2015/11/30

Newsletter L&I, n.º 80 (2015-11-30)




Administração Pública e inovação | Administración Pública e innovación |
Administration Publique et innovation | Public Administration and innovation

Um inovador | Un innovador | Un innovateur | An innovator

Uma inovação | Una innovación | Une innovation | An innovation

A execução da inovaçao | La ejecución de la innovación | L’exécution de l’innovation |
The innovation execution



Liderar Inovando (BR)

«Inovação e setor público: um ator em busca de um papel» [web] [intro]
«Na liderança, presidente do Einstein exalta medicina de valor» [web] [intro]
«Brasil compra inovação russa para proteção de empresas contra ataques cibernéticos» [web] [intro]
«6 descobertas surpreendentes sobre a geração Z no trabalho» [web] [intro]

Liderar Inovando (PT)

Filomeno dos Santos, presidente do Fundo Soberano de Angola: «Angola já passou por períodos difíceis, conseguiu ultrapassar e acreditamos no futuro» [web] [intro]
«Costa vai pôr economistas a estudar o que pode prometer nas eleições de 2015» [web] [intro]
«Guiné-Bissau conhece experiência de governação eletrónica de Cabo Verde» [web] [intro]
«A era dos Aceleradores – o coração dos ecossistemas de empreendedorismo» [web] [intro]

Liderar Innovando (ES)

«Los procesos de privatización sanitaria tienen que ser revisados uno por uno» [web] [intro]
«La Argentina después del cepo» [web] [intro]
«Lecciones de la innovación disruptiva» [web] [intro]
«Recursividad paisa es sinónimo de innovación frugal» [web] [intro]

Mener avec Innovation (FR)

«Brasil Ozônio: Quand le soutien de l’État propulse une entreprise» [web] [intro]
«Une vraie réforme de l'ENA: sa fermeture» [web] [intro]
«Pourquoi l'ENA reste indispensable» [web] [intro]
«Faire de l’argent avec la misère des autres» [web] [intro]

Leadership and Innovation (EN)

Vasundhara Raje, Chief Minister of Rajasthan: «Job creation is the new normal for Indian politics» [web] [intro]
«Bernie Sanders’s New Deal Socialism» [web] [intro]
«Political heavyweights are exiting DC to find a new home in Silicon Valley» [web] [intro]
«How to change the world with $10» [web] [intro]

Licencia Creative Commons Licencia Creative Commons
Atribución-NoComercial 4.0 Internacional








2015/11/27

«A era dos Aceleradores – o coração dos ecossistemas de empreendedorismo»



Pedro Rocha Vieira. Negócios



«“O software está a comer o mundo” diz Marc Andreessen, investidor em Silicon Valley, num artigo recente do The Economist. Nos últimos anos houve uma verdadeira revolução nas linguagens de programação e o desenvolvimento de inúmeras soluções.

»A Internet e o software estão por todo o lado, vivemos na era da cloud, da Internet of Things, das redes sociais, das API’s, do open source, das plataformas e do software as a service, da fibra e da globalização das telecomunicações 5G.

»Nunca foi tão fácil criar um novo negócio com potencial de crescer de 0 a infinito em pouco tempo, e nunca foi tão barato desenvolver um produto de base tecnológica.

»Por outro lado, nunca vivemos numa época de tanta incerteza, velocidade e complexidade, em que governos e grandes multinacionais deixaram de ser animais sagrados.

»Quem poderia prever que a Nokia e a Blackberry vendessem as suas unidades móveis por uma miragem daquilo que eram as suas capitalizações bolsistas há poucos anos, e ao mesmo tempo quem poderia prever que a Amazon se tornasse em poucos anos na maior plataforma de e-commerce e o maior servidor de dados do mundo, ou que a Google se tornasse no maior agregador e organizador de informação do mundo, e se confundisse quase com a própria Internet ou navegação?

»Quando pensamos em empresas de sucesso, pensamos imediatamente nos seus fundadores, é difícil imaginar uma Apple sem a associar a Steve Jobs, na Virgin sem pensar em Richard Branson, ou na Google sem se pensar em Sergey Brin e Lary Page. De facto, a qualidade de uma equipa, a sua capacidade de execução são factores determinantes no sucesso de quase todos os bons projetos.

»No entanto, mesmo as grandes equipas não desenvolvem excelentes projetos à primeira tentativa, e aquilo que acaba por ser a solução vingadoura está muito longe daquilo que era a ideia original. A descoberta de um modelo de negócio inovador, e o desenvolvimento de um produto adequado a um mercado é algo que pode ir sendo aperfeiçoado e acelerado.

»Esta ideia, de produt-market fit, está na base do conceito de Lean Start e Customer Development, desenvolvidos por Eric Ries e Steve Blank, e é a doutrina vigente da maior parte dos novos empreendedores a nível mundial, e assenta no conceito de validação de pressupostos, no teste com base na iteração com os clientes, e execução de um produto viável mínimo.

»Da mesma forma que as Universidades técnicas e de gestão preparam gerações de profissionais qualificados e dão ferramentas e bases de trabalho, foi também preciso encontrar um modelo de capacitação de novos empreendedores e processos que permitissem guiar a ação de forma acelerada e eficaz.

Da mesma forma que as Universidades técnicas e de gestão preparam gerações de profissionais qualificados e dão ferramentas e bases de trabalho, foi também preciso encontrar um modelo de capacitação de novos empreendedores e processos que permitissem guiar a ação de forma acelerada e eficaz.

»Em 2007, nasce em Montain View o YCombinator, pela mão de Paul Graham, o primeiro programa de aceleração de startups a nível mundial, onde nasceram a Airbnb, Dropbox, Heroku, OMGPOP, Loopt, Cloudkick, Zecter, Wufoo e Reddit, empresas com uma valor de mercado combinado superior a €4Bi.

»Desde então, programas como TechStars, AngelPad, 500 Startups, SeedCamp, ou Startup BootCamp têm seguido o sucesso do YCombinator, com pequenas variações de modelos.

»Hoje em dia, existem cerca de 2000 programas de aceleração a nível mundial, capacitando milhares de empreendedores, investindo centenas de milhões de euros e criando milhares de novos postos de trabalho.

»Os aceleradores são um processo altamente exigente de seleção de startups com alto potencial, de capacitação através de mentoring, com empreendedores experientes, e focados no desenvolvimento de mercado e de produto a um ritmo acelerado. Os principais programas têm entre 10 e 50 startups por edição, investimento entre os €10.000 e os €100.000, duração média de 3 meses, e terminam com um demo day com apresentação a potenciais investidores.

»Os aceleradores típicos têm como objectivo identificar as melhores startups, acelerar o seu crescimento, validar os melhores e conseguir bons resultados em termos de investimento e vendas do seu portfólio de empresas.

»No entanto, os aceleradores podem cumprir outros objetivos, como a dinamização de ecossistemas locais, regionais ou mesmo nacionais, como é o caso do Startup Chile, do MassChallenge, ou do Startup Brasil.

»As grandes empresas têm encontrado no formato dos aceleradores, uma excelente forma de estarem próximas de novos empreendedores, novas tendências e inovações, e uma ferramenta de marketing e de evangelização das suas comunidades e de novos clientes. A Microsoft Ventures e a Wayra, da Telefónica, são dois dos principais exemplos a nível mundial.

»Empresas como Microsoft, Amazon, Google, Softlayler, Twillio, Paypal, SurveyMonkey, SAP entre muitas outras têm programas para startups e oferecem os seus produtos através dos aceleradores como forma de fidelização de futuros clientes.

»Em Portugal, os aceleradores já são uma realidade, e existem vários exemplos como Startup Pirates, Fábrica de Startups, Building Global Innovators, CoHitec, e Lisbon-Challenge.

»O Lisbon-Challenge em particular é um programa que atrai várias centenas de candidaturas por edição, com cerca de 75% das candidaturas internacionais, de mais de 45 países, e de várias indústrias, como e-commerce, energia, turismo, ou jogos. O Lisbon-Challenge é um programa de 3 meses, com 30 equipas e com um roadshow internacional em Londres, Boston, São Francisco, São Paulo e Tel Aviv.

»Os vencedores do Lisbon-Challenge em 2013, entraram no YCombinator, sendo a primeira startup Portuguesa a consegui-lo. Outras 3 foram investidas pelo SeedCamp e no total das 74 startups participantes na primeira edição, 40% foram investidas e cerca de 200 postos de trabalho criados. Neste momento temos mais uma edição a decorrer, com 30 startups muito promissoras que estarão em Lisboa pelo menos até Julho, altura em que decorre o roadshow de apresentação a investidores, e nos próximos dias lançaremos as candidaturas para mais uma edição.

»Portugal, nomeadamente Lisboa, Porto, Braga e Coimbra, começam a ser um ecossistema empreendedor dinâmico, e a produzir alguns resultados concretos, o que tem merecido o crédito de várias publicações internacionais.

»Os aceleradores são provavelmente o melhor modelo de capacitação de empreendedores e de aceleração de negócios de sucesso, são um motor central na dinamização de qualquer ecossistema empreendedor e uma excelente oportunidade para uma estratégia de inovação aberta das grandes empresas.

»Citando Dave McLure, fundador do 500 Startups, "Prefiro receber $100,000 e ser um case study do que pagar $100,000 para ler case studies."»





A execução da inovaçao

2015/11/26

«Guiné-Bissau conhece experiência de governação eletrónica de Cabo Verde»



Portugal Digital



«Uma delegação da Guiné-Bissau encontra-se em Cabo Verde para conhecer a realidade do país a nível da governação eletrónica, a função pública e administração e identificar, com o governo cabo-verdiano, caminhos para a cooperação entre os dois países.

»A delegação chefiada pelo ministro da Função Pública e Trabalho da Guiné-Bissau, Luís Aníbal Fernandes, que tem agendadas visitas ao Núcleo Operacional para a Sociedade de Informação (NOSI), a Escola da Hotelaria e Turismo de Cabo Verde, (EHTCV), ao Instituto Nacional de Previdencia Social (INPS), à Unidade de Coordenação da Reforma do Estado, entre outras.

»Em declarações a jornalistas após uma visita à Casa do Cidadão, na cidade da Praia, a secretária de Estado da Administração Pública do Território e o Poder Local, Ester Fernandes, que integra a delegação da Guiné-Bissau, avançou que, no cumprimento do programa do Governo bissau-guineense, vai-se proceder à descentralização de algumas regiões e localidades.

No cumprimento do programa do Governo bissau-guineense, vai-se proceder à descentralização de algumas regiões e localidades.

»"Para isso, queremos conhecer as medidas e políticas implementadas no arquipélago cabo-verdianos, uma vez que a experiência de Cabo Verde pode ser muito útil para alcançarmos o nosso objetivo", precisou.

»A governante admitiu que as reformas, inovações e modernizações administrativas no seu país só podem ser executadas com êxito, com o apoio de Cabo Verde que tem experiência no setor, através dos diferentes serviços especializados.

»Por seu turno, o secretário de Estado da Administração Pública de Cabo Verde, Romeu Modesto, adiantou que as delegações dos dois países vão trabalhar, ao longo dos sete dias da visita da comitiva da Guine-Bissau, em áreas estratégicas como a gestão da administração, melhoria do ambiente de negócio e governação eletrónica.

»"Durante essa missão vamos trabalhar no sentido de definirmos quais são as prioridades dentro destes setores prioritários, e montar um plano de ação estruturado, analisar quais serão os recursos necessários para que possamos arrancar com o projeto o mais rápido possível", indicou Romeu Modesto.»





