2016/12/20

Steve Biko: «A Consciência Negra e a Busca de uma Verdadeira Humanidade»



Esquerda.Net (@EsquerdaNet)



«Este domingo (18-12) comemoram-se os 70 anos de Steve Biko, líder estudantil contra o apartheid sul-africano, assassinado em 1977 sob custódia policial. O esquerda.net republica um dos seus textos, incluído no dossier Biko por ocasião do 30º aniversário da sua morte.

»Este texto de Steve Biko foi publicado no livro Black Theology: The South African voice (Teologia Negra: a voz da África do Sul) editado por Basil Moore em Londres em 1973. O texto, traduzido em português, foi extraído do site futraco.wikispaces.com/ (Núcleo de Estudantes Negras “Ubuntu” / Universidade do Estado da Bahia - UNEB).



»Talvez seja conveniente começar a examinar porque é preciso pensarmos coletivamente sobre um problema que nunca criámos. Ao fazer isso, não quero ocupar-me desnecessariamente com as pessoas brancas da África do Sul, mas para conseguir as respostas certas precisamos fazer as perguntas certas; temos de descobrir o que deu errado - onde e quando; e precisamos verificar se a nossa situação é uma criação deliberada de Deus ou uma invenção artificial da verdade por indivíduos ávidos pelo poder, cuja motivação é a autoridade, a segurança, a riqueza e o conforto. Por outras palavras, a abordagem da Consciência Negra seria irrelevante numa sociedade igualitária, sem distinção de cor e sem exploração. Ela é relevante aqui porque acreditamos que uma situação anómala é uma criação deliberada do homem.

»Não há dúvida de que a questão da cor na política da África do Sul foi introduzida originalmente por razões económicas. Os líderes da comunidade branca tinham de criar algum tipo de barreira entre os negros e os brancos, de modo que os brancos pudessem gozar de privilégios à custa dos negros e ainda se sentirem livres para dar uma justificação moral para a evidente exploração, que incomodava até as mais empedernidas consciências dos brancos. No entanto, diz a tradição que, sempre que um grupo de pessoas experimenta os agradáveis frutos da riqueza, da segurança e do prestígio, começa a achar mais confortável acreditar numa mentira óbvia e aceitar como normal que só ele tenha direito ao privilégio. Para acreditar seriamente nisso, o grupo precisa convencer-se da veracidade de todos os argumentos que sustentam essa mentira. Portanto, não é de estranhar que na África do Sul, depois de séculos de exploração, as pessoas brancas em geral tenham chegado a acreditar na inferioridade do negro, a tal ponto que, embora o problema racial tenha começado como consequência da ganância económica demonstrada pelos brancos, agora transformou-se num problema sério em si mesmo. As pessoas brancas agora desprezam as pessoas negras, não porque precisam reforçar sua atitude e, assim, justificar sua posição privilegiada, mas porque de fato acreditam que o negro é inferior e mau. Esse é o fundamento sobre o qual os brancos actuam na África do Sul e é isso o que faz com que a sociedade sul-africana seja racista.

»O racismo que encontramos não existe apenas numa base individual; ele também é institucionalizado, para que pareça ser o modo de vida sul-africano. Embora ultimamente tenha havido uma tentativa frágil de encobrir os elementos abertamente racistas no sistema, ainda é verdade que esse mesmo sistema é sustentado pela existência de atitudes antinegro na sociedade. Para dar uma vida ainda mais longa à mentira, é necessário que se negue aos negros qualquer oportunidade de provar acidentalmente que são iguais aos brancos. Por essa razão, há reserva de emprego, falta de treino em tarefas especializadas e um círculo restrito de possibilidades profissionais para negros. Absurdamente, o sistema responde afirmando que os negros são inferiores porque entre eles não há economistas, não há engenheiros etc, embora os negros tenham sido impossibilitados de adquirir esses conhecimentos.

»Para dar autenticidade à sua mentira e demonstrar a rectidão das suas pretensões, os brancos vêm desenvolvendo esquemas detalhados para “resolver” a questão racial neste país. Desse modo, foi criado um pseudo-Parlamento para os “mestiços”, e vários “Estados bantus” estão em vias de ser estabelecidos. Estes são tão independentes e afortunados que não precisam gastar nem sequer um centavo em sua defesa, pois não têm nada a tremer da parte da África do Sul branca, que sempre virá socorrê-los em caso de necessidade. É impossível não ver a arrogância dos brancos e o seu desprezo pelos negros, mesmo nos seus esquemas de dominação modernos e bem planeados.

»A estrutura de poder branco vem obtendo sucesso total ao conseguir unir os brancos em torno da defesa do status quo. Jogando de modo habilidoso com o espantalho imaginário - o swart gevaar -, conseguiu convencer até os liberais obstinados de que há algo a temer na ideia de o negro assumir o seu lugar legítimo no leme do barco sul-africano. Assim, após anos de silêncio, podemos ouvir a voz familiar de Alan Paton a dizer, lá longe, em Londres: “Talvez valha a pena tentar-se o apartheid”. “À custa de quem, Dr. Paton?”, pergunta um inteligente jornalista negro. Por isso os brancos em geral apoiam-se mutuamente - embora permitam algumas desavenças moderadas entre si - quanto aos detalhes dos esquemas de dominação. Não há dúvida de que não questionam a validade dos valores brancos. Não enxergam nenhuma anomalia no facto de estarem a discutir sozinhos sobre o futuro de 17 milhões de negros - numa terra que é o quintal natural do povo negro. Quaisquer propostas de mudança provenientes do mundo negro são encaradas com a maior indignação. Até mesmo a chamada oposição, o Partido Unido, tem a ousadia de dizer aos mestiços que eles estão a querer demais. Um jornalista de um jornal liberal como o Sunday Times, de Johannesburgo, descreve um estudante negro - que está apenas a dizer a verdade - como um jovem militante impaciente.

»Não basta aos brancos estar na ofensiva. Acham-se de tal modo mergulhados no preconceito que não acreditam que os negros possam formular os próprios pensamentos sem a orientação e a tutela dos brancos. Assim, até mesmo os brancos que vêem muitos erros no sistema tomam para si a responsabilidade de controlar a reacção dos negros à provocação. Ninguém está a sugerir que não é responsabilidade dos brancos liberais opor-se a tudo o que há de errado. No entanto, parece coincidência demais que os liberais - poucos como são - não apenas estejam a determinar o modus operandi dos negros que se opõem ao sistema, como também se achem na sua liderança, apesar de envolvidos com o sistema. Para nós, o seu papel define a abrangência da estrutura do poder branco: embora os brancos sejam o nosso problema, são outros brancos que querem nos dizer como lidar com esse problema. Eles fazem isso procurando desviar nossa atenção de inúmeras maneiras. Dizem-nos que a situação é mais a de uma luta de classes do que uma luta racial. Eles que procurem Van Tonder no Free State e digam isso a ele. Nós acreditamos que sabemos qual é o problema e vamos continuar fiéis às nossas conclusões.

»Quero aprofundar um pouco mais essa discussão porque está na hora de acabar com essa falsa coligação política entre negros e brancos enquanto estiver fundamentada numa análise errada da nossa situação, é preciso lutar para acabar com ela. Quero acabar com ela por outra razão: porque, de momento, constitui o maior obstáculo à nossa união. Ela acena aos negros, ávidos por liberdade, com promessas de um grande futuro, para o qual ninguém nesses grupos parece trabalhar com muito afinco.

»Os brancos liberais apontam o apartheid como o problema fundamental da África do Sul. Argumentam que, para lutarmos contra ele, é necessário que formemos grupos não raciais. Entre esses dois extremos, proclamam, encontra-se a terra do leite e do mel pela qual estão a trabalhar. Alguns grandes filósofos consideram a tese, a antítese e a síntese os pontos cardeais em torno dos quais gira qualquer revolução social. Para os liberais, a tese é o apartheid, a antítese é o não racismo, mas a síntese é muito mal definida. Querem dizer aos grupos que encontram na integração a solução ideal. A Consciência Negra, no entanto, define a situação de maneira diferente: a tese na verdade é um forte racismo por parte do branco e, portanto, sua antítese precisa ser, ipso facto, uma forte solidariedade entre negros, a quem esse racismo branco pretende espoliar. A partir dessas duas situações, então, podemos ter a esperança de chegar a algum tipo de equilíbrio - uma verdadeira humanidade, onde a política de poder não tenha lugar. Tal análise define a diferença entre a velha e a nova abordagem. O fracasso dos liberais encontra-se no facto de que a sua antítese já é uma versão diluída da verdade, cuja proximidade da tese vai anular o equilíbrio pretendido. Isso explica o malogro das comissões do Sprocas que não conseguiram nenhum progresso, porque já estão a procurar uma “alternativa” aceitável para os brancos. Todos os que integram as comissões sabem o que está certo, mas todos eles procuram o modo mais conveniente de se esquivar da responsabilidade de dizer o que está certo.

»Descortinar essa diferença é bem mais importante para os negros do que para os brancos. Precisamos aprender a aceitar que nenhum grupo, por melhores intenções que tenha, poderá um dia entregar o poder aos vencidos, numa bandeja. Precisamos aceitar que os limites dos tiranos são determinados pela resistência daqueles a quem oprimem. Enquanto nos dirigirmos ao branco mendigando, com o chapéu na mão, a nossa emancipação, estaremos a dar-lhe mais autorização para que continue com o seu sistema racista e opressor. Precisamos nos consciencializar de que a nossa situação resulta de um acto deliberado da parte dos brancos, e não de um engano, e que nem milhares de sermões morais podem persuadir o branco a “corrigir” esse estado de coisas. O sistema não concede nada a não ser que seja exigido, porque formula até o seu método de acção com base no facto de que o ignorante aprenderá, a criança se transformará em adulto e, portanto, as exigências começarão a ser feitas. O sistema se prepara para resistir às reivindicações da maneira que lhe parecer adequada. Quando alguém se recusa a fazer essas exigências e prefere ir a uma mesa-redonda mendigando a sua libertação, está a atrair o desprezo daqueles que têm poder sobre ele. Por esse motivo precisamos rejeitar as tácticas de mendigos que estamos a ser forçados a usar por aqueles que querem aplacar os nossos senhores cruéis. É aqui que a mensagem e o grito da SASO: “Negro, você está por sua própria conta!” se torna relevante.

