: «Dans la crise, un espoir raisonné» ( ► )
«Abdelhamid Addou, nouveau Président Directeur Général de la Royal Air Maroc (RAM): Un choix judicieux» ( ► )

Leadership and Innovation (EN)

«United States Association for Body Psychotherapy Announces Eighth Conference on Somatic Psychology» ( ► )
Emily Rappleye, Tamara Rosin and Erin Marshall: «7 rules for CEOs to live by, whether at a small start-up or global corporation» ( ► )
Matthew Kearney: «A fundamental question in UW debate: Will it be pursuit of knowledge or simply employable skills?» ( ► )
Ryan Holmes: «How To Plan Now For Tomorrow's Robotic Workforce» ( ► )

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2016/02/19

Francisco I: «Diálogo e transparência nos processos decisórios»



Laudato Si, de 181 a 190. Rádio Vaticano



«181

»Indispensável é a continuidade, porque não se podem modificar as políticas relativas às alterações climáticas e à protecção ambiental todas as vezes que muda um governo. Os resultados requerem muito tempo e comportam custos imediatos com efeitos que não poderão ser exibidos no período de vida dum governo. Por isso, sem a pressão da população e das instituições, haverá sempre relutância a intervir, e mais ainda quando houver urgências a resolver. Para um político, assumir estas responsabilidades com os custos que implicam não corresponde à lógica eficientista e imediatista actual da economia e da política, mas, se ele tiver a coragem de o fazer, poderá novamente reconhecer a dignidade que Deus lhe deu como pessoa e deixará, depois da sua passagem por esta história, um testemunho de generosa responsabilidade. Importa dar um lugar preponderante a uma política salutar, capaz de reformar as instituições, coordená-las e dotá-las de bons procedimentos, que permitam superar pressões e inércias viciosas. Todavia é preciso acrescentar que os melhores dispositivos acabam por sucumbir, quando faltam as grandes metas, os valores, uma compreensão humanista e rica de significado, capazes de conferir a cada sociedade uma orientação nobre e generosa.



»3. Diálogo e transparência nos processos decisórios


»182

»A previsão do impacto ambiental dos empreendimentos e projectos requer processos políticos transparentes e sujeitos a diálogo, enquanto a corrupção, que esconde o verdadeiro impacto ambiental dum projecto em troca de favores, frequentemente leva a acordos ambíguos que fogem ao dever de informar e a um debate profundo.


»183

»Um estudo de impacto ambiental não deveria ser posterior à elaboração dum projecto produtivo ou de qualquer política, plano ou programa. Há-de inserir-se desde o princípio e elaborar-se de forma interdisciplinar, transparente e independente de qualquer pressão económica ou política. Deve aparecer unido à análise das condições de trabalho e dos possíveis efeitos na saúde física e mental das pessoas, na economia local, na segurança. Assim os resultados económicos poder-seão prever de forma mais realista, tendo em conta os cenários possíveis e, eventualmente, antecipando a necessidade dum investimento maior para resolver efeitos indesejáveis que possam ser corrigidos. É sempre necessário alcançar consenso entre os vários actores sociais, que podem trazer diferentes perspectivas, soluções e alternativas. Mas, no debate, devem ter um lugar privilegiado os moradores locais, aqueles mesmos que se interrogam sobre o que desejam para si e para os seus filhos e podem ter em consideração as finalidades que transcendem o interesse económico imediato. É preciso abandonar a ideia de “intervenções” sobre o meio ambiente, para dar lugar a políticas pensadas e debatidas por todas as partes interessadas. A participação requer que todos sejam adequadamente informados sobre os vários aspectos e os diferentes riscos e possibilidades, e não se reduza à decisão inicial sobre um projecto, mas implique também acções de controle ou monitoramento constante. É necessário haver sinceridade e verdade nas discussões científicas e políticas, sem se limitar a considerar o que é permitido ou não pela legislação.


»184

»Quando surgem eventuais riscos para o meio ambiente que afectam o bem comum presente e futuro, esta situação exige «que as decisões sejam baseadas num confronto entre riscos e benefícios previsíveis para cada opção alternativa possível».[131]Isto vale sobretudo quando um projecto pode causar um incremento na exploração dos recursos naturais, nas emissões ou descargas, na produção de resíduos, ou então uma mudança significativa na paisagem, no habitat de espécies protegidas ou num espaço público. Alguns projectos, não apoiados por uma análise bem cuidada, podem afectar profundamente a qualidade de vida dum lugar, devido a questões muito diferentes entre si, como, por exemplo, uma poluição acústica não prevista, a redução do horizonte visual, a perda de valores culturais, os efeitos do uso da energia nuclear. A cultura consumista, que dá prioridade ao curto prazo e aos interesses privados, pode favorecer análises demasiado rápidas ou consentir a ocultação de informação.