Uma inovação

2015/11/25

«Costa vai pôr economistas a estudar o que pode prometer nas eleições de 2015»



Bruno Simões. Negócios



«O candidato a primeiro-ministro do PS vai encomendar a "uma equipa de economistas" a elaboração do quadro macroeconómico que vai servir de base ao programa de Governo – que, avisa António Costa, não é a Agenda para a Década. Essa vai agora ser melhorada.

»O programa de Governo com que António Costa se vai apresentar às eleições legislativas de 2015 deverá ser apresentado na Primavera do próximo ano, anunciou esta sexta-feira o candidato do PS a primeiro-ministro. Vai ser elaborado com base em contributos da sociedade civil, vai inspirar-se na Agenda para a Década hoje divulgada, e também vai estar balizado, nos seus objectivos políticos e metas orçamentais, na análise de uma equipa de economistas que será contratada para o efeito.

»"Começaremos por encomendar a uma equipa de economistas a elaboração do quadro macroeconómico que balizará a elaboração do programa do Governo", quer "nos limites" quer também "nas prioridades de política", uma vez que "a acção política tem influência na economia", explicou António Costa. Tudo isso porque "a credibilidade do programa de Governo tem de assentar num cenário macroeconómico fiável" e é essencial que exista uma "definição da estratégia plurianual que dê suporte efectivo" a esse cenário.

»Costa discursou em Coimbra, na apresentação dos documentos que levará ao congresso de 29 e 30 deste mês: a moção ao congresso, a Agenda para a Década e as propostas de alteração dos estatutos.

»A elaboração de um orçamento plurianual é uma das inovações do candidato a primeiro-ministro contida na Agenda para a Década. Mas atenção, esse documento não é o programa de Governo. É sim "o contributo do PS para ser desenvolvido pelos parceiros e organismos sociais" bem como "pelas universidades", "organizações cívicas e movimentos de cidadãos", e é ainda uma "base para concertação aberta a outras forças políticas", garante Costa.

A elaboração de um orçamento plurianual é uma das inovações do candidato a primeiro-ministro contida na Agenda para a Década. Mas atenção, esse documento não é o programa de Governo. É sim "o contributo do PS para ser desenvolvido pelos parceiros e organismos sociais" bem como "pelas universidades", "organizações cívicas e movimentos de cidadãos", e é ainda uma "base para concertação aberta a outras forças políticas", garante Costa.

»"Não é nem o programa do próximo Governo nem o caderno reivindicativo de qualquer um destes parceiros", esclareceu o também presidente da câmara de Lisboa. Porém, "sendo o contributo do PS, não é um contributo neutro, é um contributo enraizado nos nossos valores, e não deixará de inspirar o programa da próxima legislatura, que elaboraremos em coerência com esta visão para o país", promete.

»A estratégia de governação dos socialistas, diz Costa, tem "de superar a tradicional elaboração de programas políticos. Para assegurar o que queremos assegurar é necessário garantir transversalidade dos objectivos, em quatro grandes pilares de medidas de acção: valorizar recursos, modernizar a actividade económica e o Estado", investir em cultura e ciência e "valorizar a coesão social". Precisamente os objectivos da Agenda para a Década.


»Maioria não exclui consensos

»Costa reforçou uma ideia que consta da sua moção ao congresso: apesar de apontar à maioria absoluta, o candidato diz que isso não fecha a porta a outros entendimentos. "Ganhar as eleições com maioria absoluta é condição essencial para a formação de um Governo estável e coerente", com "força política para se bater na União Europeia" e "capaz de conduzir acção uma politica consistente", começou por dizer.

»Mas "para não se alimentarem tabus nem equívocos, consideramos que a maioria absoluta é necessária mas não é condição suficiente". Também é necessária "concertação e acordos alargados. Seremos uma maioria plural, aberta e promotora do diálogo político e social", promete.

»O PS também recusa "o conceito de arco da governação como critério de exclusão das esquerdas à esquerda do PS das suas responsabilidades de também contribuírem no Parlamento" com soluções. "Registamos como positiva a emergência de novos movimentos políticos que procuram quebrar o sectarismo anti-PS que bloqueia o diálogo", acrescentou, numa referência indirecta ao Livre.

»Para Costa, a democracia "só se enriquece" se houver uma política alternativa no próximo ano. O actual Governo é "fracassado, esgotado e incapaz". É "um Governo que abusou da austeridade muito para além da própria troika, que cortou nos salários de quem trabalha e nas pensões de quem fez descontos ao longo de toda a vida".»





Um inovador

2015/11/24

Filomeno dos Santos, presidente do Fundo Soberano de Angola: «Angola já passou por períodos difíceis, conseguiu ultrapassar e acreditamos no futuro»



Económico. António Pedro - exclusivo Económico/Mercado



«Em entrevista ao jornal económico angolano "Mercado", publicada hoje, Filomeno dos Santos, presidente do Fundo Soberano de Angola, diz que os pressupostos da economia nacional se mantêm fortes e que o que mudou no país são "aspectos mais ligados à gestão monetária".


»O que o fundo já fez e o que falta fazer?

»Obrigado por esta oportunidade de conversar sobre o que o Fundo Soberano tem estado a desenvolver no âmbito do seu mandato. Podemos começar por fazer um enquadramento da missão da instituição, antes de passar para as actividades que tem vindo a desenvolver. O Fundo Soberano foi criado em 2001 em termos da sua regulação, depois de um levantamento levado a cabo por uma comissão especial, criada pelo Presidente da República que visava estudar a estratégia que outros países levaram a cabo para desenvolver instituições similares, fundos soberanos, que nada mais são instituições de poupança do Estado, para fazer com esta poupança gera rendimentos efectua investimentos, normalmente fora do país mas a tendência é de investir mais nas economias dos países onde são criados. Começamos a actividade como conselho de administração em 2012, o nosso primeiro passo foi desenvolver toda regulamentação necessária, para que tivéssemos de desenvolver a actividade do fundo de forma prudente e em linha com o que outras instituições similares a nível internacional também praticam. Então, em 2013 conseguimos a aprovação do Executivo sobre a política de investimento do fundo, o regulamento de gestão e o estatuto orgânico da instituição. Após a aprovação destes documentos pelo Executivo ficou então definida em mais detalhes a estratégia do fundo, que visava por um lado gerar rendimentos para o Estado, constituir poupanças que no futuro possam beneficiar os cidadãos nacionais, e por outro lado estimular o ambiente de investimento em alguns sectores estratégicos para o desenvolvimento do País. E estes sectores estratégicos foram identificados como sendo o da energia que na altura já era tido como um factor muito importante para o crescimento e desenvolvimento e expansão de qualquer economia. Depois de terem sido aprovados estes três diplomas, que regulavam a actividade do fundo, foi iniciado o processo de capitalização do fundo, portanto a transferência da capitalização inicial do fundo que ocorreu desde 2013 a 2014.


»É neste último período que começa a capitalização do fundo?

»O fundo foi financiado com 5 biliões de dólares, gradualmente, num período de seis meses de fim de 2013 até meado de 2014. Esta capitalização foi feita com base nas reservas que o Estado vinha acumulando a nível de uma componente especial do orçamento que é reserva financeira estratégica, o Orçamento Geral do Estado vinha experimentando superávits, desde 2010 até 2013, e foi com base nessas poupanças, nesses superávits seguidos que o Fundo Soberano obteve então esta capitalização inicial. Desde principio de 2014 começamos então a actividade de investimentos efectivos, de forma muito prudente, claro, porque tratava-se de capitais que deviam constituir reservas para o Estado, e pelos quais era necessário preservar o valor e garantir que no futuro estariam disponíveis ou que rendessem retornos adicionais que pudessem então beneficiar o País. Então, numa primeira fase fizemos investimentos muito prudentes a nível dos mercados internacionais por serem bastante líquidos e investimos, inicialmente, em obrigações emitidas por governos, bancos centrais e também por algumas empresas de grande vulto. Obviamente estamos a falar em obrigações com certificação por parte de entidades supervisoras de mercado de valores (mobiliários), portanto falamos em títulos altamente transaccionáveis e bastante líquidos.


»Em quais países foram emitidas obrigações em títulos?

»As obrigações que emitimos inicialmente estavam com maior predominância na Europa e nos EUA, por serem economias mais maduras e constituírem activos com muito baixo risco. Obviamente estes rendimentos também eram baixos, devido o baixo risco que apresentavam. Mas gradualmente fomos diversificando o tipo de activos que a carteira do fundo detinha, ao ponto que neste momento mais de 30% da carteira de investimentos do fundo é composta por acções, portanto títulos de participações em empresas, o quer dizer o perfil de risco a que o fundo está exposto tornou-se mais complexo, mas também dá uma perspectiva de rendimentos mais altos. Para além disso, podemos também adicionar novas componentes também de alguma complexidade que tenha que ver com investimento regional e doméstico. Seguimos o que orientava a política de investimento, que era de investir em sectores estratégicos a nível doméstico, sempre mantendo a prudência necessária e constituímos sociedades especializadas em investimentos em sectores específicos. As primeiras duas sociedades que constituímos estão centradas no ramo das infra-estruturas, são especializadas em investimentos como plantas de geração de energia, infra-estruturas de transporte como portos, ou activos de base industrial, como fábricas de larga escala, nos diversos sectores da indústria.


»É com este objectivo que o fundo lançou no ano passado a Academia de Gestão da Hospitalidade de Angola, em Benguela

»Ainda bem que levanta esta questão, em linha com os investimentos que o fundo faz do ponto de vista comercial, tentamos sempre avaliar como é que este tipo de investimento pode ter um impacto mais acentuado a nível do País e da vida de todos os angolanos. Entendemos que ao investir no sector hoteleiro estávamos a investir num sector onde a maior parte dos quadros de gestão ainda são estrangeiros, e estamos a investir num sector onde os quadros de base precisavam de formação. Então, para termos essa sustentação a nível nacional, a nível de quadros, para poderem participar activamente nestes investimentos que são do fundo, e por serem do fundo são do Estado e dessa forma são também de todos os angolanos, então criou-se a Academia de Gestão Hoteleira de Angola que vai então formar os quadros que, eventualmente, aqueles que tiverem melhores resultados, poderão trabalhar nos empreendimentos hoteleiros nos quais o fundo investe a nível nacional e quem sabe noutras regiões a nível do continente. De igual modo, a nível das infra-estruturas temos um programa de formação de quadros que se chama Futuros Líderes em Angola que iniciou em 2014 e permitiu a quadros nacionais seleccionados, graduados, especializarem-se no ramo de gestão de activos financeiros. Oito destes quadros, são no total 50, estão a trabalhar connosco. Pretendemos continuar a contratar mais à medida que as actividades do fundo se forem desenvolvendo, com o instituto de fazer com que cada vez mais as actividades da instituição beneficiem os cidadãos nacionais que realmente se aplicam e demonstram que são capazes de dar resposta aos desafios que o fundo propõe.


»Como decorre a fase prática dos cinco fundos adicionais de capital de risco criados este ano?