»O conceito de integração, cujos méritos são muitas vezes elogiados nos círculos de brancos liberais, está cheio de suposições não questionadas que seguem os valores brancos. É um conceito que há muito tempo foi definido pelos brancos e que os negros nunca examinaram. Baseia-se na suposição de que o sistema caminha muito bem, excepto num certo grau de má administração exercida por conservadores irracionais da cúpula. Até mesmo os que argumentam a favor da integração muitas vezes esquecem-se de escondê-la sob a sua pretensa capa de harmonia. Dizem uns aos outros que, não fosse pela reserva de empregos haveria um excelente mercado a ser explorado. Esquecem que estão a referir-se a seres humanos. Consideram os negros apenas alavancas adicionais para algumas máquinas industriais complicadas. É esta a integração do homem branco - uma integração baseada nos valores de exploração, em que o negro competirá com o negro, um utilizando o outro como a escada que o conduzirá aos valores brancos. É uma integração na qual o negro terá que provar a si mesmo, em termos desses valores, antes de merecer a aceitação e a assimilação final, e na qual os pobres se tornarão mais pobres, e os ricos mais ricos, num país em que os pobres sempre foram negros. Não queremos ser lembrados de que somos nós, o povo nativo, que somos pobres e explorados na terra em que nascemos. Estes são conceitos que a abordagem da Consciência Negra quer arrancar da mente dos negros, antes que a nossa sociedade seja conduzida ao caos por pessoas irresponsáveis provenientes do contexto cultural da Coca-Cola e do hambúrguer.

»A Consciência Negra é uma atitude da mente e um modo de vida, o apelo mais positivo que, num longo espaço de tempo, vimos brotar do mundo negro. A sua essência é a consciencialização por parte do negro da necessidade de se unir a seus irmãos em torno da causa da sua opressão - a negritude da sua pele - e de trabalharem como um grupo para se libertarem dos grilhões que os prendem a uma servidão perpétua. Baseia-se num auto-exame que os levou finalmente a acreditar que, ao tentarem fugir de si mesmos e imitar o branco, estão a insultar a inteligência de quem quer que os criou negros. A filosofia da Consciência Negra, portanto, expressa um orgulho grupal e a determinação dos negros de se levantarem e conseguirem a auto-realização desejada. A liberdade é a capacidade de autodefinição de cada um. Tendo como limitação das suas potencialidades apenas a própria relação com Deus e com o ambiente natural, e não o poder exercido por terceiros. O negro quer, portanto, explorar por conta própria o ambiente em que vive e testar as suas potencialidades - por outras palavras, conquistar a liberdade por quaisquer meios que considerar adequados. Na essência desse pensamento está a compreensão dos negros de que a arma mais poderosa nas mãos do opressor é a mente do oprimido. Se dentro do nosso coração estivermos livres, nenhuma corrente feita pelo homem poderá manter-nos na escravidão; mas se a nossa mente for manipulada e controlada pelo opressor a ponto de fazer com que o oprimido acredite que ele é uma responsabilidade do homem branco, então não haverá nada que o oprimido possa fazer para amedrontar os seus poderosos senhores. Por isso, pensar segundo a linha da Consciência Negra faz com que o negro se veja como um ser completo em si mesmo. Torna-o menos dependente e mais livre para expressar a sua dignidade humana. No final do processo, ele não poderá tolerar quaisquer tentativas de diminuir o significado da sua dignidade humana.

»Para que a Consciência Negra possa ser usada de modo vantajoso como uma filosofia a ser aplicada às pessoas que estão numa situação como a nossa, é necessário observar alguns aspectos. Como pessoas, existindo numa luta contínua pela verdade, precisamos examinar e questionar velhos conceitos, valores e sistemas. Tendo encontrado as respostas certas, iremos então trabalhar para que todas as pessoas sejam consciencializadas, a fim de que tenhamos a possibilidade de caminhar no sentido de pôr em prática essas respostas. Nesse processo, precisamos desenvolver os nossos próprios esquemas, os nossos modelos e estratégias, adequados para cada necessidade e situação, mantendo sempre em mente nossos valores e crenças fundamentais.

»Em todos os aspectos do relacionamento entre negros e brancos, agora e no passado, vemos uma tendência constante por parte dos brancos de descrever o negro como alguém que tem um status inferior. A nossa cultura, a nossa história, na verdade todos os aspectos da vida do negro foram danificados até quase perderem a sua forma no grande choque entre os valores nativos e a cultura anglo-bóer.

»Os missionários foram os primeiros que se relacionaram com os negros da África do Sul de um modo humano. Pertenciam à vanguarda do movimento de colonização para “civilizar e educar” os selvagens e apresentar-lhes a mensagem cristã. A religião que trouxeram era completamente estranha para o povo negro nativo. A religião africana, na sua essência, não era radicalmente diferente do cristianismo. Nós também acreditávamos num só Deus, tínhamos a nossa comunidade de santos por meio da qual nos relacionávamos com o nosso Deus, e não considerávamos que era compatível com o nosso modo de vida prestar a Deus um culto separado dos vários aspectos da nossa vida. Por isso o culto não era uma função especializada que se expressava uma vez por semana num prédio especial, mas aparecia nas nossas guerras, ao bebermos cerveja, nas nossas danças, nos nossos costumes em geral. Sempre que os africanos bebiam, primeiro relacionavam-se com Deus derramando um pouco da cerveja como símbolo da sua gratidão. Quando algo ia mal em casa ofereciam a Deus um sacrifício para apaziguá-lo e para reparar os seus pecados. Não havia inferno na nossa religião. Acreditávamos na bondade inerente do homem e, por isso, tínhamos a certeza de que todas as pessoas, ao morrerem, se juntavam à comunidade dos santos - portanto, mereciam o nosso respeito.

Com o tempo, conseguiremos dar à África do Sul o maior presente possível: um rosto mais humano.

»Foram os missionários que confundiram as pessoas com a sua nova religião. Assustaram o nosso povo com as suas histórias sobre o inferno. Descreveram o Deus deles como um Deus exigente que queria ser adorado, “senão...”. As pessoas tinham que pôr de lado as suas roupas e os seus costumes, para serem aceites na nova religião. Sabendo que os africanos são um povo religioso, os missionários incrementaram a sua campanha de terror sobre as emoções das pessoas, com os seus relatos detalhados a respeito do fogo eterno, do arrancar de cabelos e do ranger de dentes. Por alguma lógica estranha e distorcida, argumentavam que a religião deles era científica, e a nossa uma superstição - apesar da discrepância biológica que está na base da religião deles. Para o povo nativo essa religião fria e cruel era estranha e provocava frequentes discussões entre os convertidos e os “pagãos”, porque os primeiros, tendo assimilado os falsos valores da sociedade branca, foram ensinados a ridicularizar e a desprezar aqueles que defendiam a verdade da sua religião nativa. Depois, com a aceitação da religião ocidental, os nossos valores culturais foram por água abaixo!

»Embora eu não deseje questionar a verdade fundamental que está no centro da mensagem cristã, há um forte argumento a favor de um reexame do cristianismo. Tem provado ser uma religião muito adaptável que não procura acrescentar nada às ordens existentes, mas - como qualquer verdade universal - encontrar um modo de ser aplicada a uma situação específica. Mais que ninguém, os missionários sabiam que nem tudo o que faziam era essencial à propagação da mensagem. Mas a intenção básica ia muito além da mera propagação da palavra. A sua arrogância e o seu monopólio sobre a verdade, sobre a beleza e o julgamento moral fizeram-nos desprezar os hábitos e as tradições dos nativos e procurar infundir os seus próprios valores nessas sociedades.

»Aqui temos, então, o argumento a favor da Teologia Negra. Como não quero discutir a Teologia Negra a fundo, basta que eu diga que ela procura relacionar mais uma vez Deus e Cristo com o negro e os seus problemas quotidianos. Ela pretende descrever o Cristo como um Deus lutador, e não como um Deus passivo, que permite que uma mentira permaneça sem ser questionada. Ela enfrenta problemas existenciais e não tem a pretensão de ser uma teologia de absolutos. Procura trazer Deus de volta para o negro e para a verdade e a realidade da sua situação. Este é um aspecto importante da Consciência Negra, pois na África do Sul existe um grande número de pessoas negras cristãs que ainda se encontram atoladas no meio da confusão, uma consequência da abordagem dos missionários. Portanto, todos os sacerdotes e ministros religiosos negros têm o dever de salvar o cristianismo, adoptando a abordagem da Teologia Negra e, assim, unindo outra vez o negro ao seu Deus.

»Também é preciso examinar atentamente o sistema de educação para os negros. No tempo dos missionários, essa mesma situação tensa já existia. Sob o pretexto de cuidarem da higiene, de adquirirem bons modos e outros conceitos vagos, as crianças eram ensinadas a desprezar a educação que recebiam em casa e a questionar os valores e os hábitos da sua sociedade. O resultado foi o que se esperava: as crianças passaram a encarar a vida de um modo diferente dos pais e perderam o respeito por eles. Ora, na sociedade africana, a falta de respeito pelos pais é um pecado grave. No entanto, como se pode impedir que a criança perca esse respeito quando os seus professores brancos, que sabem tudo, a ensinam a desconsiderar os ensinamentos da família? Quem pode resistir e conservar o respeito pela tradição, se na escola todo o seu ambiente cultural é sintetizado numa só palavra: barbarismo?

»Podemos, assim, ver a lógica de colocar os missionários na linha de frente do processo de colonização. Uma pessoa que consegue fazer um grupo de indivíduos aceitar um conceito estranho, no qual ela mesma é um perito, transforma esses indivíduos em estudantes perpétuos, cujo progresso nesse campo só pode ser avaliado por ele; o estudante precisa sempre dirigir-se a ele para obter orientação e promoção. Ao serem obrigados a aceitar a cultura anglo-bóer, os negros permitiram que eles mesmos fossem colocados à mercê do branco e que tivessem o branco como o seu eterno supervisor. Só o branco pode dizer-nos até que ponto nos estamos a sair bem, e instintivamente cada um de nós esforça-se para agradar a esse senhor poderoso que sabe tudo. É isso que a Consciência Negra procura arrancar pela raiz.