»185

»Em qualquer discussão sobre um empreendimento, dever-se-ia pôr uma série de perguntas, para poder discernir se o mesmo levará a um desenvolvimento verdadeiramente integral: Para que fim? Por qual motivo? Onde? Quando? De que maneira? A quem ajuda? Quais são os riscos? A que preço? Quem paga as despesas e como o fará? Neste exame, há questões que devem ter prioridade. Por exemplo, sabemos que a água é um recurso escasso e indispensável, sendo um direito fundamental que condiciona o exercício doutros direitos humanos. Isto está, sem dúvida, acima de toda a análise de impacto ambiental duma região.


A produção não é sempre racional, e muitas vezes está ligada a variáveis económicas que atribuem aos produtos um valor que não corresponde ao seu valor real. Isto leva frequentemente a uma superprodução dalgumas mercadorias, com um impacto ambiental desnecessário, que simultaneamente danifica muitas economias regionais.

»186

»Na Declaração do Rio, de 1992, afirma-se que, “quando existem ameaças de danos graves ou irreversíveis, a falta de certezas científicas absolutas não poderá constituir um motivo para adiar a adopção de medidas eficazes”[132] que impeçam a degradação do meio ambiente. Este princípio de precaução permite a protecção dos mais fracos, que dispõem de poucos meios para se defender e fornecer provas irrefutáveis. Se a informação objectiva leva a prever um dano grave e irreversível, mesmo que não haja uma comprovação indiscutível, seja o projecto que for deverá suspender-se ou modificar-se. Assim, inverte-se o ónus da prova, já que, nestes casos, é preciso fornecer uma demonstração objectiva e contundente de que a actividade proposta não vai gerar danos graves ao meio ambiente ou às pessoas que nele habitam.


»187

»Isto não implica opor-se a toda e qualquer inovação tecnológica que permita melhorar a qualidade de vida duma população. Mas, em todo o caso, deve permanecer de pé que a rentabilidade não pode ser o único critério a ter em conta e, na hora em que aparecessem novos elementos de juízo a partir de ulteriores dados informativos, deveria haver uma nova avaliação com a participação de todas as partes interessadas. O resultado do debate pode ser a decisão de não avançar num projecto, mas poderia ser também a sua modificação ou a elaboração de propostas alternativas.


»188

»Há discussões sobre problemas relativos ao meio ambiente, onde é difícil chegar a um consenso. Repito uma vez mais que a Igreja não pretende definir as questões científicas nem substituir-se à política, mas convido a um debate honesto e transparente, para que as necessidades particulares ou as ideologias não lesem o bem comum.



»4. Política e economia em diálogo para a plenitude humana


»189

»A política não deve submeter-se à economia, e esta não deve submeter-se aos ditames e ao paradigma eficientista da tecnocracia. Pensando no bem comum, hoje precisamos imperiosamente que a política e a economia, em diálogo, se coloquem decididamente ao serviço da vida, especialmente da vida humana. A salvação dos bancos a todo o custo, fazendo pagar o preço à população, sem a firme decisão de rever e reformar o sistema inteiro, reafirma um domínio absoluto da finança que não tem futuro e só poderá gerar novas crises depois duma longa, custosa e aparente cura. A crise financeira dos anos 2007 e 2008 era a ocasião para o desenvolvimento duma nova economia mais atenta aos princípios éticos e para uma nova regulamentação da actividade financeira especulativa e da riqueza virtual. Mas não houve uma reacção que fizesse repensar os critérios obsoletos que continuam a governar o mundo. A produção não é sempre racional, e muitas vezes está ligada a variáveis económicas que atribuem aos produtos um valor que não corresponde ao seu valor real. Isto leva frequentemente a uma superprodução dalgumas mercadorias, com um impacto ambiental desnecessário, que simultaneamente danifica muitas economias regionais. [133] Habitualmente, a bolha financeira é também uma bolha produtiva. Em suma, o que não se enfrenta com energia é o problema da economia real, aquela que torna possível, por exemplo, que se diversifique e melhore a produção, que as empresas funcionem adequadamente, que as pequenas e médias empresas se desenvolvam e criem postos de trabalho.


»190

»Neste contexto, sempre se deve recordar que «a protecção ambiental não pode ser assegurada somente com base no cálculo financeiro de custos e benefícios. O ambiente é um dos bens que os mecanismos de mercado não estão aptos a defender ou a promover adequadamente». [134] Mais uma vez repito que convém evitar uma concepção mágica do mercado, que tende a pensar que os problemas se resolvem apenas com o crescimento dos lucros das empresas ou dos indivíduos. Será realista esperar que quem está obcecado com a maximização dos lucros se detenha a considerar os efeitos ambientais que deixará às próximas gerações? Dentro do esquema do ganho não há lugar para pensar nos ritmos da natureza, nos seus tempos de degradação e regeneração, e na complexidade dos ecossistemas que podem ser gravemente alterados pela intervenção humana. Além disso, quando se fala de biodiversidade, no máximo pensa-se nela como um reservatório de recursos económicos que poderia ser explorado, mas não se considera seriamente o valor real das coisas, o seu significado para as pessoas e as culturas, os interesses e as necessidades dos pobres.»