»Foram criados mais cinco fundos adicionais para além dos dois que já mencionei, que estão centrados nos ramos de infra-estruturas e da hotelaria, que vão focar no ramo da agricultura, da silvicultura, da exploração mineira, da saúde e por último no ramo do capital estruturado. É preciso realçar que são fundos de capital de risco, não dão crédito mas investem no capital social dos projectos. Então, o que o fundo pretende fazer através desta estratégia é dinamizar o investimento comercial em certos ramos da nossa economia e que são os que já mencionei, porque temos que dinamizando estes sectores poderemos aumentar a produção nacional, diversificar as fontes de rendimento do Governo e também criar emprego a nível da população angolana, bem como oportunidades de prestação de serviço e outros empreendimentos para o sector privado, sendo que novas áreas da economia vão estar estabelecidas e terão seus requisitos em termos de insumos de natureza diversa.


»Quais os projectos identificados em Angola onde cada um dos cinco fundos poderá ter uma participação, nos investimentos?

»É preciso enquadrar bem a estrutura legal destes fundos. Estes fundos são sociedades de capital de risco, portanto são considerados sociedades em comandita. O papel do fundo nestas sociedades é o de investidor, ou accionista, a gestão em si das sociedades depende de uma equipa técnica especializada no sector no qual a sociedade se está a focar. Entendemos que existem vários projectos identificados, mas devido a gestão especializada estes projectos são submetidos a um processo prolongado de avaliação técnica, da tecnologia que está a ser utilizada, dos pressupostos legais que sustentam o projecto e também das condições de mercado que dariam ou poderão dar viabilidade comercial, económica e financeira ao projecto em si. Então, todos estes mecanismos criados aos projectos identificados permitem ao fundo alocar o capital necessário para que eles comecem a ser implementado de forma segura garantir que estas poupanças do Estado no futuro tragam ganhos para a nação. Para responder a pergunta em termos simples, existem vários projectos identificados tanto a nível doméstico como noutras nações, da região subsariana, alguns estão em fase de análise e outros em fase de implementação. A tarefa de análise e implementação é feita sempre com a maior eficiência possível e levada a cabo por equipas especializadas. O papel do fundo é definir a estratégia de investimento dessas entidades e assegurar-se que vão gerar retornos no caso para o Estado.


»Quando é que os projectos serão divulgados?

»O fundo faz o papel de investidor e os projectos em si, como já disse, são privados e já estão em curso os que estão em fase de implementação e os que estão em fase de selecção serão também conhecidos assim que comecem a prestar serviço. A única maneira, sendo projectos comerciais, de prestar serviços ao mercado é que o mercado os conheça. É desta forma que o fundo vai fazendo com que os seus investimentos tenham um impacto na vida e na economia nacional. Não tanto através da divulgação de projectos individuais, mas promovendo o desenvolvimento de sectores específicos.


»O fundo pensa participar no capital de futuros bancos de investimento agrícola através do Fundo de Investimento de Capital de Risco para a Agricultura capitalizado inicialmente 250 milhões USD, pelo facto de os bancos no País apostarem no curto prazo como imobiliário, comércio de importação e exportação?

»O impulso do fundo em relação à agricultura está definido por Decreto Presidencial e o compromisso da equipa do fundo foi comprovado através da constituição de uma sociedade que vai investir em termos de capital próprio, capital social, no ramo da agricultura. Agora, é necessário do ponto de vista prudencial separar o investimento em capital social do capital de crédito. Os bancos normalmente são sociedades que concedem crédito e estão sob supervisão do banco central para que possa acompanhar todos os rácios prudenciais desse tipo de actividade, mas o sector financeiro prevê também outros tipos de entidades de financiamento que são se especializam no crédito mas em investimentos de capital próprio. São sociedades gestoras, podem ser fundos de pensões, ou podem ser fundos de investimentos. Então, digamos que o Fundo Soberano é como um grande fundo de investimento do Estado. Então, nós estamos centrados mais no capital social das sociedades e não no capital de crédito, sendo que quando o fundo detém uma participação no capital de uma empresa esta empresa pode ainda recorrer à banca para obter alavancagem de crédito. Esta possibilidade permite aumentar ainda mais a capacidade de investimento do fundo, isto para dizer se o fundo planeia investir 250 milhões de dólares em termos de capital social na agricultura, esse dinheiro pode ser alavancado três vezes para chegar a um total de 750 milhões de dólares investidos no ramo da agricultura, sendo que 250 milhões são capital social e o resto alavancagem de crédito que podem ser obtidos através de bancos domésticos, do Banco de Desenvolvimento de Angola ou através de outros bancos a nível internacional. A perspectiva do fundo é de alavancar os investimentos a nível doméstico, não só do ponto de vista de capacidade técnica, que está alocada a equipas de gestão dos fundos adicionais que foram criados, mas através do reforço da capacidade de financiamento. O facto do fundo deter uma grande capacidade de financiamento de capital próprio pode obter mais capital de divida que dá uma maior possibilidade de expansão aos projectos que são seleccionados.


»Como é que o Fundo Soberano vai capitalizar-se, nos próximos anos, caso prevalecer a crise do petróleo do mercado internacional?

»Nos anos que vêm o fundo pode capitalizar-se de duas formas. A primeira forma é a que já temos estado a usar, que é através dos rendimentos nos investimentos que está a realizar, iniciados a volta de um ano e meio, e levarão o seu tempo a tornar-se positivo a criar uma sustentabilidade plena a nível da instituição, e também pode aumentar o capital através da alavancagem de crédito. Isto será alcançado, conforme falei, seleccionando projectos que tenham viabilidade técnica e financeira, que permitam aos bancos sentir segurança para que aloque crédito aos mesmos e permita o seu desenvolvimento. Para o período que se aproxima ou que esta a desenvolver agora, acreditamos que o fundo tem fortes possibilidades de aumentar a sua capacidade de financiamento de projectos domésticos e também regionais.


»Concorda com o argumento segundo o qual do capital inicial do fundo parte deveria ser revertida para acudir a situação crítica da economia, face a queda do preço do petróleo, em vez de o País endividar-se no exterior?

»Acredito que neste momento os pressupostos da economia nacional mantêm-se fortes, as reservas continuam nos níveis de há um ano, a situação de emprego mantém-se, a demanda de bens e serviços também se mantém. O que terá mudado são aspectos mais ligados à gestão monetária, portanto será a inflação e as taxas de câmbio, e isto não é surpreendente porque tivemos uma redução muito expressiva no preço internacional do petróleo que é a principal fonte de receita do Governo é a principal fonte de geração de divisas para o Estado. Portanto, face a esta ocorrência alguns actores financeiros poderão ter-se tornado apreensivos e aumentado a demanda que anteriormente existia para a moeda estrangeira. Isto realmente tem um impacto no valor da moeda nacional face as moedas estrangeiras e tem um impacto na inflação pelo facto da nossa economia depender de importações. Mas não muda os outros pressupostos e indicadores da nossa economia da mesma maneira, então acreditamos que isto se trata simplesmente de uma atitude especulativa e são tendências que, normalmente, são passageiras e precisam de ser orientadas com base na regulamentação dos órgãos supervisores, neste caso específico do Banco Nacional de Angola, que é responsável por orientar estas actividades.


»As flutuações cambiais, face à crise global, nos mercados onde o Fundo investiu em títulos, é uma preocupação ou considera um problema passageiro?

»Os investimentos que o fundo faz em activos financeiros, a nível internacional, estão sempre expostos a mudanças em termos de política das várias nações e das outras tendências a nível internacional. Por isso, nesse aspecto, o fundo tem a flexibilidade de desinvestir nos activos que acredita que terão baixos rendimentos, no futuro, e investir em novos activos. Nos últimos meses, aumentamos fortemente a exposição da carteira do fundo em termos de títulos e valores mobiliários à acções, como, por exemplo, à reacção a potencial queda nos rendimentos de títulos do tesouro e outras obrigações nos mercados internacionais. O fundo tem estado atento às várias ocorrências a nível internacional e que possam ter um impacto nos activos que tem na sua carteira e vai melhorando a sua exposição a estes activos em função da perspectiva que tem dos vários mercados.


Os investimentos que o fundo faz em activos financeiros, a nível internacional, estão sempre expostos a mudanças em termos de política das várias nações e das outras tendências a nível internacional. Por isso, nesse aspecto, o fundo tem a flexibilidade de desinvestir nos activos que acredita que terão baixos rendimentos, no futuro, e investir em novos activos.

»Como analisa o desenvolvimento da relação Angola-China?

»Eu acredito que a relação com a China tem sido bastante saudável, principalmente quando olhamos para uma perspectiva histórica. A relação entre a China e Angola assumiu a proporção que tem hoje depois do fim da guerra, por volta de 2002 e 2004 quando se começaram a executar os acordos de crédito que existem, hoje, entre os Estados chinês e angolano. Como sabe, estes acordos permitiram financiamentos de várias infra-estruturas de base como escolas, estradas, hospitais, que aumentaram de forma expressiva a mobilidade de bens e pessoas a nível do País. Se lembrar, ao fim da guerra, era quase impossível nós angolanos nos deslocarmos de uma província para outra sem ser com recursos como transporte aéreo. Hoje esta realidade não existe. É fruto do impulso desta relação. Obviamente é uma relação que pode assumir outras proporções, pode ser expandida para outras áreas e essa expansão requer hoje uma avaliação, e se entenda quais as áreas a nível da economia nacional é que necessitam deste tipo de apoio e perceber se do lado chinês e das várias instituições que existem naquela nação existe apetência para que a relação assuma ou contribua para este novo passo. É algo para que nós, como espectadores gerais, possamos estar atentos para ver o que se cria como oportunidades neste sentido.


»O fundo vai aproveitar o aprofundamento desta relação para investir em mega negócios, mega empresas, na China?

»O fundo tem activos de títulos e valores imobiliários em várias nações a nível do mundo, tanto na Ásia, quanto na Europa como na América etc. Estes activos são comercializados nos mercados de bolsa. O fundo assume esta posição em função das perspectivas de rendimentos que esses activos têm neste aspecto, sempre que as condições do mercado chinês se mostrarem favoráveis. O fundo investirá em activos de alta liquidez neste mercado. No que toca aos activos de menor liquidez, mas com maior rendimento a longo prazo, portanto activos não líquidos, e que sejam detidos mais com uma perspectiva estratégica, o fundo prevê investir com maior incidência a nível doméstico e, quiçá, nos mercados regionais. Por um lado, porque isso tem impactos positivos para o desenvolvimento socioeconómico a nível nacional, ao nosso desenvolvimento como nação, como quadros, como entidades que necessitam de melhores condições de vida e também possam gerar rendimentos futuros para o Estado. Nos acreditamos que Angola, e em particular o continente africano, oferece hoje condições para o desenvolvimento que poucas regiões do mundo oferecem. Nós temos uma população jovem que esta a crescer cada vez mais muito mais do que noutras regiões do mundo e temos uma população de classe média que esta aumentar cada vez mais, aumenta o poder de compra nas economias de Angola e outros países africanos. A venda de produto nas nações africanas é cada vez mais apetecível e também temos grandes necessidades de capital a nível nacional, portanto, como sabe ainda falta-nos unidades fabris falta-nos centros comerciais por exemplo falta-nos vários investimentos que nos permitiriam ter uma economia considerada desenvolvida. Então a perspectiva de crescimento de Angola e das nações africanas é muito maior em relação a uma economia da China que já esta numa fase de desenvolvimento mais avançada e que já tem mais anos neste caminho de desenvolvimento. Obviamente a economia chinesa tem perspectiva de crescimento superior as economias europeias que estão ainda mais desenvolvidas então quando vamos olhar para a oportunidade de investimento que possa garantir investimentos futuros preferimos olhar para aqueles países que realmente apresentem a necessidade deste investimento e nos consideramos Angola como um desses países e a região que nos rodeia também.