»Segundo um escritor negro, o colonialismo nunca se satisfaz em ter o nativo nas suas garras, mas, por uma estranha lógica, precisa voltar-se para o seu passado e desfigurá-la e distorcê-la. Por esse motivo é muito desanimador ler a história do negro neste país. Ela é apresentada apenas como uma longa sequência de derrotas. Os xhosas eram ladrões que iniciavam uma guerra por causa das propriedades roubadas; os bóeres nunca provocavam os xhosas, mas organizavam somente “expedições punitivas” para dar uma lição aos ladrões. Heróis como Makana, que foram essencialmente revolucionários, são apresentados como desordeiros supersticiosos que mentiam ao povo dizendo que as balas se transformavam em água. Grandes construtores da Nação, como Shaka, são apresentados como tiranos cruéis que atacavam tribos menores sem nenhuma razão, mas por um propósito sádico. Não apenas não há nenhuma objectividade na história que nos é ensinada, mas há muitas vezes uma terrível distorção de factos, que enojam até um estudante desinformado.

»Por isso, precisamos prestar muita atenção à nossa história se nós, como negros, quisermos ajudar-nos mutuamente a nos consciencializarmos. Precisamos reescrever a nossa história e apresentar nela os heróis que formaram o núcleo de nossa resistência aos invasores brancos. Mais factos têm de ser revelados, assim como é preciso enfatizar as tentativas bem-sucedidas de construir uma nação, feita por homens como Shaka; Moshoeshoe e Hintsa. Diversos pontos requerem uma pesquisa minuciosa, para que possamos desvendar alguns importantes elos perdidos. Seríamos ingénuos demais se esperássemos que os nossos conquistadores escrevessem sobre nós uma história não-tendenciosa, mas precisamos destruir o mito de que ela começou em 1652, ano em que Van Riebeeck chegou ao Cabo.

»A nossa cultura precisa ser definida em termos concretos. Temos de relacionar o passado com o presente e demonstrar a evolução histórica do negro moderno. Existe uma tendência para considerar a nossa cultura uma cultura estática, que foi detida em 1652 e desde então nunca se desenvolveu. O conceito de “voltar para o sertão” sugere que não temos nada de que nos gabar além de leões, sexo e bebida. Aceitamos o facto de que, quando uma civilização se estabelece, ela devora a cultura nativa e deixa atrás de si uma cultura bastarda que só pode desenvolver-se no ritmo permitido pela cultura dominante. Mas também precisamos nos consciencializar de que os princípios básicos da nossa cultura conseguiram em grande parte resistir ao processo de abastardamento e que, mesmo agora, ainda podemos provar que apreciamos um homem por si mesmo. A nossa sociedade é autenticamente centrada no homem, e a sua tradição sagrada é a partilha. Temos de continuar a rejeitar o modo frio e individualista de encarar a vida que é a pedra fundamental da cultura anglo-bóer. É necessário devolver ao negro a sua tradição de valorizar as relações humanas, de respeitar as pessoas, as suas propriedades, a vida em geral. Com isso, visamos reduzir o triunfo da tecnologia sobre o homem e o espírito materialista que lentamente se insinua na nossa sociedade.

»Estas são características essenciais da nossa cultura negra, às quais precisamos nos agarrar. Acima de tudo, a cultura negra implica a nossa liberdade de inovar sem recorrer aos valores brancos. Essa inovação faz parte do desenvolvimento natural de qualquer cultura. E uma cultura, em essência, é a resposta conjunta de uma sociedade aos vários problemas da vida. Todos os dias experimentamos novos problemas, e tudo o que fizermos aumenta a riqueza da nossa herança cultural, desde que tenha o homem como o seu centro. A introdução de um teatro e de uma arte dramática negra é uma dessas inovações importantes que precisamos estimular e desenvolver. Sabemos que o nosso amor pela música e pelo ritmo ainda hoje é importante.

»Fazendo parte de uma sociedade exploradora, na qual muitas vezes somos o objecto directo da exploração, precisamos desenvolver uma estratégia em relação à nossa situação económica. Temos consciência de que os negros ainda são colonizados, mesmo dentro das fronteiras da África do Sul. A sua mão-de-obra barata tem ajudado a fazer da África do Sul aquilo que é hoje. O nosso dinheiro. que vem das cidades segregadas, faz uma viagem só de ida para as lojas e para os bancos dos brancos, e a única coisa que fazemos durante toda a nossa vida é pagar para os brancos, seja com o nosso trabalho, seja com o nosso dinheiro. As tendências capitalistas de exploração, unidas à evidente arrogância do racismo branco, conspiram contra nós. Por esse motivo agora sai muito caro ser pobre na África do Sul. São os pobres que vivem mais longe da cidade, e por isso têm de gastar mais dinheiro com o transporte para ir trabalhar para os brancos; são os pobres que usam combustíveis dispendiosos e impróprios, como a parafina e o carvão, porque o branco se recusa a instalar electricidade nas áreas dos negros; são os pobres que são governados por muitas leis restritivas mal definidas e que, por isso, têm de gastar mais dinheiro em multas por causa de transgressões “técnicas”; são os pobres que não têm hospitais e assim têm de procurar médicos particulares, que cobram honorários exorbitantes; são os pobres que usam estradas não asfaltadas, têm que andar longas distâncias e, por isso, têm de gastar muito com mercadorias como sapatos, que sofrem muitos estragos; são os pobres que precisam pagar pelos livros dos filhos, enquanto os brancos os recebem gratuitamente. Não é necessário dizer que são os negros que são pobres.

»Portanto, temos de estudar de novo como usar melhor o nosso poder económico, por menor que pareça ser. Precisamos examinar seriamente as possibilidades de criar cooperativas de negócios cujos lucros sejam reinvestidos em programas de desenvolvimento comunitário. Deveríamos pensar em medidas como a campanha “Compre de Negros”, que certa vez foi sugerida em Johannesburgo, e estabelecer os nossos próprios bancos em benefício da comunidade. O nível de organização entre os negros só é baixo porque permitimos que seja assim. Agora que sabemos que estamos por nossa própria conta, temos obrigação estrita de atender a essas necessidades.

»O último passo da Consciência Negra é a ampliação da base da nossa actuação. Um dos princípios básicos da Consciência Negra é a totalidade do envolvimento. Isso significa que todos os negros precisam posicionar-se com uma grande unidade, e nenhuma fragmentação ou desvio da corrente principal de acontecimentos pode ser tolerada. Por isso, precisamos resistir às tentativas dos protagonistas da teoria dos bantustões de fragmentar a nossa abordagem. Somos oprimidos, não como indivíduos, não como zulus, xhosas, vendas ou indianos. Somos oprimidos porque somos negros. Precisamos usar esse mesmo conceito para nos unir e para dar uma resposta como um grupo coeso. Precisamos agarrar-nos uns aos outros com uma tenacidade que vai espantar os que praticam o mal.

»O facto de estarmos preparados para assumirmos, nós mesmos, as armas da luta levar-nos-á a sair da crise. Precisamos eliminar completamente do nosso vocabulário o conceito de medo. A verdade tem que triunfar no fim sobre o mal, e o branco sempre alimentou a sua ganância com esse medo básico que se manifesta na comunidade negra. Os agentes da Divisão Especial não farão com que a mentira se transforme em verdade e precisamos ignorá-los. Para uma mudança significativa da situação, precisamos arregaçar as mangas, estar preparados para perder o nosso conforto e a nossa segurança, os nossos empregos e posições de prestígio, além de perder as nossas famílias: assim como é verdade que “liderança e segurança são basicamente incompatíveis”, uma luta sem baixas não é luta. Temos de tomar consciência do grito profético dos estudantes negros: “Negro, você está por sua própria conta!”.

»Alguns vão acusar-nos de racistas, mas utilizam exactamente os valores que rejeitamos. Não temos o poder de dominar ninguém. Apenas respondemos à provocação do modo mais realista possível. O racismo não implica apenas a exclusão de uma raça por outra - ele pressupõe sempre que a exclusão se faz para fins de dominação. Os negros têm tido suficiente experiência como objectos de racismo para não quererem inverter as posições. Embora possa ser relevante falar agora a respeito do negro em relação ao branco, não podemos deixar que esta seja a nossa preocupação, pois pode ser um exercício negativo. À medida que avançarmos em direcção à realização dos nossos objectivos, falaremos mais sobre nós mesmos e a nossa luta e menos sobre os brancos.

»Saímos em busca de uma verdadeira humanidade e em algum lugar no horizonte distante podemos ver o prémio a brilhar. Vamos caminhar para a frente com coragem e determinação, extraindo a nossa força da difícil condição que partilhamos e da nossa fraternidade. Com o tempo, conseguiremos dar à África do Sul o maior presente possível: um rosto mais humano.»





Inovação e discursos

2016/12/19

Newsletter L&I, n.º 130 (2016-12-19)




n.º 130 (2016-12-19)

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Christopher P. Skroupa: «Disruptive Forces Blow Up 21st Century Business Models» [link]

Paul Hughes: «To Create the Best Environment for Innovation—Focus on Your People» [link]

Rob Marvin: «Blockchain in 2017: The Year of Smart Contracts» [link]

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«Fernando Haddad: “A saída para a crise não está prevista na Constituição”» [link]

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«John Mattone ratifica que lo principal para el éxito es pensar diferente. En el mundo actual, la inteligencia abunda, pero no el liderazgo. (Networking Club El Nogal @NETclubelnogal y Universidad del Rosario)» [link]

«La renaissance des start-up scientifiques (Partie 1)», Par Olivier Ezratty, expert FrenchWeb @frenchweb #lesexperts [link]

«Is this what it takes to be an innovative leader?», Written by Linda A. Hill [link]



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2016/12/16

Miguel Frasquilho: «Estratégias de cooperação e coopetição. São umas estratégia que exigem uma alteração comportamental das empresas»


Miguel Frasquilho é Presidente da AICEP Portugal Global. Leiria Económica @leiriaeconomica. Entrevista originalmente publicada na revista 250 Maiores Empresas do Distrito de Leiria, publicada a 17 de Novembro, pelo Jornal de Leiria. REDACÇÃO | Célia Marques.



«Estratégias de cooperação e coopetição criam mais-valias na internacionalização das PME, como mostram casos de sucesso como a Pêra Rocha, Frubaça ou Derovo, destaca o presidente da AICEP Portugal Global.


»A AICEP promove hoje [à data de publicação da revista], em Leiria, uma conferência subordinada ao tema: “Cooperação e Coopetição – Chave para a Competitividade nos Mercados Externos”. Porquê realizar uma conferência sobre este tema?