A execução da inovaçao

2016/02/18

Beatriz Dias Coelho: «500 anos depois, o sentido de Utopia não se perdeu»



Público. Editado por Isabel Salema.



«“... é fácil confessar que muitíssimas coisas há na terra da Utopia que gostaria de ver implantadas nas nossas cidades, em toda a verdade e não apenas em expectativa”. Estas são as últimas palavras de Thomas More na sua Utopia, ditas depois de Rafael Hitlodeu, o navegador que alegadamente conheceu a ilha da Utopia, terminar o seu relato e elogiar a estrutura da ilha. A ideia é clara: More simpatiza com alguns dos princípios da sociedade utopiana, mas não a vê como um modelo a implementar de forma exacta.

»“A intenção de More é não apresentar as ideias de Hitlodeu e a sociedade utopiana como modelares, esperando que o leitor seja capaz de um exercício de reflexão crítica sobre os aspectos positivos e negativos dessa sociedade”, diz Fátima Vieira, professora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto especializada em estudos sobre a utopia.

»No ano em que se assinalam 500 anos da sua publicação, a Utopia continua a ser lida, discutida e analisada, e encontra-se em qualquer biblioteca como clássico da literatura. E a sua mensagem, dizem os especialistas com quem falámos, continua a fazer sentido hoje: existem alternativas ao que está instituído.

»“É um texto de grande amplitude, de abertura, de descoberta de caminhos, que até àquela altura não havia na cultura europeia”, diz Manuel Frias Martins, professor de Cultura Renascentista da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Uma sociedade em que nada é de ninguém – tudo é de todos. Em que o bem-comum é mais precioso do que o bem individual. Em que a guerra é abominada e a caça é tida como loucura. Em que o ouro e outros metais ditos preciosos não têm valor. Em que um dia de trabalho tem seis horas, uma noite de sono tem oito e o resto do tempo é ocupado por cada um como entender. Assim é na ilha da Utopia, objecto central da obra homónima de Thomas More publicada em 1516, antítese da sociedade europeia do século XVI.

»More nasceu em 1477 (ou 1478, segundo alguns historiadores), em Londres. Foi advogado, chanceler de Henrique VIII e fez parte da Câmara dos Comuns. Em 1515, baseado em A República de Platão, começa a planear a redacção da Utopia. Depois de uma visita a Londres do seu amigo Erasmo, autor de Elogio da Loucura, More envia-lhe o texto terminado. Erasmo, alegadamente sem o autor saber, entrega o texto ao impressor Thierry Martens de Lovaina, que o publica.

»Redigida em latim, a Utopia, escreveu José de Pina Martins no estudo introdutório à edição da obra de More da Fundação Calouste Gulbenkian (2006), é “um escrito fundamental do humanismo”. “O ser humano encontra-se no centro do mundo e está nas suas mãos decidir o seu destino”, explica Fátima Vieira. “Não poderia nunca ter sido escrita na Idade Média, quando se acreditava que o destino havia sido já decidido por Deus”. A obra é escrita num tempo novo, em que o homem europeu encabeça os Descobrimentos, que revelam povos desconhecidos, ideias e costumes diferentes, novas possibilidades. É de Portugal, um dos países protagonistas dessas viagens intercontinentais, que vem a personagem central da obra — o navegador Rafael Hitlodeu, que dá a conhecer a ilha da Utopia. A obra, classifica Pina Martins, é um texto “do humanismo renascentista”.

»Mas a obra é, também, reflexo de um contexto de acentuadas desigualdades sociais, em que direitos e liberdades estavam longe de ser uma garantia. E assim, Utopia — que é “obviamente uma obra de ficção, mas com um grande contributo para o pensamento filosófico”, diz Fátima Vieira — desenvolve-se em dois livros: o primeiro traça um olhar crítico sobre a época e o segundo dá a conhecer a ilha visitada por Rafael Hitlodeu.


»A modernidade da obra

»A Utopia é uma obra marcada pela realidade, mas também pela ficção. O primeiro livro trata da realidade – More faz um retrato crítico da Inglaterra (e da Europa) do ponto de vista social, político, económico e religioso. “É um olhar de alguém que sofre com aquele que sofre, um olhar sobre aquele que tem de roubar porque tem fome. More critica as estruturas do Estado exactamente porque acabam por promover o roubo e, em vez de castigar, deviam de facto reorganizar a própria sociedade de maneira a evitar que houvesse pobres e fome”, elucida Manuel Frias Martins. Para o académico, More é, assim, “um dos grandes humanistas que anunciam a modernidade”.

»O livro II é integralmente dedicado à ilha da Utopia, à sua organização e aos seus princípios. É, segundo Fátima Vieira, “perfeita ficção”, denunciada pelo próprio navegador que, tal como a ilha, é imaginário. Outros indícios, como os nomes e a sua etimologia, contribuem para essa mesma ideia: a ilha – Utopia, neologismo criado por More que significa “nãolugar” –, a capital – Amauroto, “cidade sem habitantes” –, o rio – Anidro, “rio sem água” –, e o príncipe – Adamos, “chefe sem povo”.