»Quanto às aplicações nas grandes praças financeiras, está a falar de Nova Iorque, Londres, Hong Kong, Tóquio?

»Não ficam de fora os activos financeiros do fundo principalmente no que toca a títulos e valores imobiliários estão investidos predominantemente na América do Norte e na Europa. Temos também algumas exposições à Asia e outros países emergentes, mas a predominância é para as economias mais desenvolvidas.


»Qual é a sua expectativa em relação ao desfecho das discussões bilaterais que decorrem neste momento, em Luanda, entre o FMI e o Executivo?

»Nós tivemos a oportunidade de dialogar com a equipa do FMI, que visita actualmente o País. O FMI, para além de ser uma instituição virada para o crédito, principalmente crédito ao desenvolvimento, congrega vários quadros, com ampla experiência a nível nacional, no que toca a assuntos de desenvolvimento, principalmente na perspectiva económica. Então, para nós, é sempre importante entender quais são as perspectivas que eles apresentam, a nível de desenvolvimento nacional e internacional, principalmente neste contexto em que vivemos hoje, em que parecemos estar numa fase de transição. Temos as economias tradicionalmente fortes, como as dos Estados Unidos da América e da Europa, numa fase de potencial reaquecimento, apesar que também podem ser consideradas como economias já saturadas, porque pouco crescimento mais pouco podem comportar, e também das economias asiáticas que até ao momento apresentavam-se bastante aquecidas, mas hoje mostram que a sua perspectiva de crescimento também já começa a aproximar-se de uma certa saturação, até porque estas duas regiões eram dependentes uma da outra. Portanto a Ásia passou a tornar-se o centro de produção do mundo ocidental, então é importante dialogar com estas instituições que estão presentes e acompanham várias nações para entender as perspectivas futuras e o que isso poderá representar para nós, como País, especificamente para o Fundo Soberano como entidade do Estado que está preocupada com a poupança de bens públicos para melhoria de vida da população nacional.


»Tem acompanhado a evolução do mercado de capitais?

»A constituição do mercado de capitais é um assunto que compete as entidades responsáveis por este processo, mas nós, de qualquer maneira, consideramos bastante importante para a capitalização dos empreendedores nacionais. Entendemos também que é um processo que deve ser implementado de forma prudente. Já foi produzida várias regulamentações para este ramo, entendemos que está a ser dinamizado um mercado de títulos de divida, que já se fazia necessário, sendo que já se transaccionam dívidas a nível nacional há algum tempo, e era necessário definirem-se os pressupostos de como é que este mercado funciona para proteger aqueles que detêm estes papéis. Percebemos que a criação deste mercado está a caminhar bem e de forma oportuna, seguindo as devidas fases, sem ultrapassar nenhuma das etapas, o que é importante para os futuros participantes deste projecto, porque todos nós queremos optar por fundos ou investir no mercado de bolsas com a devida segurança.


»Quando olha para a nova geração de jovens banqueiros como visualiza o sistema financeiro nos próximos anos?

»Começamos já a ter vários quadros a nível do sector bancário. É um dos ramos da economia que mais tem crescido, para além das telecomunicações, da construção e do comércio, e agrada-nos que é um sector que emprega muita gente jovem e que dá boas perspectivas de futuro aos empreendedores nacionais. Acreditamos que a experiência que estes novos quadros estão a ganhar do nosso sector bancário, que está a surgir com bastante força, será muito benéfica para o país no futuro. Mas em geral, independentemente da situação que estejamos a viver agora ser menos boa em relação ao passado, no fundo continua a haver perspectivas bastante positivas para o País, se tivermos em nota a situação que estivemos há 10 anos. Portanto, Angola é uma nação jovem, é uma nação que já passou por vários períodos difíceis, conseguiu ultrapassar esses períodos sem sucumbir, então acreditamos no futuro, que tudo será possível, mas depende dos angolanos poder realizar os seus sonhos e levar o País ao lugar onde merece estar e ser uma nação bem desenvolvida e com boas condições para todos cidadãos. E isso já é algo que vai depender de nós. A nível de Fundo Soberano onde podemos prestar o apoio neste sentido, estamos sempre preparados para contribuir.


»O fundo tem apostado no Investimento Social Privado?

»Uma componente importante do Fundo Soberano é que parte do capital, do total atribuído a instituição, estamos a falar de 7,5%, pode ser alocado a projectos sociais e nestes projectos o que nós tentamos fazer é sempre permitir que os angolanos participem de forma cada vez mais activa nas oportunidades que existem a nível nacional. Por isso escolhemos três principais áreas, a de formação, a da saúde e outra é o aumento de renda própria, para podermos permitir ou apoiar os esforços de organizações não-governamentais e outras entidades que cooperam no espaço social, de permitir que cada vez mais cidadãos nacionais estejam em condições de beneficiar das oportunidades que o País hoje tem. É através disso que criamos a Academia de Gestão da Hospitalidade de Angola, em Benguela, é através disso que apoiamos famílias de agricultores no Uíge, é através disso que trabalhamos com a ADPP (Ajuda e Desenvolvimento de Povo para Povo) para criar mais escolas de formação profissional e escolas do segundo e terceiro nível a nível nacional e outras iniciativas que permitam cada vez mais os angolanos, principalmente aqueles em situação mais difícil, participar neste grande salto que o País vem dando ao longo dos últimos anos. Dá-nos muito prazer fazer isso e acreditamos que o fundo terá êxitos no futuro e que Angola como nação também seguirá no mesmo bom caminho.»





Administração Pública e inovação

2015/11/23

Newsletter L&I, n.º 79 (2015-11-23)




Administração Pública e inovação | Administración Pública e innovación |
Administration Publique et innovation | Public Administration and innovation

Um inovador | Un innovador | Un innovateur | An innovator

Uma inovação | Una innovación | Une innovation | An innovation

A execução da inovaçao | La ejecución de la innovación | L’exécution de l’innovation |
The innovation execution



Liderar Inovando (BR)

«Por que o Brasil entrou no vermelho. Como o governo ficou sem dinheiro para pagar suas contas e o que pode ser feito de imediato para resolver o problema» [web] [intro]
«Brazil Foundation busca iniciativas sociais inovadoras para financiar» [web] [intro]
«Manifesto da Educação – Planejamento para virarmos o Camboja» [web] [intro]
«10 inovações que mudaram o mercado nos últimos anos» [web] [intro]

Liderar Inovando (PT)

«Soares da Costa assume aposta na África Central na primeira assembleia em Luanda» [web] [intro]
«Dieselgate. Cerco à indústria automóvel pede alternativas. É o fim do gasóleo?» [web] [intro]
«Os têxteis que estão a mudar o mundo» [web] [intro]
«PACC suspensa, menos alunos por turma, menos carga disciplinar, menos retenções» [web] [intro]

Liderar Innovando (ES)

«Las empresas prefieren ir a Portugal pese al saldo de polígonos gallegos» [web] [intro]
Salustiano Mato, rector de la Universidad de Vigo: «Estamos gestionando el dinero de los ciudadanos y lo principal es ser responsables y gastar lo que ingresamos aunque no nos den todo lo que necesitamos» [web] [intro]
«Errores y aciertos del vino español, esperanza en el futuro» [web] [intro]
«997 millones para “menos cemento y más conocimiento”» [web] [intro]

Mener avec Innovation (FR)

«Le président chinois propose l'innovation et une économie ouverte pour stimuler la croissance mondiale» [web] [intro]
Axelle Lemaire sur la loi numérique: «Je n’aurais pas pu faire une loi de droite» [web] [intro]
«Notre statut coopératif n’est pas une contrainte mais notre force» [web] [intro]
«Quel rôle jouera l’entreprise tunisienne dans la Deuxième République» [web] [intro]

Leadership and Innovation (EN)

«It will take more than being ‘bouncy’ to fix Australia’s innovation system» [web] [intro]
«New Work of Literary Fiction Tackles Corruption in Politics and Social Hierarchy in Modern-Day India» [web] [intro]
«Innovation, Central-Bank Style» [web] [intro]
«Sensor-to-Server: Execute Locally, Communicate Globally...» [web] [intro]

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2015/11/20

«PACC suspensa, menos alunos por turma, menos carga disciplinar, menos retenções»



Sara R. Oliveira. EDUCARE.PT



«As medidas que o Governo de Esquerda propõe para a Educação são conhecidas. Diminuir o número de alunos por turma, a carga horária e os chumbos. Reforçar a autonomia das escolas, garantir a universalidade do pré-escolar dos três aos cinco anos, reforçar a ação social escolar direta e indireta, reanalisar a transferência de competências para as autarquias. Estas são algumas das propostas consensualizadas entre PS, BE, PCP e Os Verdes.

»O programa de um Governo de Esquerda foi desenhado nos últimos dias. O PS apresentou o documento de 138 páginas na comissão nacional do partido e recebeu luz verde para colocar em prática as propostas definidas. No texto, na parte dedicada à Educação, está a vontade de reduzir progressivamente o número de alunos por turma, reduzir a carga disciplinar, reforçar a ação social direta e indireta, tornar as retenções num “fenómeno meramente residual”, reavaliar a transferência de competências para as câmaras municipais sem beliscar a autonomia pedagógica das escolas. A Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades (PACC) é suspensa, assume-se o compromisso de criar condições de estabilidade do corpo docente, garante-se a universalidade da oferta da educação pré-escolar a todas as crianças dos três aos cinco anos durante os quatro anos da legislatura. Pretende-se ainda implementar um programa nacional para a inovação na aprendizagem e lançar um Polo de Competitividade e Tecnológico para a inovação educativa.

»Estes são alguns dos planos do que pode ser o próximo Governo e que sentou à mesa das negociações PS, BE, PCP e Os Verdes. Neste momento, está tudo em suspenso. O programa do atual Governo está a ser discutido e tudo indica que seja reprovado na terça-feira. Se assim for, a decisão está do lado do Presidente da República: ou o país fica em modo de gestão até ser possível marcar eleições, ou avança com um Governo de iniciativa presidencial, ou o Governo do PS, consensual em toda a esquerda, é indigitado para governar o país. Neste último quadro, o sistema educativo sofrerá alterações. O EDUCARE.PT leu o programa e destaca os principais pontos do que pode ser o projeto a aplicar no sistema educativo durante os próximos quatro anos.

»Reduzir a carga disciplinar dos alunos, incentivar a flexibilidade curricular desde o 1.º Ciclo do Ensino Básico, e mostrar que a retenção será um “fenómeno meramente residual” no final da legislatura são alguns dos objetivos traçados. O programa fala numa redefinição progressiva da estrutura dos três níveis de ensino, de forma a investir numa maior articulação e atenuar os efeitos negativos dessas transições, o que pode ser feito através de uma gestão mais integrada do currículo. A realização de exames nos primeiros anos de escolaridade será reavaliada, as atividades de enriquecimento curricular serão consolidadas, e promete-se apoiar as escolas e os agrupamentos a desenvolverem “processos de avaliação interna, que contribuam para a regulação e autorregulação das aprendizagens e do ensino e dos projetos educativos e para a produção de informações credíveis acerca do que os alunos sabem e são capazes de fazer”.