»A cooperação e coopetição como chave para a competitividade nos mercados externos foi ao longo de 2016 o tema central do Roadshow Portugal Global da AICEP, tendo sido trabalhado em diferentes perspectivas e abordando vários mercados consoante a especificidade de cada região. Existem estudos que indicam que a cooperação e a coopetição criam mais-valias na internacionalização das PME e é consensual que a cooperação e a coopetição têm de ser incentivadas, apresentando modelos de sucesso e metodologias para a sua implementação, baseados na complementaridade e na ajuda mútua, tendo como referência o conceito “rede de empresas”. É uma estratégia que exige uma alteração comportamental por parte das empresas, possível a partir da sensibilização, da capacitação e do conhecimento. Além disso, é de referir que a cooperação e a coopetição aumentam o potencial de exportação, tornando a internacionalização acessível a empresas de menor dimensão e menores recursos.


»Quais as vantagens da cooperação e coopetição, numa economia com as características da nossa, constituída maioritariamente por microempresas e PME?

»Tal como referi, a cooperação e coopetição é ainda mais relevante para as empresas de pequena dimensão, pois permite-lhes ganharem dimensão e capacidade de internacionalização, abrindo segmentos de mercado e mercados que duma forma individual não teriam escala ou recursos para abarcar.


»É uma estratégia de organização obrigatória para vencer nos mercados externos? Temos tido bons resultados com esta estratégia? Pode dar alguns exemplos?

»Um claro exemplo de sucesso desta estratégia é já por todos bem conhecido: o da internacionalização da Pêra Rocha para a Alemanha. A cooperação dos diversos concorrentes no mercado, ou seja, a estratégia de coopetição, permitiu a criação de uma oferta forte e de dimensão suficiente para abastecer o mercado alemão, o que se veio a revelar um enorme sucesso. Mas diria que temos muitos casos de referência, que se concretizaram com muito sucesso, sendo no entanto uma evolução relativamente recente. Poderemos referir casos em todos os sectores de actividade desde o agro-alimentar, TIC, indústria transformadora –DEROVO, Artesanal Pescas, Terra Brava, Doro Boys, Agrocluster do Ribatejo, Cooperfrutas, Frubaça, Home Living Ceramics, Incentea – e também ao nível da investigação de ponta ou partilha de recursos, como os casos do CEIIA, Laboratório Ibérico de Nanotecnologia, CEFAMOL, entre outros.


»Este tipo de organização aporta também alguns riscos. Quais são e como é que as empresas se podem salvaguardar dos mesmos?

»Curiosamente, este é um dos temas que iremos abordar durante o seminário em Leiria, onde alguns especialistas vão sintetizar como podemos minimizar os riscos da colaboração empresarial, que é algo que se tem desenvolvido muito nos últimos anos. De uma forma sucinta, diria que é fundamental fixar critérios para seleccionar e avaliar os parceiros de negócio, identificar objectivos comuns à parceria e cumprir as boas práticas já claramente sistematizadas e identificadas para o tipo de negócio e mercado.


»A coopetição e cooperação já fazem parte do vocabulário das empresas portuguesas? Qual o seu estado de maturidade a este nível?

»Cada vez mais faz parte do vocabulário empresarial, e o número crescente de exemplos permite-nos perceber que esta é já uma abordagem estratégica contemplada pelas empresas e organizações. Casos como o da Pêra Rocha podem e devem ser replicados e multiplicados, até porque são vários os produtos portugueses onde a oferta e capacidade de concorrência apenas atinge dimensão se considerarmos os vários players do mercado actuando em cooperação.


Existem estudos que indicam que a cooperação e a coopetição criam mais-valias na internacionalização das PME e é consensual que a cooperação e a coopetição têm de ser incentivadas, apresentando modelos de sucesso e metodologias para a sua implementação, baseados na complementaridade e na ajuda mútua, tendo como referência o conceito “rede de empresas”. É uma estratégia que exige uma alteração comportamental por parte das empresas, possível a partir da sensibilização, da capacitação e do conhecimento.

»Na região de Leiria, em particular, como caracteriza o estado de maturidade das empresas relativamente à cooperação e coopetição. Pode apontar alguns exemplos?

»A região de Leiria é uma região exemplar no que diz respeito ao tecido empresarial. Empresas com produtos de alto valor acrescentado, com um leque de mercados sofisticados, uma atenção grande aos novos mercados em ascensão e também às novas áreas de mercado. Também neste capítulo Leiria é exemplar e já apresenta alguns casos de sucesso, que convidámos para testemunharem nesta conferência. Para aumentar o número de casos, e porque acreditamos no potencial da região, convidámos como orador principal o especialista do Institute for Collaborative Working, estando certos que o grau de maturidade das empresas da região permitirá uma interacção muito profícua.


»A cooperação e coopetição podem dar-se entre empresas do mesmo sector, ou numa lógica de complementaridade. O que é mais comum?

»No caso da coopetição, que pressupõe que empresas da mesma área se associem num determinado momento, para a seguir competir, são claramente outros os critérios para se desenvolver este tipo de colaboração. No caso da cooperação é mais frequente surgir a complementaridade. No entanto, a base e os critérios para o desenvolvimento de parcerias não se esgotam aí. De referir alguns dos exemplos que identifiquei, em que as empresas de cooperam e são da mesma área de atividade.


»Quais os maiores obstáculos à adopção destas estratégias cooperativas e de coopetição entre empresas e como se podem minimizar ou ultrapassar?

»Os maiores obstáculos são questões associadas à cultura de negócios em Portugal e, uma vez esta questão ultrapassada, a má definição dos objectivos de cooperação. Estas questões podem ser minimizadas ou ultrapassadas sensibilizando, de forma sistemática, as empresas para estas questões e, consequentemente, disseminando informação que possa assegurar o cumprimento das boas práticas para a colaboração empresarial.


»A política económica tem um papel no sentido de procurar que as empresas colaborem mais entre si? Qual e de que forma tem sido exercido?

»O nosso objectivo com o Roadshow Portugal Global e a temática apresentada é precisamente estimular o crescente espírito de internacionalização d¬¬os empresários portugueses e apoiar as empresas nacionais no seu caminho para a consolidação nos mercados externos e, naturalmente, como não podia deixar de ser, reforçar as exportações e os processos de internacionalização das empresas das diferentes regiões por onde passámos – a edição deste ano começou em Setúbal, passou por Santarém, Guimarães, Viana do Castelo, Aveiro e termina agora em Leiria. Fazemos isso partilhando com todos a experiência dos que vivem diariamente as dificuldades de entrada nos mercados que abordámos – França, Holanda, Reino Unido, Espanha, Alemanha –, que sabem como as ultrapassar e a melhor forma de as abordar. Queremos, com isto, estimular mais empresários portugueses a internacionalizarem-se, a correrem riscos e a aspirar a vencer neste mundo global e altamente competitivo. Nesta edição de Leiria, como será a última, faremos uma edição especial onde abordaremos vários mercados: EUA, Irão, Colômbia e novamente o Reino Unido.


»Da realidade internacional, pode apontar um exemplo de um país onde esta estratégia de organização empresarial esteja mais vincada, dando exemplos das vantagens/resultados que daí advêm?

»Da realidade internacional, podemos dar bastantes exemplos, mas não na óptica de país. A coopetição, enquanto estratégia, pressupõe que empresas concorrentes colaborem com o objectivo de aumentar a quota de mercado a partir da partilha de conhecimento das organizações, o que viabiliza a co-inovação e o aumento do mercado. É uma estratégia que está mais relacionada com modelos de negócio e características de determinados sectores, baseando-se mais em organizações. Ao longo da última década setores como o da aviação, automóvel e TIC foram palco de casos de sucesso como é exemplo a Samsung e Sony, a Renault e Daimler’s, Ford e Toyota, Apple e Microsoft, Google e Mozilla.


»Considera que, futuramente, a tendência vai no sentido da necessidade de reforço deste tipo de estratégias de cooperação e coopetição?

»Sim. O mercado global assim o exige, em particular para empresas de pequena ou média dimensão. Hoje a maioria das empresas já nasce em ambiente colaborativo, veja-se o caso das start ups, que nascem em espaços colaborativos de trabalho, muitas vezes em estreita ligação com as universidades e que usam ferramentas colaborativas. De facto, o que percebemos é que a cooperação das empresas, complementares ou concorrentes, particularmente as PME, actuando coletivamente em redes, afigura-se cada vez mais como uma dimensão incontornável da resposta para os desafios da competição global. Isto porque pode claramente potenciar condições para uma mais eficaz e mais rápida entrada nos circuitos do comércio internacional e com uma capacidade de projecção sem paralelo quando comparada com a actuação individual.»





Inovação e recursos

2016/12/15

Alexandra Rebelo: «Construir a Inovação»



Alexandra Rebelo é Diretora de Departamento de Empreendedorismo e Economia Social Santa Casa da Misericórdia. i9 magazine



«Inovação é a exploração com sucesso de novas ideias, com aplicabilidade prática, sendo necessário que produza um impacto significativo e tenha uma vantagem competitiva no longo prazo, para que possa ser caraterizada como tal.


»Inovação

»Inúmeros exemplos de inovação têm revolucionado a vida da humanidade ao longo dos séculos, mesmo ainda quando a sua definição não era a que hoje identificamos. O conceito de inovação surgiu mais recentemente nos trabalhos do economista Joseph Schumpeter sobre o desenvolvimento económico, onde a inovação aparece como elemento fundamental, uma vez que a sua introdução altera as condições prévias de equilíbrio dos ciclos económicos e as relações entre produtores e consumidores. A introdução de uma inovação no sistema económico é assim considerada um “ato empreendedor”.

»Schumpeter distingue invenção de inovação, considerando invenção a criação de um novo artefacto que pode ou não, ter relevância económica: a invenção só se transforma em inovação se originar um bem passível de ser comercializado. Neste contexto, o ato de inovar associado ao ato de empreender vai produzir alterações nos mercados, alterando os ciclos económicos e o próprio desenvolvimento económico. São exemplos as inovações ligadas à telefonia móvel e à internet.


»A inovação nas organizações

»Nas entidades e organizações, a inovação pode desenvolver-se nos produtos e serviços, processos, negócios e gestão, esperando-se sempre um aumento da competitividade e a geração de novas receitas. Para que a aplicação da inovação, e dos processos por si gerados, possa ter sucesso, existe um conjunto de fatores que devem ser observados ao longo da sua implementação:

»_ Comunicação do processo de inovação, para um ambiente favorável à mudança;

»_ Identificação dos meios, técnicos e humanos, para o desenvolvimento da inovação;

»_ Gestão dos timings de implementação do processo de inovação;

»_ Gestão do risco associado, com manutenção de estabilidade da estrutura de custos;

»_ Potenciar o sucesso, através do equilíbrio entre custos e benefícios;

»_ Potenciar vantagens competitivas na comunicação com os mercados.