»“Todo este jogo é agravado pelo facto de o próprio nome do viajante utópico, Rafael Hitlodeu, conter também uma contradição: se, por um lado, Rafael nos lembra o arcanjo Rafael, portador da ‘cura divina’, por outro lado a etimologia grega de ‘Hitlodeu’ aponta para o facto de ele ser um ‘perito em bagatelas’”, diz Fátima Vieira. Em Utopia, esclarece, há constantes contradições. Mas como interpretá-las? “Todas estas contradições remetem a ilha da Utopia para o plano das ideias, para o plano meramente teórico, e era isso que More pretendia”, explica Fátima Vieira, que preside a Utopian Studies Society/Europe, uma associação interdisciplinar dedicada a estudos sobre o pensamento utópico e que está a preparar várias iniciativas para assinalar os 500 anos da obra de More.

»É justamente no livro II que a inovação de More é visível – e acentua-se quando nos apercebemos de que vários princípios da sociedade utopiana, a que continuamos a ambicionar hoje, não são ainda uma realidade em muitos pontos do globo.

»A sociedade utopiana é “uma democracia, visto que são os cidadãos que elegem os seus representantes”, diz Paulo Tunhas, professor de filosofia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. “Mas é uma democracia que tem componentes totalitárias. É, indiscutivelmente, um sistema fechado”, como evidenciam alguns princípios: “não se pode, por exemplo, sair de uma zona do território para outra sem autorização”. Numa época de monarquias, a ilha da Utopia tem um sistema político baseado na vontade do povo. “É uma nova forma de fazer política, em que todos os cidadãos podem participar”, explica Mónica Dias, professora do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa. Para que isso seja possível, More “apresenta o ideal educativo – o acesso de todos à educação é uma das facetas mais importantes da ilha”.

»A obra de More tem, além disso, um importante papel na área do Direito. “Há uma ideia de Estado de Direito marcada – as pessoas não são condenadas pela arbitrariedade e pela vontade de um príncipe, há leis conhecidas e respeitadas por todos”, nota Mónica Dias. O autor inglês não esquece, também, a religião e dedica-lhe um capítulo. Na ilha da Utopia há liberdade religiosa (ainda que existam algumas crenças obrigatórias, como a imortalidade da alma) – “isto é a aceitação da diferença, é a modernidade”, advoga Frias Martins.

»Mas para o professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a modernidade de Thomas More relaciona-se principalmente com a ideia de “identificar a propriedade privada como o cerne das desigualdades sociais”, diz. É por isso que o autor cria na sua Utopia uma sociedade em que a propriedade privada não existe. “O iluminismo do século XIX vai beber à Utopia muitos dos seus ideais e sobretudo o modo como vai ler os males sociais. Vai propor correcções dos males sociais em termos de reorganização política da sociedade.”

»Como Fátima Vieira observa, durante muito tempo pensou-se que More propôs a abolição da propriedade privada, “e por isso foi muitas vezes descrito como um protocomunista”, mas a académica defende que não se pode olhar para Rafael Hitlodeu como um porta-voz de More. “Essa ideia da ausência de propriedade privada de que Rafael Hitlodeu fala ao descrever a ilha da Utopia, não é necessariamente uma proposta defendida por Thomas More”, diz. “A ideia de olhar para o livro e associar-se ao pensamento comunista é típica do século XIX e do século XX, mas é errada porque se está a confundir a ideia de utopia – a ideia de pensar uma alternativa – com as idealizações dessa utopia.”

»Mónica Dias defende que não é possível ver um paralelismo directo entre o princípio de abolição da propriedade privada expresso em Utopia e o princípio teorizado no socialismo que surge apenas no século XIX, num contexto filosófico, económico e social muito diferente. “Os socialistas não vão, aliás, buscar essa ideia a More, vão sim a Platão, em A República, e a outros filósofos”, advoga.

»A docente do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa rejeita comparações entre o socialismo científico enunciado por Karl Marx e Friedrich Engels no século XIX e o texto de Thomas More. “O socialismo científico do século XIX, de Karl Marx e Friedrich Engels, aponta para uma sociedade perfeita num fim da História – onde a utopia já não seria necessária — e por isso apela a algo mais drástico, uma revolução – uma alteração total do sistema social —, que não é o que More queria”, afirma Mónica Dias.

»“Podemos dizer é que, da mesma maneira que Thomas More olhou para a sua sociedade, viu que havia desigualdades e escreveu Utopia apresentando uma forte crítica social e mostrando que havia um caminho alternativo, os reformistas sociais do século XIX olharam para a sua sociedade e propuseram reformas sociais”. Foi o caso de Robert Owen, reformista britânico considerado um dos rostos do socialismo utópico e que, entre outras medidas, propôs melhorias para as condições de trabalho. “Thomas More nunca foi um revolucionário [como Marx e Engels], foi um reformista. Não escreveu um manifesto [como Marx e Engels], mas uma obra literária.”