»O Governo de Esquerda assume o combate ao insucesso escolar como principal prioridade da sua política educativa para resolver, como sublinha, “um dos mais sérios entraves ao progresso na qualificação dos portugueses e na redução das desigualdades”. Nesta área, realça a necessária articulação com o programa de combate à pobreza infantil e a intenção de reduzir para metade o insucesso escolar no Ensino Básico. Nesse sentido, assume a progressiva redução do número de alunos por turma, o enriquecimento curricular e a escola a tempo inteiro como prioritários. Neste ponto, promete uma análise às melhores práticas nacionais e internacionais para definir estratégias, a mobilização de todos os agentes educativos sem prejudicar a autonomia técnica e profissional desses parceiros. Pretende estabilidade no trabalho das escolas o que, em seu entender, pressupõe reformas progressivas planeadas, negociadas e avaliadas, e uma forte aposta na formação de professores.

»“O Governo implementará o seu programa no Ensino Básico com o objetivo principal de garantir que todas as crianças e jovens concluem os primeiros nove anos de escolaridade com uma educação de qualidade alicerçadas numa ampla variedade de aprendizagens no domínio das artes, das ciências sociais, das ciências naturais, das línguas estrangeiras, da educação física, da matemática, da língua portuguesa e da cidadania e rejeitando a redução do currículo que tem ocorrido nos últimos anos”, lê-se no texto que esclarece o que pode ser entendido por escola a tempo inteiro. É uma escola, a tempo inteiro, até aos 14 anos, em que o sistema público fica responsável por assegurar uma resposta compatível com os horários de trabalho dos pais.


A PACC é suspensa, os seus fundamentos e objetivos serão reponderados, e o processo de recrutamento de educadores e professores reanalisado. Pretende-se, portanto, criar condições de estabilidade do corpo docente e demais trabalhadores das escolas, quer com a vinculação quer revogando o regime de requalificação.

»Mais creches nos centros urbanos

»A PACC é suspensa, os seus fundamentos e objetivos serão reponderados, e o processo de recrutamento de educadores e professores reanalisado. Pretende-se, portanto, criar condições de estabilidade do corpo docente e demais trabalhadores das escolas, quer com a vinculação quer revogando o regime de requalificação. A realização da PACC também não aparece no programa do atual Governo, da coligação PSD/CDS-PP. O que surge é a vontade de “melhorar o atual sistema de avaliação docente”. “O Estado tem a obrigação de assegurar a valorização profissional e a qualidade formativa dos seus docentes e demais profissionais da educação. Essa exigência deve ser extensível às diferentes etapas do desenvolvimento profissional, a começar na formação inicial, passando pelo processo de seleção, de profissionalização, de recrutamento e de progressão nas respetivas carreiras”, sustenta. Em alternativa, o programa de Governo defende então a necessidade de “melhorar o atual modelo de avaliação docente, em diálogo com todas as partes interessadas relevantes, focando o processo sobre o trabalho desenvolvido pelo docente nas suas diversas facetas”.

»O Ministério da Educação e Ciência (MEC) já veio a público afirmar que estão a ser analisadas as implicações do acórdão do Tribunal Constitucional que declarou a PACC inconstitucional. Mas não confirma, nem desmente o fim da prova. Em resposta enviada à Lusa, o MEC referiu que, tal como referido no programa do Governo, “ninguém deverá esperar o abrandamento da exigência no sistema educativo ou menor rigor no recrutamento e avaliação, ao longo da vida, dos docentes”, acrescentando que essa exigência se estende “naturalmente às diversas etapas do desenvolvimento profissional, entre as quais o recrutamento e seleção”.

»O programa da Esquerda quer centrar as escolas no ensino e na aprendizagem dos alunos e valorizar os profissionais. Quer relançar programas de formação contínua, consolidar e alargar o regime de autonomia pedagógica e administração e gestão das escolas, de forma a descentralizar competências agora concentradas no MEC, e promete avaliar o processo de transferência de competências para as autarquias ao nível do Ensino Básico e Secundário, garantindo que não vai diminuir a autonomia pedagógica das escolas. “É crucial valorizar a função docente, assumindo o papel insubstituível que os educadores e os professores desempenham na construção de uma escola mais democrática e inclusiva, estabelecendo para o efeito um diálogo regular com as suas organizações representativas”, lê-se.

»O investimento no alargamento da rede e na qualificação da educação de infância será retomado e alargado o número de creches nos grandes centros urbanos. Garante-se, até ao final da legislatura, a universalidade da oferta da educação pré-escolar a todas as crianças dos três aos cinco anos. A criação de instrumentos de diagnóstico precoce de situações de risco, como estratégia de prevenção do insucesso escolar, e de programas de acompanhamento e formações dos educadores também fazem parte dos planos. Por outro lado, pretende-se assegurar a tutela pedagógica sobre os estabelecimentos que integram a rede nacional de educação pré-escolar, independentemente de pertencerem à rede pública ou à rede solidária. Nesse programa, escrito a várias mãos, fica claro que todas as crianças devem ter direito “a uma educação comum que seja um caminho de diversidades enriquecedoras e com apoios específicos adequados a diferentes necessidades”.


»Substituir o ensino recorrente

»Assegurar o cumprimento dos 12 anos de escolaridade obrigatória, valorizar o Ensino Secundário e diversificar a oferta formativa são alguns dos pontos do programa. O Governo de Esquerda realça que é necessário desenvolver um programa de apoio às escolas e agrupamentos que ajude os alunos a delinearem os seus percursos escolares e os seus projetos de vida para que todos cumpram os 12 anos de escolaridade obrigatória. Nesse sentido, promete-se melhorar a qualidade dos cursos científico-humanísticos, nomeadamente criando programas de desenvolvimento do ensino experimental. Valorizar o ensino profissional e artístico é outra medida apresentada e que passa por promover uma maior ligação da escola à comunidade e à família, e que terá em atenção os jovens que saíram da escola sem concluir o Secundário e que ainda não encontraram trabalho. Quer-se também criar condições de maior estabilidade ao financiamento da rede de escolas profissionais e estabelecer dinâmicas de cooperação com os parceiros sociais e os conselhos empresariais e regionais.

»O Governo de Esquerda quer reforçar a ação social escolar, direta e indireta. Objetivo que enquadra num sistema de aquisição e retorno dos livros que assegure a progressiva gratuitidade dos manuais escolares e de outros recursos didáticos formalmente adotados para o ensino Básico e Secundário. E fala ainda em modernizar modelos e instrumentos de aprendizagem, avançando com várias ideias: implementar um programa nacional para a inovação na aprendizagem, conceder uma estratégia de recursos digitais educativos, lançar um Polo de Competitividade e Tecnológico para a inovação educativa através de uma plataforma de colaboração entre escolas, empresas, laboratórios e sociedade civil.

»Na educação de adultos, pretende-se criar um programa que, como se explica, “consolide um sistema de aprendizagem ao longo da vida e a sua ação estratégica para a próxima década”. Neste campo, propõe-se, entre outras medidas, substituir progressivamente o ensino recorrente por cursos de educação e formação de adultos correspondentes aos mesmos níveis de escolaridade disponibilizados no sistema educativo, com a introdução de possibilidades de ensino à distância de modo experimental; bem como a ativação de uma rede nacional de centros especializados em educação e formação de adultos no aconselhamento, orientação e percursos de aprendizagem.


»Modernizar e diversificar

»No Ensino Superior, fala-se em modernizar, qualificar e diversificar. Há vários passos assumidos. Alargar a base de recrutamento dos candidatos, reforçar a ação social escolar direta com o aumento do valor das bolsas de estudo e do número de estudantes elegíveis, criar condições para a renovação de docentes e especialistas nas universidades, melhorar os níveis de sucesso educativo, reforçar instrumentos de internacionalização das instituições de Ensino Superior, são alguns deles. O programa propõe ainda integrar os investigadores doutorados em laboratórios e substituir a atribuição de bolsas de pós-doutoramento por contratos de investigador.

»Neste programa, critica-se o que tem vindo a ser feito nos últimos anos na Educação. Acusa-se o Governo de ter abandonado “os combates mais difíceis e mais urgentes”, ou seja, o combate ao insucesso escolar, o combate às desigualdades, enfraquecendo assim a “função da escola pública para todos, enquanto elemento de mobilidade social” e diminuindo a aposta na escola a tempo inteiro e as condições das atividades de enriquecimento curricular. E acrescenta-se que os currículos ficaram mais pobres, reduzidos a disciplinas nucleares, e que a colocação dos professores tem desestabilizado o funcionamento das escolas.

»A Federação Nacional dos Professores (FENPROF) estará esta terça-feira em frente à Assembleia da República para, como explica, “assistir à queda do Governo, saudando a rejeição do Governo e do seu programa”. Mário Nogueira, secretário-geral da FENPROF, acredita que com a entrada do Governo de Esquerda “será possível alterar muita coisa, o que com a direita já se sabe que não é possível”. A Federação defende flexibilidade para encontrar soluções e que é necessário traçar prioridades. “Exige-se da FENPROF e dos seus sindicatos assertividade, oportunidade e firmeza na apresentação de propostas, devendo ser rapidamente definida a estratégia de intervenção e o plano da ação a levar por diante, tendo em conta o que são exigências imediatas e outras cuja concretização deverá ter lugar no curto e médio prazo. Em suma, há que definir uma estratégia reivindicativa adequada à atual situação política nacional e que, por dar confiança aos professores, seja mobilizadora para a sua ação”, sublinha em comunicado.»





A execução da inovaçao

2015/11/19

«Os têxteis que estão a mudar o mundo»



Margarida Cardoso. Expresso



«O que têm em comum Nelson Évora, Michael Phelps e Usain Bolt além das medalhas e recordes conquistados como campeões do mundo ou olímpicos? O triatleta português, o nadador norte-americano e o velocista jamaicano, conhecido como “o homem mais rápido do mundo”, chegaram ao pódio das grandes competições vestidos com têxteis de alta tecnicidade made in Portugal.

»São apenas três histórias que ajudam a mostrar como as empresas portuguesas estão a triunfar no admirável mundo novo dos têxteis técnicos, um universo avaliado pelo banco alemão Commerzbank em 230 mil milhões de euros, onde um simples fio é sempre mais do que aparenta e qualquer tecido pode esconder poderes funcionais quase milagrosos.

»“A expectativa é de que esta área dos têxteis de alta tecnicidade venha a ter um crescimento exponencial pelas aplicações no vestuário clássico e, em especial, no desporto”, sublinha Paulo Vaz, diretor-geral da ATP – Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, que já viu empresas como a LMA, com 40 trabalhadores e vendas de sete milhões de euros, vestir Usain Bolt para a vitória e recorde olímpico dos 100 metros, em Londres.

»Como? Com uma camisola confecionada na P&R Têxteis, em Barcelos, com uma malha técnica de alta performance desenvolvida na LMA, de forma a permitir a transmissão de ar, e uma solução final mais fina e leve, confortável, de alta respirabilidade, pronta a fazer a gestão da humidade do corpo, mas também com propriedades antibacterianas e uma função termorreguladora, através de produtos encapsulados que passam ao estado líquido para arrefecer o corpo quando este aquece e se tornam sólidos, para o aquecer, quando fica frio.