Com a “Innovation Union”, a União Europeia cria uma estratégia para a existência de um innovation-friendly environment para que as ideias inovadoras se possam transformar em produtos e serviços que tragam mais crescimento e mais emprego: “Fazer mais e melhor” para a manutenção da competitividade no mercado global com o objetivo de uma melhoria da qualidade de vida na Europa.

»A inovação no contexto europeu

»A inovação assume um papel central no âmbito da estratégia Europa2020 para um crescimento mais sustentável. O objetivo é estimular a inovação e o empreendedorismo numa sociedade baseada no conhecimento. Com a “Innovation Union”, a União Europeia cria uma estratégia para a existência de um innovation-friendly environment para que as ideias inovadoras se possam transformar em produtos e serviços que tragam mais crescimento e mais emprego: “Fazer mais e melhor” para a manutenção da competitividade no mercado global com o objetivo de uma melhoria da qualidade de vida na Europa.

»A União Europeia considera que a estratégia criada pela “Innovation Union” é um investimento fundamental para o futuro da Europa, sendo de referenciar iniciativas em temáticas como o conhecimento, boas ideias para o mercado, benefícios regionais e sociais, parcerias para a inovação e cooperação internacional.


»Inovação Social, um novo conceito

»A inovação social é a procura de novas soluções para responder a problemas e a necessidades sociais, que envolvem a colaboração entre os vários setores da sociedade (público, privado, 3º setor) e a participação ativa dos cidadãos (os utilizadores). A inovação social, ligada aos temas da inclusão e da economia social assume um importante papel no encontro de soluções para as necessidades sociais existentes, cabendo-lhe conseguir respostas, gerar resultados e promover o impacto social nas comunidades alvo. Pretende-se que a inovação social possa contribuir para a renovação da Economia Social, para um crescimento mais inclusivo e mais sustentável, e que valorize a coesão social enquanto verdadeira fonte de prosperidade coletiva.


»O BIS, Banco de Inovação Social

»O Banco de Inovação Social é uma iniciativa da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, com o objetivo de promover, apoiar, divulgar e desenvolver atividades no âmbito do empreendedorismo com valor social. Esta plataforma surgiu da necessidade de estabelecer parcerias e criar sinergias com outras entidades para poder contribuir para apoiar o desenvolvimento de atividades e projetos de inovação e empreendedorismo de cariz social. O conjunto dos seus parceiros colocam, ao serviço da inovação e do empreendedorismo, o conhecimento e a experiência, que são os “ativos” do BIS, uma vez que esta plataforma não é uma entidade financeira.


»Bibliografia

»BIS, Banco de Inovação Social, http://bancodeinovacaosocial.pt / (SCML)

»Guide To Social Innovation, European Commission. Directorate-General for Regional Policy (2013Luxembourg, Publications Office of the European Union.

»Innovation Union – European Commission http://ec.europa.eu/research/innovation-union/index_en.cfm)

»Schumpeter, Joseph A. (1939) Business Cycles: A Theoretical, Historical and Statistical Analysis of Capitalist Processes. New York: Macmillan.

»Smithies, Arthur (1950) “Memorial: Joseph Alois Schumpeter 1883-1950.” The American Economic Review, Vol. 40, No. 4, pp. 628-648.»





Inovação e invenções

2016/12/14

«Os caminhos do mar na economia portuguesa»



Mundo Português



«A economia do Mar tem sido versada desde sempre e, na história mais recente, por diversos governos sem que nunca tenhamos ficado com a ideia de que verdadeiramente tenha sido fomentado um incremento relacional de peso da economia do mar na economia global de Portugal. O atual executivo anunciou a disponibilidade de 508 milhões de euros para apoios públicos com o objetivo de facilitar e potenciar um melhor aproveitamento das potencialidades que o Mar nos oferece.

»A epopeia do povo português e o seu sacrifício coletivo sempre foi observada e documentada pelos escritores portugueses, que através do seu espírito crítico trouxeram-nos até hoje o realismo do momento através das suas crónicas que suscitam interesse no mundo inteiro.

»Durante o século XIV a Europa ultrapassou uma grave crise demográfica, económica, social e política. O comércio, antes dos descobrimentos, era maioritariamente dominado por comerciantes muçulmanos, que traziam as mercadorias a vários pontos do mar Mediterrâneo na Europa, principalmente na Itália. Para estes circuitos existiam vários intermediários o que fazia com que o preço dos produtos aumentasse.

»No início do século XV, os europeus consideravam-se o centro do Mundo. O conhecimento dos continentes asiático e africano era bastante limitado. Do continente americano e da Austrália nada se conhecia. Houve várias motivações que levaram os Portugueses à descoberta de novas terras: o Rei procurava soluções para os problemas económicos que afetavam Portugal e também procurava aumentar a riqueza do país. A nobreza via na expansão marítima uma oportunidade de se dedicar à guerra, podendo adquirir novas terras, cargos e títulos. A burguesia desejava novos produtos para fazer comércio. O Clero motivado pela defesa da fé cristã desejava ir combater seus inimigos, os Muçulmanos. Por fim, o povo almejava conseguir melhores condições de vida.

»Assim, os portugueses beneficiavam das melhores condições para partirem à procura de novas terras: um clima de paz com o reino de Castela, uma posição geográfica única no panorama atlântico, tradição e conhecimento de instrumentos náuticos (astrolábio, quadrante, bússola, balestilha, vela triangular, caravela, navegação astronómica, portulanos).


»A expansão marítima

»A conquista de Ceuta aconteceu em 1415. Foi um acontecimento fundamental para a expansão portuguesa. Depois da conquista Ceuta pelos portugueses os muçulmanos desviaram as rotas do comércio para outras cidades e começaram a atacá-la constantemente. Em 1419 Portugal ocupou definitivamente a Madeira. Mais tarde, o Infante D. Henrique, senhor das ilhas por doação do rei, mandou dividi-las em capitanias. Em 1927 Diogo de Silves atinge os Açores. Nos Açores utilizou-se o mesmo sistema de divisão de capitanias. Em 1434, Gil Eanes, passou o Cabo Bojador e aumentou o conhecimento dos portugueses sobre o continente africano.

»Em 1960 Diogo Gomes chegou à Serra Leoa e posteriormente ao arquipélago de Cabo Verde. Em 1469, D. Afonso V arrendou a Fernão Gomes, rico burguês de Lisboa, o monopólio do comércio com a costa africana (com exceções), por um período de cinco anos, mediante o pagamento anual de 200 000 reais e a obrigação de descobrir a cada ano léguas de costa. Em 1488 Bartolomeu Dias conseguiu dobrar o Cabo das Tormentas a que mais tarde D. João II viria a chamar Cabo da Boa Esperança. Os Portugueses tinham, finalmente, entrado no Oceano Índico com o objetivo de cumprir o sonho de D. João II que era chegar à Índia. Em 1497, Vasco de Gama a mando de D. Manuel I (sucessor de D. João II) partiu de Lisboa para a Índia. Em 1498, Portugal tinha oficialmente chegado à Índia.

»D. Manuel mandou outra armada para a Índia, comandada por Pedro Álvares Cabral, para tentar impor a presença portuguesa no Oriente. Mas no percurso as embarcações desviaram-se para sudoeste o que fez com que, em 1500, Pedro Álvares Cabral chegasse à Terra de Vera Cruz, o Brasil. Depois desta expedição, o reino português passou a estabelecer novas áreas de domínio nas rotas marítimas e também de terras para a exploração que perduraram até ao século XX.


»O Mar no Século XX

»No Estado Novo, o mar foi um fator essencial ao seu desígnio político primordial: a manutenção do império ultramarino. As guerras de África implicaram a manutenção da maior força armada no exterior que Portugal alguma vez formou ao longo dos seus oito séculos de história. O seu simples transporte e apoio logístico era um grande problema para um país com as dimensões e recursos de Portugal.

»Durante a II Guerra Mundial tornou-se evidente que um dos pontos que criavam maiores dependências do país em relação ao exterior, em alturas de crise, era a falta de uma marinha mercante e de ligações regulares com o Império. O Governo à época decidiu dar prioridade à resolução desse problema. Em 1945 foram aprovadas duas medidas que implicaram vultosos investimentos nesse sentido. A primeira foi o despacho de 10 de Agosto do ministro da Marinha, onde se previa a ampla renovação da marinha mercante nacional por meio da construção de setenta navios, com apoio do Estado, entre os quais nove grandes paquetes.

»Nos finais da década de 1950, depois de investimentos públicos de grande envergadura, a marinha mercante portuguesa teve o seu desenvolvimento máximo. Contava com vinte e dois paquetes, no total de 167 000 toneladas. Entre eles estavam os quatro “gigantes”: Santa Maria, Vera Cruz, Príncipe Perfeito e Infante D. Henrique, com cerca de 30 000 toneladas cada, capazes de transportar mais de mil passageiros ou mais de dois mil soldados.

»Muitos destes paquetes foram requisitados em diversas ocasiões para transporte de tropas, muito especialmente na fase inicial da guerra, e as restantes unidades da marinha mercante seriam essenciais para manter o esforço em África. Os paquetes mais requisitados na ligação a África foram o Vera Cruz, o Niassa, o Lima, o Império e o Uíje.

»Com o 25 de Abril e a adesão europeia, o mar foi dispensado das grandes opções políticas e económicas nacionais. Por isso, ainda hoje somos marcados pela ideia de que o mar é sinónimo de passado e, assim, continuamos a virar-lhe as costas. Ora, a par da língua, o mar é um dos maiores ativos que Portugal possui. Projetado sobre o oceano e prolongando-se nos seus arquipélagos atlânticos, Portugal dispõe da maior região marítima da União Europeia. O “mar português” é, aliás, dos mais vastos do mundo e já é tempo de sabermos conjugar a economia do mar com a nossa geografia e aproveitar os seus recursos.


Ainda hoje somos marcados pela ideia de que o mar é sinónimo de passado e, assim, continuamos a virar-lhe as costas. Ora, a par da língua, o mar é um dos maiores ativos que Portugal possui. Projetado sobre o oceano e prolongando-se nos seus arquipélagos atlânticos, Portugal dispõe da maior região marítima da União Europeia. O “mar português” é, aliás, dos mais vastos do mundo e já é tempo de sabermos conjugar a economia do mar com a nossa geografia e aproveitar os seus recursos.