»More destina ainda um capítulo à guerra, considerada pelos utopianos como “bestial”. Homens e mulheres estão preparados para combater, caso seja necessário, mas na ilha da Utopia a guerra é sempre encarada como uma medida de último recurso. “Esta ideia de paz, por oposição à guerra, é uma ideia que começa no final da Idade Média e avança no Renascimento. O Humanismo é-lhe muito sensível. O século XVI é o século das guerras religiosas, e portanto a questão da paz acaba por ser um elemento central de quem se interessa por pensar o seu tempo. A questão da guerra é, de facto, a questão da paz, ou seja, a valorização da paz e a crença de que a guerra é um desiderato anti-humano, anti-social e anti-bem comum”, explica o professor de Cultura Renascentista da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

»As convicções religiosas de More viriam a ser, aliás, o motivo da sua morte. Em 1531, o rei inglês Henrique VIII, que queria casar com Ana Bolena, proclama-se Chefe Supremo da Igreja, depois de o Papa Clemente VII lhe negar o divórcio de Catarina de Aragão. More, que não reconhece Henrique VIII como chefe da Igreja e se opõe ao divórcio, é condenado à morte por traição. É decapitado em 1535 e a sua cabeça exposta na Torre de Londres.


More, que não reconhece Henrique VIII como chefe da Igreja e se opõe ao divórcio, é condenado à morte por traição. É decapitado em 1535 e a sua cabeça exposta na Torre de Londres.

»As utopias para além da Utopia

»Apesar de não ser o primeiro texto sobre um ideal utópico, Utopia — uma palavra criada por More — viria a inaugurar uma tradição de obras que foram, depois, publicadas à luz de uma génese comum: a proposta de projectos alternativos para a sociedade. Para se proteger, Thomas More escreveu de maneira a que fosse sempre “Rafael Hitlodeu a fazer a apologia dessa ordem alternativa” e não o autor propriamente dito, diz Fátima Vieira, que explica que “o género literário utópico, em virtude desta estratégia narrativa, permite a crítica e a passagem de uma mensagem subversiva, tendo por isso conhecido grande pujança, ao longo destes cinco séculos, em tempos de opressão”.

»À obra de Thomas More seguiram-se outras utopias renascentistas e, já no século XVII, em 1624, Nova Atlântida, do britânico Francis Bacon aparece como a primeira utopia científica, em que “a base do progresso da sociedade é assegurada por avanços científicos”, afirma a professora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Hoje, Nova Atlântida é “considerada fundadora de um género literário muito próximo do utópico: a ficção científica”.

»No século XVIII, a presidente do ramo europeu da Utopian Studies Society destaca As Viagens de Gulliver do irlandês Jonathan Swift, publicada em 1726. “São paradigmáticas de uma atitude cínica em relação à ideia de possibilidade de aperfeiçoamento do ser humano e dos modos de organização em sociedade – é um bom exemplo de uma utopia satírica”. Mas nesse século houve também “um movimento mais positivo, informado pela visão iluminista do ser humano, e que se estende pelo século XIX. No século XVIII encontramos um conjunto de utopias que, na lógica do pensamento iluminista, nos falam de um futuro de felicidade. São, nessa medida, ‘eucronias’. Memoirs of Planetes (1795), de Thomas Northmore, é um bom exemplo de uma utopia que vê o futuro como forçosamente melhor do que o presente”.

»As utopias do século XIX apostam na educação — “confiava-se que a sociedade melhor surgiria como reflexo de um indivíduo melhor”, esclarece Fátima Vieira. É neste século que, no contexto da Revolução Industrial e da “agudização do conflito de classe”, surgem as utopias marxistas. Entre elas, a professora destaca Notícias de Lugar Nenhum (1890), do britânico William Morris, em que “a revolução, abolindo todas as formas de propriedade privada, liberta o indivíduo para uma forma de vida mais solidária”, elucida.

»A partir da ideia de utopia surgiram variantes, como a distopia. O século XX ficou precisamente marcado por distopias, entre as quais se destacam várias obras dos britânicos H. G. Wells, Aldous Huxley e George Orwell e do russo Yevgeny Zamyatin. Nas décadas de 60 e 70 houve, porém, “um revivalismo utópico de feição feminista e ecologista”, nota Fátima Vieira. Foi nessa conjuntura que surgiram obras como Ecotopia (1975) de Ernest Callenbach ou Woman on the Edge of Time (1976) de Marge Piercy.