»Nesta empresa, habituada a subir ao pódio das grandes competições internacionais, sete trabalhadores estão concentrados em atividades de investigação e desenvolvimento e 10% do volume de negócio são canalizados para a inovação. O foco é desenvolver malhas técnicas para diferentes segmentos, da moda ao desporto e ao vestuário de proteção. A equipa de Fórmula 1 da Red Bull 2015/2016 compete com malhas desenvolvidas na LMA para este efeito e no equipamento de Nelson Évora, campeão olímpico do triplo salto nas Olimpíadas de Pequim 2008, as malhas têm características idênticas às de Bolt, mas foram pensadas para acompanhar o impacto muscular do atleta através da compressão, com elevado nível de incorporação de lycra. As polícias da Alemanha e de Espanha também vestem malhas da LMA.

»Entre os novos projetos em curso na empresa de Santo Tirso há malhas para mantas com fibras de alta performance e poderes de acumulação capazes de transformar o calor do corpo e da luz em radiações de infravermelhos que mantêm o corpo saudável e quente, malhas com fios condutores que permitem monitorizar o corpo humano e potenciar a captação das antenas de telemóveis e camadas têxteis para uso em equipamento de proteção de utilizadores de motosserras.


»No pódio da fileira têxtil

»Manuel Serrão, administrador executivo da Selectiva Moda, uma associação vocacionada para apoiar a internacionalização das empresas têxteis nacionais, não tem dúvidas de que “esta é a área com maior potencial de crescimento da fileira, seja pela via da incorporação de tecnologia e reforço da competitividade, seja pela diversidade de sectores visados”. Além do mais, acrescenta Serrão, “através dos têxteis técnicos, as empresas lusas podem aproveitar o reconhecimento do know how português contornando a questão da marca, que neste tipo de produtos é menos relevante do que na moda”.

»Para a Petratex, o cruzamento made in Portugal das mais modernas tecnologias com a velha indústria é um caminho que vale ouro olímpico já há alguns anos. A prová-lo, apresenta a sua patente Nosew, uma solução sem costuras que permite construir as peças de roupa por fusão, aplicando cola, pressão e temperatura em vestuário ou equipamento desportivo, como o fato de natação LZR Racer.

»Desenvolvido em Paços de Ferreira, numa parceria da Petratex com a marca Speedo, este fato ajudou o norte-americano Michael Phelps a bater sete recordes do mundo e a nadar oito vezes para a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008. Num desempenho que levou o nadador a escrever uma carta de agradecimento à Petratex e convenceu a revista Time a escolher o LZR como uma das invenções do ano.

»Ao primeiro olhar, até poderá parecer um fato de natação normal, mas o LZR revela-se um equipamento à medida de um campeão, sem costuras, para reduzir o efeito de arrasto, construído com uma cinta, que ajuda os nadadores a manterem uma postura otimizada dentro de água, além de um acabamento para repelir a água e reforços num material à base de poliuretano e silicone para comprimir o peito, barriga e coxas, as zonas do corpo com mais massas oscilantes.

»A percentagem pode surpreender, mas mostra a dimensão do desafio que as empresas têm pela frente: “Mais de 70% dos materiais e aplicações que farão o amanhã desta atividade (têxtil) estão ainda por inventar”, diz Paulo Vaz, citando estudos internacionais sobre o sector.

»Na verdade, falar de têxteis técnicos ou de têxteis de alta tecnicidade significa, cada vez mais, falar de nanotecnologia e de microcápsulas, de química, de física, de eletrónica que se pode costurar, de engenharia de materiais. Significa falar de roupa e de tecidos, mas também da indústria automóvel e aeroespacial, da construção, de saúde, de agricultura, de ambiente. A Alemanha, o maior produtor e exportador de têxteis da Europa, tem, aqui, 40% das suas vendas, muito por força dos materiais usados para fazer os painéis automóveis, as próteses médicas ou as asas dos aviões.

»Em Portugal, estas áreas não estão esquecidas. A Coindu vai produzir os interiores do AudiQ7, a comercializar pela Audi em 2016. A TMG Automotiv é um dos fornecedores dos modelos i3 e i8 da BMW, a Copo Têxtil equipa os modelos Passat e Sharan e Alhambra da VW. A ERT tem no novo Jaguar XE um dos seus próximos projetos.

»“Temos empresas portuguesas na liderança do que se faz nesta área”, garante João Gomes, diretor do departamento de materiais inteligentes do CeNTI – Centro de Nanotecnologia e Materiais Técnicos, Funcionais e Inteligentes, com vários projetos em mãos que prometem revolucionar o automóvel e uma medalha de ouro conquistada na última edição da FESPA, a maior feira mundial de materiais e tecnologias de impressão, na Alemanha, na categoria de tecnologia inovadora.

»O CeNTI (ver texto “Estampar eletrónica em tecidos”) conquistou esta medalha de ouro com um projeto que envolve também a Simoldes e o CITEVE – Centro Tecnológico das Indústrias Têxtil e do Vestuário de Portugal e permitiu encontrar uma tecnologia de serigrafia digital para imprimir circuitos eletrónicos – sensores, atuadores (comandos) e iluminação – em peças automóveis em que o têxtil, mesmo quando não é visível, tem um papel fundamental no revestimento do plástico, “porque é translúcido, adaptado à transmissão da luz”, explica João Gomes.

»Outro projeto do CeNTI na vanguarda da tecnologia automóvel é a integração de sistemas de aquecimento impressos nas estruturas dos automóveis, designadamente nos apoios dos braços. Porquê? Em vez de o aquecimento ser integrado a posteriori numa viatura, pode, assim, entrar já integrado nos têxteis, explica João Gomes, certo de que nos carros do futuro os ventiladores e o ar condicionado desaparecerão, porque “a climatização passa a estar embebida em todos as estruturas e materiais do carro, para ser feita de forma inteligente.”


»Um sector subavaliado

»Mas para lá do carro do futuro, o crescimento do negócio dos têxteis técnicos em Portugal passa, naturalmente, pelo vestuário, os tecidos e as malhas que a indústria nacional sempre fez. A prová-lo, as empresas portuguesas apresentaram-se na última edição da Techtextil, a maior feira de têxteis-lar do mundo, com muitas armas na bagagem. Agora, as meias escondem chips para manterem os pés quentes, a uma temperatura constante, as cortinas iluminam-se, os edredões tornam-se interativos, prontos a saudar-nos com mensagens calorosas quando a luz entra no quarto, a roupa de desporto ajuda a potenciar a performance e o conforto dos atletas, as T-shirts libertam medicamentos na dose certa para a absorção cutânea e o design de um casaco incorpora painéis fotovoltaicos sem qualquer problema.

»Do Vale do Ave à vizinhança da serra da Estrela, a batida dos teares ainda marca o ritmo do negócio, ao lado das máquinas de costura, mas para muitas empresas têxteis portuguesas o futuro joga-se cada vez mais no laboratório, porque a palavra chave para o sucesso é a inovação. O mote é levar a funcionalidade da roupa ao extremo, criar soluções cada vez mais finas e leves, com propriedades múltiplas, e, simultaneamente, dar gás às encomendas pela via da diferenciação, da oferta de produtos com valor acrescentado.

»O peso exato deste segmento de negócio é ainda difícil de contabilizar, porque muito do que Portugal faz neste domínio continua a ser registado nas estatísticas oficiais como um produto tradicional. De acordo com os dados do INE – Instituto Nacional de Estatística, os têxteis técnicos abarcam a fabricação de cordoaria e redes, fabricação de não tecidos e respetivos artigos, exceto vestuário, e fabricação de têxteis para uso técnico e industrial. Juntas, estas três categorias valem 600 milhões de euros, o que equivale a 10% do volume de negócios do sector (6,4 mil milhões de euros).

»Nas contas da ATP, o peso real dos têxteis de alta tecnicidade poderá duplicar facilmente estes números. “Nas nossas estimativas, 20% a 25% do volume de negócios do sector estarão já aqui.” E a percentagem poderá registar “um crescimento exponencial” nos próximos anos, para chegar ao final da década já nos 30%, antecipa o Plano Estratégico desenhado para a indústria têxtil no horizonte de 2020. “Será já uma percentagem próxima da média de indústrias desenvolvidas nesta área, como a Alemanha, com os seus 40%, mas ainda muito longe da realidade de países como a Finlândia, onde a quota dos têxteis de alta tecnicidade ronda 70%”, refere Paulo Vaz.

»No Plano Estratégico do sector, os “têxteis técnicos e funcionais” são, assim, apontados como uma das oportunidades abertas à fileira no horizonte de 2020. A confirmar o otimismo da previsão, as exportações de têxteis técnicos (números oficiais) cresceram 10,8% no ano passado e, a avaliar pelas empresas contactadas pela EXAME, nos segmentos que ficam fora dos números oficiais a evolução manteve-se quase sempre na casa dos dois dígitos.


»Na liderança mundial

»É um caminho que obriga a um trabalho de colaboração entre empresas, centros tecnológicos e universidades como nunca houve no passado, para dar resposta às exigências dos diferentes projetos ao nível do investimento, mas também para viabilizar o cruzamento de competências, cada vez mais vital para o sucesso. E basta um colete de golfe para perceber como tudo isto se articula, como provou o CITEVE na Techtextil, ao apresentar um exemplar muito especial, com aquecimento integrado, alimentado por uma bateria ultraleve que pode ser carregada num computador, desenvolvido em parceria com as empresas Scoop e Fernando Valente.

»Para muitos empresários do sector, não há dúvidas de que a curva ascendente dos têxteis portugueses, a evolução do produto na cadeia de valor, passa por aqui, por parcerias com estruturas como o CeNTI ou o CITEVE, com um dos melhores laboratórios do mundo na análise dos têxteis e reconhecido internacionalmente como um dos mais importantes núcleos mundiais de investigação e certificação deste tipo de têxteis.

»Em muitas empresas, a base tradicional já abriu as portas à tecnicidade e acelerou o crescimento dos negócios. “Basta pensar nas cidades com grandes amplitudes térmicas, por exemplo, para perceber que faz sentido oferecer camisas e fatos climatizados, que têm a garantia de manter a temperatura do corpo constante”, sublinha Paulo Vaz, convicto de que os tecidos antistresse, resistentes à chama, capazes de matar bactérias, repelir mosquitos, libertar fragrâncias, esconder as nódoas, absorver a humidade, repelir a água, hidratar a pele, combater a celulite, gerir ou revelar a temperatura do corpo vieram para ficar.



Em muitas empresas, a base tradicional já abriu as portas à tecnicidade e acelerou o crescimento dos negócios. “Basta pensar nas cidades com grandes amplitudes térmicas, por exemplo, para perceber que faz sentido oferecer camisas e fatos climatizados, que têm a garantia de manter a temperatura do corpo constante”, sublinha Paulo Vaz, convicto de que os tecidos antistresse, resistentes à chama, capazes de matar bactérias, repelir mosquitos, libertar fragrâncias, esconder as nódoas, absorver a humidade, repelir a água, hidratar a pele, combater a celulite, gerir ou revelar a temperatura do corpo vieram para ficar.

»DEZ CASOS DE SUCESSO


»A. SAMPAIO & FILHOS

»Na A. Sampaio & Filhos até a malha de aparência mais simples esconde virtudes termorreguladoras, ignífugas (não pegam fogo), de resistência, por vezes multifuncionais. “Estar um passo à frente é essencial, e a inovação está no nosso ADN”, diz Miguel Mendes, de 39 anos, chamado a dar a cara, ao lado do irmão João, pela empresa fundada pelo avô em 1947, agora líder ibérica na produção de malhas tricotadas em teares circulares.