»Uma fonte de energia abundante...

»O mar é ainda uma fonte de energia abundante. “Os equipamentos para conversão desta energia renovável em eletricidade ainda se encontram em desenvolvimento, procurando melhorar o seu rendimento e a sua resistência ao ambiente marítimo”, explica uma nota da Associação Portuguesa de Energias Renováveis (APREN). Na Ilha do Pico, Açores, existe uma central com 400 kW, a primeira no Mundo a produzir eletricidade a partir das ondas de uma forma regular. Mas ao largo da costa portuguesa já foram testadas várias tecnologias e está em preparação a Zona Piloto ao largo de São Pedro de Moel para acolher projetos de demonstração para aproveitamento da energia das ondas.

»Recentemente, no âmbito do programa Horizonte 2020, foi decidido atribui 10 milhões a um projeto de energia das ondas pioneiro, que está a ser desenvolvido em Peniche. O financiamento permitirá construir naquela localidade, uma unidade de demonstração à escala real do conceito ‘WaveRoller’. “Investir nas tecnologias de energias renováveis é reforçar o papel de liderança da Europa nesta área. O nosso apoio a pioneiros no domínio das energias renováveis contribui para soluções aos desafios das alterações climáticas globais, criando emprego e crescimento económico sustentável na Europa e em Portugal”, disse Carlos Moedas, Comissário Europeu responsável pela Investigação, Ciência e Inovação.

»O ‘Wave Roller’ começou a ser dinamizado no início de 2012 e foi concebido para converter a energia de ondas em eletricidade. O projeto foi criado pela empresa finlandesa AW-Energy que constituiu com a portuguesa Eneólica o consórcio detentor da tecnologia. É inovador, único a nível mundial e está a ser implantado em Peniche. Mas por quê Peniche?

»Segundo a Eneólica, entre as particularidades que levaram à escolha de Peniche para o lançamento deste projeto-piloto estão as “condições naturais de recurso (ondas) extraordinárias”, a existência de know-how associado à economia oceânica local, nomeadamente os estaleiros e atividades relacionadas com empreitadas no mar e ainda a “forte vontade local de fazer parte da história do desenvolvimento da energia das ondas”. A tecnologia visa produzir energia elétrica a partir das ondas de fundo que se formam entre os 15 e os 30 metros de profundidade. A profundidade e os fundos com características adequadas a esta tecnologia foram identificados há cerca de quatro anos ao largo da praia da Almagreira.

»Na Universidade do Porto, uma equipa multidisciplinar de investigadores está a desenvolver o ‘Sea-wave Slot-cone Generator’ (SSG), um dispositivo criado para aproveitar a energia das ondas por galgamento (fenómeno caracterizado pela passagem de um dado volume de água sobre o coroamento da estrutura) e transformá-la em energia elétrica.

»O investigador Pedro Oliveira, os docentes Francisco Taveira-Pinto e Paulo Rosa-Santos, ambos da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) e do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR), e Tiago Morais do Instituto de Ciência e Inovação em Engenharia Mecânica e Engenharia Industrial (INEGI), trabalharam “no desenvolvimento e no estudo experimental em tanque de ondas de concentradores da energia das ondas para capturar uma maior frente da onda incidente e aumentar o volume de água recolhido por galgamento da estrutura”, explica uma nota da Universidade do Porto (UPorto). Durante os trabalhos, verificaram que a utilização de concentradores permite também aumentar o volume de água que atinge os reservatórios superiores por galgamento. Com as modificações introduzidas foi possível duplicar a energia produzida anualmente, comparativamente à tecnologia base.

»Mas, como funciona o processo? O dispositivo é constituído por um ou mais reservatórios sobrepostos, nos quais é temporariamente armazenada a água do mar. Desta forma, as ondas incidem sobre uma rampa frontal do dispositivo até atingirem a cota de coroamento dos reservatórios, ocorrendo nesse momento a entrada de água para os mesmos. Quando a água é devolvida ao mar, é forçada a passar por turbinas hidráulicas de baixa queda, transformando-se a sua energia potencial em energia elétrica. Uma das principais vantagens reside no facto de poder ser instalada próximo da costa, “não sendo necessário dispor de um extenso e dispendioso cabo elétrico submarino de ligação à rede elétrica”, lê-se na nota. Adicionalmente, a aplicação do SSG em obras de abrigo portuário torna as infraestruturas mais sustentáveis, podendo a energia renovável produzida pelas ondas ser utilizada para alimentar os consumos internos do próprio porto.


»Na atualidade

»Em 2009 foi entregue nas Nações Unidas uma proposta de extensão da plataforma continental portuguesa para lá das 200 milhas. Desde então novos territórios marítimos ficaram sob jurisdição de Portugal que já pode começar a exercer a sua soberania sobre este solo e subsolo marinhos.

»Em 2014 foi lançado um mapa nas escolas que procurava explicitar que Portugal é praticamente só mar: enquanto o território fora de água tem pouco mais de 92.000 quilómetros quadrados, o território debaixo de água chega quase aos quatro milhões de quilómetros quadrados. Portugal É Mar, o título do mapa, evidenciava que 97% do país é mar. Hoje o mar representa uma importante fatia na economia local de muitos municípios, fruto das diversas etapas, campeonatos e torneios, á escala europeia e mundial que trazem a Portugal milhares de visitantes ao longo do ano.

»No mês passado foi apresentado o Programa Operacional Mar 2020 onde foram lançadas as sete linhas estratégicas do executivo com vista ao aumento e desenvolvimento do peso da economia do Mar em Portugal.

»Para além do Mar 2020, a ministra do Mar afirmou, entretanto, no Parlamento, esperar um aumento “da ordem dos 200%” na movimentação de cargas dos portos nacionais na próxima década, em linha com a subida de 180% que se registou entre 2006 e 2016. Ana Paula Vitorino, na discussão do Orçamento do Estado para 2017, sublinhou que esta atividade é relevante para a economia nacional, não só em termos de exportações, mas também no que respeita à transferência de carga da rodovia para a via marítima.

»A governante adiantou ainda que as intenções de investimento privado no setor do mar ultrapassam os dois mil milhões de euros e que já recebeu “manifestações de interesse” para o novo terminal de Lisboa e para os portos de Sines e de Leixões. Também o porto de Setúbal vai ser preparado para receber navios maiores, através de uma intervenção no canal de acesso.

»Ana Paula Vitorino adiantou ainda que o estudo para aumentar a competitividade da marinha mercante nacional está praticamente concluído, estando agora a serem finalizadas as “peças jurídicas para traduzir as propostas do grupo de trabalho” e que deverão “entrar em processo legislativos até ao fim do ano.

»Em nota de imprensa da agência Lusa pode ler-se ainda que a pasta tutelada por Ana Paula Vitorino vai ter um aumento de 11,7% no Orçamento do Estado para 2017, numa despesa total consolidada de 89,3 milhões de euros (para um orçamento inicial de 91,1 milhões de euros deduzido dos montantes de reserva, cativações e transferências entre serviços.

»O orçamento inicial em 2016 foi de 81,5 milhões de euros.»





Inovação e ideias

2016/12/13

Carlos Moedas: «A Europa vive uma crise existencial»



Entrevista de Ângela Silva. Fotos de Luís Barra. Expresso @expresso. Artigo publicado na edição do Expresso de 12 de novembro de 2016



«Arrumou “com muito orgulho” o trabalho que fez com Passos Coelho sob a batuta da troika. E é com indisfarçável brio que hoje ajuda António Costa a puxar por Portugal na Europa. “Peixe na água” lá fora, Carlos Moedas anda cá dentro a desafiar empresas e universidades a candidatarem-se à “pipa de massa” do Plano Juncker para investigação e inovação. A divisão do futuro “não é entre esquerda e direita”, diz. “É entre mundo aberto e mundo fechado”

»Escolheu o recém-inaugurado MAAT — Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia — para ser fotografado. E todo o seu discurso é o negativo da retórica folha de Excel com que exerceu funções-chave durante o resgate a Portugal. Hoje, na Comissão Europeia, Carlos Moedas defende uma Europa mais flexível e menos tecnocrática. E aconselha calma aos mais ansiosos: “O processo europeu é boring, mas é o preço para estarmos à mesa.”


»“Uma mentira pura e simples, aceite por todas as partes”, eis como François Hollande reconhece, no livro que esta semana veio a público, que a França fez um acordo secreto com a Comissão Europeia para não cumprir o défice. Sabia deste acordo?

»Não vou comentar supostas declarações do Presidente Hollande. Não li o livro. O que lhe posso dizer é que este tipo de notícias normalmente acaba por caricaturar assuntos que são complexos.


»Deixemos a caricatura. Portugal foi obrigado a cumprir e ameaçado de sanções, quando a França, Espanha e Itália não cumprem e não se passa nada. Juncker já tinha dito que “A França é a França”, mas a história de um acordo secreto é o cúmulo. Ou não é?

»Concordo que as regras a que todos estamos sujeitos são importantes em si mesmas, primeiro para o país, porque promovem a saúde das contas públicas, e depois para o euro, para evitar desequilíbrios. Voluntariamente, assumimos o cumprimento dessas regras, que foram aprovadas por todos os países e que se aplicam aos mesmos e da mesma forma.


»Dizer que a França é a França não é dar uma facada no projeto europeu?

»A difícil tarefa da Comissão é a de aplicar as regras do Pacto de Estabilidade com sabedoria e racionalidade. A atual Comissão tem uma visão política e não tecnocrática dessas regras e por isso é que foi decidido recentemente anular as sanções a Portugal. Neste momento, quando falo com o meu colega Moscovici, ele diz-me que tem muitas outras preocupações que não são Portugal e Espanha. Portanto, penso que também temos de olhar para a frente e não estar a ver um papão onde ele já não existe.


»Sente que deu uma ajuda no caso das sanções ou foi apenas uma questão de bom senso?

»Se os portugueses devem agradecer a alguém é ao presidente Juncker e à sua visão mais política do que tecnocrática. Ele pôs-me sempre na posição de poder falar nos momentos certos, e ele tem a capacidade de saber quais são os momentos certos. Penso que dei uma ajuda, sim. Falei sempre que isso foi discutido, e talvez o tenha feito de uma maneira mais assertiva do que era habitual no Carlos Moedas.


»O habitual no Carlos Moedas era ser bom aluno e ortodoxo da estratégia de cumprir a todo o custo.

»Naquela altura, era tão importante cumprir...