»A especialista em estudos sobre utopia esclarece, no entanto, que as distopias não são necessariamente pessimistas, uma vez que não são antónimas das utopias. “A percepção que temos da distopia mudará se a entendermos como um aviso – a ideia de que aquele é um caminho que não devemos seguir – que ainda vamos a tempo de ouvir.” Fátima Vieira nota que, nos últimos anos, várias obras têm apontado “para uma redefinição da utopia literária”, entre as quais Utopia III (2006) do português José de Pina Martins, Inglaterra, uma Fábula (1999) do argentino Leopoldo Brizuela ou A Ilha da Mão Esquerda (1995) do francês Alexandre Jardin. “Estas obras são meta-utópicas, isto é, são exercícios de reflexão sobre o pensamento utópico, e buscam revalidar a utopia como estratégia para a construção do futuro. Cada uma das obras revisita uma obra utópica e actualiza-a para os nossos dias. O que sai valorizado dessas obras é a utopia enquanto estratégia, considerada válida hoje, como ontem, para a imaginação de formas de organização alternativa da sociedade.”


»O lugar das utopias

»Hoje, importa perceber qual é o lugar e o sentido de Utopia e das utopias em geral. Manuel Frias Martins acredita que as utopias existem “para serem perseguidas” e que devem ser concretizadas “em alguns dos seus ideais”, mas alerta para os seus perigos: “Costumo dizer que se alguma vez uma utopia se realizar, realiza-se sempre como tragédia. Porque a utopia não é realizável, por isso é que é uma utopia. Implementar uma utopia como objectivo final significa eliminar diferenças dentro da própria utopia e eliminar diferenças só se faz através da repressão da diferença. Que, neste contexto, é exactamente o contrário da utopia. Se isso acontecer, estamos perante tragédias que envolvem a morte de milhões de pessoas”.

»Paulo Tunhas acredita que “a associação entre utopias e sistemas totalitários desfez o impulso utópico” e defende que a palavra “utopia” é, hoje, “utilizada num sentido muito vago”. “Hoje em dia reivindica-se a utopia, o direito à utopia, como se a utopia fosse uma coisa fácil, digamos assim”, acrescenta.

»Fátima Vieira considera que já passou o tempo “dos grandes planos para a transformação do mundo, como os que foram oferecidos no século XIX”. Ainda assim, “o desejo de mudança continua”, diz. A especialista em estudos sobre a utopia destaca as leituras do sociólogo francês Michel Maffesoli, que defende que existem hoje utopias intersticiais: “As utopias não existem como grandes planos, mas existem como pequenos planos, em micro-utopias que vão sendo realizadas. Quase não se dá por elas, mas vão efectivamente contribuindo para alterar o mundo.” Fala ainda do filósofo francês Gilles Lipovetsky que acredita, por sua vez, que nos nossos dias são comuns as “utopias individuais, decorrentes da consciência de que a transformação colectiva poderá decorrer da acção de indivíduos comuns, formando redes”.

»Quanto ao sentido da utopia, a especialista não tem dúvidas: “a utopia é hoje vista como uma estratégia de pensamento prospectivo e holístico. Na verdade, o raciocínio utópico parte do entendimento de que as sociedades funcionam como sistemas e que, por isso, cada vez que for alterado um dos aspectos desse sistema (por exemplo, o económico), todos os outros aspectos serão afectados.” Fátima Vieira remete para um vídeo publicado no YouTube, no qual o escritor uruguaio Eduardo Galeano descreve “a forma exemplar como o realizador de cinema argentino Fernando Birri terá explicado para que serve a utopia: a utopia é algo que colocamos no nosso horizonte, damos dez passos e ela afasta-se dez passos, damos mais dez passos e ela afasta-se outros dez. Mas é para isso mesmo que ela serve - para nos fazer caminhar”.»





Uma inovação

2016/02/17

«Sólido como uma pedra aos 90 anos, Zygmunt Bauman fala sobre migração e relacionamentos»



André Bernardo. Revista Galileu. O Globo. Entrevista exclusiva.



« Pelo menos oito dos 35 livros de Zygmunt Bauman lançados no Brasil trazem a palavra “líquido” impressa na capa. Para o sociólogo polonês — que completará 90 anos em 19 de novembro —, tudo ao nosso redor é líquido, volátil e transitório. “Os tempos são líquidos porque, assim como a água, tudo muda muito rapidamente. Na sociedade contemporânea, nada é feito para durar”, diz o professor emérito das universidades de Leeds, na Inglaterra, e Varsóvia, na Polônia. Exatamente por essa razão, a visão de mundo de Bauman é frequentemente tachada de muito pessimista. Segundo alguns de seus maiores críticos, ele estaria para a sociologia como José Saramago está para a literatura ou Arthur Schopenhauer para a filosofia. Ele rebate a tese de que espera sempre pelo pior. “Estou convencido de que um mundo diferente e, por isso mesmo, melhor do que o que temos hoje é possível. Um mundo mais ético, justo e solidário”, afirma.