»A carteira de clientes desta fábrica de Santo Tirso vai das principais marcas de moda e de desporto internacionais a empresas multinacionais, exércitos e forças de segurança de Espanha a Madagáscar.

»Com 200 trabalhadores e vendas de 20 milhões de euros, a empresa canaliza para a exportação quase metade da produção, distribuída por diferentes áreas, da saúde ao vestuário de proteção e ao sector automóvel. Os restantes 55% são absorvidos por confeções do Vale do Ave, fornecedoras de algumas das principais marcas mundiais.

»No laboratório, todos os produtos são testados. Há malhas a passar por provas de encolhimento, rebentamento, elasticidade, e outras a rodar ao ritmo de duas mil voltas em 45 minutos, numa prova antiborboto. As coleções não esquecem o design, a cargo de um gabinete técnico, em Barcelona, as tendências e o diálogo com os clientes.

»Habituada a investir centenas de milhares de euros por ano em equipamentos, a A. Sampaio & Filhos tem o exclusivo mundial para produtos simultaneamente termorreguladores e ignífugos, aos quais está a acrescentar novas propriedades, e já teve as suas malhas a vestir muitos campeões nos Jogos Olímpicos de Inverno.

»Uma das suas soluções inovadoras introduz materiais cerâmicos na fibra sintética para refletir raios infravermelhos, de forma a ativar a microcirculação, reduzir a fadiga muscular e melhorar o desempenho desportivo. Outra oferece um poliéster aditivado que em condições de temperatura e humidade elevadas diminui a temperatura corporal um a dois graus. Mas há também uma malha com três camadas que reúne certificações de alta visibilidade, retardador de chama, proteção contra a eletricidade estática e arco elétrico [corrente elétrica que se propaga entre os elétrodos]. “É um produto único nas propriedades que combina e demorou ano e meio a desenvolver”, sublinha Miguel Mendes.


»ARTEFITA

»Nos aeroportos de Los Angeles e Frankfurt, nos camiões da Volvo, nos carrinhos de compras das lojas da Wal-Mart e Continente ou nos contentores dos correios franceses há fitas técnicas e cintas da Artefita, a empresa de Escariz, Arouca, que criou a marca própria Knot e chega a 24 países com soluções técnicas que garantem rigidez ou elasticidade, impermeabilidade, resistência ao fogo, propriedades antiderrapantes, refletoras ou, até, aromáticas.

»Com 70 trabalhadores e um volume de negócios de cinco milhões de euros, 85% do qual obtidos no mercado externo, a Artefita cresceu 26% em 2014 e prevê vender mais 20% em 2015. “Estamos a conquistar novos clientes e novos mercados”, afirma Gonzaga Oliveira, diretor-geral da empresa, a trabalhar “muito próximo da capacidade esgotada”.

»No ano em que celebra o vigésimo aniversário da Artefita, o gestor recorda que há uma década empregava 30 pessoas, vendia 1,5 milhões de euros e exportava 40% do que fazia. “Investir em soluções técnicas, organizar-nos por produtos e unidades de negócio para os diferentes segmentos do mercado, ajudou-nos a chegar até aqui”, diz o gestor, que acaba de investir 500 mil euros em equipamento e inovação.

»“Há 10 anos, quando começámos a mostrar os nossos produtos na Techtextil, apresentavam-se na feira mais nove empresas produtoras de fitas. Há dois anos eram 31 empresas. Este ano encontrámos meia centena e muitas são alemãs, o que nos obriga a trabalhar sem parar, focados na inovação, satisfação do cliente, sustentabilidade do negócio.”

»A flexibilidade e capacidade de personalizar a oferta é um trunfo das fitas de Arouca, que fecharam recentemente um contrato com os correios franceses no valor de um milhão de euros.

»“A relação qualidade/preço é também decisiva sempre que vamos a jogo”, acrescenta Gonzaga Oliveira, que tem na Suécia, em França, em Inglaterra, nos EUA e na Alemanha os seus maiores mercados, soma três mil referências de produtos, divididos em oito unidades de negócio, dos transportes à logística, publicidade ou náutica, trabalha com a marca Arctic nas coberturas isotérmicas e faz fitas para os porta-bicicletas dos automóveis e cintas para cadeiras de bebés, automóveis ou atrelados.


»CENTI

»E se os circuitos eletrónicos pudessem ser simplesmente estampados em tecidos? É um conceito simples e inovador que o CeNTI – Centro de Nanotecnologia e Materiais Técnicos, Funcionais e Inteligentes tem vindo a trabalhar, em Famalicão, e já permitiu fazer impressão de eletrónica numa base de polímeros e de têxteis.

»Criado em 2006 por três universidades e três centros tecnológicos, o CeNTI está habituado a trabalhar em projetos diferenciadores, como as meias prontas a libertar medicamentos, peúgas que fazem a monitorização do ritmo cardíaco, temperatura e número de passos, relva artificial capaz de reduzir a abrasão e melhorar o conforto térmico ou uma nova geração de fibras com três componentes, que associam três polímeros à mesma fibra.

»A regra é trabalhar diretamente para as empresas, introduzindo tecnologia quase invisível na roupa e noutros objetos para aplicações em áreas como a aeronáutica e automóvel, proteção, saúde, bem-estar, construção e arquitetura, mas que pode ser traduzida em coisas simples, como uma camisola com um coração de Viana eletroluminescente, criada para emitir luz sempre que alguém se aproxima de quem a veste.

»Na Techtextil, um dos demonstradores dos circuitos eletrónicos impressos pela equipa do CeNTI em polímeros e têxteis, apesar do seu formato discreto, semelhante a um marcador de livros, foi roubado.

»O casaco preto e branco com painéis fotovoltaicos desenvolvido pelo CeNTI para a marca Vicri, para provar que tecnologia, moda e design são um triângulo viável, também desapareceu do espaço de exposição.

»João Gomes, diretor do Departamento de Materiais Inteligentes do CeNTI, não comenta os furtos, mas explica que a aplicação de painéis fotovoltaicos no casaco em causa “permite obter a energia necessária para carregar o telemóvel ou armazenar dados, pode ser lavada facilmente com o casaco e demorou um ano e meio a desenvolver”.

» Outra solução apresentada em Frankfurt permite integrar sensores de dióxido de carbono, monóxido de carbono e temperatura em casacos de bombeiro, resistentes ao fogo, e dar ao comandante da corporação uma aplicação móvel que controla 10 homens em tempo real, para avaliar ao segundo se os seus bombeiros correm perigo.


»COLTEC

»A partir de Guimarães, a Coltec apresenta-se ao mundo como líder nacional no fornecimento de serviços de laminação têxtil, colagens diretas, revestimentos com termoadesivos, revestimentos com autoadesivos e aplicação de filmes e membranas impermeáveis e respiráveis. Mas depois de ganhar visibilidade e clientes nesta área de têxteis técnicos, a empresa continua a procurar novos caminhos, com passagem pelas áreas da saúde, geriatria, desporto e associação da tecnologia à moda.

»“Há muitos nichos de mercado a surgir. O cruzamento da tecnologia com a moda é uma das tendências, e nós queremos estar na tecnomoda, até pela proximidade geográfica ao coração da indústria têxtil portuguesa”, diz Paulo Neves, diretor-geral da empresa. As vendas refletem o esforço de diversificação. Com 35 trabalhadores, a Coltec registou, no ano passado, um volume de negócios recorde de cinco milhões de euros. “Em 2014 crescemos 15% e este ano esperamos voltar a crescer a dois dígitos”, diz o gestor.

»As exportações diretas e indiretas absorvem 90% das vendas, numa rota alargada, da Europa ao Sri Lanka. “Temos diferentes tipos de membranas, que desenvolvemos de acordo com soluções específicas para cada cliente”, diz Paulo Neves, que incorpora nos seus processos de laminação acabamentos funcionais como a regulação térmica, proteção antibacteriana, proteção ao fogo, repelência a água e óleos e antimosquito.

»Ser uma empresa de referência no desenvolvimento, produção e comercialização de tecidos e malhas laminados respiráveis e impermeáveis para têxteis-lar, vestuário técnico e outras aplicações significa “investir em contínuo”. A prová-lo estão os 600 mil euros aplicados nos últimos três anos em equipamento, mas também exemplos de produtos desenvolvidos à medida, como a membrana com propriedades de resistência à chama aplicada em T-shirts para bombeiros e trabalhadores de companhias petrolíferas ou o processo de colagem com certificado antichama usado numa malha de um cliente nipónico.

»Entre as novidades que estão agora a ser apresentadas ao mercado, há um complexo laminado que pode ser esterilizado e usado em revestimentos de camas de hospitais, cadeiras de hemodiálise ou macas, mas também protetores de cama resistentes à chama, ou um produto com cinco camadas, respirável e de alta absorção, para a geriatria.

»A nova vocação da “tecnomoda” traduz-se em soluções de contracolagem, colagem de espuma e membranas, estampagem de tecido de cortiça por sublimação, com películas que garantem maior resistência ou impermeabilidade. Para tornar visível o potencial criado, a empresa já fez um vestido ultraleve em cortiça dourada, graças a uma membrana de poliuretano respirável. No desporto, a Coltec marca presença em modalidades várias, da caça à pesca, esqui ou ciclismo, tendo desenvolvido uma capa transparente, com um peso reduzido a 80 gramas, que permite ver a publicidade no equipamento do desportista e é impermeável.


»ENDUTEX

»O processo de desenvolvimento interno demorou oito meses, mas o resultado obtido permite à Endutex enfrentar a concorrência mundial com uma nova solução de vestuário de proteção a preços competitivos. É um produto pensado para quem trabalha nos postos de eletricidade, com resistência ao arco voltaico e à chama, alta visibilidade (roupa que ajuda a tornar as pessoas visíveis), que vem responder diretamente a pedidos de clientes dos EUA e Canadá.

»“Conseguimos uma economia de 50% face ao que já se faz nesta área, por isso a expectativa é massificar”, explica Vítor Magalhães Abreu, diretor comercial da empresa de Santo Tirso, confiante no novo artigo em PVC, recheado no interior a malha de poliéster, algodão e aramida. Inovar e encontrar novas soluções está no ADN da Endutex, que nasceu com uma linha de produção tradicional, em 1970, mas foi somando novas valências, especializando-se nos revestimentos em PVC e poliuretano. E entrou para o grupo restrito de fábricas mundiais com capacidade para produzir telas de cinco metros para impressão digital, continuando a investir em equipamentos para trabalhar novos produtos e entrando noutros segmentos do mercado de impressão digital para exteriores.

»Na estratégia de crescimento da Endutex, habituada a exportar 85% do que produz, o mercado internacional é um foco natural. Tem unidades industriais em Portugal, onde emprega 209 pessoas e fatura 34 milhões de euros, e no Brasil, com 230 trabalhadores e 40 milhões de euros de volume de negócios (aqui está mais focada no calçado).

»Há pouco apostou nos EUA, onde já tem instalações próprias. E, noutra frente, o grupo está a investir no turismo, na cadeia hoteleira Moov, com planos de 34 milhões de euros até 2017, em Portugal e no Brasil.


»FARIA DA COSTA

»A olho nu, a nova meia de lã, acrílico e coolmax (um fio funcional que facilita a respiração do pé) é igual a qualquer outra, mas a sua criação foi preparada em laboratório durante 36 meses, numa parceria da Faria da Costa com o Centro de Tecnologia Têxtil CITEVE, envolveu um investimento de 300 mil euros e está a ser patenteada, porque permite programar três níveis de temperatura diferentes e mantê-los entre 8 e 16 horas, em função do clima local.