»Se voltasse atrás, faria igual?

»É difícil responder. Daqui a 10 anos vamos todos poder avaliar isso com factos. Sinto muito orgulho naquilo que fiz e no que se fez nessa altura e penso que as pessoas não têm noção do grau de dificuldade que passámos e da força que foi preciso para resolver tantas coisas tão difíceis ao mesmo tempo. Num programa de ajustamento, não havia grande escolha, tínhamos muito pouca liberdade.


»Há dias, quando li numa entrevista que deu ao “Eco” que “não devemos olhar para as décimas”, até pensei que estava a ver mal...

»As circunstâncias mudaram muito. Hoje digo que não nos devemos prender por décimas precisamente para mostrar aos meus colegas que quando se vem de 10% de défice e se consegue chegar à volta dos 3% já é extraordinário. Mas eu também não estava numa posição em que as pessoas me pudessem conhecer, e por isso fizeram uma imagem de mim que não é a minha pessoa.


»Vê nesta passagem por Bruxelas uma chance para refazer a imagem de quem levou a troika excessivamente à letra?

»Não pense nisso. Eu estou a gostar muito do meu trabalho em Bruxelas, porque me sinto como peixe na água num ambiente internacional e porque quero deixar bem o país. Em Lisboa estava limitado por aquilo que me tinha comprometido a fazer. Mas tudo aquilo em que me meto é para fazer bem, é para cumprir, é para deixar boa imagem...


»Como é que é hoje Portugal visto de Bruxelas?

»Portugal evoluiu muito desde a troika. Termos conseguido terminar o programa de ajustamento fez-nos dar um salto na credibilidade, e estamos a continuar esse caminho de credibilidade e estabilidade. Quando olho para Espanha, que esteve sem Governo mais de 500 dias, acho que tenho um país melhor.


»Apesar de eles crescerem o triplo do que nós crescemos...

»Mas sinto orgulho porque somos um país que conseguiu manter a estabilidade e onde há razoabilidade.


»Então, a ideia de que o Governo das esquerdas (a “geringonça”) assustou Bruxelas é um mito?

»É um mito! Primeiro, muitas pessoas já conheciam o primeiro-ministro António Costa. Depois, Bruxelas não liga muito à questão de ser o partido A ou o partido B. Bruxelas trabalha com todos os ministros e com todos os PM e quer é que eles encontrem soluções. Há sempre uma certa boa vontade. E essa boa vontade existia com o Governo anterior e existe com o atual.


»António Costa é uma garantia para Bruxelas?

»Sim. As pessoas olham realmente para o primeiro-ministro como um europeísta. Penso que ele tem sido uma peça-chave para manter uma boa imagem e uma garantia em Bruxelas.


»Já o conhecia bem?

»Conhecia-o da Câmara de Lisboa, quando estava na minha vida privada. Trabalhava numa empresa espanhola na área imobiliária. Trabalhava muito com ele e lembro-me muito bem dele. Temos uma relação franca. Agora, o que me causa mais dificuldade é ver partidos como o BE ou o PCP a afirmarem-se contra a moeda única, a NATO ou o comércio livre. Sei que esse discurso anti-Europa é o maior perigo que nós temos na UE. Mas, apesar disso, tem havido um consenso interno, e o Orçamento do Estado é uma realidade.


»Antevê problemas em torno do OE-2017?

»Penso que não, pelo menos não há más notícias. Sei que o país fez um esforço extraordinário nestes últimos anos — reduziu o dobro do défice face a todos os outros — e às vezes sinto obrigação de explicar isso aos meus colegas.


»Voltemos ao mito. Não esperava ver o PCP e o BE a comprometerem-se com um défice de 1,7%, pois não?

»Isso é um fenómeno político interessante, conseguir ter partidos que apoiam este Governo e ao mesmo tempo têm um discurso que não cola com esta Europa.


»Uma coisa este Governo provou: que afinal é possível um caminho diferente, que repõe rendimentos, contra a tese gradualista do anterior Governo, e simultaneamente cumpre o défice.

»Sempre houve caminhos diferentes. A Comissão Europeia preocupa-se com o ponto de chegada e não tanto com o caminho.


»Não foi isso que os portugueses ouviram nos últimos anos. Tínhamos um só caminho, e era estreito.

»Mas houve aqui uma grande diferença, deixámos de estar submetidos a um programa de ajustamento. Durante esse período, estávamos numa camisa de forças. Hoje, quando olho para este Governo, penso: eles têm graus de liberdade que nós não tínhamos, e isso é bom. Caberá às pessoas decidirem se acham que este caminho é o melhor.


»O líder do seu partido continua a defender um rumo diferente. Nos últimos meses insistiu, aliás, que este outono seria de desastre, não cumpriríamos o défice, a Europa ia cair-nos em cima e vinha aí o Diabo. Custa-lhe muito ver Passos Coelho falhar?

»Eu tenho a maior admiração por Passos Coelho, que é um homem extraordinário, com uma visão extraordinária, e é das pessoas mais corajosas que alguma vez encontrei. Não vou fazer comentários sobre política nacional como comissário, porque isso me ficaria muito mal. Mas se há homem que eu penso que ficará para a História por tudo o que fez naqueles tempos tão difíceis e pelo que ainda poderá dar ao país é Pedro Passos Coelho.


»Ter estado ao lado dele no acompanhamento do resgate em Portugal dá-lhe hoje peso em Bruxelas?

»Sinto que, quando falo no Colégio de Comissários, as pessoas olham para mim como alguém que tem experiência na matéria. Eu vivi por dentro a máquina europeia, acompanhei por dentro as discussões com a troika, e isso dá-me alguma credibilidade e capacidade para discutir, porque sei exatamente onde é que estão os problemas. Foi o que aconteceu em julho com as sanções.


»E como é que sente hoje o Carlos Moedas como defensor do Governo de António Costa?

»Qualquer comissário quer ter uma boa relação com os Governos, porque essa é a única maneira de influenciar. O comissário Carlos Moedas tem ajudado a passar a imagem de Portugal em Bruxelas. Quando estou numa reunião, tenho sempre a sensação de que aquilo que vou dizer vai ser ouvido como: o português disse isto. E quando alguém me vem dizer que vamos chegar a um bom resultado, sinto orgulho. Sei bem a dificuldade que foi impor-me como emigrante quando cheguei a Paris nos anos 90.


»Quanto é que vale o perfil pessoal de um político, sobretudo de um país pequeno, na relação com Bruxelas? Passos tinha fama de se dar muito bem com Angela Merkel, mas António Costa não tem sido prejudicado por não a ter. É outro mito?

»As boas relações entre os PM são importantíssimas, e Pedro Passos Coelho tinha mesmo uma ótima relação com Angela Merkel. Mas hoje em dia estamos a viver uma Europa a 28, e Portugal e Espanha são dois pontos no gráfico. Depois de o período da troika passar, surgiram muitos outros problemas, e a situação de Portugal e Espanha tornou-se muito relativa.


ȃ uma sorte para o atual Governo. A Europa mudou.

»Sim, a Europa mudou. Nós governámos numa Europa que só tinha um problema básico, que era a crise financeira e a crise do euro. Hoje, vivemos numa Europa policrises, é o terrorismo, são os refugiados, o ‘Brexit’, os acordos de comércio livre, o sistema financeiro... A Europa vive uma crise existencial e temos de ter prioridades muito focadas e pensar o que podemos fazer para ter projetos que toquem nas pessoas.


»Para tentar salvar algum espírito de cidadania europeia, é isso?

»Exatamente. Há dias discuti com o Pascalami, que foi um grande comissário e chefe de gabinete do Delors, o que é a identidade de ser europeu. E ele disse-me que a identidade para ele tinha três pontos essenciais: nós olhamos para o coletivo e o individual de forma mais equilibrada do que noutras partes do mundo, que são mais individualistas ou mais coletivistas. Eu quando vivi nos EUA senti essa diferença. Depois disse-me que nós temos menos tolerância à desigualdade. E isso é verdade. Depois, há um terceiro ponto, que é a sensibilidade para as políticas climáticas e ambientais. É bom que os nossos jovens tenham essa noção.


Há uma geração mais nova que não quer saber nada da política mas quer um mundo aberto; e há uma geração mais velha que se interessa por política e quer um mundo fechado. A divisão do futuro não vai ser entre esquerda e direita, mas entre mundo aberto e mundo fechado.

»Sabe a pouco, sobretudo quando em questões centrais, como o acolhimento aos refugiados, a Europa não se entende...

»É mais importante do que parece focarmo-nos em coisas que toquem as pessoas. Às vezes conto aos meus colegas que quando recebi o cheque do Erasmus com o símbolo da UE nunca mais me esqueci desse cheque, porque era uma relação entre mim e a União. Hoje, as pessoas ouvem falar de fundos mas esquecem-se de que vêm da Europa, e isso desligou a população. É nesses projetos que temos de apostar. Estamos a lançar agora uma espécie de Erasmus para o voluntariado, para pôr mais de 100 mil jovens em voluntariado até 2020. Acho que é algo que vai ter um impacto enorme.


»Urgente para a Europa é crescer. As previsões da CE para 2017 falam de um crescimento de 1,9%. Para o mundo preveem o dobro. Falta muito para reconhecerem que o Tratado Orçamental é um obstáculo?

»O presidente Juncker já foi muito claro: temos de olhar para o Tratado Orçamental com mais flexibilidade, dentro das regras. O que se passou com a multa a Portugal e Espanha já foi olhar com mais flexibilidade para o Tratado.


»Flexibilizar dentro das regras? É sempre tudo poucochinho e devagarinho...

»Porque somos 28. O Rompoi, quando recebeu o Nobel da Paz, contava que o processo político europeu é boring, mas é o preço que temos a pagar para estarmos à volta da mesa e não andarmos à guerra uns com os outros. Às vezes esquecemo-nos de que, se há 70 anos estamos em paz, por alguma razão é. Mas fazer com 28 à mesa demora mais tempo.


»Não será falta de uma liderança forte e clara?

»Não, é porque os países não querem. A Europa são os países, nós somos o corpo executivo das regras e podemos interpretá-las com flexibilidade, o que não é bem visto por todos. Há países que entendem que os comissários devem ser tecnocratas que estão ali como guardiões dos tratados. Mas é esta Comissão defendida por Juncker que pode ir mudando a maneira como se tomam as decisões na Europa.


»Deixou-se de falar de federalismo. Já ninguém acredita nisso?