»Prolixo em sua produção literária, Bauman é reservado na vida pessoal. Dele sabemos apenas que é viúvo (sua companheira, Janina, morreu em 2009), tem três filhas (Anna, Lydia e Irena) e, desde 1971, mora na Inglaterra. No mais, continua a dar aulas, fazer palestras e lançar livros. O mais recente deles é A riqueza de poucos beneficia todos nós? (Zahar, 2015). Em setembro, Bauman esteve no Brasil, onde participou do evento Educação 360. Em entrevista exclusiva a GALILEU, o pensador falou sobre crise migratória, modernidade líquida e sociologia humanística. “Nossa vida é muito corrida. Vivemos sob a tirania do momento presente. Temos sempre pouco tempo para refletir sobre para onde estamos indo, avaliar o que estamos deixando para trás e ponderar sobre o que temos a ganhar e a perder com nossas decisões.”

»Acompanhe os principais momentos desse bate-papo.


»P: Como o senhor analisa a crise migratória que atinge o mundo contemporâneo? Vê alguma solução, a curto e médio prazo, para o problema dos refugiados?

»Solução para o problema dos refugiados? Honestamente, não. Mas não sou profeta, sabe? [risos] O que vejo, a longo prazo, são grandes benefícios. Por ora, contudo, o que temos é muita confusão. Infelizmente, não acho que encontraremos uma solução rápida para o problema dos refugiados.


»P: Por quê?

»Esse fenômeno não é totalmente novo. Diferentemente do que ocorreu no passado, quando os europeus migraram para diversos outros países, pessoas de outros países estão agora migrando para a Europa. E isso é um choque! Essa migração em massa provoca uma disparidade sem precedentes. Antigamente, havia um processo de assimilação cultural. O imigrante chegava a um país e, aos poucos, tornava-se parte dele. Hoje em dia, isso não acontece mais. Os governantes partem do princípio de que são de culturas superiores e os imigrantes, ao contrário, pertencem a culturas inferiores. Daí a disparidade, entende? A assimilação, tal como ocorria antes, não existe mais.


»P: A que o senhor atribui isso? E, mais importante, como mudar essa realidade?

»Pouca gente se deu conta, mas vivemos em um mundo globalizado. Ninguém é superior ou inferior a ninguém. Dependemos uns dos outros para sobreviver. Outra coisa: uma cultura nunca é superior a outra. Vivemos em um mundo multicultural. Há espaço para todos. Os imigrantes que chegam a um novo país querem trabalhar, pagar impostos, cumprir as leis, ou seja, ser reconhecidos como cidadãos. Porém, não querem abrir mão de sua origem, sua cultura, sua identidade. Numa mesma rua de Londres você encontra, por exemplo, uma igreja católica, uma sinagoga judaica e uma mesquita islâmica, uma ao lado da outra. E a diferença religiosa não é a única que existe por lá. Temos algumas outras: sociais, culturais, linguísticas, de gênero.


»P: Por que, ainda hoje, é tão difícil conviver com essas diferenças culturais?

»Antigamente, nossos antepassados acreditavam que a cultura dominante assimilaria a dominada, e por isso eventuais diferenças tenderiam a desaparecer. Hoje o desafio é outro: não fazer desaparecerem as diferenças, mas, ao contrário, aprender a conviver com elas. Por que não podemos simplesmente viver em comunidade, cada um dando o melhor de si em prol do bem comum? Entendo que o outro é um mistério, e mistérios costumam nos deixar apavorados. O outro fala uma língua diferente, age de modo diferente, reza para outro deus e assim por diante. Enfim, é um estranho. E estranhos tendem a nos deixar inquietos. Não sabemos muito bem como lidar com eles, como interagir com eles. Mas temos de aprender.


A sociología foi criada, há uns 200 anos, como ferramenta usada para gerenciar o comportamento das pessoas. O objetivo era deixar os indivíduos sem liberdade de escolha e, pior, torná-los responsáveis por todos os seus atos e movimentos.

»P: Hoje tudo é líquido, passageiro e descartável: o medo, o amor, a felicidade. O que é sólido, duradouro e permanente em nossa sociedade?

»Bem, a metáfora da liquidez é, na verdade, muito simples. O que ela sugere é que, como todo líquido, nossa configuração social não consegue manter a forma por muito tempo. Está sempre em transformação. Mas, veja bem, isso não significa necessariamente que não existam corpos sólidos. A única razão de eu chamar nossa modernidade de líquida é para distingui-la da modernidade sólida, aquela do tempo dos nossos ancestrais. Nossos bisavós construíram estruturas sólidas porque descobriram que o mundo que herdaram de nossos tataravós não era suficientemente sólido. Hoje em dia vivemos o que convencionei chamar de modernidade líquida. Modernizamos hoje o que criamos ontem. E modernizamos não porque o modelo anterior tenha ficado velho ou obsoleto, mas porque o novo modelo é supostamente mais moderno. Isso virou um vício, uma obsessão.


»P: O senhor pode dar outros exemplos?