»Para isso, a meia integra um microchip encapsulado no pé e uma bateria elétrica semelhante à de um telemóvel, “mas pode ir a lavar à máquina”, sublinha Nuno Costa, diretor-geral da empresa de Barcelos, fundada pelo pai, Álvaro Costa, em 1988.

»“É uma aposta na diferenciação e valorização do produto, porque a concorrência nos artigos básicos é feroz. Acreditamos obter, assim, também um maior reconhecimento para a nossa oferta de peúgas tradicionais”, explica o gestor, à espera de um crescimento de 10% a 15% nas vendas este ano, depois de faturar três milhões de euros em 2014, com as exportações a garantirem 95% deste valor.

»As contas são fáceis. O preço médio de um par de meias à saída de fábrica é de 1,5 euros, mas o novo modelo de aquecimento WYFet – Warm your Feet, que propõe aquecer os pés dos clientes, vai passar os 50 euros e, no final do ano, estará à venda na Noruega a 250 euros. Poderá também calçar no curto prazo os militares indianos. “Nascemos a fazer peúgas tradicionais, mas quisemos inovar, ser mais competitivos”, justifica Nuno Costa.

»Dos 75 trabalhadores da empresa, há sempre um grupo de 5 a 10 pessoas a trabalhar no gabinete de desenvolvimento de produto. Uma das suas missões é criar peúgas funcionais de desporto, prontas a oferecer mais conforto aos pés dos atletas e a combater a sazonalidade de um negócio assente nas meias de lã. Um dos mercados já conquistado neste segmento são os Estados Unidos.

»A capacidade de produção de duas mil dúzias de peúgas por dia está a aumentar para as 2500 dúzias. Para isso a empresa investe este ano 250 mil euros. A experiência acumulada no trabalho com a lã e a flexibilidade interna da produção também estão a ser rentabilizadas através de novos produtos, como os cachecóis e os gorros, já à venda no Reino Unido.


»LIPACO

»Quando nasceu, em 1987, a Lipaco fazia simplesmente linhas de costura. Foi este o ponto de partida para a empresa lançar amarras, procurar produtos novos, com valor acrescentado e “outro tipo de margens”, assumir a internacionalização “como uma prioridade para crescer”.

»Em 2009, a empresa não ficou imune à crise. Emagreceu, mas, em vez de desaparecer, “começou a pensar em alternativas”. “Apostámos na inovação, em criar novas funcionalidades para nos diferenciarmos da concorrência”, explica Jorge Pereira, agora à frente da empresa fundada pelo pai. A análise do mercado mostrou que “para competir era necessário deixar de depender da subcontratação e controlar prazos de entrega e a qualidade do produto final”, afirma. A opção foi investir 1,5 milhões de euros de capitais próprios para criar uma tinturaria, com capacidade para processar 100 toneladas de fio por mês, e uma unidade de acabamento de fios de poliamida. A capacidade de produção de fio texturizado (através de uma operação que permite dar volume às fibras de poliamida e poliéster) quintuplicou. Nas linhas de costura aumentou 25%.

»Em Esposende, a empresa emprega 20 pessoas, um número que está agora a duplicar. O volume de negócios em 2014 cresceu 20%, para 1,5 milhões de euros, e as expectativas “são otimistas”, diz Jorge Pereira, a prever um crescimento de 100% em dois anos. As exportações, que representaram 20% das vendas em 2014, podem passar a ter uma quota de 50% já este ano.

»Ser inovador, no caso da Lipaco, significa trabalhar com três laboratórios internos e com parcerias em Portugal e no estrangeiro. Significa também ter já 40% das vendas em produtos de valor acrescentado e dar acabamentos especiais a fios como o que foi usado nas meias que calçaram o futebolista argentino Lionel Messi no Mundial do Brasil, estar na área da saúde, nos colchões e edredões, nos equipamentos de segurança.

»Uma das novas apostas é o IRR, um fio para a área militar que não é detetado por armas com infravermelhos. “Já se faziam tecidos que não eram detetados, mas não havia solução para as costuras. Apresentamos uma ao mercado, em resposta ao desafio direto de um cliente polaco com quem trabalhamos na área das tendas militares”, diz Jorge Pereira.


»PENTEADORA

»Em 2005, quando a Penteadora começou a interessar-se por diversificar negócios para a área dos têxteis técnicos, abordou a Outlast, conhecida pela tecnologia que protege os astronautas da NASA de variações de temperatura no espaço. “Nessa altura, os norte-americanos nem olharam para nós, mas este ano, na Techtextil [em Frankfurt], os nossos stands ficaram frente a frente”, comenta António Teixeira, diretor de vendas da empresa de Unhais da Serra, para provar que o mundo dos têxteis técnicos também está ao alcance de empresas mais habituadas a trabalhar soluções tradicionais.

»Aos 85 anos, a Penteadora, do Grupo Paulo Oliveira, assumiu sem complexos o risco de juntar à sua coleção de tecidos de poliéster e lã para fatos uma nova vertente mais técnica, com o objetivo de ter outra área de negócios, diversificar a oferta ao vestuário de segurança para bombeiros, forças militares, seguranças privados e indústria, criando novos mercados.

»“Decidimos marcar presença num segmento que tem estado em crescimento constante nos últimos 20 anos e, previsivelmente, continuará a crescer”, justifica António Teixeira.

»Para isso, a direção da empresa estudou este subsector, foi a feiras, eventos, congressos, seminários, refletiu sobre a informação recolhida, e, em 2012, estreou-se no novo caminho, através de uma parceria com os franceses da Kermel, o único produtor de origem europeia de fibra meta-aramida, conhecida pelas suas características de resistência ao fogo.

»Os primeiros tecidos técnicos produzidos nesta fábrica do concelho da Covilhã para fatos de proteção individual surgiram em 2014. Quinze tecidos estão certificados e quatro aguardam a certificação.

»Num currículo que combina os segmentos da moda e das fardas, a Penteadora trabalha com clientes como a Euro Disney, GNR, Armani, Hugo Boss ou Tommy Hilfiger, produz tecidos com especificidades técnicas para fardas do exército, marinha, força aérea e fornece a empresa que confeciona os fatos dos trabalhadores da companhia aérea francesa Air France.

»No novo patamar de tecnicidade, onde admite ter mais de 25% das vendas a médio prazo, uma das missões é vestir os bombeiros portugueses. “Estamos a trabalhar com empresas de confeção nacionais no desenvolvimento de um fato de combate ao fogo urbano para os bombeiros portugueses”, afirma António Teixeira.

»O salto até os tecidos mais técnicos, onde a direção do grupo detetou uma janela de oportunidade para criar produtos de valor acrescentado, exigiu já um investimento de um milhão de euros, que poderá ser reforçado nos próximos anos, em função de novas necessidades e produtos.

»No Grupo Paulo Oliveira (Penteadora, Paulo Oliveira e Tessimax), com 1200 trabalhadores e vendas de 70 milhões de euros, a têxtil emprega 380 pessoas e tem uma quota próxima de 33% no volume de negócios total. As exportações absorvem 98% das vendas e a capacidade diária de produção de tecido ronda 15 mil metros, o que equivale à confeção de quatro mil fatos.


»SMART INOVATION

»Os mosquitos entraram na mira da Smart Inovation de forma natural, numa estratégia triangular, que cruza inovação, têxteis e saúde. “Queríamos um projeto próprio, que trouxesse algo de novo. Pensámos nas doenças transmitidas por mosquitos, como a malária, dengue ou febre amarela, e, a partir daí, procurámos conquistar novas áreas de negócio”, explica José Peixoto, diretor executivo da empresa química de Barcelos.

»O arranque dá-se em 2010, com a investigação de uma solução tecnológica que permite transportar princípios ativos e funcionalidades em diferentes materiais, envolveu um investimento de um milhão de euros (equipamento e trabalho de laboratório), entrou em fase de produção no final de 2014 e está a conquistar clientes pelo mundo. A ambição é faturar três milhões de euros em três anos e ter nas exportações 95% das vendas.

»Na luta antimosquito, a tecnologia SI usa nanopartículas como suporte do repelente, num “produto não tóxico e biocompatível” para aplicar nos têxteis, mas também noutros materiais, das tintas e vernizes à cerâmica, papel ou relva artificial. Com capacidade instalada para produzir 100 toneladas por mês e vontade de incubar novas ideias, a Smart Inovation tem na Zippy, marca de roupa infantil da Sonae, um dos seus clientes, está a negociar o acesso ao consumidor final através de cadeias de distribuição e já trabalha com os mercados do Dubai, Cabo Verde, Egito e França. A África do Sul está também na sua mira.

»O negócio, financiado com capitais próprios, tem uma equipa multidisciplinar, que junta o gestor José Peixoto com o investigador César Martins, dois médicos e uma professora de Marketing. Em carteira estão 20 produtos para atuar em várias frentes.


»TÊXTEIS PENEDO

»Na Têxteis Penedo a inovação técnica é “um cartão de visita diferenciador para ganhar notoriedade”, diz Xavier Leite, presidente da empresa vimaranense, quando apresenta as suas cortinas luminosas, em tons de azul e rosa, com flores e borboletas prontas a brilhar. Até a tocha na mão da Estátua da Liberdade pode ser facilmente acesa numa cortina através das novas soluções “made in Guimarães”, selecionadas como uma das inovações em destaque na Techtextil (em Frankfurt), entre propostas de mais de mil empresas presentes.

»“Temos vindo a trabalhar no desenvolvimento de tecidos técnicos como estas cortinas e estamos a atrair as atenções do mercado”, refere o empresário.

»Tecidas já com fibras óticas que depois levam LED para criar os efeitos desejados, as cortinas da Penedo podem ser ligadas à eletricidade, ter uma bateria ou até integrar painéis fotovoltaicos para serem autossustentáveis em termos de energia. A solução encontrada no âmbito do projeto Newlight, um trabalho de investigação e desenvolvimento que envolveu os centros tecnológicos CeNTI e CITEVE e a empresa de iluminação Castro, pode ter outras aplicações, da decoração ao desporto.

»“Temos um cliente indiano interessado nesta solução para aplicar em tendas e um outro que quer forrar paredes assim”, sublinha o gestor, que investiu mais de um milhão de euros em equipamento e reforço da capacidade de produção nos últimos três anos.

»Habituada a exportar 99% do que produz, a empresa garante nos EUA metade das suas vendas. Em 2013, o volume de negócios cresceu 15%, em 2014 subiu 7%, para os 10 milhões de euros, e em 2015 espera mais um salto de dois dígitos com um portefólio que combina roupa de cama, mesa, decoração e cobertores, a que pode juntar os felpos, através da subcontratação.

»Há 25 anos, quando Xavier Leite comprou a empresa, a têxtil trabalhava apenas com clientes nacionais. Ele decidiu arriscar o salto internacional precisamente nos Estados Unidos, convicto de que “era o país certo para dar rapidamente projeção às vendas.” Começou a vender apenas colchas para um cliente norte-americano e hoje tem meia centena de clientes ativos no país. Dos 85 trabalhadores da empresa, cinco estão dedicados ao desenvolvimento de novos produtos, uma área considerada crucial para conquistar reconhecimento e estar no segmento alto do mercado.»





Uma inovação