»Eu costumo dizer que a Constituição dos EUA fala de uma união cada vez mais perfeita e o nosso Tratado de Lisboa fala de uma união cada vez mais estreita. Nesse aspeto, gosto bastante da Constituição americana. A crise financeira nos EUA resolveu-se num ano. Porquê? Porque é muito claro o que está ao nível da Federação e o que está ao nível dos Estados. Na Europa demorámos estes anos todos a discutir: são os Estados, não, é a Europa. Penso que no futuro é importante clarificar o que são competências dos países e o que são competências da União. Nós nunca vamos ser uns EU da Europa, mas temos de criar alguma coisa que seja mais coesa do que o que temos hoje. São processos que demoram décadas. E, no tempo em que vivemos, falar disso não faz sentido.


»Não teme que a demora leve as pessoas a desistirem do processo europeu?

»Eu penso que o processo europeu vai sempre estar lá. A Europa pode ter mais ou menos clientes mas é irreversível. O que me preocupa é este discurso extremista e populista que alastra como se fosse normal. Há dias estava a reler um livro do Stefan Zweig que ele escreveu nos anos 30 (antes da guerra), quando tinha discussões sobre o que se estava a passar, e são as discussões que nós temos hoje. O grande desafio não é saber se vamos caminhar para uma federação daqui a 50 anos, é saber o que podemos dar às pessoas para que elas possam sentir que é bom viver na Europa.


»As pessoas sentem que tudo o que era bom está em queda: direitos sociais, direitos laborais, a segurança... Parece uma malha que se está a desfazer.

»Se as pessoas realmente querem manter esses direitos, devem ser ainda mais defensoras do projeto europeu. Há 30 anos atrás a Europa era 30% do PIB , hoje é 20%. A China era 2%, hoje são quase 20%, e daqui a 20 anos não vai haver nenhum país no G7 que seja europeu. A Alemanha vai ser a nona economia, os franceses foram ultrapassados recentemente pela Califórnia, e nós queremos uma Europa que esteja desunida? Achamos que vamos conseguir mais direitos se estivermos cada um para o seu canto? O terrorismo ou os refugiados exigem mais Europa, não é menos Europa.


»Mas como se pode falar de mais Europa se o Norte vê no Sul uns calões e o Sul vê no Norte uns prepotentes?

»Acho que esse tipo de comparação não deve ser feita, porque isso não existe.


»Acha que estou com pensamento de taxista? O senhor é Uber.

»Esse pensamento não é Uber, não é Uber! Mas vejo cada vez menos esse tipo de estigmas. Vejo uma divisão sobretudo geracional: há uma geração mais nova que não quer saber nada da política mas quer um mundo aberto; e há uma geração mais velha que se interessa por política e quer um mundo fechado. A divisão do futuro não vai ser entre esquerda e direita, mas entre mundo aberto e mundo fechado.


»A sua pasta na Comissão — Ciência, Inovação e Investigação — é absolutamente virada para o mundo aberto e acredita que só pela inovação podemos crescer. O pior é que em Portugal somos poucos, somos pequenos, e os melhores vão-se embora...

»Temos tido grandes exemplos de portugueses que podiam estar em qualquer parte do mundo mas têm ficado cá. Na Fundação Champalimaud há oito ou nove que têm bolsas de mais de 3 milhões de euros cada, e ficam. E essa é a função da minha pasta — atrair talento.


»Tem números do grau de aproveitamento da tal pipa de massa, como Durão Barroso lhe chamou, do Plano Juncker para Portugal?

»Tem vindo a melhorar. No último programa, até 2013, Portugal ficou ela por ela, pôs 500 milhões e tirou 500 milhões. Em dois anos deste programa 2020, já vamos em quase 300 milhões de euros aplicados em Portugal, em PME e universidades. Hoje mesmo vim anunciar 12 novas PME portuguesas, desde Cantanhede a Borba, que receberam dinheiro do nosso programa.


»Tem andado pelo país. Há um tecido empresarial português que nem deve perceber a sua linguagem.

»Há dois tecidos empresariais portugueses. Aquele com que mais me relaciono tem coisas extraordinárias. A investigadora do Porto que criou esta ideia da internet das coisas que se mexem — no Porto toda a gente poder ter net, que vem dos autocarros, dos carros, todos nós sermos sensores — é extraordinária, e isto é no Porto. Depois, é uma questão geracional. Os filhos dos velhos agricultores vão trabalhar com o digital. É uma questão de tempo.


»Sente medo nas pessoas?

»Cada vez menos. Às vezes, as pessoas dizem: ai, isto é muito competitivo, é a Europa toda a concorrer, não é para nós. Eu digo-lhes sempre: candidatem-se, vão ver que até ganham e vão sentir uma autoconfiança extraordinária. Depois, um diz ao outro: vais conseguir, eu também consegui. É esse trabalho que eu ando a fazer por todo o país, em universidades, centros de investigação. Ando a dar ânimo às pessoas e a dizer-lhes: concorram! Portugal pode ir buscar muito mais dinheiro ao Portugal 2020.


»Quais são as áreas em que Portugal deve apostar?

»São basicamente quatro, e Portugal está a apostar nelas. Na energia (ainda há dias, nos EUA, fui apresentado como o comissário que vinha do país que conseguiu abastecer-se durante quatro dias seguidos com eletricidade vinda de renováveis) temos projetos interessantíssimos. No caso da água, do agroalimentar e da saúde temos bons projetos. E se o importante é focarmo-nos no investimento, que durante a crise caiu mais de 20% e que temos de recuperar, dentro do investimento a inovação e a ciência são cruciais. No G20, quando o PR da China dizia que já passámos pelas políticas monetárias e pelas políticas fiscais e agora temos de acreditar que o terceiro pilar é a inovação, pensei: a Europa deve estar muito atenta e pôr mais dinheiro no que é crucial.


»Li vários discursos seus, e está sempre a defender o risco contra o medo. Isso foi estrutural na sua educação?

»O meu pai era um homem que não tinha medo. Foi comunista, lutou contra a ditadura e sempre me ensinou a não ter medo de tomar decisões diferentes. Eu lembro-me de que no Técnico, quando decidi ir fazer o Erasmus, até os professores acharam estranho, porque ainda não se sabia bem o que era aquilo. Mas foi nesses momentos em que tomei as decisões mais arriscadas que tirei mais prazer da vida.


»Portanto, se hoje tivesse de aconselhar um jovem de Beja, dizia-lhe para sair dali para fora...

»Eu penso que é importante ver o mundo. Penso, aliás, que o Erasmus devia ser obrigatório. No meu caso, foi o melhor que me aconteceu na vida.


»Mantém contactos com o seu partido?

»Tenho tido contactos, mas não tenho qualquer função e tenho de manter a distância institucional que me é exigida.


»Não fala com Passos Coelho? Ele às vezes parece mal informado sobre a forma como Bruxelas está a acompanhar a situação portuguesa.

»Falamos muitas vezes. Mas eu não vou fazer comentários sobre isso. Sei que a dinâmica poder/oposição, nas políticas nacionais, é assim em todos os países.


»Tem falado com Mariana Mortágua? Ela comentou a sua chegada à Comissão chamando-lhe “o senhor da troika em Portugal”.

»Nunca falámos. Sei que tivemos a mesma professora de Matemática no liceu de Beja, Teresa Burnay. Mas a Mariana é mais nova do que eu. Se estivéssemos na mesma turma, tínhamo-nos pegado de certeza.


»Como é o seu dia a dia em Bruxelas?

»No ano passado, em 52 semanas viajei 65 vezes. Basicamente, é mais do que duas ou três viagens por semana. Os meus filhos dizem sempre que eu fui para Bruxelas mas depois não estou em Bruxelas.


»Em São Bento era pior ou melhor?

»Aqui são mais as viagens. De resto, diria que quando se está na política nacional tem-se muito mais o peso das noites e dos fins de semana.


»Os eurocratas são tão chatos como parecem?

»Não, muitos deles são até muito divertidos. Mas escondem.


»Quem é o seu interlocutor em Lisboa?

»O Manuel Heitor, ministro da Ciência, mas também o João Vasconcelos, que está muito com a Web Summit.


»Dava um bom ministro da Economia, não dava?

»[risos] Não lhe vou responder a isso. E, claro, também tenho tido sempre uma boa relação com o PM.


»Há muitos políticos portugueses a ligarem-lhe?

»Há. E eu recebo sempre quem me procura.


»E empresários?

»Talvez o meu maior cliente sejam as universidades.


»E banqueiros?

»Banqueiros? Não.


»E jornalistas?

»Menos, muito menos. Por exemplo, a Ângela não me tem telefonado.


»A ideia era perceber se recorrem muito a si para ter informação. Quando estava em São Bento, o seu nome até apareceu numas escutas em que um administrador do GES dizia: “Liguem ao Moedas.” Foi interlocutor nesse processo?

»Eu quando era secretário de Estado recebia milhares de telefonemas, estava ali para ouvir as pessoas, mas mais nada.


»Recebeu pedidos do grupo GES nessa altura?

»Recebi, como recebi de muita gente. Mas isso tem alguma coisa de mal? Sobretudo quando estamos a falar de presidentes de bancos que viviam uma situação difícil na altura.


»Mas porque é que se lembraram de si? Porque tinha tido ligações à banca?

»Ai, isso não faço ideia.


»Passou pelo Goldman e disse que no lugar de Durão Barroso não teria feito como ele. A banca queima?

»É verdade que há problemas gravíssimos que foram criados pelo sector financeiro. Portanto, é um sector complicado. Mas as pessoas não devem esquecer o que foi ter durante 10 anos um presidente português da Comissão Europeia, que deixou uma imagem de grande competência e profissionalismo.


»O que se imagina a fazer depois da Comissão?

»Vejo-me bastante na área das instituições internacionais. Claro que dá-me uma certa pena não estar em Portugal. Mon coeur balance.


»E os seus filhos?

»Coitadinhos. Estão tão traumatizados por estarem em Bruxelas. A de 15 anos está morta por voltar e de certeza que vai para a universidade em Portugal.


»Há quanto tempo não vai a Beja? Eles perdoaram-lhe por, depois de o terem eleito, não terem podido contar consigo?

»Há os que veem na minha carreira internacional um orgulho. São os que gostam de mim. E há os que acham que eu devia ter ficado deputado. Fazem-me sentir um pouco em falta. Talvez um dia, quando for mais velho, volte para dar alguma coisa à minha terra.


»Gostava mesmo?

»Gostava.»





Inovação e discursos