»Claro. Vou dar outro, um pouco mais drástico. Os jovens casais de hoje, por exemplo. Eles fazem de tudo para que o relacionamento seja breve, superficial e fugaz. Nada mais é para sempre. Se não gosto de você, simplesmente me desconecto. Se você não gosta de mim, a mesma coisa. Sem culpa, arrependimento ou explicação. Basta apertar um botão e pronto. Acabou! As pessoas têm medo de criar raízes, de se afeiçoar umas às outras. Sabem que novas oportunidades surgem a cada momento, e por esse motivo querem estar livres e desimpedidas para substituir o velho pelo novo. É como se o amor fosse um bem de consumo. Mas isso não significa, volto a dizer, que não existam corpos sólidos. Ou, se preferir, relacionamentos longos, estáveis e duradouros. Tudo é possível. Felizmente.


»P: No Brasil, seus livros já venderam algo em torno de 350 mil exemplares, um número bem expressivo para um sociólogo. Como o senhor vê isso? A que atribui tamanha popularidade?

»Não esperava por isso. Mas, até onde sei, esse fenômeno não acontece somente no Brasil. Também sou bastante popular em outros países, como Portugal, Espanha e Itália. Dia desses, aliás, estava conversando com dois amigos, também sociólogos, sobre a sociologia. A missão dela é mudar a sociedade humana e ampliar o horizonte dos cidadãos. Infelizmente, a sociologia nem sempre cumpriu seu papel. Quando foi criada, há uns 200 anos, era uma ferramenta usada para gerenciar o comportamento das pessoas. Como obrigar as crianças a ir à escola todos os dias e não apenas uma vez por semana? Como evitar que os soldados desertem do exército e fujam dos quartéis? Ou, então, que os operários entrem em greve e parem de trabalhar? O objetivo era deixar os indivíduos sem liberdade de escolha e, pior, torná-los responsáveis por todos os seus atos e movimentos. Ao longo dos anos, procurei, não sei se com sucesso, falar sobre sociologia, traduzir o mundo em textos, não para outros sociólogos, mas para as pessoas comuns. Meu objetivo é mostrar a elas que o mundo pode ser um lugar diferente e melhor do que ele é hoje. Acredito muito que, na medida do possível, cumpri minha missão.


»P: Em um mundo que é tão volátil como o nosso, como o senhor gostaria de ser lembrado no futuro?

»Isso é algum tipo de teste psiquiátrico? [risos] Bem, vamos lá: os filósofos antigos costumavam dizer que a receita para uma boa vida é vivê-la de tal forma que você consiga deixar suas pegadas no mundo. Acreditavam que só assim seremos lembrados. Confesso que não tenho a menor ambição de ficar imortalizado na memória das pessoas. Isso nunca me passou pela cabeça. Por outro lado, estou convencido de que podemos deixar nossas pegadas no mundo escrevendo sobre os prós e contras da sociedade em que vivemos. E, principalmente, dando aos homens a esperança de que, um dia, nossa sociedade possa se tornar um lugar melhor. Ou, pelo menos, um lugar um pouco mais “bom” e um pouco menos “mau”. »





Um inovador

2016/02/16

«Universidade do Minho passa a fundação pública com regime de direito privado»



Guimarães Digital



«A Universidade do Minho já é uma fundação pública com regime de direito privado, instituída ontem por Decreto-Lei publicado em Diário da República. Desta forma a academia ficará com um quadro alargado de autonomia institucional, nomeadamente quanto à gestão financeira.

»De acordo com o diploma, a Universidade do Minho é agora "uma instituição de ensino superior pública de natureza fundacional", podendo criar um fundo autónomo" com o objectivo de "assegurar a prossecução das respectivas atribuições através de fontes alternativas de financiamento.

»A mudança de regime, requerida pelo Conselho Geral da Universidade do Minho, órgão ao qual compete agora rever os estatutos da instituição, vigorará por um período experimental de cinco anos.

A mudança de regime vigorará por um período experimental de cinco anos.

»De acordo com o Decreto-Lei n.º 4/2016, de 13 de janeiro, findo esse prazo, o funcionamento no regime será avaliado, podendo o Conselho Geral da Universidade do Minho propor, justificadamente, o regresso da instituição ao regime não fundacional. O regresso ao regime não fundacional depende de prévia avaliação independente.

»Durante o período experimental, pode o Governo decidir, ou a Universidade do Minho propor, o regresso ao regime não fundacional, em resultado da não verificação justificada de pressupostos que presidiram à adoção do mesmo regime.

»Regendo-se pelo direito privado, a instituição poderá admitir pessoal em regime privado, superando as actuais restrições para a contratação pública.

»Entre os novos instrumentos disponíveis está a possibilidade de constituir um "fundo autónomo" com fontes alternativas de financiamento como doações, heranças ou legados e contribuições voluntárias de antigos estudantes. A Universidade do Minho tem por missão gerar, difundir e aplicar conhecimento, assente na liberdade de pensamento e na pluralidade dos exercícios críticos, promovendo a educação superior e contribuindo para a construção de um modelo de sociedade baseado em princípios humanistas que tenha o saber, a criatividade e a inovação como fatores de crescimento, de desenvolvimento sustentável, de bem-estar e de solidariedade.»





Administração Pública e inovação